Terça-feira, 8 de Julho de 2008

Conversas em família

Sempre foi assim, dirão os resignados! É verdade mas tem vindo a piorar como aliás era inevitável que acontecesse – só existem adeptos de três clubes, a comunicação social só fala de três clubes, o bolo das receitas televisivas vai quase todo para os três clubes, o poder público e o orçamento de estado apoiam escandalosamente estes três clubes e como o campeonato português, reduzido a três clubes, só pode dar prejuízo, a única salvação é o dinheiro da UEFA. Mas como cada vez temos menos hipóteses (e menos lugares de acesso) às competições europeias o dinheiro já não dá para os três, se calhar nem chega para dois, vai daí a guerra tremenda de sobrevivência, em que vale tudo e envolve todos. Uns por querer, outros sem querer.
A corrupção começa e acaba aqui.
Alguém está interessado em mudar isto?! Se estivesse… mudava primeiro o resto.

Segunda-feira, 7 de Julho de 2008

Uma História de verdade


Já com alguns artigos e conteúdos, o projecto da Plataforma do Centenário da República está finalmente on line, a caminho de 2010 com diversas e promissoras iniciativas manga. Agora que temos nomeada uma Comissão Organizadora com uma forte marca de moderação em vias de ser empossada, a Plataforma do Centenário prepara-se também para ser um contributo sério para uma rememoração lúcida da nossa revolução de Outubro.

Nasceu!

É simplesmente um mistério
um milagre na minha frente
Como posso ser eu digna
Desta menina contente

Entrega-se de verdade
Sem qualquer hesitação
Sem medo ou desconfiança
que não lhe dê eu a mão

É um tesouro do Céu
Que caiu não programada
Não podia ser mais linda,
desejada e amada...

Sábado, 5 de Julho de 2008

Georges Bernanos (1888-1948)

Ainda antes de acabar o dia, deixo aqui um nome: Georges Bernanos.



Escritor católico françês, com obra públicada a partir da decada de 20 do século passado, diz com grande lucidez e compreensão, nos seus livros e pela boca dos seus personagens, os contrastes que marcam o coração de cada um de nós: A angústia, o medo da morte, e a Esperança; a raiva e a ternura; a fragilidade do homem e os seus limites dolorosos e a Graça de Deus que tudo pode; o orgulho e a ferida de sempre, e o desejo de recuperar a limpidez da infância que há-de finalmente deixar "ver a Deus"...



Faz hoje precisamente 60 anos da sua morte, a 5 de Julho de 1948.



Certamente que Deus tem junto de Si aquele que pelo seu trabalho, vivido sobretudo como vocação, pelas suas escolhas e palavras- não raras vezes violentas e polémicas- em procura da Verdade, e pelo amor aos homens e à Igreja, não deixou de O desejar, e de n'Ele afirmar o seu olhar e a sua Esperança...



"Há algumas semanas atrás parti para o Paraguai, esse Paraguai que o nosso dicionário Larrousse, de acordo com o Bottin, qualifica de Paraíso Terrestre. Não encontrei por lá o Paraíso Terrestre, mas bem sei que não deixei de o procurar, que o procurarei sempre, que sempre procurarei esta estrada perdida, apagada da memória dos homens. É provavel que eu pertença, por nascimento a esse povo da espera, à raça que nunca desespera, para a qual o desespero é uma palavra desprovida de sentido, análoga à palavra nada. E somos nós quem tem razão!" (GB, Nous autres Français, 1939).




N.B. A não deixar de ler, do mesmo autor, o "Diário de Um Pároco de Aldeia",1936, traduzido para o Português e editado pela Verbo -colecção Livros RTP- em 1972.

Sexta-feira, 4 de Julho de 2008

Reconhecimento de um milagre


Por estes dias andei pelo Alentejo.

Naquele Alentejo onde é possível o encontro com a imensa planície, com a possibilidade de ver para além daquilo que se avista, com o silêncio que fala para além do que se pode ouvir, com a beleza imensa que jamais conseguiremos ver em toda a sua plenitude, com a percepção que tudo é muito maior do que alguma vez se possa pensar e com a enorme Liberdade que de tudo isto advém.

Naquele Alentejo no qual, mesmo em alturas em que parece que se vai perdendo a nossa identidade, em cada monte há uma pedra, uma ribeira, uma edificação que nos fala da nossa História, daquilo que somos como Povo.

Estive, entre outros lugares, no Mosteiro Flor da Rosa, no Crato, que foi edificado por ordem de D. Gonçalves Álvares Pereira, pai de D. Nuno Álvares Pereira, local que a este para sempre estará ligado e onde actualmente se encontra instalada uma das Pousadas de Portugal. E é com muita alegria e dando Graças pela feliz coincidência, que leio que o Papa Bento XVI abriu ontem as portas à Canonização do Beato Nuno de Santa Maria, ao autorizar a promulgação de dois decretos que reconhecem um milagre atribuído ao futuro Santo português e as suas virtudes heróicas.

Também relativamente aos pais de Santa Teresinha do Menino Jesus - Luís Martin e Maria Zélia – foram reconhecidos milagres.

Acrescente-se ainda que no também no dia de ontem não me deixou indiferente ouvir que as primeiras palavras de Ingrid Betancourt depois da sua libertação foram para agradecer a Deus tal libertação.

Finalmente, ontem também foi apresentada proposta de alteração ao Código Deontológico dos Médicos, proposta essa na qual o aborto e a eutanásia deixam de ser consideradas faltas graves.

Dos exemplos recolhidos lembro Eric Voeglin que afirmava do espaço político ser um lugar de tensão. Mutatis mutandis o mesmo podemos dizer do espaço social, ou melhor, do espaço sócio-religioso. De um lado os que manifestam reservas em relação à vida, do outro os que se esgotam em promovê-la – um milagre é na sua essência uma afirmação da força da vida. É curiosa a relação entre esta realidade que é o milagre e a própria vida. O milagre parece ser uma outra forma de expressão da vida, talvez a sua mais poderosa forma de expressão e, ao mesmo tempo, um sinal de que a Vida esconde potencialidades que ninguém poderá suster.

Por fim, parece que existe uma afinidade profunda entre quem tem casa, quem tem lugar onde habitar e quem tem história, lugar onde o tempo desenha o futuro e a vida. Quem, empobrecido por esta ausência, concebe artificialismos que distorcem a relação com a história e os lugares, assume tendência para manipular, instrumentalizar, dominar, precisamente porque não há enraizamento, nem relação.

Liberdade

A Ingrid que se levantava
e que ontem foi atada,
que ontem foi silenciada,
Ontem foi libertada!

A Ingrid que foi escutada,
que contra os cartéis se levantava,
que por ser escutada, assim foi calada,
Ontem foi libertada!

A Ingrid que ontem foi dada,
que de todo o mundo foi tornada,
ontem por todo o mundo esperada:
Ontem lá foi libertada!

