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domingo, 18 de novembro de 2007

Sto. António dos Olivais

É verdade que passei uma boa temporada em Coimbra, vivi em Sto. António dos Olivais. Lembro-me que ouvia Lloyd Cole de mais, e que um dia uma bem intencionada alma me ofereceu um gatito siamês para minha salutar companhia. Acho que o animal chegou demasiado crescido às minhas mãos, já elegante e lustroso. Desde então tentámos com afinco domesticarmo-nos mutuamente, mas a causa era perdida - foi curta e inglória a sua passagem na minha vida. O bichano, além de não me ligar peva, possuía uma estranha extravagância: subir às arvores que não sabia descer. Uma noite, de madrugada, acordei estremunhado com os seus miados aflitos. Espreitei ensonado para o quintal, e lá estava ele, empoleirado num tronco da alta árvore. Na noite seguinte ao chegar a casa, àquela pacata rua de província, o gato lá permanecia, balanceante, num ramo ainda mais alto e mais frágil, com um miar mais sonoro e desesperado. Pressenti os olhares estremunhados e recriminatórios dos meus vizinhos, ocultos pelas suas térreas gelosias. Ao terceiro dia, finalmente entrou em casa despenteado, rouco e a coxear. Dei-lhe uma reconfortante refeição, e nessa noite ambos dormimos um sono profundo e retemperador. Que eu me lembre, a cena repetiu-se mais duas vezes. À medida que o tempo passava, o bicho subia mais alto, para os mais frágeis e trémulos ramos, ao nível de um segundo andar. O pânico da vertigem impelia-o para o alto. Atirei-lhe com pinhas, chamei os bombeiros, a situação era desesperada. Até que o gato caía de maduro, pelo cansaço ou pela força do vento.
O bicho era bonito. Olhos verdes claros, por detrás duma mascarilha castanha a condizer com as botas e luvinhas, sobre um pelo sedoso bege claro. Uns dias mais tarde o bichano desapareceu. Foi algum incauto forasteiro que o roubou, atraído pela fidalga figura do estúpido animal. Ou então um vizinho mais zeloso lhe deu um curativo fatal. Para bem da boa vizinhança.
Demorou algum tempo mais para que eu próprio, pelo meu pé, descesse da minha árvore.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Distorções

A ressonância cresce ritmada. Um som profundo e arrebatador emerge das entranhas da terra cadenciado, ameaçador. As loiças do armário tilintam; o ar, o soalho, os vidros vibram. Alerta, com os meus sentidos atentos, procuro identificar a “ameaça”. Nada a temer! É só um “ganda som” a troar do porta-bagagens de um pequeno carro utilitário que chegou à minha porta exibindo a última maravilha da tecnologia de hipermercado.

