sábado, 1 de setembro de 2007

New age

O moderníssimo aparelho do meu carro lê os CDs em MP3. Neste “formato” cabem quase vinte álbuns num simples CD de 700 megas. A fartura é tanta que o pobre desconfia. Com o ouvido atento, apercebo-me como o processo de compactação digital nos defrauda, prescindindo de tantos “bites e baites”, aparentemente redundantes. Ou eliminando os sons considerados inaudíveis ao ouvido "comum". Confesso que aquele som, redondo e de plástico, ao princípio até soa agradável. Mas ficamos com a ausência da alma, dos sombreados, dos degradés e dos ecos mais subtis da peça. Desvanece-se a profundidade e o relevo, a coloração sonora impressa pelo espaço, pela sala ou pelo estúdio e os seus materiais.
Chegado a casa, cedo à urgência: ligo o amplificador, ponho a rodar o gira-discos, fecho a porta, ajusto o volume, ponho cuidadosamente o vinil a reproduzir o órgão de Tom Koopman, tocando a Tocata e Fuga BWV 565 de Bach. Respiro profundamente e deixo-me ir.
Infelizes os satisfeitos com o que os seus humanos e precários sentidos alcançam. Vendo pouco e crendo pouco. Conformados. Tantas vezes cínicos.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Aix

Os franceses chamam-lhe assim. So Aix. Aix-en-Provence dizem todos os estrangeiros. Se fosse possivel escolher um lugar, uma cidade, uma ideia, uma luz era aqui. Na estaçao de S. Charles, em Marselha, a esquerda, apanha-se um comboio regional, pequeno, estreito. Toda a gente folheia jornais regionais, quase ninguem toca nos jornais de Paris, e demasiado longe, o mundo e outro. A estaçao de Aix e pequena, duas linhas, para norte e Sul, e depois entra-se na luz, na claridade, em Cezanne, o mais belo pintor do tempo que ainda e o nosso. Existe um carossel onde as crianças brincam, existe algum lugar em França onde nao exista um carossel? E sabado a tarde e na Place Maribeau, o centro de Aix, so existe o silencio e as flores e a catedral e as ruelas por onde a luz nasce. So existe um pequeno rumor de um grande ecran onde se ve o jogo de raguebi, a França joga e e o desporto amado pelos franceses. Procurar a luz e procurar a essencia dos objectos, o que eles sao, a realidade. Cezanne e o pintor da luz, dos objectos que procuram uma ordem. As flores brilham, pendem das varandas e as casas projectam uma luminosidade e uma beleza que sufocam. Existe sempre referencias a Cezanne , a sua casa, as suas pinturas. A luz e o centro, e o misterio, o silencio perpetuo. Volto a Marselha no comboio e leio o jornal de Paris. Na pagina 13, ao fundo uma pequena noticia: um restaurante esta a vender pizzas com marijuana e um jornal publicou a receita o que esta a causar indignaçao na populacao local. A luz de Aix nao termina, a luz e o lugar.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

As Férias Que Mais Admiro


São as que moem até doer
e que espremem a resistência que pensávamos já não ter.
São as que nos entranham todo o corpo do lodo que trilhamos
e nos ensopam do frio da chuva
que aparece sem ser o seu tempo.
As que têm noites pouco dormidas
no desconforto de um chão duro
e dos zumbidos das melgas
impossíveis de combater no escuro.

E destas férias nasce o descanso mais procurado
(e tão pouco encontrado)

São as que nos põem a andar horas a fio,
secos ou molhados, sem conhecer o fim
mas na certeza que vamos e chegamos contentes,
porque vale a pena arriscar no que mais custa.
Vimos e ouvimos o Belo
e aprendemos a deseja-lo mais nosso.
Com gosto, esforçamo-nos pelos outros,
e percebemos como isso é tão bom.
Muitos, e com vidas tão diferentes,
rimos de coisas simples, e sorrimos por dentro
ao olhar para os risos sinceros de quem nunca assim se riu.
Sentimos a falta dos nossos que não estão,
mas aprendemos a amar mais os que estão.

Acabamos com a alma grande,
admirados com a certeza de que
(como alguém dizia)
O Bem vence.

Entre amigos, são assim as férias que mais me admiram,
as que passamos juntos,
nos acampamentos do Vale de Acór.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Bom dia!!!

Bom dia, bom dia, bom dia a toda a gente
Eu hoje vou trabalhar e por isso estou contente!!!