A Ingrid lá de casa,
pelo meu Pai lá tornada,
que ontem lá foi pensada,
que ontem lá foi conversada,
Ontem lá foi libertada!

A Ingrid que é lá de casa,
e por ser lá de casa, é amada,
A Ingrid que ontem lá foi atada,
Ontem lá foi libertada!

Terça-feira, 1 de Julho de 2008

Muita parra…

De tempos a tempos a sociedade venal toma consciência da sua venalidade e numa espécie de remorso colectivo procura entre os seus alguém com a marca da incorruptibilidade, alguém que faça justiça por forma a sossegar as consciências mais sensíveis. Isto é absurdo e nunca resulta, ainda que a reputação desses super justiceiros não cesse de aumentar! Infelizmente, a cada purga, sucede o mesmo que com os parasitas intestinais, explodem de novo, e com mais vigor, mal se apercebem que se tratou apenas de um episódio de desinfestação isolado, digamos, ‘para inglês ver’.
Curioso, ou talvez não, que os escolhidos, aqueles a quem a sociedade outorga a condição de serem um bocadinho mais sérios que a maioria, sejam elementos com um passado juvenil de completo desrespeito pelas leis então vigentes e com fortes tendências totalitárias. Que esperar então destas (mediáticas) operações justiceiras?!
O costume: muita parra e pouca uva.

Sábado, 28 de Junho de 2008

Parabéns Sofia!

A Sofia é diferente
A Sofia não corre nem salta
fica sossegada, às vezes chora

Sorri muitas vezes mas não sabemos se nos conhece
Gosto de pegar nela mas nem sempre ela gosta que lhe pegue...

A Sofia hoje faz 2 anos, 2 anos de luta pela vida, 2 anos uma luta que quase todos nós, por muitos anos que façamos provavelmente nunca saberemos como é lutar assim.

A Sofia apanhou uma meningite aos 6 meses e desde aí mudou a vida de todos nós, melhorou a vida de todos nós e ensina-nos tanto! E... tem "só" 2 anos!!!

Hoje portanto é dia de festa! Já estamos de saida para a casa dos amigos papás da Sofia. Parabéns!!!

Sexta-feira, 27 de Junho de 2008

Para descontrair...


A doença encarnada

“Primeiro estranha-se, depois entranha-se…” passe a ilustre publicidade a uma cerveja qualquer, a verdade é que sucede comigo esta coisa estranha: uma palavra, uma frase, uma imagem… e lembro-me logo do Benfica! Por exemplo, fala-se em Vale e Azevedo, esse estranho réu, acossado pela justiça depois de deixar a presidência do Benfica… e lembro-me naturalmente do Benfica!
Fala-se em árbitros e ‘apitos’ e eu imagino a inocência do Benfica! Fala-se em certidões e certificados, vejo o congresso do PSD, oiço a Manuela Ferreira Leite, que é do Sporting, e lembro-me outra vez do Benfica! Mas há palavras e associações menos óbvias que imediatamente me fazem lembrar o Benfica: semi-reboques, o pó dos pneus, lavandaria Alcides, rolhas Madaíl, até o Platini e a sua juventude, me fizeram por estes dias pensar no Benfica! Enfim, um horror.
Esta doença, incurável em Portugal, só me dá descanso quando entram em acção os outros doentes encarnados, sábia e profusamente distribuídos pela nossa comunicação social. Seja pela maior gravidade da doença, seja o meu egoísmo entranhado, parece que as maleitas dos outros acabam por aliviar as minhas penas!
Saudações azuis.

Quinta-feira, 26 de Junho de 2008

O mundo, o gasóleo e os miudos


Dizia Carl Rogers que "Aos mais novos devem ensinar-se as verdades mais antigas" e dizia Chesterton que "os adultos realizados de hoje fazem aquilo que querem pois quando eram crianças não foram livres de fazer o que lhes apetecia".
Ora aqui está pano para mangas de pensamento (será que isto se diz?) então mas e a tecnologia? O aumento do gasóleo e todas as suas consequências? Os computadores? As "Psp", os mp3 e...?
Estamos nos tempos modernos, porém, talvez todos os tempos se tenham denominado modernos na altura que eram tempo...
E se não era o ruca era a barbie, se não era o action man era o tom sawyer (sim, nós gostávamos, mas vamos analisar: o melhor amigo dele vivia numa árvore, era um sem-abrigo, estavam sempre a faltar à escola... será que "antigamente" é que os desenhos animados eram educativos?).
Muitas coisas mudam, quase tudo, e na educação dos miudos os estímulos estão em constante mutação. Surgem coisas novas todos os dias, tintas para o banho, computadores falantes, livros mirabolantes...
Mas por muito que aumente o gasóleo há valores que vieram para ficar. Valores que sempre foram importantes na educação do ser humano e que continuarão o seu trabalho se nós pais formos capazes de os passar para que os nossos filhos sejam verdadeiros homens e mulheres, realizados e que "fazem aquilo que querem" na idade adulta.
Se uma criança mente e se a mentira não é corrigida como devemos nós esperar que em adolescente não nos dê a volta? Se com 1 ano não é incentivada a arrumar o quarto, como poderemos imaginar que vá ser uma pessoa ordenada? Se faz o que quer, como vai adquirir a virtude da obediência???

Segunda-feira, 23 de Junho de 2008

O brilho da política

“Falhei, falhámos… há-que dizê-lo” e estas palavras ecoaram na sala de congressos com a grandeza das coisas simples! Angelo Correia ressuscitava a política e eu que olhava distraídamente para o televisor fixei-me no discurso de despedida do velho tribuno social democrata: “Saio de palco… mas não saio da política… continuo no PSD… ‘não viro casacas’… e se nos próximos combates precisarem de mim… chamem-me que eu vou… é disso que eu gosto”!
O congresso emocionado, eu também… a política sem emoção não é política.

Manias

Ter a mania que se manda e comanda é, arrisco-me a dizer quase inato no ser humano, e inevitavelmente "sai furado" muitas vezes...
Pensamos que vai ser ASSIM e depois não é nada ASSIM como pensámos, é aliás tudo ao contrário.
Depois vem a flexibilidade, a capacidade e adaptação ou não à situação, que normalmente nos obriga e bem, a sairmos da nossa comodidade, do nosso cantinho, do nosso aconchego e perceber que o mundo não gira de facto à nossa volta.
Com os filhos isto é notório, arrisco-me novamente (e já me estou a arriscar muito num texto só...) a dizer que é notório desde o primeiro momento, desde aqueles momentos em que pensamos que são totalmente dependentes de nós e que nós é que mandamos de facto neles.
E atenção, porque de facto parece-me que quem deve de facto mandar são os pais!
Mas... e quando não podemos mandar nada???