Há dias, um colega meu dizia, orgulhoso, que "sacara" mais 200 horas de música para um qualquer fantástico “gadjet” portátil. Assim, ele gaba-se de possuir, de forma quase gratuita, uma fonoteca infindável, um ruído permanente e acessível em todo o lado: no carro, no escritório ou em casa. A Internet, e os modernos softwares de compactação de ficheiros de musica, MP3 e quejandos operam milagres. Agora, quaisquer quatro gigas chegam para arrecadar toda a música do mundo até à mais antiga, a dos anos oitenta. Finalmente, vendem-se dispositivos de leitura de todas as cores para todos os gostos e em tamanhos e formatos impensáveis.
Mas o que está a dar, de resto, é o “cinema em casa” e o magnifico “surround”. O estrondo para todas as bolsas. Nos modernos equipamentos sonoros 5.1, o patego ouve um soco como uma batida dum bombo: até treme o ar. Um respirar temeroso soa como se fosse um ciclone. A cada gesto do herói, estrondosos ruídos movimentam-se no espaço - de trás para a frente e da esquerda para a direita. Com esta generosa tecnologia de ponta, podemos até ouvir um concerto que roda e salta sem parar à nossa volta. De trás do sofá, p’rá frente do retrato dos sogros. Em movimentos hipnóticos e surreais, um qualquer violoncelo surgirá em ameaços ao meu encontro, ou em movimentos laterais bem ritmados. Uma emoção sem fim. Não importa se ouvimos Bach, um uivar de cão ou um míssil a rasar. Para alegria e entretenimento geral, todos os efeitos se transformam em pura adrenalina, movimento, ritmo, enfim, numa animação feérica.
Alguém quer saber que a natureza não produza semelhantes sonoridades? Ou que os sons (frequências) “médios” aparentem provir de uma lata de coca-cola? O que interessa é a estridência dos cinco canais de som, apoiados pela estrela da companhia, o celebre “subwoofer” com a potência de uma máquina de lavar. Por fim, nada nem ninguém escapa a essas baixas frequências em alta intensidade. Não há mais subtileza, tonalidade, cor ou textura sonora. E está tudo a ficar surdo.
Aos cinco anos, os meus avós ofereceram-me um "transístor". Desde então sempre tive música perto de mim. Aos oito, fui com os meus tios ao S. Carlos e fiquei arrebatado pelo vigor de uma orquestra sinfónica. Pelos dez anos, aprendi o que era uma alta-fidelidade (atente-se no termo) quando a minha tia Isabel trocou de gira-discos e me proibiu de mexer no novo, mesmo que fosse com os olhos. E a delícia que era para os meus ouvidos o efeito (inconsciente) da estereofonia, e da amplitude da modelação das frequências sonoras? Até ter o meu primeiro emprego, nunca consegui ter um som de jeito, mas tentava, lá isso tentava. Construí colunas na aula de Trabalhos Manuais com altifalantes comprados na Feira da Ladra, fiz ligações perigosas entre vários aparelhos. No final salvava-me com a telefonia em FM que me oferecia já uma boa sonoridade.
Já adulto, depois de casado, fui “compondo” um sistema de som de que hoje me orgulho e me satisfaz. Bem tratada pelos diversos componentes, a minha música sai em plena e robusta liberdade de duas pesadas colunas Tannoy. À antiga, a estereofonia basta-me: quando bem instalada projecta um espectro de palco, com o relevo e dinamismo necessários. É aquilo que presenciamos num concerto, acústico ou amplificado seja no CCB ou no S. Luís. De resto, é fechar os olhos e deixar-me embalar pela infinita paleta de texturas, de cores e tons, todas as nuances sonoras que a arquitectura da minha sala permite. E, sossegado, ouvir uma obra-prima. Assim tenha eu tempo e disponibilidade interior para a arte e para a beleza. Para adivinhar o absoluto e assim ligar-me ao que é maior, divino e grande no homem.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Halloween

Entristece-me intimamente a ingénua adesão dos miúdos pequenos ao estéril folclore da triunfante cultura invasora. É com ou sem a nossa conivência que os seus ritos e liturgia entram sorrateiramente pelas nossas casas adentro.
Ao mesmo tempo que a desgarrada militância laicista promove o esvaziamento das nossas ancestrais tradições cristãs, em nome do progresso e duma presumida superioridade intelectual, os fundamentos da nossa identidade colectiva são sistematicamente ameaçados.
Sem nada para lá pôr no seu lugar, o povo espoliado e confuso agarra-se em desespero às abóboras ocas, luzinhas mágicas, pais natais, pozinhos de perlimpimpim e demais “espiritualices” alternativas.
Enfim, o progresso.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Quando o homem quiser?