P. S. - É óptimo depois das férias saber que temos um trabalho que nos espera... não?

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Foi Assim II

Tenho estado de férias e (salvo esta rara excepção) muito longe de qualquer possibilidade de acesso à internet e à blogosfera - Deus seja louvado por isso, que eu bem precisava deste descanso. Aproveitei entretanto para pôr algumas leituras em dia e foi assim que, na sequência duma promessa anterior me deitei a ler o "Foi Assim" de Zita Seabra.

Impressionou-me a descrição daqueles dias de medo e solidão, daquela entrega total e gratuita ao que, para si e naquela altura, era a causa mais bela e nobre que alguém poderia abraçar, a luta pelo supremo bem! Confesso que li a obra com o mesmo tipo de paixão com que se lê um bom romance. Senti-me na pele da autora, sofri com ela, tive medo por ela, vibrei com ela no "dia da liberdade", senti o alívio de poder viver já sem medo. Senti-lhe a alegria de poder voltar a estar com a família e com os amigos de quem se separara havia tantos anos; de poder finalmente encontrar-se frente a frente com caras que sabia existirem mas que nunca tinha podido olhar. Quando parecia que se iria finalmente realizar aquilo porque tanto lutara, consegui perceber o seu empenhamento nessa causa e a obediência cega aos que determinavam o rumo deste "grandioso" momento da história do nosso país.

Finalmente, vivi com ela os tempos de encontro directo com o comunismo real. Senti-lhe a decepção, o horror, a culpa. Intuí-lhe o desespero do sofrimento por uma causa que, não só era uma perfeita mentira, como se revelou como a mais horrível e monstruosa criação da humanidade...

Achei muito importante a denúncia das mentiras e dos enredos enganosos que todos conhecíamos ao Partido Comunista e a Álvaro Cunhal, mas que nunca tinham sido tão sistemática e, nalguns casos, pormenorizadamente descritos. Foi importante ter-nos feito perceber que estivemos por um fio de sermos engolidos por toda essa vergonhosa trama em que a autora tem a coragem de assumir a sua participação activa.

Só me pareceu ter ficado a faltar nesta obra uma referência, senão um agradecimento, por breve que fosse, e que me teria parecido justa, a todos aqueles que, conhecendo de há muito o comunismo real lutaram, antes e depois do 25 de Abril, com todas as suas forças, muitas vezes contra a própria autora, para que tal desgraça nunca caísse sobre Portugal (incluíndo colónias onde, infelizmente, isso não foi conseguido). Mas não me sinto no direito de exigir mais a quem acordou deste longo pesadelo que viveu tão intensamente e durante tanto tempo. Esse pesadelo que, como referi acima, foi a mais horrível e monstruosa criação da humanidade.

"Foi Assim" de Zita Seabra é um livro de que recomendo a todos a leitura.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Tomando sempre novas qualidades...

A maior "revolução" operada na sociedade contemporânea, subtil e orgânica, é aquela que aconteceu à relação entre o pai e os seus filhos. Mais até do que as conquistas femininas, de lugares nos estádios ou em promissoras carreiras.
Apercebo-me hoje que o meu pai ainda esboçou uns tímidos esforços, desajeitadas tentativas de intimidade, inspiradas nos inevitáveis sinais de mudança. Mas a rigidez dos "papéis" estava-lhe demasiado impregnada. Assim como aquela solidão.
A maior "revolução" dos tempos modernos, é a "revelação" da plena paternidade. Hoje, conhecemo-nos cedo, com a ajuda da pele e de uma orgânica cumplicidade. Com muitas canções, lenga-lengas, banhos de banheira, de mar e de mundo. Depois de tudo isto, que venha a vida toda, com os seus anunciados terrores e tempestades. Seremos mais fortes, por certo, o que já não é pouco.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Férias e filhos...


Este mês fomos de férias, nós e tantas outras famílias portuguesas, por esse mundo fora, e por esse "fora cá dentro". Depois da árdua tarefa de conseguir juntar todas as coisas necessárias para uma semana em família, lá fomos nós a caminho dessa casa pequenina, nesse algarve que ninguém conhece.

Aprendemos a simplificar, a piscina de praia é também banheira, para 4, 2 toalhas, põe-se menos sal na sopa para que todos possam comer da mesma, provar a areia é apenas mais uma actividade não dramatizável...

Às sete e meia da manhã começa o dia cheio de energia, não se pára um segundo, não dá para bocejar... Descansámos? Não... mas mudámos de ares, na certeza que somos os mais felizes do mundo por dormir tão pouco e estarmos tão cheios de tanto brincar!!!