Sábado, 21 de Junho de 2008

Capacidade de brincar

Brincar é bom, e seria melhor ainda se soubessemos de facto "brincar" mais com a vida.
A Maria anda com a mania de se esconder, esconde-se por trás da nossa cama, mas não se esconde verdadeiramente... uma vez que se baixa, mas deixa a cabeça de fora para ver que a procuramos:) Pergunta o papá, (vendo-a perfeitamente!) "Onde está a maria? Não a vejo..." Ela risse, ri a bom rir e depois aparece, como se estivesse de facto desaparecida. A mãe entra no jogo, faz a mesma jiga joga e ela ri satisfeita. O mano ri-se também, mas olha para nós como se fossemos tontos... Deve pensar "mas eles não a estão a ver??? que pais taralhocos..."
Brincamos ao esconde esconde com os filhos, mas temos pouca capacidade de procurar quem está à vista de facto, pelo facto de ser adulto. Que mania que com os adultos não se brinca, quem disse?
Brincar é bom brincar:) É tão bom brincar!!!

Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

"Por um dia fui irlandês!"

”A Europa do pensamento único não se pode queixar. Tem o que merece. A Irlanda-modelo, sempre referenciada como uma via de desenvolvimento a imitar, virou Irlanda-pesadelo. Neste referendo, os irlandeses disseram "não" à batota. Sim, porque é de sofisticada batota que se trata, depois de tantos e variados expedientes ao longo dos tempos. Aquando do "não" dinamarquês a Maastricht e do "não" da Irlanda a Nice, foi institucionalizada a prática do referendo pós-referendo, de maneira a dar uma nova e generosa oportunidade ao povo de se penitenciar perante o directório europeu. Tudo isto porque os eleitores do "não" (ao contrário dos do "sim"...) nunca estão suficientemente esclarecidos e por isso é necessário "educá-los" com mais referendos. Com a Constituição Europeia chumbada na Holanda e em França, a táctica mudou. Já não eram a pequena Dinamarca ou a Irlanda a bater o pé, mas a grande e soberba França. Por isso, em vez de um novo e punitivo referendo de resultado imprevisível, a solução foi um "novo" tratado, com a garantia de não se voltar a cometer a imprudência de dar voz aos eleitores. Por azar esqueceram-se não dos gauleses, mas dos irlandeses que, coitados, teriam que votar por obrigação constitucional. De início, a "Europa Única" estava descansada perante tão confortável margem das sondagens. Até se dizia, tranquilamente, que não havia plano B para um improvável "não" (em bom rigor, um plano C, pois que o B já se havia esgotado na esperteza de um tratado travestido). Finalmente, os irlandeses, que nunca foram militantemente eurocépticos como os ingleses e já haviam votado seis vezes antes sobre a Europa (cinco vezes "sim" e uma vez "não") tiveram a ousadia de rejeitar o tratado, numa consulta popular que ultrapassou em afluência todos os anteriores actos (cerca de 53%). Não deixa de ser espantosa a reacção dos grandes países e da Comissão. Dizer-se que o tratado não está moribundo é, em primeiro lugar, desrespeitá-lo, pois o que lá está escrito é que ou é assinado por todos ou não avança. Dizer-se que menos de dois milhões de eleitores não podem condicionar a vontade dos europeus é uma falácia, pois os outros povos não foram ouvidos e seria até provável que em alguns países se viesse a chumbar o tratado. Sentenciar-se que nestas consultas se vota mais a pensar na política nacional que na Europa é o argumento habitual para interpretar um "não", que todavia jamais vi referido para interpretar um "sim". Aliás, neste caso irlandês a quase totalidade das forças políticas no governo ou oposição estavam do lado do "sim" e nem se pode falar de um voto de protesto quanto à política interna. Inqualificável foi também a reacção de alguns líderes europeus (a começar pelo hegemónico eixo franco-alemão) ao repreender a Irlanda (recordam-se de algum puxão de orelhas aos franceses por ocasião do seu "não"?). A verdade é esta: o Tratado de Lisboa não exprime, ética e politicamente, um contrato envolvente, transparente e responsabilizador com os cidadãos. O tratado é uma charada quase indecifrável de remissões, excepções, alterações e repristinações que lhe retira um carácter desejavelmente comum e amigável. É um rendilhado técnico que introduziu 356 emendas aos 413 artigos do Tratado da UE e do Tratado sobre o funcionamento da UE, contém 13 Protocolos anexos com valor idêntico ao próprio tratado, mais 65 Declarações de Estados-membros relativas às disposições dos tratados! Uhf! Gostava de saber quantos deputados em Portugal terão lido tão vasta documentação aquando da ratificação parlamentar... Por tudo isto, a Europa do pensamento único não se pode queixar. Tem o que merece. Um voto "sim" numa consulta desta natureza implica uma explicação cristalina, transparente, acessível do que vai mudar. Na ausência de tudo isto, o "não" aparece como legítimo e natural. Com a agravante, na Irlanda, de ser perceptível que o Tratado de Lisboa favorece os Estados mais populosos e retira influência aos países mais pequenos. Um pouco de sensatez e humildade ficaria agora bem à ortodoxia europeia, de maneira a enxergar que afinal o problema europeu não é irlandês. É europeu! E, ironia das ironias, a Irlanda porta-estandarte do projecto de progresso, paz e democracia na Europa é agora quase convidada a uma separação. Tudo por causa do... povo se pronunciar livremente sobre um projecto de tratado que, no preâmbulo, refere a necessidade de "uma União cada vez mais estreita com os povos da Europa em que as decisões sejam tomadas ao nível mais próximo possível dos cidadãos" e no seu artigo nono que "a cidadania da União acresce à cidadania nacional, não a substituindo". Por medo, cobardia, apoplexia tecnocrática, diletantismo ou atestado de inferioridade conferido aos povos, o "gravy train" europeu não gosta definitivamente de dar voz aos cidadãos! Em Portugal, o Governo também mandou às malvas a sua promessa de "referendo popular, amplamente informado e participado"... Por tudo isto, e independentemente da minha posição de princípio pró-europeia, por um dia fui irlandês!”

António Bagão Félix
(Ex-ministro das Finanças)

Fonte: Jornal ‘Público’ em 19/06/08

Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

Irlanda não é porreira!

Tudo leva a crer que o ´não’ vença hoje na Irlanda deixando os tratantes de Lisboa à beira de um ataque de nervos.
Mal vista pelos ‘porreiros/pá’ nesta sua insistência (e obrigação constitucional) em referendar o Tratado, a Irlanda não quer ser empestada pelos abortos, eutanásias e casamentos homossexuais, o que para os burocratas de Bruxelas, para esquerda unida e afins, é considerado um pecado mortal. E já vão avisando que o processo de ratificação ‘para lamentar’ irá prosseguir normalmente nos restantes estados da união, porque para os ‘porreiros’ a democracia tem que ser bem utilizada, ou seja, o povo só deve votar se ganharmos alguma coisa com isso.
Nesta base, a Irlanda está orgulhosamente só!