Para mim a festa de Natal é no dia 25 de Dezembro. Para a ocasião guardo uns dias de férias e, com a alma vestida de gala, nesse dia celebro em família o nascimento de Jesus Cristo. Diariamente durante as quatro semanas precedentes, com a ajuda das crianças, iremos desfolhar um calendário do advento numa honesta tentativa de preparação para o grande evento. Para mim, a celebração do Natal está protegida pelo sentido e pela essência que a fundamenta.
Porém, com crescente ruído outra festa já se faz anunciar. Uma canseira. Chamam-lhe natal, mas será outra coisa por certo. É que ao contrário do que disse um poeta, seguramente o Natal não é “quando um homem quiser”. O "homem" normalmente quer outras coisas.
Hoje, a quase dois meses da data, deparo-me aqui no C.C. das Amoreiras com a sua ofuscante decoração Natalícia. Tenho notícia que em Algés já estão ligadas as luzes de Natal. A feira começou, nem posso acreditar! A televisão já iniciou as exaustivas lavagens de cérebro apresentando um infindável e tentador catálogo de coloridos pechisbeques, que farão a criançada feliz por cinco minutos - ou apenas um instante. Anunciam-se automóveis de sonho em prestações suaves a pagar lá para as calendas gregas. Centenas de pais natais, animados, reais, digitais, vestidos à Benfica preparam-se e já “aquecem” ordenadamente para o massacre. Nos próximos dois meses vamos levar com o Santa Claus no Espaço, no Comboio, no Far West, na neve e no Havai, na rua do Ouro e no Shopping. Tanta poluição sonora e visual desorienta as crianças e confunde-nos a nós, adultos.
Enfim, o sonho já está à venda para todas as bolsas. O problema é que, como acontece com todos os sonhos, um dia acordamos estremunhados com a realidade. Sem resolver o vazio, sem praticar o amor, sem cumprir a relação que nos justifica.
Aproveitada pelo político, pelo publicitário ou pelo comerciante, despojada do seu fundamento espiritual (essencial), a festa do Natal hoje em Portugal é vulgarizada e desvirtuada. Impregnada de frágeis e patéticos ideais líricos, esta quadra tornou-se território de um ensurdecedor despique de marketing, um monumento ao desperdício e à opulência. A felicidade descartável, os sonhos recarregáveis estão em promoção num qualquer hipermercado perto de nós. Um deprimente histerismo consumista é (cada vez mais) longa e exaustivamente promovido pelos ares da cidade, pronto-a-vestir, pronto-a-comer, pronto-a-usar e pronto a esquecer.
E se calhar alguns inocentes mais entusiastas consumidores desta "feira burlesca", atafulhados de dívidas e de tralhas inúteis vão despertar de novo, em Janeiro, para uma pesada e gratuita depressão pós-traumática pós-stress.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

História de algibeira (20)

Inaugurada a 30 de Setembro de l889 a Linha do Estoril, começou por ter o seu início em Pedrouços e não no Cais do Sodré, como viria a acontecer anos mais tarde. Para apanhar o comboio, o alfacinha, vindo do lado da Baixa Pombalina, tomava um dos vapores da empresa Lisbonense e rumava à estação de Pedrouços, para aí fazer transbordo e seguir viagem em direcção a Cascais. A viagem de omnibus ou de "americano" além de morosa não era muito agradável, pois a estrada municipal que ligava Lisboa aos arredores, para além do Aterro (Santos), era poeirenta e esburacada, sendo o caneiro de Alcântara mais um obstáculo para quem o quisesse fazer por via terrestre.


Texto adaptado de "Memórias da Linha de Cascais" de Branca de Gonta Colaço e Maria Archer