História de algibeira (16)

D. Carlos I (1863-1908) foi o primeiro rei de Portugal a morrer de morte violenta depois de D. Sebastião, em 1578. Foi também um dos mais inteligentes e capazes reis do seu tempo, quando a Europa era ainda, com excepção da França e da Suíça, um conjunto de monarquias. (…) D. Carlos tinha 26 anos quando foi aclamado rei, a 19 de Outubro de 1889, e apenas 44 quando morreu, a 1 de Fevereiro de 1908. (…) Era um homem independente, sensato e corajoso, capaz de suportar grandes pressões e de tomar decisões arriscadas quando se impunham. Morreu por causa das suas qualidades, não por causa dos seus defeitos.


In: D. Carlos, por Rui Ramos. Colecção Reis de Portugal - Circulo de Leitores 2006

Agosto

Todos contamos com o calor de Agosto, achamos sempre que os dias vão aquecer, que amanhã é que é, mas o certo é que nunca mais é o bom tempo definitivo, o tempo que esperamos em Agosto.
Todos gostamos de planear qaulquer coisa e tudo, gostamos de saber com o que contar e contar o que sabemos por certo com ar de quem sabe:) Mas na verdade, já alguém o disse de certeza, nada sabemos e nada decidimos ao certo...
Passo a explicar, ou a complicar: agora a coisa é assim, amanhã, o que tenho como certo hoje pode alterar-se de tal forma que o que não era nada esperado se torna realidade.
É como o tempo em Agosto...

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Bandos e bandas

“Drogas em festival de música” era assim que começava a notícia que já não é notícia. E prosseguia: “Desde sexta-feira, dia 17, segundo dia do ‘Freedom Festival’, já deram entrada no serviço de urgência do Hospital de Santa Luzia em Elvas, 36 pessoas com sinais de consumo excessivo de drogas. Uma mulher acabou por morrer…”!
Como é que a coisa se processa? Eu explico: o país está a saque, o clima é ameno, arma-se a tenda num descampado qualquer, o presidente da junta fica muito agradecido porque aparece na televisão, a ‘organização do festival’, palavra-chave que irresponsabiliza toda a gente, faz então a convocatória do evento, anuncia bandas e decibéis. Respondem à chamada hordas de infelizes, só funcionam em bando, só conseguem respirar no restrito circuito do “sexo, drogas e rock and roll”!
À volta do acampamento, a guarda republicana vigia como quem toma conta de um jardim de infância!
.
Fonte: "Correio da Manhã" de 21/08/07.

domingo, 19 de agosto de 2007

A concorrência

Aí estão os primeiros pontapés a sério, a jornada é longa, alarga-se por cinco dias, originalidade portuguesa que só tem paralelo no tamanho dos nossos telejornais, outro caso a pedir reflexão, próprio de alcoviteiros sem emenda.
Mas regressemos ao esférico e àquele jogo de solteiros e casados que decidiu a super taça! Ganharam os casados mas completamente divorciados do bom futebol e não fora um tiro imprevisto de um homem de leste, estou convencido que a coisa só se resolveria na marca das grandes penalidades. E por falar em penalidades, começou um novo campeonato, sem apitos, cheio de promessas, mas a tradição ainda é o que era: Elmano, que não tem nada de sadino, lá fez vista grossa a um daqueles penalties que só não se marcam em Alvalade! À noite, no indescritível programa da TVI que só fala dos clubes do estado, o assunto foi naturalmente desvalorizado, mas se fosse ao contrário, se o Sporting precisasse do rigor da lei para conseguir um bom resultado, o chinfrim que não seria!!!
Vamos até Braga onde os arsenalistas receberam os azuis e brancos com Jesualdo no fio da navalha. Valeu-lhe Quaresma em ‘livre sim’, porque correr e lutar não chegam para ganhar na cidade dos Arcebispos.
A quem não chegou jogar em campo neutro para ganhar, foi ao Benfica! Equipados a rigor, cor-de-rosa, os pupilos de Fernando Santos até nem jogaram mal na segunda parte, Katsouranis elevou-se bem na marcação de um canto e desviou para Petit ganhar vantagem, mas as equipas de Carlos Brito só se rendem no fim e o Leixões conseguiu empatar no fim. Ezequias, o mesmo que quase comprometia a equipa em lance faltoso não sancionado, num último fôlego, lançou o seu ataque e a bola cruzada para o coração da área acabou no fundo da baliza encarnada. O Benfica sem o Veiga não é tão perigoso.
Se é isto a concorrência, o Belenenses pode estar descansado. Do que vi e não vi parece-me que os ‘clubes do estado’ estão mais frágeis, porque o estado está também mais frágil. Uma boa oportunidade para o Belém se aproximar do cimo da tabela.
Saudações azuis.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

História de algibeira (14)

Segundo um relatório de um espião da coroa britânica de serviço em Lisboa ao tempo da “questão inglesa” era nas manobras dos chefes políticos que estava a lógica dos acontecimentos, porque em Portugal “a animosidade dos partidos é mais poderosa do que o patriotismo”.