Quarta-feira, 4 de Junho de 2008

Mourinho

A Mourinho falta-lhe tudo: a grandeza, a força de espírito, o cheiro das maçãs depois da chuva. Mourinho não quis responder em Português: a língua da terra escura, do fel e da azia. Negou tudo: os socalcos, as caravelas e o livro do homem cego que escreveu a epopeia. Quando se está fora e se negam as raízes, o vento desfere golpes mortais. Mourinho não tem génio. No desporto as vitórias não equivalem a linhas de poemas depois do sol cair. Ganhar é tudo mas a luta dos homens é mais bela. Aqui não existem histórias de provocação, de tácticas, de empresas de imagem , de marketing. Mourinho tem tudo isso, o resto e a inteligência. Ganhar pode ser a mais bela forma de demência. Mourinho na conferência de imprensa falou em italiano, em inglês, e quando um jornalista lhe faz a pergunta em português, escondeu os dedos e escondeu-os em tubos de mercúrio. A língua constrói a pessoa, é o segredo, a dádiva. Quando se diz o nome, nomeá-lo, - a água, a folha, o lírio - é dizer o que sei de mim na relação com as coisas. Negá-lo é um roubo, um abjecto. Um tempo que ama este homem é um tempo oco, à deriva, sem fundo.

Quinta-feira, 29 de Maio de 2008

Chartres

A catedral de Chartres é o mais belo dos lugares. De todos os lugares. Onde diante das pedras lavadas pela fé se coloca a essência: os homens, cada criatura e o Criador. Deus e o Homem. Este diante do Pai, à procura do Pai. Tudo é grande, desmesurado, imenso, ampliado. Deus está dentro, no lugar de Deus. Uma catedral, qualquer catedral, é o maior símbolo vivo da unidade do povo crente. Em Chartres existe cada homem em busca de si, à procura, imerso na história de outros homens que são a sua história. As pedras e os vitrais, a luz e a cripta de Chartres não são antigos, nem de hoje. São o lugar sempre actual do sacrifício e do amor, da fé e do saber, da busca e da presença, do testemunho e da glória. É o lugar actual de todos os tempos, da pobreza e do trigo. De homens esculpidos na História de Deus no Homem. A grandeza de Chartres não é o eu, o espelho do eu, a redoma do eu. É o eu projectado no lugar que afirma o que sou e a verdade mais funda que me habita. Em Chartres só existe a verdade: a luz que explode dos vitrais é a luz de Deus. Dentro, recortado pelas linhas da sombra e da claridade, só resta o silêncio, o longo silêncio da vergonha e da compaixão, da mentira e da redenção. Chartres é o Lugar. Todos o procuramos: um traço, um abrigo,um gesto, um beijo, uma palavra , um verbo. Seguramente que a sabedoria e o acolhimento da vida só se realiza quando encontramos um Lugar, peregrinação eterna. É Chartres. Lugar de Deus, do Homem, das lágrimas puras.
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Três notas sobre esta viagem fabulosa:
a) A missa na cripta da Catedral. Um longo corredor escuro ao fundo, pinturas do sec.XIII, o coração esmagado pela beleza da fé.
b) A lição antológica dada pelo Padre Pedro diante da Catedral, sobre a História da Europa e do Cristianismo nos séculos XII / XIII. Ficará gravada na memória para sempre.
c) Do lado direito da Catedral, a uns 4oo metros, encontramos um jardim e, descendo as escadas, no patamar inferior, à beira da estrada, uma pequena homenagem a Peguy, um dos maiores escritores do sèculo XX. Uma frase na parede frontal e o rosto de Peguy colado na pedra. A fronte, saliente, adivinha-lhe a inteligência. As heras quase cobrem a frase e o jardim está algo descuidado. Este tempo esqueceu Peguy, esqueceu a essência.

Um imenso obrigado a todos: a Sara, Catarina, Sofia, a Carla e o Nuno, o Abrantes, o Paulo e o primeiro de todos nós, o Padre Pedro.

Terça-feira, 27 de Maio de 2008

De sentir e do sentido

Têm sido muitas as páginas dedicadas ao tema ao longo da história humana: o sentido da vida.
A dificuldade em surpreendermos não apenas a natureza, mas também o sentido deste sentido, tem afectado e destruído muitos dos nossos.
É curioso, no entanto, que é frequente verificarmos que a aporia do sentido da vida se reveste de maior dor e sofrimento nos casos em que ocorre uma auto-conversão que, neste caso, funciona como uma redução do que há à estreita esfera do eu. O ensimesmamento que daqui resulta é mais frequente revelar-se com factos de abismo e de perdição do que de auto-revelação.
O segredo do regresso ao coração de si, enquanto movimento consequente de descoberta, é sempre uma demanda, não de si, mas de uma alteridade, o mais Intimo que o meu íntimo, no dizer agostiniano. Assim, a demanda do sentido do existir exige sempre uma relação que é sempre mais exigente, quando assumida radicalmente, do que estaríamos dispostos a conceder-lhe se nos eximíssemos a experienciá-la.
O que se segue diz melhor do que eu o que disse. Foi vivido:

“…Essa é uma certeza que tenho dentro de mim, que não é perturbada pela nova certeza: que querem o nosso extermínio. Também isso eu aceito. Sei-o agora. Não vou incomodar outros com os meus medos, não vou ficar amargurada se outras pessoas não entenderem do que se trata, para nós, judeus. Esta certeza não vai ser corroída ou invalidada pela outra. Trabalho e vivo com a mesma convicção e acho a vida prenhe de sentido, cheia de sentido apesar de tudo, embora já não me atreva a dizer uma coisa dessas em grupo. O viver e o morrer, o sofrimento e a alegria, as bolhas dos meus pés gastos e o jasmim atrás do quintal, as perseguições, as incontáveis violências gratuitas, tudo e tudo em mim é como se fosse uma forte unidade, e eu aceito tudo como uma unidade e começo a entender cada vez melhor, espontaneamente para mim, sem que ainda o consiga explicar a alguém, como é que as coisas são…

...E no entanto, Deus, não acho a vida desprovida de significado, quanto a isso não posso fazer nada. E Deus também não nos deve explicações pelas coisas sem sentido que nós próprios fazemos; somos nós quem tem de dar explicações. Já morri mil mortes em mil campos de concentração, sei de tudo e também já não fico apoquentada com novas notícias. De uma ou de outra forma, já sei tudo. E todavia, acho a vida bela e cheia de sentido…”
– Etty Hillesum, Diário, 1941-1943, Teofonias, Assírio & Alvim, págs. 217 e 211, edição com prefácio (luminoso) do Padre Tolentino Mendonça.

Etty Hillesum. Holandesa. Nasceu em Middelburg, na Zelândia, a 15 de Janeiro de 1914. A 30 de Novembro de 1943, a Cruz Vermelha comunicou a sua morte em Auschwitz. Não chegou a viver três meses no campo para onde a levaram a 7 de Setembro.