Em directo de Essen, na Renânia do Norte-Vestefália

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Uma boa causa

Poucos dias passados sobre o cinco de Outubro, e com um estranho sentido de oportunidade, André Abrantes Amaral surpreendeu-nos com um texto no Insurgente arrogando a inviabilidade da monarquia e onde vitupera os monárquicos portugueses. Tenho a dizer que compreendo alguns dos argumentos apresentados. Como o André, eu reconheço que o sistema monárquico sempre foi mais maltratado pelos próprios simpatizantes do que pelos seus opositores. A primeira razão sempre foi a sua manifesta incapacidade de pragmatismo e unidade em torno do "fundamental". Depois sempre houve o frívolo ruído oriundo do típico “marialva” ou pseudo fidalgote “de bigode retorcido” ansioso dum estéril protagonismo social. Tudo gente simpática aos poucos mas activos jacobinos da nossa praça.
Também sou forçado a concordar com o André, que os desafios práticos e concretos da realidade portuguesa, o nosso endémico atraso cultural e económico, a mentalidade paternalista, dificilmente seriam resolvidos pela simples deposição da república.
Mas acontece que, como diz o André, a república em Portugal nasceu de um equívoco. E a mim parece-me que há demasiado tempo que fazemos tábua rasa a demasiados equívocos. E, impassíveis, adulteramos a nossa história, mascaramos o presente e comprometemos o futuro.
Assim, não me parece sábio que se deixe cair o ideal monárquico, mesmo que ele aparente ser despropositado. Poucos anos antes do regicídio, a monarquia aparentava fimeza, os republicanos eram apenas uma franja marginal no palco político. Mas as agendas da história reservam-nos sempre espantosas surpresas.
Por mim, parece-me que somos um povo confuso nos valores e uma sociedade sem referências. Um país cujas cidades ostentam os nomes de Elias Garcia e Cândido dos Reis (quem conhece as suas obras?) nas suas mais importantes artérias. Um país que só no futebol descobre os seus símbolos é um país sem alma, em deficit de identidade. Confundido, estéril. Os símbolos de uma nação inspiram a ética e um ideal comum...
Finalmente, também concordo com o André que a discussão da “monarquia” poderá ser “bafienta”. Assim sendo, cabe então a nós elevar-lhe o nível! Estranho por exemplo, como num pais pretensamente civilizado, tardam em assumir-se núcleos de monárquicos nos partidos políticos. Custa-me a perceber de que se escondem os tão valorosos (e conhecidos) simpatizantes monárquicos na vida pública nacional. Será bafienta cobardia, ou apenas medíocre calculismo?
A monarquia é um assunto sério, e eu acredito que pode comportar a regeneração nacional. Para já, cabe à minha geração não deixar morrer a discussão, antes revitalizá-la, enriquecê-la. A largueza de perspectivas só pode beneficiar o pais, sem prejuízo da gestão corrente do Portugal possível. Pode ser amanhã, na próxima geração ou daqui a duzentos anos. A monarquia constitucional, é um sistema intemporal e civilizado, é um ideal legítimo e patriótico. Preparemo-nos para o são e sério debate, pois a res publica merece e oportunidades não faltarão nos próximos anos.

Publicado originalmente no Corta-fitas

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

O grande equívoco


Na luta pelo poder, o PRP destruíra o inegável liberalismo da Monarquia. A Republica, longe de ser “democrática” (…) sobrevivera graças ao terror popular. (…) para lá da retórica oficial, estabelecera na prática uma ditadura de massas.

Vasco Pulido Valente - O Poder e o Povo, 1976 - Edição Gradiva 2004


Conhecemos, pela história dos últimos anos da monarquia liberal, como foi brutalmente gizado o assalto ao poder por uma minoria urbana do PRP, com o apoio de uma espécie de grupo terrorista, a Carbonária Portuguesa. E conhecemos bem o ciclo caótico e arbitrário que caracterizou a ditadura popular entre 1910 e 1926. Ignorar isto é, como se diz hoje, branquear um crime histórico. Mais, a implantação da república em Portugal resultou em dezasseis anos de estagnação económica, repressão e caos. Dessa forma abriram-se as portas ao regime de Oliveira Salazar, e à história e frustrações que tão bem conhecemos.
Após 97 anos de tantos equívocos, branqueados pela ignorância e cobardia, parece-me que os fundamentos da república se baseiam ainda hoje em ancestrais e recalcados “complexos” sociais. Um enorme entrave ao desenvolvimento e progresso do nosso país.

