segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Ainda Torga

Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.


Impressiona o drama da sua existência – uma existência tão independente, que procura sempre criticar e actuar contra os atropelos à dignidade, à justiça, preservando a liberdade no sentido que julgava mais autêntico, mas que se foi afastando da fé cristã e da Igreja e, de acordo com a verdade que a caracteriza, não encontrou outro que as substituísse
Daí o seu lamento: "Isto de religião está cada vez pior dentro de mim. Depois de uns arrancos fundos e angustiados, a coisa foi secando até chegar a esta mirra mística, que já não há Jordão teológico capaz de vivificar. Mas quanto mais pobre estou desse conteúdo humano, mais cheio me sinto de desespero. O que eu dava para me levantar cedo esta manhã, ir à missa, e voltar da Igreja com a cara que trazia o meu vizinho" Diário I.
A sua ligação à terra, à montanha, à planície e o relato que faz das mesmas e da lusa gente traça-nos um retrato ainda hoje tão actual do Portugal que somos. Aquele que lê o DIÁRIO, como escreve Sofia de Melo Breyner, "percorre Portugal de lés a lés, o seu espaço telúrico, humano, e o espaço histórico e cultural" (Miguel Torga, Poeta Ibérico).
“Na sua escrita forte como um grito, um apelo da terra que o viu nascer, na sua exemplar dignidade cívica, na inteireza do seu carácter, reencontramo-nos com Portugal”, lê-se na mensagem de Cavaco Silva divulgada pela Presidência da República.
Daí que se perceba tão mal a falta de um membro do governo na comemoração do seu centenário ontem, em Coimbra.
Afinal, sinal dos tempos, este gesto mediocrizante dos responsáveis políticos da nação não é inédito. Mostra bem como encarreiraram por uma compreensão estéril da condição humana, que se resolve bem com planos tecnológicos subservientes da eficiência e da eficácia, mas que ignoram a profundidade da alma humana. Quem se distraiu com as ligeirezas de currículos da disciplina de português do básico e secundário, com os critérios desculpabilizantes dos exames nacionais, com a exoneração da directora do Museu Nacional de Arte Antiga, que julga que os problemas da educação em Portugal se ultrapassam com a facilitação do acesso a computadores portáteis, à introdução de quadros digitais nas salas de aula…, não pode agora espantar-se boquiaberto perante o Marão da indiferença da intelligentzia liderante de Portugal face à efeméride. O pragmatismo reinante é secante, uma vez que diz do caminho a percorrer que ele se faz de eficácia e eficiência que levam ao “sucesso”. Estimular o contacto com os que antes de nós tiveram de lidar, bem ou mal, com o cabo das tormentas com que tantas vezes a existência nos brinda, não é caminho para considerar em tempo de luta contra o deficit ou de recuperação do atraso económico face ao resto da Europa comunitária. Esta percepção das coisas castra a vida que habita o homem, reduzindo-o apenas a peça de uma mera engrenagem. É outra a voz agora escutada. A. Huxley e o seu Admirável Mundo Novo estão decerto bem mais próximo das cogitações dos senhores do momento. Pior para todos.

domingo, 12 de agosto de 2007

A Torga

(No dia em que se festejam os 100 anos do seu nascimento)

I

Nervos tensos em direcção à liberdade
sem jamais te ajoelhares livre,
até de ti mesmo.

Revolta de adolescente perpetuada
na saturação da Casa,
sempre a dizer não.

Sempre a solitária coragem,
gémea do medo
ao sabor da comunhão no Sangue.

Teu o desejo de aventura,
margeando o Caminho,
sem te abeirares da sua graça.

Cantos à justiça que mutuamente nos devemos
alevantados numa memória ferida por todas as fomes,
mas que recusou o Pão.

Que pena tua pena
de poeta,
sim,
mas de poeta santo
não.

II

Sabe, porém,
que nunca te esqueci
Sou o teu irmão Abel.
embora nos dias das tuas palavras amargas
me julgues mais parecido com o ressentido Caim.