Domingo, 25 de Maio de 2008

A coragem do amor

Casaram entre palmas e bençãos, a noiva falou em milagre o noivo concordou e eu senti aquele aperto que se sente quando reparamos que nos falta alguma coisa.
A noiva falou de amor e elevou-o tanto quanto foi possível mas ele estava ali bem próximo acessível era só preciso um pouco de coragem para lhe tocar.
Invejo-lhes a felicidade, aquela que é feita de tristezas e alegrias.

(Casamento da Isabel e do Eduardo)

Quarta-feira, 21 de Maio de 2008

Ontem,Hoje...e Amanhã?

« A razão de ser dos governos democráticos e republicanos
é o estabelecimento de toda a liberdade e de toda a
tolerância compatíveis com a ordem: praticamente em terras
da Europa latina, liberdade de cultos e tolerância religiosa
são expressões que equivalem a dizer que o cidadão é livre
de ser tudo quanto quiser, contanto que não seja católico (...)
O partido republicano, entre nós, não se tem contentado
em ser um partido político; tem sido também um partido
filosófico que, baseado no racionalismo positivista, repele
quase unanimemente a solução católica do problema dos
destinos humanos (...). A República, depois de implantada,
deixou de ser um partido para ser a nação: tanto pertence ao
ateu impenitente como ao católico piedoso. Não pedimos à
República o privilégio, mas o direito comum (...).
O futuro da República depende da paz religiosa.»

D. Manuel Clemente, citando Manuel Abúndio da Silva ( 1911 ) , no seu
livro Portugal e os Portugueses recentemente editado pela Assírio &Alvim.
Palavras lúcidas e proféticas, diz D. Manuel... e digo eu!

Terça-feira, 13 de Maio de 2008

A ex-colónia

Bob Geldof como músico é uma nulidade. Representa o pensamento de esquerda e as suas ilusões etéreas. É um artista rock e como todos os outros não é grande coisa. A América, da música popular, criou o blues e o jazz de New Orleans. O génio do Sul é um imenso tormento. A peso de ouro veio dar uma Conferência a Lisboa. E Geldof disse a verdade sobre Angola. A única verdade. Dizer mal do MPLA e da sua nomenclatura é um ultrage, uma ofensa, uma traição. A ex-colónia é uma barreira, um monstro com a maior taxa de mortalidade infantil do mundo. Só existe uma dor, um erro crasso. Que tenha sido Bob Geldof a dizê-lo e não outro. É aqui que se perde o carácter, a coragem, a solidão imensa com que os homens legitimam o futuro.

Sábado, 10 de Maio de 2008

Apito Fatal

Não é ainda o apito final, é um começo, um aviso, uma declaração de falência, o futebol luso é uma mentira, sempre foi. Esta verdade incómoda, desatada em zanga de casa de alterne, não é uma especialidade do norte, percorre o país de lés a lés, e seria bom que o sul sorridente, entendesse o que está a acontecer. Seria bom que todos percebessem que precisamos de fazer uma escolha decisiva, no futebol e no resto: ou continuamos a sustentar três fidalgotes na europa, à custa da miséria geral, ou aceitamos a nossa realidade, e em lugar de emagrecer o campeonato pedimos aos fidalgotes que façam eles dieta.
E o regime podia aproveitar para fazer também regime... de propaganda barata.
.
Registo de interesses: sócio e adepto, em regime de exclusividade, do Clube de Futebol "Os Belenenses".

Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

Directamente da obscura noite...

... este datadíssimo desenho animado produzido pela RTP nos obscuros anos 70 e que ditava o recolher obrigatório da miudagem. Suspeito que isto só acontecia com a cumplicidade da polícia de costumes - e dos meus pais que também estavam feitos. Estes Meninos Rabinos que antes de dormir se atreviam a “rezar a Jesus”, hoje, no mínimo seriam rotulados de ignorantes ou marginais... Ecos de uma época cinzenta e triste em que era possível conceber um família com cinco filhos, qui sas fruto dum deficiente planeamento familiar. Uma cambada de infelizes pois então.

Versão adaptada do original no Corta-fitas

Segunda-feira, 28 de Abril de 2008

Este é o meu tempo

Tenho uma pequena fotografia minha, de 1968, onde eu, em grande plano e de olhos piscos estou sentado num minúsculo barco de borracha que (lembro-me bem) agilmente remava com as mãos, na praia em Vila Nova de Milfontes. Fazia parte de um conjunto de cinco retratos nossos, os cinco irmãos, e que por muitos anos estiveram expostos na sala da casa dos meus pais. Garanto que estas fotografias, hoje monocromáticas e em tons amarelados, um dia foram de uma coloração bem viva! Explico isto um pouco aflito às minhas incrédulas crianças... Foi obra do tempo, foi por causa da exposição à luz que a imagem foi perdendo qualquer rasto de cor… Como as folhas no Outono, as fotografias antigas perdem a cor. Como acontece com a vida?
Agora lembro-me das conversas que tinha com o meu irmão quando crianças, em que fantasiávamos sobre a infeliz infância e juventude dos nossos pais e avós… como se eles tivessem vivido e crescido num tristonho mundo a preto e branco, sempre de saias compridas e chapéu na cabeça. Comentávamos - na nossa doce ilusão - o privilégio de ter nascido numa idade de tanta sabedoria luz e cor. Esta ilusão provinha da nossa experiência, não só com o cinema mais antigo, mas da visualização dos álbuns fotográficos e antigas reportagens de família em super-8. Estranho mundo, aquele, tão formal e monocromático.
Noutra moldura na minha sala, tenho o meu avô homónimo, orgulhosamente acenando de dentro do biplano dos anos 30, com óculos e capacete à Barão Vermelho. Sem nunca ter possuído cor (será?!) esta imagem hoje, reflecte tanta modernidade quanto aquela minha no rio Mira, tirada no ano da chegada de Armstrong à Lua…
Alarmante é o que se passa com as fotografias digitais tiradas há menos de dois anos e afanosamente impressas em casa, na nossa fantástica HP. As minhas empenhadas provas de contemporaneidade estão assustadoramente a perder a cor. É do papel? Será dos tinteiros? Ou eu não controlo mais o tempo que passa? Aliás desconfio que os nossos miúdos consideram-se os únicos donos deste tempo, dos downloads, do IPod, do Harry Potter, do terrorismo muçulmano e do Hip hop.
Pela manhã, repito uma vez mais, pela milionésima vez os rotineiros preceitos higiénicos. E, ao espelho, passo a lâmina pela espuma branca, num gesto intemporal. E sem querer, reparo que o meu cabelo também está a ficar a "preto e branco"… Quero dizer: mais branco. Como nas fotografias, o original perde todos os dias a cor, sem se dar por isso. Mas o meu olhar sai de dentro do mesmo ser que há quase trinta anos no Liceu Pedro Nunes saltava o muro do Cemitério dos Ingleses para ir buscar uma bola perdida.
E, de pasta na mão, pronto para sair, fresco e “bem cheiroso”, despeço-me do pessoal e uma ponta de vaidade me assalta. O meu barco navega, este é o meu tempo, e o mundo mantém inalterável a sua paleta infinita de cores, mistérios, poesia e paixão. Graças a Deus.