domingo, 23 de setembro de 2007

Memórias de Outono

Esperava um dia cinzento e húmido para escrever esta peça. É sobre as memórias que me desperta o Outono, com as tonalidades mornas e amareladas das folhas no chão. Do fumo bem cheiroso das castanhas a assar num triciclo ao fim da tarde. Ou da gota de chuva puxada pelo vento que estala na cara, anunciando o fim da do jogo da bola no Jardim da Burra, ali à Estrela. Há trinta e tal anos. Hoje até está o céu azul, e esta estação traz-me sempre memórias de infância. O Outono lembra-me o início das aulas, a escola primária e as minhas primeiras paixões, medos e emoções. Confesso que eu era malandro e não gostava muito da escola. Às tantas frequentei a Escola da Câmara Nº 6, na Rua da Belavista à Lapa, depois da minha mãe e das suas amigas, à época influenciadas por alguma revolucionária teoria pedagógica, tirarem os seus filhos dos colégios e organizarem uma turma na qual inscreveram os filhos, todos juntos, mais ou menos ingénuos meninos “bem”. Desta forma, aos oito anos, todos os dias me deslocava sozinho para a escola, para um mundo novo, louco e exigente. E todos os dias lá me encontrava com o professor Júlio sempre no estrado, enquadrado pelos planisférios e as figuras do Estado Novo. Lembro-me do seu aspecto austero e magro, enorme (?), dentro do seu fato escuro, com um ameaçador de ponteiro na mão. Eu, um verdadeiro cábula, “levava” reguadas todos os dias. Fosse por mau comportamento, ou porque não tivesse feito os trabalhos de casa, ou por causa dos erros de ortografia. Lembro-me da expressão ameaçadora do professor Júlio, apanhando-nos num flagrante rebuliço. E vociferava: “Isto não é nenhuma república!!!”. Eu, sem perceber bem, relacionava essa palavra com o senhor solene e careca emoldurado na parede. E tenho a vaga impressão que já na época me apercebera de que o meu pai não gostava nada disso.
O Outono era definitivamente uma época misteriosa e mágica, quando as intermináveis férias grandes acabavam naqueles dias já tão curtos. E lembro-me dos preparativos, quando chegava a casa com a minha mãe, vindos de comprar uma pasta nova, ou umas galochas pretas para eu levar para a escola. Então é que nunca mais chovia. Vaidoso, eu acabava por levar as botas de borracha mesmo com bom tempo e os pés suados.
Nesse tempo, tinha direito a cinco escudos diários para ir para a escola. Para ir de autocarro, o número nove, de Campo d’ Ourique até à Estrela. Fi-lo sozinho desde cedo. Sempre alerta, tinha que ter cuidado, não aparecessem alguns “ciganitos” do Casal Ventoso que me roubassem a bola de futebol e me espetassem uma “pêra”. O mundo de facto sempre foi perigoso. Regressávamos a casa normalmente em pequenos bandos pela Calçada da Estrela, a chutar nas pedras ou fazer corridas, pisar as folhas secas, ou chapinhar nas poças de água. Passávamos pelo Jardim da Estrela, respirávamos o fumo das castanhas e assustávamos os pombos esbaforidos. Depois subia a pé a Rua Domingos Sequeira para chegar a Campo D’Ourique já sozinho. Sempre a pé, pois que pela certa tinha gasto o dinheiro para o transporte em guloseimas, cromos ou outra coisa qualquer. Que o meu mundo era enorme nessa altura lembro-me bem. Lembro-me do Pedro, do Eduardo, do José Filipe do Manel e do Carrelhas. Lembro-me dos jogos da bola organizados por uma das mães, todos “à Sporting” na relva verde de Belém, contra uns indígenas quaisquer. Todos queríamos ser o Yazalde, o número nove. E lembro-me dos cinco tostões de tremoços, dos coloridos “esticas” e das pevides vendidas por uma velhinha à porta da escola. Das correrias para a "pendura" no eléctrico, ou daquela clandestina revista “de mulheres nuas”. Mas da Escola é que não gostava. Ao adormecer, rezava (!) angustiado para que um terramoto, incêndio ou outra catástrofe a fechasse por uns dias. De forma a ganhar tempo para (de novo não) fazer os “deveres” sempre adiados. E assim escapasse dumas valentes reguadas que invariavelmente me levavam às lágrimas.
Um dia de Outono como este, antes de chegar à escola, encontrei o meu primo homónimo que já frequentava a 4ª classe e me desafiou a faltar com ele. Nunca pela cabeça me passaria tal atrevimento, tão afoito. Alinhei, assustado, e não mais me esqueci daquele dia de emoções fortes. Toda a jornada deambulámos pelo bairro, até tão longe, bem longe de qualquer vista indiscreta. Fugidos até às Janelas Verdes, chegámos mesmo até Alcântara. Para ver os barcos, os guindastes, e toda aquela azáfama. Sem nunca termos a certeza do caminho de volta. Um saboroso crime estava feito, uma exaltada angústia misturava-se com as imagens da minha casa protectora, dos meus irmãos e da minha incauta mãe. Tudo tão longe. E logo, aflito, afastava da ideia a figura gigante do meu pai zangado, volvendo às explorações e correrias com o meu primo. Começava cedo a minha relação íntima com a cidade, com os seus sons, recantos e cores. Comecei cedo a ser gente, e terá sido este o meu primeiro grande segredo, na construção do homem que sou hoje.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Então... feliz ano novo!