E venho hoje agradecer-te
o quanto vindimaste para mim,
ó homem duro do douro tão amado:
Vertigens, paisagens perigosas que transportamos em nós.
Brusquidões, vulcões por dentro e por fora.
Descrição, navegação certeira no oceano da vida.
Nobreza, grandeza no espanto face à terra.
Intuição, fruição do que desponta de único nas gentes.
Alento, rebentar a querer dizer.
Mirad’oiros, versos nascidos nas fragas,
lá onde a beleza te inflamava.

sábado, 11 de agosto de 2007

Inácio

(Embora chegue atrasada aqui fica também a minha homenagem a um ‘fora de estrutura’ muito peculiar)

Chamava-se Inácio Beja. Era alentejano. Mas poderia ser também de Braga ou Castelo Branco, homem que era da cor de Portugal inteiro. Por alcunha chamavam-no ‘china’, ele que teve sempre os olhos rasgados na direcção da aventura. Cresceu em Lisboa, lá para o Intendente. Aí se talhou o seu carácter castiço e fadistote, sempre pronto para os lances marialvas. Terá amado alguma mulher, ele que procurou consolo em tantas? Foi emigrante em França, a ver se escapava a esse outro fado da miséria.
Por saudades da mãe regressou. Assim o confidenciou certa vez, ele que parecia não ter ‘fraquezas’. O pai comunista não venceu nele o amor da pátria. E lá foi, soldado comando, onde o chamava o sentido guerreiro da honra. Porque 600 anos de história tinham-no habituado a considerar que era venturoso por a lança em África (nesse tempo em que a geografia nacional não incluía a Bósnia, o Afeganistão ou outros destinos esdrúxulos...).
Não deveriam ser muito diferentes dele os soldados do Mouzinho ou os homens tipo Silva Porto. Os que se aventuraram bandeirantes pelo Sertão e pela Amazónia seriam , certamente, gente da sua têmpera. E assim, também, os heróis que não viraram a cara ao Adamastor. Creio, obviamente, que ele teria sido um peão valente em Aljubarrota e teria estado entre os primeiros que, ás ordens de algum dos Afonsos, fosse mandado escalar a muralha dum qualquer castelo mouro.
Mas ele era ainda português pela particular índole da sua cordialidade. Teimoso e obstinado, capaz de umas quantas piruetas para se safar nalgum ‘flagrante delito’, o Inácio aparecia sempre a querer conversar, a dizer qualquer coisa, a animar a conversa com uma história, uma opinião ou uma facécia qualquer. Era amigo naquele sentido preciso, e precioso, de quem deseja, sobretudo, estar com os seus amigos. Com os subalternos era capaz de ser severo, mas mais por gostar de embirrar.
Desembaraçado, bravo, na cara gasta, que não mentia acerca de um corpo exausto, via-se que gostava de viver com as duas mãos cheias.
Tinha uma consciência tímida, que sempre fez por disfarçar, porque os homens não choram. E por isso mutilou-se asperamente e chorou sozinho anos a fio. Até que no Vale de Acór deixou de se flagelar. Aí a sua liberdade passou a ser querer estar em relação, com os do Vale de Acór. Na verdade, foi aí, também, que a misericórdia de Deus o entregou àquela Casa sustentada pelo Samaritano. No dia 7 cumpriu a sua última missão, apresentando à sua filha a Igreja . Com efeito, também ela participou na Procissão acendida na fé dos amigos que o acompanharam àquela terra última que é apenas sacramento da outra prometida.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