George Petre, oficio a lord Salsbury, 31.3.1890 In D. Carlos – Rui Ramos, Círculo de Leitores 2006

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Aparição

Já aí vinha o rei de Castela, João,
como se suas muitas gentes fossem as águas do Mondego
escorrerendo tranquilas,
de Coimbra a Lisboa
em passeio.

Já o Mestre ouvira o parecer dos habituais da corte: ‘não’
fazer perigosa guerra
desproporcionada,
pois de um lado ao outro das nossas almas
há receio.

Já em silêncio austero com os seus largara Nuno
levando no sangue
a terra sua
cuja extrema fronteira
era lá aonde chegava
a sua honra.

Quando lhe veio no encalço João Afonso de Santarém:
Que avaliasse melhor,
Que retornasse a Abrantes,
Que viesse a nova conferência.
Que não era homem de muitos conselhos
retorquiu-lhe o Condestável.
Que esperaria o Rei em Tomar.
Senão haver-se-ia com os seus

face ao Leão de Castela.

E, depois,
aos que o seguiam,
com a fluência e gravidade de quem está tomado
de limpa certeza,
com a face como se fora a de um mastro
que flama de beleza,
valente
e fraterno
afiançou:
‘Amanhã estaremos o dar guerra ao rei de Castela
porque a merece.
Deus não é mais inimigo deles do que dos cobardes
que moram do lado de cá.
Deus não é contra os castelhanos, os francos
ou qualquer outro gentio que fora.
Mas Deus dispersa os soberbos.
Deus não é nunca pelos que torcem a liberdade.
Porque Deus amou tanto a liberdade que Lhe chamou santidade.
Deixemos, portanto, a vergonha aos que cresceram a espiarem-se uns aos outros,
adivinhando intrigas.
Vós que do Alentejo comigo viestes
vistes o mundo aparecer-vos largo e fundo.
Trazei sempre dentro da alma a memória do que é grande.
Que o longe seja a vossa cerca.
Deus apareceu a Abraão, a Moisés
e ao meu querido Patriarca Elias.
E o anjo apareceu a Maria porque Deus quis fazer-lhe alta cortesia.
Pela santa Encarnação Deus apareceu a todos os homens.
Os 12 apóstolos apareceram em nome d’Ele em todos os cantos da terra.
E todos os santos são maneiras mil de Deus continuar a aparecer.
E os amigos que são amigos aparecem.
Como nós, então, soldados, amigos do Deus amigo da liberdade,
não haveríamos amanhã de aparecer ao invasor!
Sabeis agora ao que se parece a covardia: não aparecer!
Porque aparecer é já vitória.
Tomemos do Senhor o alento que Ele em nós quis fazer aparecer.
E ousemos, assim,
estar lá
em nome de um povo que espera a nossa aparição’.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Ainda Torga

Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.


Impressiona o drama da sua existência – uma existência tão independente, que procura sempre criticar e actuar contra os atropelos à dignidade, à justiça, preservando a liberdade no sentido que julgava mais autêntico, mas que se foi afastando da fé cristã e da Igreja e, de acordo com a verdade que a caracteriza, não encontrou outro que as substituísse
Daí o seu lamento: "Isto de religião está cada vez pior dentro de mim. Depois de uns arrancos fundos e angustiados, a coisa foi secando até chegar a esta mirra mística, que já não há Jordão teológico capaz de vivificar. Mas quanto mais pobre estou desse conteúdo humano, mais cheio me sinto de desespero. O que eu dava para me levantar cedo esta manhã, ir à missa, e voltar da Igreja com a cara que trazia o meu vizinho" Diário I.
A sua ligação à terra, à montanha, à planície e o relato que faz das mesmas e da lusa gente traça-nos um retrato ainda hoje tão actual do Portugal que somos. Aquele que lê o DIÁRIO, como escreve Sofia de Melo Breyner, "percorre Portugal de lés a lés, o seu espaço telúrico, humano, e o espaço histórico e cultural" (Miguel Torga, Poeta Ibérico).
“Na sua escrita forte como um grito, um apelo da terra que o viu nascer, na sua exemplar dignidade cívica, na inteireza do seu carácter, reencontramo-nos com Portugal”, lê-se na mensagem de Cavaco Silva divulgada pela Presidência da República.
Daí que se perceba tão mal a falta de um membro do governo na comemoração do seu centenário ontem, em Coimbra.
Afinal, sinal dos tempos, este gesto mediocrizante dos responsáveis políticos da nação não é inédito. Mostra bem como encarreiraram por uma compreensão estéril da condição humana, que se resolve bem com planos tecnológicos subservientes da eficiência e da eficácia, mas que ignoram a profundidade da alma humana. Quem se distraiu com as ligeirezas de currículos da disciplina de português do básico e secundário, com os critérios desculpabilizantes dos exames nacionais, com a exoneração da directora do Museu Nacional de Arte Antiga, que julga que os problemas da educação em Portugal se ultrapassam com a facilitação do acesso a computadores portáteis, à introdução de quadros digitais nas salas de aula…, não pode agora espantar-se boquiaberto perante o Marão da indiferença da intelligentzia liderante de Portugal face à efeméride. O pragmatismo reinante é secante, uma vez que diz do caminho a percorrer que ele se faz de eficácia e eficiência que levam ao “sucesso”. Estimular o contacto com os que antes de nós tiveram de lidar, bem ou mal, com o cabo das tormentas com que tantas vezes a existência nos brinda, não é caminho para considerar em tempo de luta contra o deficit ou de recuperação do atraso económico face ao resto da Europa comunitária. Esta percepção das coisas castra a vida que habita o homem, reduzindo-o apenas a peça de uma mera engrenagem. É outra a voz agora escutada. A. Huxley e o seu Admirável Mundo Novo estão decerto bem mais próximo das cogitações dos senhores do momento. Pior para todos.