Talvez seja uma ilusão, mas o final do Verão sempre me pareceu demasiado abrupto: no espaço de uma ou duas semanas, os longos e radiosos dias quentes escurecem e minguam vertiginosamente, trazendo consigo uma suave nostalgia, quando não uma recôndita angústia. De repente sentimos saudades do Verão que passou... ainda na semana passada, num fim de tarde na Adraga, com chinelos e poeira, um petisco e uma cerveja, aquela eufórica sensação de liberdade e o coração tão aceso. Confesso que, apesar de trabalhar durante grande parte do Verão, vivo-o com o jovial espírito de “férias grandes” de outrora. São os jantares tardios na varanda, a cidade utopicamente deserta, as coloridas esplanadas para beber um simples café ou as longas saídas de fim-de-semana.
E de repente a rotina doméstica altera-se com a preparação do retorno às aulas. Umas "cópias" e umas leituras forçadas vêm cortar a indolência das tardes de Setembro à pequenota. Há uns amuos e os sonos ainda trocados. Os mais velhos resistem como podem ao fim da época balnear, e numa manhã destas finalmente lá foram, contrafeitos, tomar nota dos horários.

Ontem, a trovoada e uma impiedosa chuva aqui em Lisboa desfizeram definitivamente qualquer veleidade: apesar da praia estar logo ali atrás, começou de vez o ano lectivo, uma nova época de trabalho, aventuras e novas oportunidades. Para todos aproveitarmos com renovadas forças. Afinal, o meu verdadeiro ano novo ainda começa sempre no fim do Verão.

domingo, 9 de setembro de 2007

História de algibeira (18)

1907 - Azedo Gneco discursando num comício republicano realizado no antigo recinto do teatro do Rato, em Lisboa.
O tipo à direita deve ser o “sigurança”.

Foto daqui

domingo, 2 de setembro de 2007

A barbearia


Quando era pequeno, ir à barbearia do bairro era um ritual da minha masculinidade. Nem sempre voluntário, mas periodicamente inevitável, quando a juvenil guedelha hirsuta assim o exigia. Ao princípio ia com a minha mãe, que me entregava aos cirúrgicos cuidados do barbeiro e logo saía apressada, talvez pouco à vontade, talvez para fazer outras coisas úteis. Percebo perfeitamente, pois eu também não me sentia bem no território feminino, quando infortunadamente era obrigado a acompanhar a minha Avó ao cabeleireiro Brito & Brito, na Avenida da Liberdade. Eram momentos de sufocante opressão, com a ideia clara de que era um intruso naquele ambiente assexuado a cheirar a laca e a verniz. Espantavam-me aqueles estranhos capacetes espaciais, com as circunspectas senhoras debaixo, de dedos em riste pintados de fresco. Eram todos aqueles rolos, papelotes e turbantes na cabeça que me deixavam verdadeiramente intimidado, estarrecido.

O que me lembro do meu barbeiro ali na Rua Almeida e Sousa em Campo d’Ourique, era das suas mãos lavadas e relógio dourado no pulso. Sempre de impecável bata branca e de conversa fácil, com os seus dedos duros e frios a endireitarem firmemente a minha cabeça fugidia. Lembro-me das pinceladas de sabão morno, e do raspar da navalha afiada na nuca e nas patilhas inexistentes. Era parte dos procedimentos. Lembro-me do fatal calendário de “garagem” com uma loira bem curvada, do horário e dos diplomas emoldurados. Também sobressaiam, ao lado dos grandes espelhos, umas fotografias a preto-e-branco de garbosas e antiquadas cabeleiras, bem penteadas com Bel Hair ou Restaurador Olex. Fascinavam-me também os pesados cadeirões em ferro pintado, onde me sentava soerguido num caixote “adaptador” para as crianças pequenas. E do estofo de cabedal redondo, que com duas espanadelas, se virava do avesso para assento do cliente seguinte. Naquele pequeno espaço, os homens comentavam as banalidades da política e do futebol, ao som do Rádio Clube, com as tesouras sempre a cortar, a cortar, em golpes ritmados, tchic, tchic, tchic, tchic. Depois, vinha aquela pergunta redentora: “o cabelinho é para molhar?” Finalmente o sacrifício acabava, era tempo de voltar para as brincadeiras, para casa ou para a praceta, com os cabelos caídos a picar nas costas.