O amor de Deus

Partiste quando as crianças jogavam à bola no pátio, quando os teus filhos na dor, na solidão e no sofrimento tomavam banho e não sabem o que é a morte. As nossas crianças do campo de férias são teus filhos, Inácio, amam a vida e constroem -na para lá da ausência, da separação, da raiva da expurgação. Uma criança é fruto de um gesto, uma consequência que ultrapassa a individualidade dos seres. Estar vivo é aceitar que se pode amar, caminhar. Partiste durante o nosso campo de férias. Quando a inocência, o gesto incontrolado, e o sorriso eram o fruto. Lembro-me de ti, Inácio, a tua vida escorria sangue, fel, ruptura. Mas tu não amavas as palavras, as cadências, a ti o que te sobrava era a vontade, o gesto que se aproximava da acção, qualquer coisa vital. Choraste uma vez à minha frente há muito anos atrás quando as crianças corriam no pátio como hoje e te esqueceste dos frutos da figueira, que a dor tem um nome.Falavas da cidade de Lisboa que tu amavas, das ruas que só tu conhecias, e do tempo que não é este tempo. As tuas feridas eram as de um povo, uma nação, uma terra que aprendeste a amar. O amor de Deus supera, ultrapassa, guia, orienta. Deus quer que tu estejas ali onde estás agora. As crianças orfãs, sem pai, mãe, abandonadas, esquecidas, jogam no pátio. Os teus filhos são parte do amor de Deus. Adeus, Inácio, reza por nós, que a redenção vença o egoísmo.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Silêncio

Silêncio que as palavras pouco dizem
Surpresa mas a palavra não é justa
Silêncio e fica tanto por dizer
O nome diz-me sempre tanta coisa
Ígnea e incandescente criatura
A dureza na crueza de uma vida
A cada um a sua sepultura
Melhor será lembrar a tua gesta
Bem longe dos trilhos e da glória
Morreste sem o cheiro do capim
Mas podes no silêncio destes versos
Ouvir o último toque do clarim.

À memória de Inácio Beja.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

O povo e o poder

Durante a Monarquia, as reformas que o PRP tão eloquentemente recomendava tê-lo-iam fortalecido nas grandes cidades e em meia dúzia de capitais de distrito. Com sorte, teriam talvez levado trinta e tal deputados republicanos ao Parlamento e permitido a conquista de outras tantas câmaras. Assentavam, porém, num postulado falso: o de que o país queria a República. Depois do 5 de Outubro, depressa se tomou claro que não queria. E, assim, esquecendo as suas mais solenes promessas, o PRP nunca decretou o sufrágio universal ou lutou pela descentralização eleitoral e administrativa. A longo prazo, o democratismo republicano não podia deixar de se revelar por aquilo que era: a expressão ideológica da vontade revolucionária da pequena burguesia urbana.


Vasco Pulido Valente - O Poder e o Povo, 1976 - Edição Gradiva 2004

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Os desempregados do sistema e as Bolas de Berlim

19 agentes da Polícia Marítima, 21 da GNR, 6 do SEF e mais 6 da insuperável ASAE (nova versão da polícia de costumes) lançaram-se, vertiginosamente, na perseguição de perigosos vendedores de bolas de Berlim. Foi no nosso Algarve, por estes dias.
E a despropósito de bolos veio-me à ideia uma pergunta: onde param os desempregados dos antigos ideais socialistas de paixão centralista? Dou um palpite: talvez que uma boa parte dos que ficaram órfãos depois da queda do Muro de Berlim se tenham reciclado e sejam agora ‘chefes’, pequenos burocratas sublimados, pontuais cumpridores dos limites de velocidade. Mas, como antes, continuam igualmente obstinados, inflexíveis, e não muito inteligentes. Anseiam com fidelidade canina por mais uma lei do Estado, anódina e mesquinha, para impor e fazer cumprir. São eles que dão ordens aos agentes para que se persigam os tendeiros, os que fazem bolos com colheres de pau, os que preparam enchidos com as perigosas práticas tradicionais, e os que fumam! Disciplinados, quadrados, legalistas, europeístas convictos, ei-los a dar ordens aos subalternos enquanto marcham a 'passo de ganso’ prontos a filar no primeiro 'ilegal' que lhes sair ao caminho. O Muro caiu mas que ninguém se fique a rir e a comer bolas com creme. Como as pessoas, também os povos que não têm coragem de enfrentar o que é importante, distraem-se...