domingo, 12 de agosto de 2007

A Torga

(No dia em que se festejam os 100 anos do seu nascimento)

I

Nervos tensos em direcção à liberdade
sem jamais te ajoelhares livre,
até de ti mesmo.

Revolta de adolescente perpetuada
na saturação da Casa,
sempre a dizer não.

Sempre a solitária coragem,
gémea do medo
ao sabor da comunhão no Sangue.

Teu o desejo de aventura,
margeando o Caminho,
sem te abeirares da sua graça.

Cantos à justiça que mutuamente nos devemos
alevantados numa memória ferida por todas as fomes,
mas que recusou o Pão.

Que pena tua pena
de poeta,
sim,
mas de poeta santo
não.

II

Sabe, porém,
que nunca te esqueci
Sou o teu irmão Abel.
embora nos dias das tuas palavras amargas
me julgues mais parecido com o ressentido Caim.

E venho hoje agradecer-te
o quanto vindimaste para mim,
ó homem duro do douro tão amado:
Vertigens, paisagens perigosas que transportamos em nós.
Brusquidões, vulcões por dentro e por fora.
Descrição, navegação certeira no oceano da vida.
Nobreza, grandeza no espanto face à terra.
Intuição, fruição do que desponta de único nas gentes.
Alento, rebentar a querer dizer.
Mirad’oiros, versos nascidos nas fragas,
lá onde a beleza te inflamava.

sábado, 11 de agosto de 2007

Inácio

(Embora chegue atrasada aqui fica também a minha homenagem a um ‘fora de estrutura’ muito peculiar)

Chamava-se Inácio Beja. Era alentejano. Mas poderia ser também de Braga ou Castelo Branco, homem que era da cor de Portugal inteiro. Por alcunha chamavam-no ‘china’, ele que teve sempre os olhos rasgados na direcção da aventura. Cresceu em Lisboa, lá para o Intendente. Aí se talhou o seu carácter castiço e fadistote, sempre pronto para os lances marialvas. Terá amado alguma mulher, ele que procurou consolo em tantas? Foi emigrante em França, a ver se escapava a esse outro fado da miséria.
Por saudades da mãe regressou. Assim o confidenciou certa vez, ele que parecia não ter ‘fraquezas’. O pai comunista não venceu nele o amor da pátria. E lá foi, soldado comando, onde o chamava o sentido guerreiro da honra. Porque 600 anos de história tinham-no habituado a considerar que era venturoso por a lança em África (nesse tempo em que a geografia nacional não incluía a Bósnia, o Afeganistão ou outros destinos esdrúxulos...).
Não deveriam ser muito diferentes dele os soldados do Mouzinho ou os homens tipo Silva Porto. Os que se aventuraram bandeirantes pelo Sertão e pela Amazónia seriam , certamente, gente da sua têmpera. E assim, também, os heróis que não viraram a cara ao Adamastor. Creio, obviamente, que ele teria sido um peão valente em Aljubarrota e teria estado entre os primeiros que, ás ordens de algum dos Afonsos, fosse mandado escalar a muralha dum qualquer castelo mouro.
Mas ele era ainda português pela particular índole da sua cordialidade. Teimoso e obstinado, capaz de umas quantas piruetas para se safar nalgum ‘flagrante delito’, o Inácio aparecia sempre a querer conversar, a dizer qualquer coisa, a animar a conversa com uma história, uma opinião ou uma facécia qualquer. Era amigo naquele sentido preciso, e precioso, de quem deseja, sobretudo, estar com os seus amigos. Com os subalternos era capaz de ser severo, mas mais por gostar de embirrar.
Desembaraçado, bravo, na cara gasta, que não mentia acerca de um corpo exausto, via-se que gostava de viver com as duas mãos cheias.
Tinha uma consciência tímida, que sempre fez por disfarçar, porque os homens não choram. E por isso mutilou-se asperamente e chorou sozinho anos a fio. Até que no Vale de Acór deixou de se flagelar. Aí a sua liberdade passou a ser querer estar em relação, com os do Vale de Acór. Na verdade, foi aí, também, que a misericórdia de Deus o entregou àquela Casa sustentada pelo Samaritano. No dia 7 cumpriu a sua última missão, apresentando à sua filha a Igreja . Com efeito, também ela participou na Procissão acendida na fé dos amigos que o acompanharam àquela terra última que é apenas sacramento da outra prometida.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