Um dia destes, aburguesado e imprudente com as pressas, descobri perto do escritório um moderníssimo Cabeleireiro de Homens, cheio de paninhos quentes e inauditas mordomias. Surpreendi-me logo com o pretensioso recepcionista, de modos efeminados, casaco fantasia e gravata Disney que confirmava a marcação. Sentado na sala de espera, procurei em vão literatura apropriada, o Record ou o Correio da Manhã para me entreter. Só descobri as brochuras dos milagrosos produtos capilares. Logo uma menina, de rabo bamboleante, se abeirou de mim perguntando-me se eu queria arranjar as unhas... Eu, arranjar as unhas?!? Notei também as conversas dum cliente com a manicura, talvez um bem sucedido gestor de Import - Export, que me soou excessivamente íntima. O homem emitia confiantes e bombásticas opiniões, sobre a política e as finanças “de cordel”. Quando, de cabelos lavados, cheguei às mãos da decotada cabeleireira, balbuciei que não queria modernices, o que a deixou visivelmente contrafeita. Depois, veio uma jovem estagiária oferecer uma massagem capilar... e um café. No final paguei 25.00€. Nunca me saiu tão cara uma bica...

Duas semanas depois, quando o cabelo mal cortado definitivamente não assentava mais, decidi-me a visitar o velho e fiel barbeiro aqui de S. João do Estoril. Decidi-me a perder uma manhã de Sábado a ler o Record e o Correio da Manhã, e cortar o cabelo como deve ser. Ouvindo o Jogo da Mala e o Bola Branca em ondas médias, sem paninhos quentes ou embaraçosas mordomias. Afinal um conservador é um conservador.

sábado, 1 de setembro de 2007

New age

O moderníssimo aparelho do meu carro lê os CDs em MP3. Neste “formato” cabem quase vinte álbuns num simples CD de 700 megas. A fartura é tanta que o pobre desconfia. Com o ouvido atento, apercebo-me como o processo de compactação digital nos defrauda, prescindindo de tantos “bites e baites”, aparentemente redundantes. Ou eliminando os sons considerados inaudíveis ao ouvido "comum". Confesso que aquele som, redondo e de plástico, ao princípio até soa agradável. Mas ficamos com a ausência da alma, dos sombreados, dos degradés e dos ecos mais subtis da peça. Desvanece-se a profundidade e o relevo, a coloração sonora impressa pelo espaço, pela sala ou pelo estúdio e os seus materiais.
Chegado a casa, cedo à urgência: ligo o amplificador, ponho a rodar o gira-discos, fecho a porta, ajusto o volume, ponho cuidadosamente o vinil a reproduzir o órgão de Tom Koopman, tocando a Tocata e Fuga BWV 565 de Bach. Respiro profundamente e deixo-me ir.
Infelizes os satisfeitos com o que os seus humanos e precários sentidos alcançam. Vendo pouco e crendo pouco. Conformados. Tantas vezes cínicos.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Tomando sempre novas qualidades...

