Conversas em família
A corrupção começa e acaba aqui.
Alguém está interessado em mudar isto?! Se estivesse… mudava primeiro o resto.
Poder ser contra Poder
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JSM
às
15:09
Já com alguns artigos e conteúdos, o projecto da Plataforma do Centenário da República está finalmente on line, a caminho de 2010 com diversas e promissoras iniciativas manga. Agora que temos nomeada uma Comissão Organizadora com uma forte marca de moderação em vias de ser empossada, a Plataforma do Centenário prepara-se também para ser um contributo sério para uma rememoração lúcida da nossa revolução de Outubro.
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João Távora
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17:57
Etiquetas: Centenário da república
É simplesmente um mistério
um milagre na minha frente
Como posso ser eu digna
Desta menina contente
Entrega-se de verdade
Sem qualquer hesitação
Sem medo ou desconfiança
que não lhe dê eu a mão
É um tesouro do Céu
Que caiu não programada
Não podia ser mais linda,
desejada e amada...
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alexandrachumbo
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15:23
Ainda antes de acabar o dia, deixo aqui um nome: Georges Bernanos.
Escritor católico françês, com obra públicada a partir da decada de 20 do século passado, diz com grande lucidez e compreensão, nos seus livros e pela boca dos seus personagens, os contrastes que marcam o coração de cada um de nós: A angústia, o medo da morte, e a Esperança; a raiva e a ternura; a fragilidade do homem e os seus limites dolorosos e a Graça de Deus que tudo pode; o orgulho e a ferida de sempre, e o desejo de recuperar a limpidez da infância que há-de finalmente deixar "ver a Deus"...
Faz hoje precisamente 60 anos da sua morte, a 5 de Julho de 1948.
Certamente que Deus tem junto de Si aquele que pelo seu trabalho, vivido sobretudo como vocação, pelas suas escolhas e palavras- não raras vezes violentas e polémicas- em procura da Verdade, e pelo amor aos homens e à Igreja, não deixou de O desejar, e de n'Ele afirmar o seu olhar e a sua Esperança...
"Há algumas semanas atrás parti para o Paraguai, esse Paraguai que o nosso dicionário Larrousse, de acordo com o Bottin, qualifica de Paraíso Terrestre. Não encontrei por lá o Paraíso Terrestre, mas bem sei que não deixei de o procurar, que o procurarei sempre, que sempre procurarei esta estrada perdida, apagada da memória dos homens. É provavel que eu pertença, por nascimento a esse povo da espera, à raça que nunca desespera, para a qual o desespero é uma palavra desprovida de sentido, análoga à palavra nada. E somos nós quem tem razão!" (GB, Nous autres Français, 1939).
N.B. A não deixar de ler, do mesmo autor, o "Diário de Um Pároco de Aldeia",1936, traduzido para o Português e editado pela Verbo -colecção Livros RTP- em 1972.
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sofia
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23:38
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PL
às
17:32
A Ingrid que se levantava
e que ontem foi atada,
que ontem foi silenciada,
Ontem foi libertada!
A Ingrid que foi escutada,
que contra os cartéis se levantava,
que por ser escutada, assim foi calada,
Ontem foi libertada!
A Ingrid que ontem foi dada,
que de todo o mundo foi tornada,
ontem por todo o mundo esperada:
Ontem lá foi libertada!
A Ingrid lá de casa,
pelo meu Pai lá tornada,
que ontem lá foi pensada,
que ontem lá foi conversada,
Ontem lá foi libertada!
A Ingrid que é lá de casa,
e por ser lá de casa, é amada,
A Ingrid que ontem lá foi atada,
Ontem lá foi libertada!
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Cat Fons
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09:52
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JSM
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16:22
A Sofia é diferente
A Sofia não corre nem salta
fica sossegada, às vezes chora
Sorri muitas vezes mas não sabemos se nos conhece
Gosto de pegar nela mas nem sempre ela gosta que lhe pegue...
A Sofia hoje faz 2 anos, 2 anos de luta pela vida, 2 anos uma luta que quase todos nós, por muitos anos que façamos provavelmente nunca saberemos como é lutar assim.
A Sofia apanhou uma meningite aos 6 meses e desde aí mudou a vida de todos nós, melhorou a vida de todos nós e ensina-nos tanto! E... tem "só" 2 anos!!!
Hoje portanto é dia de festa! Já estamos de saida para a casa dos amigos papás da Sofia. Parabéns!!!
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alexandrachumbo
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10:48
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JSM
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14:28
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JSM
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18:02
Ter a mania que se manda e comanda é, arrisco-me a dizer quase inato no ser humano, e inevitavelmente "sai furado" muitas vezes...
Pensamos que vai ser ASSIM e depois não é nada ASSIM como pensámos, é aliás tudo ao contrário.