O amor de Deus

Partiste quando as crianças jogavam à bola no pátio, quando os teus filhos na dor, na solidão e no sofrimento tomavam banho e não sabem o que é a morte. As nossas crianças do campo de férias são teus filhos, Inácio, amam a vida e constroem -na para lá da ausência, da separação, da raiva da expurgação. Uma criança é fruto de um gesto, uma consequência que ultrapassa a individualidade dos seres. Estar vivo é aceitar que se pode amar, caminhar. Partiste durante o nosso campo de férias. Quando a inocência, o gesto incontrolado, e o sorriso eram o fruto. Lembro-me de ti, Inácio, a tua vida escorria sangue, fel, ruptura. Mas tu não amavas as palavras, as cadências, a ti o que te sobrava era a vontade, o gesto que se aproximava da acção, qualquer coisa vital. Choraste uma vez à minha frente há muito anos atrás quando as crianças corriam no pátio como hoje e te esqueceste dos frutos da figueira, que a dor tem um nome.Falavas da cidade de Lisboa que tu amavas, das ruas que só tu conhecias, e do tempo que não é este tempo. As tuas feridas eram as de um povo, uma nação, uma terra que aprendeste a amar. O amor de Deus supera, ultrapassa, guia, orienta. Deus quer que tu estejas ali onde estás agora. As crianças orfãs, sem pai, mãe, abandonadas, esquecidas, jogam no pátio. Os teus filhos são parte do amor de Deus. Adeus, Inácio, reza por nós, que a redenção vença o egoísmo.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Silêncio

Silêncio que as palavras pouco dizem
Surpresa mas a palavra não é justa
Silêncio e fica tanto por dizer
O nome diz-me sempre tanta coisa
Ígnea e incandescente criatura
A dureza na crueza de uma vida
A cada um a sua sepultura
Melhor será lembrar a tua gesta
Bem longe dos trilhos e da glória
Morreste sem o cheiro do capim
Mas podes no silêncio destes versos
Ouvir o último toque do clarim.

À memória de Inácio Beja.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

O povo e o poder

Durante a Monarquia, as reformas que o PRP tão eloquentemente recomendava tê-lo-iam fortalecido nas grandes cidades e em meia dúzia de capitais de distrito. Com sorte, teriam talvez levado trinta e tal deputados republicanos ao Parlamento e permitido a conquista de outras tantas câmaras. Assentavam, porém, num postulado falso: o de que o país queria a República. Depois do 5 de Outubro, depressa se tomou claro que não queria. E, assim, esquecendo as suas mais solenes promessas, o PRP nunca decretou o sufrágio universal ou lutou pela descentralização eleitoral e administrativa. A longo prazo, o democratismo republicano não podia deixar de se revelar por aquilo que era: a expressão ideológica da vontade revolucionária da pequena burguesia urbana.


Vasco Pulido Valente - O Poder e o Povo, 1976 - Edição Gradiva 2004

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Os desempregados do sistema e as Bolas de Berlim