A maior "revolução" operada na sociedade contemporânea, subtil e orgânica, é aquela que aconteceu à relação entre o pai e os seus filhos. Mais até do que as conquistas femininas, de lugares nos estádios ou em promissoras carreiras.
Apercebo-me hoje que o meu pai ainda esboçou uns tímidos esforços, desajeitadas tentativas de intimidade, inspiradas nos inevitáveis sinais de mudança. Mas a rigidez dos "papéis" estava-lhe demasiado impregnada. Assim como aquela solidão.
A maior "revolução" dos tempos modernos, é a "revelação" da plena paternidade. Hoje, conhecemo-nos cedo, com a ajuda da pele e de uma orgânica cumplicidade. Com muitas canções, lenga-lengas, banhos de banheira, de mar e de mundo. Depois de tudo isto, que venha a vida toda, com os seus anunciados terrores e tempestades. Seremos mais fortes, por certo, o que já não é pouco.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

História de algibeira (16)

D. Carlos I (1863-1908) foi o primeiro rei de Portugal a morrer de morte violenta depois de D. Sebastião, em 1578. Foi também um dos mais inteligentes e capazes reis do seu tempo, quando a Europa era ainda, com excepção da França e da Suíça, um conjunto de monarquias. (…) D. Carlos tinha 26 anos quando foi aclamado rei, a 19 de Outubro de 1889, e apenas 44 quando morreu, a 1 de Fevereiro de 1908. (…) Era um homem independente, sensato e corajoso, capaz de suportar grandes pressões e de tomar decisões arriscadas quando se impunham. Morreu por causa das suas qualidades, não por causa dos seus defeitos.


In: D. Carlos, por Rui Ramos. Colecção Reis de Portugal - Circulo de Leitores 2006

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

História de algibeira (14)

Segundo um relatório de um espião da coroa britânica de serviço em Lisboa ao tempo da “questão inglesa” era nas manobras dos chefes políticos que estava a lógica dos acontecimentos, porque em Portugal “a animosidade dos partidos é mais poderosa do que o patriotismo”.


George Petre, oficio a lord Salsbury, 31.3.1890 In D. Carlos – Rui Ramos, Círculo de Leitores 2006

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

O povo e o poder

Durante a Monarquia, as reformas que o PRP tão eloquentemente recomendava tê-lo-iam fortalecido nas grandes cidades e em meia dúzia de capitais de distrito. Com sorte, teriam talvez levado trinta e tal deputados republicanos ao Parlamento e permitido a conquista de outras tantas câmaras. Assentavam, porém, num postulado falso: o de que o país queria a República. Depois do 5 de Outubro, depressa se tomou claro que não queria. E, assim, esquecendo as suas mais solenes promessas, o PRP nunca decretou o sufrágio universal ou lutou pela descentralização eleitoral e administrativa. A longo prazo, o democratismo republicano não podia deixar de se revelar por aquilo que era: a expressão ideológica da vontade revolucionária da pequena burguesia urbana.


Vasco Pulido Valente - O Poder e o Povo, 1976 - Edição Gradiva 2004

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

História de algibeira (13)


Em cima, um precioso instantâneo de Joshua Benoliel, tirado no fatídico dia 1 de Fevereiro de 1908 no Terreiro do Paço onde se encontram D. José de Mello (Sabugosa), Tenente-coronel Alfredo de Albuquerque, Conde de Castro (meu bisavô), Capitão Roçadas e o conde de Mesquitela, aguardando a chegada da família real vinda de Vila Viçosa.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

História de algibeira (12)

Aquando do juramento da carta constitucional, por parte do Rei D. Carlos a 19 de Outubro de 1889 foi inaugurada em Lisboa a avenida com o seu nome (na foto, daqui).

sexta-feira, 20 de julho de 2007

História de algibeira (11)

Na fotografia (daqui), a moderníssima Av. Rainha D. Amélia em 1908. Após a revolução de 5 de Outubro a conhecida artéria Lisboeta foi renomeada Almirante Reis.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

História de algibeira (10)

Sobre a infância do Rei D. Carlos:


Um dos companheiros de D. Carlos e D. Afonso lembrava-se sobretudo, quase sessenta anos depois, de “um barco com rodas, patins e uma caixa cheia de ferramentas com as quais escangalhávamos tudo quanto apanhávamos a jeito”. D. Carlos e o irmão usavam quase todo o Palácio (da Ajuda). Os corredores e as grandes salas do “andar nobre” serviam para deslizar em patins com rodas. No jardim botânico, entretinham-se a arreliar os macacos da enorme colecção de animais do rei.

In “D. Carlos”, por Rui Ramos, da colecção Reis de Portugal (Círculo de Leitores, 2006)