Depois vem a flexibilidade, a capacidade e adaptação ou não à situação, que normalmente nos obriga e bem, a sairmos da nossa comodidade, do nosso cantinho, do nosso aconchego e perceber que o mundo não gira de facto à nossa volta.
Com os filhos isto é notório, arrisco-me novamente (e já me estou a arriscar muito num texto só...) a dizer que é notório desde o primeiro momento, desde aqueles momentos em que pensamos que são totalmente dependentes de nós e que nós é que mandamos de facto neles.
E atenção, porque de facto parece-me que quem deve de facto mandar são os pais!
Mas... e quando não podemos mandar nada???
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alexandrachumbo
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15:29
Brincar é bom, e seria melhor ainda se soubessemos de facto "brincar" mais com a vida.
A Maria anda com a mania de se esconder, esconde-se por trás da nossa cama, mas não se esconde verdadeiramente... uma vez que se baixa, mas deixa a cabeça de fora para ver que a procuramos:) Pergunta o papá, (vendo-a perfeitamente!) "Onde está a maria? Não a vejo..." Ela risse, ri a bom rir e depois aparece, como se estivesse de facto desaparecida. A mãe entra no jogo, faz a mesma jiga joga e ela ri satisfeita. O mano ri-se também, mas olha para nós como se fossemos tontos... Deve pensar "mas eles não a estão a ver??? que pais taralhocos..."
Brincamos ao esconde esconde com os filhos, mas temos pouca capacidade de procurar quem está à vista de facto, pelo facto de ser adulto. Que mania que com os adultos não se brinca, quem disse?
Brincar é bom brincar:) É tão bom brincar!!!
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alexandrachumbo
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12:19
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JSM
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13:28
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JSM
às
16:39
A Mourinho falta-lhe tudo: a grandeza, a força de espírito, o cheiro das maçãs depois da chuva. Mourinho não quis responder em Português: a língua da terra escura, do fel e da azia. Negou tudo: os socalcos, as caravelas e o livro do homem cego que escreveu a epopeia. Quando se está fora e se negam as raízes, o vento desfere golpes mortais. Mourinho não tem génio. No desporto as vitórias não equivalem a linhas de poemas depois do sol cair. Ganhar é tudo mas a luta dos homens é mais bela. Aqui não existem histórias de provocação, de tácticas, de empresas de imagem , de marketing. Mourinho tem tudo isso, o resto e a inteligência. Ganhar pode ser a mais bela forma de demência. Mourinho na conferência de imprensa falou em italiano, em inglês, e quando um jornalista lhe faz a pergunta em português, escondeu os dedos e escondeu-os em tubos de mercúrio. A língua constrói a pessoa, é o segredo, a dádiva. Quando se diz o nome, nomeá-lo, - a água, a folha, o lírio - é dizer o que sei de mim na relação com as coisas. Negá-lo é um roubo, um abjecto. Um tempo que ama este homem é um tempo oco, à deriva, sem fundo.
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Gito
às
23:06
A catedral de Chartres é o mais belo dos lugares. De todos os lugares. Onde diante das pedras lavadas pela fé se coloca a essência: os homens, cada criatura e o Criador. Deus e o Homem. Este diante do Pai, à procura do Pai. Tudo é grande, desmesurado, imenso, ampliado. Deus está dentro, no lugar de Deus. Uma catedral, qualquer catedral, é o maior símbolo vivo da unidade do povo crente. Em Chartres existe cada homem em busca de si, à procura, imerso na história de outros homens que são a sua história. As pedras e os vitrais, a luz e a cripta de Chartres não são antigos, nem de hoje. São o lugar sempre actual do sacrifício e do amor, da fé e do saber, da busca e da presença, do testemunho e da glória. É o lugar actual de todos os tempos, da pobreza e do trigo. De homens esculpidos na História de Deus no Homem. A grandeza de Chartres não é o eu, o espelho do eu, a redoma do eu. É o eu projectado no lugar que afirma o que sou e a verdade mais funda que me habita. Em Chartres só existe a verdade: a luz que explode dos vitrais é a luz de Deus. Dentro, recortado pelas linhas da sombra e da claridade, só resta o silêncio, o longo silêncio da vergonha e da compaixão, da mentira e da redenção. Chartres é o Lugar. Todos o procuramos: um traço, um abrigo,um gesto, um beijo, uma palavra , um verbo. Seguramente que a sabedoria e o acolhimento da vida só se realiza quando encontramos um Lugar, peregrinação eterna. É Chartres. Lugar de Deus, do Homem, das lágrimas puras.