Sexta-feira, 25 de Abril de 2008

25 de Abril de 74?

Passados 34 anos a cangalha ideológica é a mesma, o rastreio do pensamento idêntico. Nada muda, os personagens de sempre, os discursos iguais. É esta a tristeza de Abril. Não haver o rasgo, o gesto, a denúncia. Os capitães, os militares, um referente que a história sedimentou. Nada mudou de Abril, os gestos solidificados na argamassa de um tempo que quis ser memória. Mas a memória só existe quando é presente, quando se actualiza, quando a História se diz do que foi. Mas nada disto existe no 25. Só os afectos das histórias apagadas que se querem recordações. A memória não é só recordação. É espirito vivo, interior, de dentro. Onde está o poema, o quadro, o filme, o choro? Onde está a alma e a eternidade para sempre? A memória é recordação quando é vida, quando se passa nas veias e na carne. O 25 de Abril não produziu uma obra de arte, o espanto, o arrebatamento, a grandeza. E esta é uma dor enorme, palha de aço. Quando um facto não produz e não é capaz de produzir um objecto artístico é porque morreu ou nunca existiu. Ou é um souvenir, objecto de plástico, eternamente infantil.

Dia de São Marcos


(...) Escrevo-te em vinte e quatro de Abril, em vésperas do Senhor São Marcos, um dos quatro que disseram da vida de Jesus e padrinho dos bois e dos boieiros de toda a Cristandade. Amanhã, perto daqui, numa engalanada ermidinha, à hora da missa, por entre os fiéis, um novilho de dois anos entrará pela nave acima até ao altar – mor. “Entra, Marcos!” – lhe gritarão os mordomos da festa, que com varinhas o irão tangendo, que o animal se poluiria se as mãos humanas o tocassem. “Entra, Marcos!” E junto aos degraus do tabernáculo, com as hastes enastradas de fitas e de ervas de cheiro, a rês, em vez de tombar sob o cutelo sagrado, em nome da verdade receberá a bênção da Igreja e nos cornos se lhe cantará o Evangelho do dia. “ Entra, Marcos!” E o engelhado Topsius que habitava dentro de mim acaba de descobrir que essa festa, que o Cristianismo conservou e santificou, tem raízes milenárias, descende da festa do touro que uma civilização pré-árica bronzífera, espalhou por toda a Europa. Mr. Homais rir-se-ia da ingénua solenidade e aproveitar-lhe-ia a origem para atacar a pobreza criadora do Cristianismo e a mentira das Religiões. Eu, como homem que estuda, solidifico com o facto a minha crença vendo nele um sinal claro dessa curva ascensional do homem primitivo para a Perfeição, que é Deus. “ Entra Marcos!” E hoje as ladainhas saem pelos campos – saíam – a rogar ao Céu pelo renovo primaveril, pela messe que se aformoseia, pelos frutos que despontam. Como Portugal estará lindo! – Exclamava na tua carta a tua nostalgia. – Como Portugal está lindo e como ele te manda saudades, meu amigo! Floresce o rosmaninho, a planta que soalha as igrejas em Quinta-Feira de Endoença e que, assistindo à cena do Calvário, perpetuou na sua austeríssima flor o sangue inocente do Cordeiro. (...)
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António Sardinha

Sexta-feira, 18 de Abril de 2008

Em nome da esperança

Era previsível, "ninguém é profeta na sua terra", a cruz é o destino conhecido.
Nem esse antiquíssimo resistente, que sobreviveu à Igreja do Czar e à anti-Igreja de Estaline, conseguiria resistir à estreiteza paroquial!
E os outros, escribas maiores ou menores, sabei que os vossos escritos não são apreciados. Monárquicos nunca.
Nada que estremeça a verdade conveniente, servida e albardada naquela curva que a espinha pronuncia e é mais acentuada nos portugueses.
Este é o país do silêncio, da inveja, e do medo.
País desregulado, "sem rei nem roque", que faz justiça ao centurião - "Não se governam, nem se deixam governar"!
Um país que detesta o "Pai", onde Édipo espreita em cada esquina. Neste país habita um povo confuso, que enraíza a sua religiosidade na terra de todos os milagres!
País minguante, infantil, tem na bola o seu recreio, e honra diáriamente o "Portugal dos pequeninos"!
Pátria saldos fim de estação.
Mas é este o meu país, onde me cabe viver, e ninguém dirá - aqui jaz um viajante dos espaços que se enganou no seu tempo. O meu tempo é este, o meu espaço é este, não desistirei. A mensagem há-de passar.
Ergue-te pois companheiro, é hora de lidadores, acorda-me esse povo estremunhado, não vires a cara aos infiéis.
A nossa divisa mantém-se: - "morrer, sim, mas devagar".

Quinta-feira, 17 de Abril de 2008

REN suspensa

" O Município de Almada e as Juntas de Freguesia da Charneca de Caparica, Caparica e Trafaria apresentaram, no dia 17 de Março, uma Providência Cautelar ao Tribunal Administrativo e Fiscal de Almada contra a REN - Rede Eléctrica Nacional e contra o Ministério da Economia e da Inovação (enquanto Ministério no qual se integra o Director-Geral da Energia e Geologia).
Naquela Providência requere-se a suspensão do licenciamento do projecto "Linha de Muito Alta Tensão" (LMAT) Fernão Ferro - Trafaria, e solicita-se o impedimento de a REN continuar os trabalhos de implantação, construção, ligação à rede eléctrica e todos os demais trabalhos conexos a efectuar na LMAT."
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Este é um assunto que já aqui abordámos e que teve, felizmente, uma evolução positiva, pois não nos esqueçamos que estão em causa questões fundamentais como o "direito á saúde e ao ambiente e qualidade de vida sadios" cabendo agora à REN encontrar alternativas para o actual traçado.
Uma pequena vitória contra a prepotência das super empresas estatais. E só não digo grande vitória porque temo que a morosidade da justiça portuguesa venha a frustrar mais uma vez os direitos dos mais fracos.
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Fonte: Boletim Municipal de Almada/Abril 2008.