19 agentes da Polícia Marítima, 21 da GNR, 6 do SEF e mais 6 da insuperável ASAE (nova versão da polícia de costumes) lançaram-se, vertiginosamente, na perseguição de perigosos vendedores de bolas de Berlim. Foi no nosso Algarve, por estes dias.
E a despropósito de bolos veio-me à ideia uma pergunta: onde param os desempregados dos antigos ideais socialistas de paixão centralista? Dou um palpite: talvez que uma boa parte dos que ficaram órfãos depois da queda do Muro de Berlim se tenham reciclado e sejam agora ‘chefes’, pequenos burocratas sublimados, pontuais cumpridores dos limites de velocidade. Mas, como antes, continuam igualmente obstinados, inflexíveis, e não muito inteligentes. Anseiam com fidelidade canina por mais uma lei do Estado, anódina e mesquinha, para impor e fazer cumprir. São eles que dão ordens aos agentes para que se persigam os tendeiros, os que fazem bolos com colheres de pau, os que preparam enchidos com as perigosas práticas tradicionais, e os que fumam! Disciplinados, quadrados, legalistas, europeístas convictos, ei-los a dar ordens aos subalternos enquanto marcham a 'passo de ganso’ prontos a filar no primeiro 'ilegal' que lhes sair ao caminho. O Muro caiu mas que ninguém se fique a rir e a comer bolas com creme. Como as pessoas, também os povos que não têm coragem de enfrentar o que é importante, distraem-se...

domingo, 5 de agosto de 2007

A luta continua

A “soviética” revolução de Outubro, violentíssima génese do mais sanguinário regime conhecido, celebra 90 anos dentro de alguns meses, e é razão para entusiásticas celebrações na próxima festa do “Avante!”, órgão oficial do sistémico Partido Comunista. A inteligenzia apaniguada do regime fechará convenientemente os olhos à ignóbil celebração. Para tanto basta um convite para uma pública passeata no santuário do Seixal que logo o tinto carrascão e umas febras fumegantes, adormecem a sua sensibilidade democrática. A boa propaganda assim aconselha, pois afinal não é tudo tão “relativo”?
Entretanto, à conta do erário público, preparam-se os nacionalíssimos festejos do centenário da velha e caduca república do não menos passado Dr. Vital Moreira. Celebremos então a carbonária, a formiga branca e o camião da morte. Rejubilemos com as perseguições e o ressentimento sanguinário, o assassinato politico, a desregulação democrática, enfim, o completo caos.
A gananciosa fidalguia regimental, em plena posse da máquina de propaganda, rejubila com a previsível festança para o pagode iletrado. Para o povo historicamente analfabeto e acrítico, hoje alienado com as ilusões da fortuna pós-moderna: viagens enlatadas, telemóveis topo de gama, unhas de gel e outros ídolos do jet 7. Uma vertigem de prazer inusitado.
Abaixo da superfície, uma ligeira vibração é perceptível. Sinais de que a história não acaba aqui e de que a luta continua.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

História de algibeira (13)


Em cima, um precioso instantâneo de Joshua Benoliel, tirado no fatídico dia 1 de Fevereiro de 1908 no Terreiro do Paço onde se encontram D. José de Mello (Sabugosa), Tenente-coronel Alfredo de Albuquerque, Conde de Castro (meu bisavô), Capitão Roçadas e o conde de Mesquitela, aguardando a chegada da família real vinda de Vila Viçosa.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Outubro Negro

«Pela primeira vez pus em dúvida o verdadeiro
sentido do conceito de superioridade moral
dos comunistas, ao constatar que as vítimas
do comunismo são vítimas iguais às do nazismo.
O terror revolucionário, com raízes no terror
jacobino, abriu caminho a um dos
maiores dramas a que assistimos no século XX,
o comunismo (…)A imprensa russa publicava
todos os dias novos casos de vítimas da
repressão comunista:Oitenta por cento dos
membros do Partido Comunista, filiados antes
de 1917, foram presos e mortos. Nos anos 30,
um milhão e 300 mil comunistas (mais de
um terço do total de militantes) foram presos.
Em 1934, cinquenta por cento do total de
membros do PCUS tinham já sido presos e
na sua maioria fuzilados. Dois terços dos
membros do Comité Central do tempo de Lenine
foram mortos, barbaramente assassinados,
depois de torturados e caluniados.”»
do livro “Foi Assim” de Zita Seabra


Já viram os cartazes da festa do Avante, a anunciar a comemoração dos noventa anos desta revolução?!! O pior cego é aquele que, podendo, se recusa a ver. E esta é uma cegueira que domina grande parte do pensamento e da cultura actual. Será, sem dúvida, um grande Bem para todos, que dela se libertem.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Bergman, o sec.xx