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Três notas sobre esta viagem fabulosa:
a) A missa na cripta da Catedral. Um longo corredor escuro ao fundo, pinturas do sec.XIII, o coração esmagado pela beleza da fé.
b) A lição antológica dada pelo Padre Pedro diante da Catedral, sobre a História da Europa e do Cristianismo nos séculos XII / XIII. Ficará gravada na memória para sempre.
c) Do lado direito da Catedral, a uns 4oo metros, encontramos um jardim e, descendo as escadas, no patamar inferior, à beira da estrada, uma pequena homenagem a Peguy, um dos maiores escritores do sèculo XX. Uma frase na parede frontal e o rosto de Peguy colado na pedra. A fronte, saliente, adivinha-lhe a inteligência. As heras quase cobrem a frase e o jardim está algo descuidado. Este tempo esqueceu Peguy, esqueceu a essência.
Um imenso obrigado a todos: a Sara, Catarina, Sofia, a Carla e o Nuno, o Abrantes, o Paulo e o primeiro de todos nós, o Padre Pedro.
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Gito
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23:19
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PL
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00:27
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JSM
às
23:21
« A razão de ser dos governos democráticos e republicanos
é o estabelecimento de toda a liberdade e de toda a
tolerância compatíveis com a ordem: praticamente em terras
da Europa latina, liberdade de cultos e tolerância religiosa
são expressões que equivalem a dizer que o cidadão é livre
de ser tudo quanto quiser, contanto que não seja católico (...)
O partido republicano, entre nós, não se tem contentado
em ser um partido político; tem sido também um partido
filosófico que, baseado no racionalismo positivista, repele
quase unanimemente a solução católica do problema dos
destinos humanos (...). A República, depois de implantada,
deixou de ser um partido para ser a nação: tanto pertence ao
ateu impenitente como ao católico piedoso. Não pedimos à
República o privilégio, mas o direito comum (...).
O futuro da República depende da paz religiosa.»
D. Manuel Clemente, citando Manuel Abúndio da Silva ( 1911 ) , no seu
livro Portugal e os Portugueses recentemente editado pela Assírio &Alvim.
Palavras lúcidas e proféticas, diz D. Manuel... e digo eu!
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A.Z.
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16:58
Bob Geldof como músico é uma nulidade. Representa o pensamento de esquerda e as suas ilusões etéreas. É um artista rock e como todos os outros não é grande coisa. A América, da música popular, criou o blues e o jazz de New Orleans. O génio do Sul é um imenso tormento. A peso de ouro veio dar uma Conferência a Lisboa. E Geldof disse a verdade sobre Angola. A única verdade. Dizer mal do MPLA e da sua nomenclatura é um ultrage, uma ofensa, uma traição. A ex-colónia é uma barreira, um monstro com a maior taxa de mortalidade infantil do mundo. Só existe uma dor, um erro crasso. Que tenha sido Bob Geldof a dizê-lo e não outro. É aqui que se perde o carácter, a coragem, a solidão imensa com que os homens legitimam o futuro.
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Gito
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00:59
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JSM
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14:31
... este datadíssimo desenho animado produzido pela RTP nos obscuros anos 70 e que ditava o recolher obrigatório da miudagem. Suspeito que isto só acontecia com a cumplicidade da polícia de costumes - e dos meus pais que também estavam feitos. Estes Meninos Rabinos que antes de dormir se atreviam a “rezar a Jesus”, hoje, no mínimo seriam rotulados de ignorantes ou marginais... Ecos de uma época cinzenta e triste em que era possível conceber um família com cinco filhos, qui sas fruto dum deficiente planeamento familiar. Uma cambada de infelizes pois então.
Versão adaptada do original no Corta-fitas
Passados 34 anos a cangalha ideológica é a mesma, o rastreio do pensamento idêntico. Nada muda, os personagens de sempre, os discursos iguais. É esta a tristeza de Abril. Não haver o rasgo, o gesto, a denúncia. Os capitães, os militares, um referente que a história sedimentou. Nada mudou de Abril, os gestos solidificados na argamassa de um tempo que quis ser memória. Mas a memória só existe quando é presente, quando se actualiza, quando a História se diz do que foi. Mas nada disto existe no 25. Só os afectos das histórias apagadas que se querem recordações. A memória não é só recordação. É espirito vivo, interior, de dentro. Onde está o poema, o quadro, o filme, o choro? Onde está a alma e a eternidade para sempre? A memória é recordação quando é vida, quando se passa nas veias e na carne. O 25 de Abril não produziu uma obra de arte, o espanto, o arrebatamento, a grandeza. E esta é uma dor enorme, palha de aço. Quando um facto não produz e não é capaz de produzir um objecto artístico é porque morreu ou nunca existiu. Ou é um souvenir, objecto de plástico, eternamente infantil.
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Gito
às
20:07
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JSM
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14:03
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JSM
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18:40
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JSM
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15:47
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JSM
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18:02
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PL
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22:31
Publicado por:
PL
às
21:12
Publicado por:
JSM
às
22:03
Muito se tem dito e escrito sobre o assunto. Hoje li este artigo que achei clarividente. Por isso aqui o deixo.