domingo, 5 de agosto de 2007

A luta continua

A “soviética” revolução de Outubro, violentíssima génese do mais sanguinário regime conhecido, celebra 90 anos dentro de alguns meses, e é razão para entusiásticas celebrações na próxima festa do “Avante!”, órgão oficial do sistémico Partido Comunista. A inteligenzia apaniguada do regime fechará convenientemente os olhos à ignóbil celebração. Para tanto basta um convite para uma pública passeata no santuário do Seixal que logo o tinto carrascão e umas febras fumegantes, adormecem a sua sensibilidade democrática. A boa propaganda assim aconselha, pois afinal não é tudo tão “relativo”?
Entretanto, à conta do erário público, preparam-se os nacionalíssimos festejos do centenário da velha e caduca república do não menos passado Dr. Vital Moreira. Celebremos então a carbonária, a formiga branca e o camião da morte. Rejubilemos com as perseguições e o ressentimento sanguinário, o assassinato politico, a desregulação democrática, enfim, o completo caos.
A gananciosa fidalguia regimental, em plena posse da máquina de propaganda, rejubila com a previsível festança para o pagode iletrado. Para o povo historicamente analfabeto e acrítico, hoje alienado com as ilusões da fortuna pós-moderna: viagens enlatadas, telemóveis topo de gama, unhas de gel e outros ídolos do jet 7. Uma vertigem de prazer inusitado.
Abaixo da superfície, uma ligeira vibração é perceptível. Sinais de que a história não acaba aqui e de que a luta continua.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

História de algibeira (13)


Em cima, um precioso instantâneo de Joshua Benoliel, tirado no fatídico dia 1 de Fevereiro de 1908 no Terreiro do Paço onde se encontram D. José de Mello (Sabugosa), Tenente-coronel Alfredo de Albuquerque, Conde de Castro (meu bisavô), Capitão Roçadas e o conde de Mesquitela, aguardando a chegada da família real vinda de Vila Viçosa.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Outubro Negro

«Pela primeira vez pus em dúvida o verdadeiro
sentido do conceito de superioridade moral
dos comunistas, ao constatar que as vítimas
do comunismo são vítimas iguais às do nazismo.
O terror revolucionário, com raízes no terror
jacobino, abriu caminho a um dos
maiores dramas a que assistimos no século XX,
o comunismo (…)A imprensa russa publicava
todos os dias novos casos de vítimas da
repressão comunista:Oitenta por cento dos
membros do Partido Comunista, filiados antes
de 1917, foram presos e mortos. Nos anos 30,
um milhão e 300 mil comunistas (mais de
um terço do total de militantes) foram presos.
Em 1934, cinquenta por cento do total de
membros do PCUS tinham já sido presos e
na sua maioria fuzilados. Dois terços dos
membros do Comité Central do tempo de Lenine
foram mortos, barbaramente assassinados,
depois de torturados e caluniados.”»
do livro “Foi Assim” de Zita Seabra


Já viram os cartazes da festa do Avante, a anunciar a comemoração dos noventa anos desta revolução?!! O pior cego é aquele que, podendo, se recusa a ver. E esta é uma cegueira que domina grande parte do pensamento e da cultura actual. Será, sem dúvida, um grande Bem para todos, que dela se libertem.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Bergman, o sec.xx

Morreu esta tarde quando as agências anunciaram a sua morte. Com Tarkovsky foi o maior cineasta do cinema europeu. Este filmou a Fé, o homem diante dela. Bergman filmou o Eros, as resiliências da alma, a dúvida, os actos humanos. Aborrecia-se quando diziam que a sua influência era Kierkegaard. Queria estar perto do Díonisos de Nietzsche, atormentava-o o sofrimento da vontade, a chama do fogo.Bergman nunca filmou o acto de consumir, as drogas como derrota do homem, como fazem os medíocres. Mas filmou o que está antes, a génese e o príncipio da crise, a ruptura existencial: a solidão, a incapacidade de amar, o degelo das relações, o mal estar que o outro provoca, a violência dos sentimentos como entidade anónima que supera o eu, a ruptura com qualquer horizonte de sentido. Em Bergman o acto de viver é sempre um traço instável, as coisas assumem-se, não como um valor, mas como um desafio que se tem de incorporar. Veja-se a questão da afectividade e de como esta é quase sempre uma violência, remetendo para uma animalidade incontida ( " O Silêncio", " Lágrimas e Suspiros", "Persona", " Mónica e o desejo"). Bergman encarnou em toda a segunda metade do sec xx, as dúvidas do homem depois das guerras mundias, e os significados da ausência de sentido. O último filme "Sarabanda" era a possibilidade, o violoncelo imenso, infindável, que no recorte da tela branca procura o repouso, a recta interminável que se estica na busca de um fim.