Quinta-feira, 10 de Abril de 2008

Os fins e os princípios

Está a findar uma era, um ciclo histórico, todos os sinais o confirmam, e esse estertor sente-se aqui, na ‘ocidental praia lusitana’, como se sente no mundo inteiro. Talvez que na orla atlântica, por estar mais exposta às correntes oceânicas, esse desmoronar das ideias invencíveis surja com mais intensidade que noutras latitudes. O facto é que era impensável assistir na televisão pública ao anúncio de uma ‘abertura’ (foi a expressão utilizada) entre a Igreja Católica e a Maçonaria, incluindo nessa ‘abertura’ o Grande Oriente Lusitano!
Tal como aconteceu, aquando do recente debate sobre monarquia e república, também estou à vontade para me pronunciar sobre este novo cenário, não preciso de me reciclar ou justificar apressadamente, vantagem de ter adivinhado e proposto esta ‘ultrapassagem’, mas vantagem sobretudo por me rever na tradição da Lusitana Antiga Liberdade, e como tal, nunca ter poupado críticas à Maçonaria e à sua acção traiçoeira e nefasta para Portugal e para os portugueses. Pode dizer-se que é ela a grande responsável pela situação de decadência permanente em que vivemos, nunca abrindo mão da chamada ‘educação pública’ (que manteve no tempo de Salazar!) fórmula ideal para embrutecer gerações e gerações de estudantes com propaganda anti-católica e anti-monárquica. Compreendemos agora melhor o ‘estudante telemóvel’, ateu, ignorante e malcriado, como também compreendemos os ‘professores’ que desfilam e insultam a hierarquia, um esplêndido exemplo para a pequenada! Esta questão do ensino será por certo um dos pontos de clivagem (e a discutir), tal como sugeriu Dom Carlos Azevedo, porta-voz da Conferência Episcopal, que não evitou criticar também a Igreja Católica pelo seu silêncio (e cumplicidade) durante a segunda república.
Portanto, é bom que as coisas fiquem claras, se agora, face à derrocada eminente do regime, chegou o momento da Maçonaria pensar primeiro na Pátria do que nos seus interesses ocultos, pois então que haja abertura.
Assim a hierarquia Católica saiba estar à altura deste compromisso histórico.

Terça-feira, 8 de Abril de 2008

"Uma imagem de Portugal"


Porque tal como o Pe Tolentino Mendonça, também cá em casa quando vimos a fotografia no Público de Sexta-Feira passada ficámos com a respiração suspensa e com a cabeça e o coração em turbilhão. Porque quer a fotografia, quer o texto dizem muito acerca da Vida e do que se vive em Portugal e também porque, através de um dos técnicos do INEM a quem foi dado ajudar a este nascimento, conheci esta realidade logo no dia em que o bebé viu a luz deste mundo, não resisto a deixar aqui este GRANDE TEXTO a propósito do 8º prémio fotojornalismo Visão/BES com que hoje me cruzei no site da Ecclesia:

«Uma imagem de Portugal

Que Augusto Brázio é um fotógrafo fabuloso já o sabíamos. Diante da difícil prova que é fotografar um rosto ele sai quase sempre vencedor. E eu diria que é porque não o quer capturar. Mesmo próximos, os rostos mostrados por Brázio, mantêm a sua distância e reserva. Olham para nós, mas a partir do que lhes é próprio. Por isso, nunca são planos, nem banais. Porém, mesmo sabendo isso, a fotografia com que ele acaba de ganhar o prémio fotojornalismo de 2008, tirou-me, por momentos, a respiração. Sem perceber como, os olhos já estavam embaciados, e o tempo corria sem que eu tivesse coragem de passar à notícia seguinte.

A legenda da imagem diz: “O INEM presta assistência a uma mulher de 19 anos cujo terceiro filho acaba de nascer em casa. Lisboa, Fevereiro de 2007”. “A mulher de 19 anos” é uma rapariga de um dos bairros pobres da capital, estendida numa maca de ambulância, a cabeça reclinada ao lado direito, presa a uma máscara de oxigénio, enquanto abraça com delicada firmeza o seu recém-nascido. Ela tem uma camisola ou um roupão rosa e o filho está (como o Outro Filho, de que reza a história) “envolto em panos”, de cor azul.

Quem já contemplou uma “Madona con il Bambino”, de Rafael, Boticelli ou de qualquer um dos grandes mestres já viu tudo o que aqui tem diante dos olhos. O mesmo grito impávido, um inenarrável desamparo, o mesmo abraço fragilíssimo e poderoso àquele que gerou. E a certeza de que nenhuma história é mais humana e mais sagrada do que esta. Mas, nem por isso, perante esta fotografia nos deixa de sobrevir uma vontade de chorar.

Portugal é um país estranho. As estatísticas dizem que o número de pobres não deixa de crescer, e o desnível económico entre os grupos sociais é um dos mais altos entre os países da Comunidade. As notícias sobre compensações e reformas milionárias chocam-nos cada vez mais remotamente. A euforia de um liberalismo arcaico, travestido de modernidade, aparece como receituário. E a inconsciência social ganha espaço como se fosse uma fatalidade. A imagem de Augusto Brázio vale por milhares de palavras.


José Tolentino Mendonça»

Segunda-feira, 7 de Abril de 2008

Um dia e outro

A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) divulgou na Sexta Feira passada que recebeu quase cinco mil queixas relativas a maus tratos a idosos em 2005, dez vezes mais do que em 2000, em que o número não chegou às 500 queixas. Um número que, segundo aquela associação, continua a aumentar.
Em declarações que ouvi na telefonia, Joana Marques Vidal, procuradora geral adjunta e Presidente da APAV, referiu que os idosos são agredidos com atitudes humilhantes e vítimas de grande pressão psicológica.
Afirmou ainda que é frequente aparecerem casos em que as pessoas mais idosas são alvo de frases como «não tens capacidade para isto», «és um velho, não prestas para nada» e «se não te portas bem, vais ver o que te acontece».
As frases dirigidas contra os idosos que são conhecimento da APAV chegam mesmo a desejar a morte dos mais idosos, ameaças que Joana Marques Vidal diz serem «constantes e repetidas dia-a-dia».
Comentando esta terrível realidade, Fernando Nobre, presidente da AMI, aludia à seguinte lenda, que me parece elucidativa do quanto real é a velhice, quer nós queiramos, quer não:
«Em tempos havia uma terra onde os filhos costumavam levar os pais velhos, que já não podiam trabalhar, para o cimo de um monte, para eles ali, sozinhos, terminarem os seus dias.
Certo filho, em determinado dia, assim fez com o seu velho pai, levando-o até ao cimo do monte.
Foram caminhando, até que chegaram ao local.
Antes de deixar o pai, o filho entregou-lhe uma manta para ele se cobrir.
O pai rasgou a manta ao meio e deu uma metade ao filho. Este, intrigado, perguntou: “para quê, meu pai?” – e o pai respondeu: “para te cobrires quando chegar a vez do teu filho te trazer a ti. É que ele pode nem sequer te deixar uma manta”
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O filho reconsiderou e mudou de ideias, levando o seu pai consigo de regresso a casa».
Começamos a envelhecer no momento em que nascemos e a todos – às famílias, ao Estado, através do apoio efectivo àqueles que cuidam dos seus idosos, nomeadamente na implementação de uma rede de cuidados continuados, às entidades patronais, conferindo direitos aos trabalhadores que têm idosos a cargo, às instituições sociais, …- cabe cuidar dos mais velhos.
Também não deixa de ser elucidativo que estes dados tivessem sido revelados um dia antes da data em que se encerraram em Setúbal as comemorações dos 120 anos do nascimento do Padre Américo, que dedicou a sua vida àqueles a quem todos abandonaram ou foram até pela natureza abandonados. O quanto actual é a sua obra. Lembro não só as Casas do Gaiato, mas também o Calvário, destinado a doentes incuráveis que ninguém quer. Nesta instituição conheci em tempos um rapaz de cerca de 20 anos, deficiente profundo, que após cada ingestão de alimentos, ainda que muito pequena, como que “ruminava”, porque tinha vivido grande parte da sua vida num estábulo, juntamente com as vacas.
Curiosa a ocorrência que num dia diz da violência que o mundo pode fazer a si próprio e, no outro, lembra quem desdiz a desesperança. E são muitos os que insistem em desesperar. Vasco Pulido Valente escreve na sua coluna de opinião de Sábado passado, a propósito do calibre dos conteúdos televisivos, fazendo eco deste clima nihilista, que “na ausência consoladora de uma outra vida, a miséria desta atrai o Ocidente”.
Alguns dos que por aqui passarem serão com certeza testemunhos, no seu quotidiano, desta esperança que conhecemos e que caritativamente é levada aos outros. Bem hajam por alumiarem com a vossa vida as vidas alheias.