"Desculpem se trago hoje à baila a história da professora agredida pela aluna, numa escola do Porto, um caso de que já toda a gente falou, mas estive longe da civilização por uns dias e, diante de tudo o que agora vi e ouvi (sim, também vi o vídeo), palavra que a única coisa que acho verdadeiramente espantosa é o espanto das pessoas.
Só quem não tem entrado numa escola nestes últimos anos, só quem não contacta com gente desta idade, só quem não anda nas ruas nem nos transportes públicos, só quem nunca viu os "Morangos com açúcar", só quem tem andado completamente cego (e surdo) de todo é que pode ter ficado surpreendido.
Se isto fosse o caso isolado de uma aluna que tivesse ultrapassado todos os limites e agredido uma professora pelo mais fútil dos motivos - bem estaríamos nós! Haveria um culpado, haveria um castigo, e o caso arrumava-se.
Mas casos destes existem pelas escolas do país inteiro. (Só mesmo a sr.ª ministra - que não entra numa escola sem avisar…- é que tem coragem de afirmar que não existe violência nas escolas…)
Este caso só é mais importante do que outros porque apareceu em vídeo, e foi levado à televisão, e agora sim, agora sabemos finalmente que a violência existe!
O pior é que isto não tem apenas a ver com uma aluna, ou com uma professora, ou com uma escola, ou com um estrato social.
Isto tem a ver com qualquer coisa de muito mais profundo e muito mais assustador.
Isto tem a ver com a espécie de geração que estamos a criar.
Há anos que as nossas crianças não são educadas por pessoas. Há anos que as nossas crianças são educadas por ecrãs.
E o vidro não cria empatia. A empatia só se cria se, diante dos nossos olhos, tivermos outros olhos, se tivermos um rosto humano.
E por isso as nossas crianças crescem sem emoções, crescem frias por dentro, sem um olhar para os outros que as rodeiam.
Durante anos, foram criadas na ilusão de que tudo lhes era permitido.
Durante anos, foram criadas na ilusão de que a vida era uma longa avenida de prazer, sem regras, sem leis, e que nada, absolutamente nada, dava trabalho.
E durante anos os pais e os professores foram deixando que isto acontecesse.
A aluna que agrediu esta professora (e onde estavam as auxiliares-não-sei-de-quê, que dantes se chamavam contínuas, que não deram por aquela barulheira e nem sequer se lembraram de abrir a porta da sala para ver o que se passava?) é a mesma que empurra um velho no autocarro, ou o insulta com palavrões de carroceiro (que me perdoem os carroceiros), ou espeta um gelado na cara de uma (outra) professora, e muitas outras coisas igualmente verdadeiras que se passam todos os dias.
A escola, hoje, serve para tudo menos para estudar.
A casa, hoje, serve para tudo menos para dar (as mínimas) noções de comportamento.
E eles vão continuando a viver, desumanizados, diante de um ecrã.
E nós deixamos."
Alice Vieira, Escritora, In Jornal de Notícias, 30.3.2008
Publicado por:
Rita LM
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17:29
Trieste é o fim, o último lugar. Trieste é a fronteira, o limite, depois de Veneza e do verde da planície, é o fim. Aqui é o fim, mas tudo pode começar de novo. Em Trieste é sempre o fim, não se sabe quando. Depois da montanha chega a Eslovénia, a Croácia e o resto. As montanhas escondem segredos. Nunca se sabe o que está do outro lado. Trieste espera como sempre esperou. No século dezanove, antes de Viena, era Trieste. Antes de Viena, o mar era a chegada. O porto, o grande porto, as grandes ideias, a Mittleuropa, a grande ideia do Império, Itálo Svevo, antes da primeira guerra. Trieste era o grande porto de entrada no Império, quase morreu, e, depois, do outro lado da montanha chegou Tito, outra guerra, refugiados italianos expulsos do ventre das serras e do mar. Agora, depois da missa no cemitério de Santa Ana, à mesa, diante do mar, a velha senhora de olhos claros disse o que todos sabem aqui. A guerra vai começar, não se sabe quando, mas vai começar. Eles, os da Sévia, nunca se rendem. Na noite cerrada, em pleno porto, diante da Igreja de Santo António, o mar ruge no abismo de cada destino. Trieste é o fim. A fronteira. Mas a fronteira nunca acaba. A fronteira é o cansaço e o eterno recomeço. No abismo desta cidade, em crise, sempre em ruptura, a sua identidade é sempre uma pergunta, um caminho, um colapso. A grande espera é a sua essência: onde é Trieste?
Publicado por:
Gito
às
00:10
Mas vivos para nós e para os outros
- da filosofia do Projecto Homem -