Férias

Estava a entrar naquele estado de sonolência, que o sol provoca, depois de um reconfortante banho de mar, quando a minha filha Margarida de seis anos, sentando-se ao meu lado, a olhar o oceano, pergunta:
-Ó Pai, o que há no outro lado do mar?
- A América...onde vive a tia Catarina – resposta imediata.

Este curtíssimo diálogo despertou-me da sonolência e deixou-me a pensar. Há 500 anos
como teria respondido o pai à sua filha? Aliás, há 500 anos atrás, muitos pais se
puseram diante deste mistério, e partiram, largando família, terras, bens, à descoberta de “novos mundos para dar ao Mundo”. Tinham uma alma grande como tão bem descreve Fernando Pessoa:

“E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar
.”

Que diferença! Que pequenino me sinto com tão pequenina resposta!
Hoje, que ambições nos movem, o que nos faz “partir”? Dinheiro, bem-estar,
sucesso, prazer e que mais? Ou pior ainda, será que já nem perguntas nos fazemos?
Hoje sabemos mais, muito mais, mas não será que estamos bem mais aquém?
E mais uma vez o poeta me vem à memória:

«Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

……………………………………………
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!»


Estava eu absorto nestes pensamentos, quando escuto a Margarida, a fazer a mesma pergunta, desta vez à mãe, provavelmente insatisfeita com a minha resposta:
-Ó mãe, o que há no outro lado do mar?
-África…onde vivem a tia Isabel e o tio João.

domingo, 29 de julho de 2007

A minha selecção

Olho os escaparates dos jornais e o mundo parece querer dar-me razão, mas é apenas uma ilusão de óptica, a vida é um jogo, amanhã é a vez dos outros e tudo volta ao princípio! Ainda assim, hoje, posso celebrar o acerto de algumas previsões:

“Morgado alvo de inquérito” – Inevitável, caro Watson, como diria o nosso amigo Sherlok Holmes, temos o apito envenenado, transformado em arma de arremesso entre clubes, ajuste de contas entre o norte e o sul. É caso para exclamar – meu Deus, como aumentou o poder da burocracia na capital! E concluir – meu Deus, como baixou a capacidade industrial do norte!
E o nosso detective haveria de perguntar – então, e as escutas a sul de Rio Maior? Será que a corrupção desportiva é privilégio nortenho? Quem são afinal os clubes que ganham sempre…há mais de meio século? A haver suspeitas deveriam recair sobre este facto insólito e sobre os ditos clubes. São três, não há que enganar, ocupam tudo e todos, dispõem de tudo e de todos, parece até que os outros não existem, nem são necessários!
Bem, o Boavista ganhou uma vez, sussurrou Watson, a medo. Mas em que condições, insistiu Sherlok?
Mudemos de assunto porque já percebi que por aqui não me governo.

“Pinto Monteiro nomeou a equipa de Maria José Morgado coordenadora de todos os processos relativos à Câmara de Lisboa” – Inevitável, caro Watson, com as gémeas à bulha, o melhor é retirar para local mais seguro. A Câmara é agora um sítio pacificado, sem Carmona, tudo se resolve. O Governo apoia no que for preciso.
Mas agora digo eu – depois das declarações pós-eleitorais de Saldanha Sanches, em que sugeriu que Carmona devia ser ‘banido’ por ter desbaratado dinheiros públicos, chegando ao ponto de se preocupar com os votos que lhe foram atribuídos nas intercalares, não me parece boa ideia nomear Maria José Morgado, que é sua mulher, para averiguar processos em que o mesmo Carmona é arguido!
O que é que acham?
Mudemos também de assunto.