Domingo, 6 de Abril de 2008

Dez anos de Vale de Acór

Dez anos ali, naquele lugar, uma eternidade, terreiro do pó sem eternidade, longe do que fui, e do que poderia ter sido! Dez anos, um muro de lamentações, presbítero sem Hermengarda, e no entanto, onde passaria eu estes dez anos se não fosse ali! Em que efeméride teria vivido, por mais valiosa, que merecesse a troca! Quem me teria ajudado com a mesma nobreza se não aqueles que têm menos do que eu! Por isso aceito o meu destino, e dou graças a Deus por estes dez anos.

Quarta-feira, 2 de Abril de 2008

Geração do Ecrã

Muito se tem dito e escrito sobre o assunto. Hoje li este artigo que achei clarividente. Por isso aqui o deixo.

"Desculpem se trago hoje à baila a história da professora agredida pela aluna, numa escola do Porto, um caso de que já toda a gente falou, mas estive longe da civilização por uns dias e, diante de tudo o que agora vi e ouvi (sim, também vi o vídeo), palavra que a única coisa que acho verdadeiramente espantosa é o espanto das pessoas.
Só quem não tem entrado numa escola nestes últimos anos, só quem não contacta com gente desta idade, só quem não anda nas ruas nem nos transportes públicos, só quem nunca viu os "Morangos com açúcar", só quem tem andado completamente cego (e surdo) de todo é que pode ter ficado surpreendido.
Se isto fosse o caso isolado de uma aluna que tivesse ultrapassado todos os limites e agredido uma professora pelo mais fútil dos motivos - bem estaríamos nós! Haveria um culpado, haveria um castigo, e o caso arrumava-se.
Mas casos destes existem pelas escolas do país inteiro. (Só mesmo a sr.ª ministra - que não entra numa escola sem avisar…- é que tem coragem de afirmar que não existe violência nas escolas…)
Este caso só é mais importante do que outros porque apareceu em vídeo, e foi levado à televisão, e agora sim, agora sabemos finalmente que a violência existe!
O pior é que isto não tem apenas a ver com uma aluna, ou com uma professora, ou com uma escola, ou com um estrato social.
Isto tem a ver com qualquer coisa de muito mais profundo e muito mais assustador.
Isto tem a ver com a espécie de geração que estamos a criar.
Há anos que as nossas crianças não são educadas por pessoas. Há anos que as nossas crianças são educadas por ecrãs.
E o vidro não cria empatia. A empatia só se cria se, diante dos nossos olhos, tivermos outros olhos, se tivermos um rosto humano.
E por isso as nossas crianças crescem sem emoções, crescem frias por dentro, sem um olhar para os outros que as rodeiam.
Durante anos, foram criadas na ilusão de que tudo lhes era permitido.
Durante anos, foram criadas na ilusão de que a vida era uma longa avenida de prazer, sem regras, sem leis, e que nada, absolutamente nada, dava trabalho.
E durante anos os pais e os professores foram deixando que isto acontecesse.
A aluna que agrediu esta professora (e onde estavam as auxiliares-não-sei-de-quê, que dantes se chamavam contínuas, que não deram por aquela barulheira e nem sequer se lembraram de abrir a porta da sala para ver o que se passava?) é a mesma que empurra um velho no autocarro, ou o insulta com palavrões de carroceiro (que me perdoem os carroceiros), ou espeta um gelado na cara de uma (outra) professora, e muitas outras coisas igualmente verdadeiras que se passam todos os dias.
A escola, hoje, serve para tudo menos para estudar.
A casa, hoje, serve para tudo menos para dar (as mínimas) noções de comportamento.
E eles vão continuando a viver, desumanizados, diante de um ecrã.
E nós deixamos."

Alice Vieira, Escritora, In Jornal de Notícias, 30.3.2008

Segunda-feira, 31 de Março de 2008

Trieste

Trieste é o fim, o último lugar. Trieste é a fronteira, o limite, depois de Veneza e do verde da planície, é o fim. Aqui é o fim, mas tudo pode começar de novo. Em Trieste é sempre o fim, não se sabe quando. Depois da montanha chega a Eslovénia, a Croácia e o resto. As montanhas escondem segredos. Nunca se sabe o que está do outro lado. Trieste espera como sempre esperou. No século dezanove, antes de Viena, era Trieste. Antes de Viena, o mar era a chegada. O porto, o grande porto, as grandes ideias, a Mittleuropa, a grande ideia do Império, Itálo Svevo, antes da primeira guerra. Trieste era o grande porto de entrada no Império, quase morreu, e, depois, do outro lado da montanha chegou Tito, outra guerra, refugiados italianos expulsos do ventre das serras e do mar. Agora, depois da missa no cemitério de Santa Ana, à mesa, diante do mar, a velha senhora de olhos claros disse o que todos sabem aqui. A guerra vai começar, não se sabe quando, mas vai começar. Eles, os da Sévia, nunca se rendem. Na noite cerrada, em pleno porto, diante da Igreja de Santo António, o mar ruge no abismo de cada destino. Trieste é o fim. A fronteira. Mas a fronteira nunca acaba. A fronteira é o cansaço e o eterno recomeço. No abismo desta cidade, em crise, sempre em ruptura, a sua identidade é sempre uma pergunta, um caminho, um colapso. A grande espera é a sua essência: onde é Trieste?