"Viemos aqui parar através de uma agência de ‘casting’ chamada NPB. Recebemos trinta euros”.
Fonte: Criança presente na cerimónia de apresentação do Plano Tecnológico da Educação.
Evitável, caro Watson.

Saudações monárquicas.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

História de algibeira (12)

Aquando do juramento da carta constitucional, por parte do Rei D. Carlos a 19 de Outubro de 1889 foi inaugurada em Lisboa a avenida com o seu nome (na foto, daqui).

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Câmara ardente

Inesgotável, depois dos doze candidatos é a vez da equipa morganática apontar baterias à Câmara de Lisboa. Para resolver os casos que afastaram Carmona e entronizaram Costa. Mas este movimento sabe a retirada estratégica que aquilo lá no apito dourado, com as gémeas à bulha, ameaça guerra civil! Estou a ver o filme – Ana do norte, envolta no estandarte do dragão, desafia Carolina do sul, encarniçada defensora da águia! É filme para festival, tem laivos de secessão, por isso, o avisado procurador da república mandou recolher as suas hostes. É pena, porque ficam por esclarecer aqueles casos do sumiço do dinheiro para paraísos fiscais, lembram-se?! As transferências do Mantorras, do Pepe, do João Pinto! E as escutas a sul de Rio Maior, as que se fizeram e as que se podiam ter feito.
Por outro lado, e caso não venham a existir quaisquer provas que incriminem Carmona e a sua equipa, o esforço da procuradora Morgado será inútil porque entretanto a Câmara já mudou de dono. Mais uma razão para acreditar que o apito está inquinado e não vai ser o sucesso justiceiro que tantos esperavam.
A ver vamos.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Un'entrevista di Lavoro à Perugia

[attenzione a la rissalva: questo italiano non é, oviamente, escrito con correzione!]

Patroni - Buon giorno, assietati per favore! Noi gostámi molto di te curriculum. Tu é un ragazzino molto inteligente é prático! Ma esclareceti una cosa: qué vuoi decire, in questa parte di le tue specialitá, qui tu é un specialista in bomb pontinho [bomb.]?
Ragazzo - Bomb pontinho? ... Ah. Ecco! Io sono un specialista in bomboni!
P - Bomboni!? Ma qui pena! La cosa nostra non’é bomboni ma bombini!
R - Ma si tu voi, io puo fare bomboni in forma di bombini!
P - Noi non gostiami di cose dulce, noi habiamo bisogno di un’altre cose! ... Et bombini in forma di bomboni? Tu pensi qui puoi fabricare?
R - Ma qué cosa dicheti? Mamma mia! Io penso qué é méio buscare un’altro lavoro! Arrivederci!
P - Arrivederci! Baci mille!

terça-feira, 24 de julho de 2007

O Tempo, as férias e o que queremos fazer deles


Comecei por estes dias a ler um livro dado à estampa sob o título “Imposturas anticristãs – Dos Evangelhos Apócrifos ao Código Da Vinci”, de Joseph-Marie Verlinde, editado pela Verbo.

Surgiu-me logo no início do capítulo I uma citação de Romano Guardini, extraída de “L’essence du christianisme”, que bem podemos ajustar ao tempo presente, período para muitos de paragem nas tarefas habituais. Falo das férias.

Podemos vivê-las de muitas maneiras, enquadráveis em duas categorias maiores: - de forma inteligente ou de outra.

Quanto à primeira, parece-me ser avisado atender à oportunidade que este tempo nos concede e que consiste em maior liberdade face aos compromissos habituais.
Usar esta liberdade em sentido edificante afigura-se-me um imperativo que deve ser aproveitado para promover a “…intensidade da relação…”. Vale promover a profundidade desta ligação porque a partir dela tudo o resto. “…todas as coisas, o mundo, o destino, as tarefas…” ganham uma nova densidade, ganham o seu sentido pleno.
A proposta de densificação da relação que proponho não é numericamente significativa. Trata-se tão somente de eleger Um só como alvo desta demanda. Que se rentabilize este período para nos aproximarmos d’Aquele que “…está contido em tudo, expresso em tudo, que a tudo dá o seu sentido…”.
É grande demência perdermos mais uma oportunidade da nossa vida, este tempo extraordinariamente favorável, para promovermos o nosso estar em todas as coisas, o nosso estar no mundo, como um autêntico estar no mundo – enraizado na pessoa de Jesus de Nazaré. E porque é que este enraizamento é decisivo? Porque a pessoa de Jesus “…determina tudo o resto, e tão mais profunda e totalmente quanto for a intensidade desta relação…”.

domingo, 22 de julho de 2007

A Costa do problema

Faz hoje uma semana que Lisboa tem um novo presidente. A poeira dos danos começa a assentar e contam-se os ferimentos da direita e da incapacidade do partido maioritário ter tido a maioria absoluta. O problema que se coloca agora é este: que políticas efectivas na área da toxicodependência e como as realizar? António Costa foi muito claro durante a campanha no apoio às salas de chuto como se estas fossem a panaceia que resolvessem todos os problemas. Olhar esta problemática só a partir desta realidade é não compreender o que a envolve.Querem um exemplo: o mundo da noite e a sua cultura. A permissividade da Câmara em deixar as discotecas fecharem para lá da hora e os "after-hours" contínuos que se vão sucedendo. A cultura do mundo da noite é um risco. Ignorar isto é enterrar a cabeça. O conceito de diversão do mundo contemporâneo é o excesso. O alcool, as pastinhas, a cultura dos dj´s, as noites do Algarve, as festas permanentes, o bronzeado invencível. E a droga mora ali, na esquina, na festa que termina às sete da manhã. As salas de chuto resolvem o problema. Assim, anula-se o que todos sabem mas ninguém fala: a droga é (também) um problema de cultura. Divertir-se não é integrar-se no tempo (Heidegger) divertir-se é esmagar o tempo que eu vivo (Lipovetsky). Seguramente Costa sabe disto e sabe que nunca tocará nisto. Perderia as eleições e a posição. Muito antes das salas de chuto estão as noites de verão e das outras estações, e no prazer comprado por medida. A isto chama-se a Costa do problema.

Libertinagens de conveniência

Eu por mim até já estou calejado. Em nome da sacro-santa liberdade de expressão alheia, desde sempre e sob o patrocínio do regime, testemunhei conformado nos media, as mais impunes e gratuitas provocações à minha fé e outras minhas causas desalinhadas. E diz-me a experiência que qualquer reacção piora sempre as coisas, é melhor nem ligar. Há muito que conheço o valor da minha liberdade em confronto com a das vozes do regime. Mas com o tempo ganhei imunidade e indiferença. Valem-me as minhas convicções, e também o exemplo de Cristo.
Vem isto a propósito do caso das infames caricaturas dos Príncipes Filipe e Letícia publicadas em Espanha. E não é que a fecunda liberdade de expressão de nuestros hermanos comoveu desde logo alguns nossos tolerantes e laicos republicanos? Foi o caso de Ferreira Fernandes com a sua ironia ao lado de quem, no mesmo DN, o caricaturista porno Vilhena (sem link) quase se revela um sensível conservador.
Mas cá no quintal, só se promove a respeitabilidade num sentido: o devido aos senhores do regime e seus venerandos mitos ou símbolos. Experimentem só xingar da bandeira da republica, ou gozar com a licenciatura do nosso primeiro ministro...
De resto, imagine-se indignação da "inteligenzia regimental", se uma perversa publicação doméstica parodiasse os nossos estimados Aníbal e Maria naqueles realíssimos preparos... Não tinha mesmo graça nenhuma, pois não?!

sexta-feira, 20 de julho de 2007

História de algibeira (11)

Na fotografia (daqui), a moderníssima Av. Rainha D. Amélia em 1908. Após a revolução de 5 de Outubro a conhecida artéria Lisboeta foi renomeada Almirante Reis.