Morreu esta tarde quando as agências anunciaram a sua morte. Com Tarkovsky foi o maior cineasta do cinema europeu. Este filmou a Fé, o homem diante dela. Bergman filmou o Eros, as resiliências da alma, a dúvida, os actos humanos. Aborrecia-se quando diziam que a sua influência era Kierkegaard. Queria estar perto do Díonisos de Nietzsche, atormentava-o o sofrimento da vontade, a chama do fogo.Bergman nunca filmou o acto de consumir, as drogas como derrota do homem, como fazem os medíocres. Mas filmou o que está antes, a génese e o príncipio da crise, a ruptura existencial: a solidão, a incapacidade de amar, o degelo das relações, o mal estar que o outro provoca, a violência dos sentimentos como entidade anónima que supera o eu, a ruptura com qualquer horizonte de sentido. Em Bergman o acto de viver é sempre um traço instável, as coisas assumem-se, não como um valor, mas como um desafio que se tem de incorporar. Veja-se a questão da afectividade e de como esta é quase sempre uma violência, remetendo para uma animalidade incontida ( " O Silêncio", " Lágrimas e Suspiros", "Persona", " Mónica e o desejo"). Bergman encarnou em toda a segunda metade do sec xx, as dúvidas do homem depois das guerras mundias, e os significados da ausência de sentido. O último filme "Sarabanda" era a possibilidade, o violoncelo imenso, infindável, que no recorte da tela branca procura o repouso, a recta interminável que se estica na busca de um fim.

Férias

Estava a entrar naquele estado de sonolência, que o sol provoca, depois de um reconfortante banho de mar, quando a minha filha Margarida de seis anos, sentando-se ao meu lado, a olhar o oceano, pergunta:
-Ó Pai, o que há no outro lado do mar?
- A América...onde vive a tia Catarina – resposta imediata.

Este curtíssimo diálogo despertou-me da sonolência e deixou-me a pensar. Há 500 anos
como teria respondido o pai à sua filha? Aliás, há 500 anos atrás, muitos pais se
puseram diante deste mistério, e partiram, largando família, terras, bens, à descoberta de “novos mundos para dar ao Mundo”. Tinham uma alma grande como tão bem descreve Fernando Pessoa:

“E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar
.”

Que diferença! Que pequenino me sinto com tão pequenina resposta!
Hoje, que ambições nos movem, o que nos faz “partir”? Dinheiro, bem-estar,
sucesso, prazer e que mais? Ou pior ainda, será que já nem perguntas nos fazemos?
Hoje sabemos mais, muito mais, mas não será que estamos bem mais aquém?
E mais uma vez o poeta me vem à memória:

«Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

……………………………………………
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!»


Estava eu absorto nestes pensamentos, quando escuto a Margarida, a fazer a mesma pergunta, desta vez à mãe, provavelmente insatisfeita com a minha resposta:
-Ó mãe, o que há no outro lado do mar?
-África…onde vivem a tia Isabel e o tio João.

domingo, 29 de julho de 2007

A minha selecção

Olho os escaparates dos jornais e o mundo parece querer dar-me razão, mas é apenas uma ilusão de óptica, a vida é um jogo, amanhã é a vez dos outros e tudo volta ao princípio! Ainda assim, hoje, posso celebrar o acerto de algumas previsões:

“Morgado alvo de inquérito” – Inevitável, caro Watson, como diria o nosso amigo Sherlok Holmes, temos o apito envenenado, transformado em arma de arremesso entre clubes, ajuste de contas entre o norte e o sul. É caso para exclamar – meu Deus, como aumentou o poder da burocracia na capital! E concluir – meu Deus, como baixou a capacidade industrial do norte!
E o nosso detective haveria de perguntar – então, e as escutas a sul de Rio Maior? Será que a corrupção desportiva é privilégio nortenho? Quem são afinal os clubes que ganham sempre…há mais de meio século? A haver suspeitas deveriam recair sobre este facto insólito e sobre os ditos clubes. São três, não há que enganar, ocupam tudo e todos, dispõem de tudo e de todos, parece até que os outros não existem, nem são necessários!
Bem, o Boavista ganhou uma vez, sussurrou Watson, a medo. Mas em que condições, insistiu Sherlok?
Mudemos de assunto porque já percebi que por aqui não me governo.

“Pinto Monteiro nomeou a equipa de Maria José Morgado coordenadora de todos os processos relativos à Câmara de Lisboa” – Inevitável, caro Watson, com as gémeas à bulha, o melhor é retirar para local mais seguro. A Câmara é agora um sítio pacificado, sem Carmona, tudo se resolve. O Governo apoia no que for preciso.
Mas agora digo eu – depois das declarações pós-eleitorais de Saldanha Sanches, em que sugeriu que Carmona devia ser ‘banido’ por ter desbaratado dinheiros públicos, chegando ao ponto de se preocupar com os votos que lhe foram atribuídos nas intercalares, não me parece boa ideia nomear Maria José Morgado, que é sua mulher, para averiguar processos em que o mesmo Carmona é arguido!
O que é que acham?
Mudemos também de assunto.

"Viemos aqui parar através de uma agência de ‘casting’ chamada NPB. Recebemos trinta euros”.
Fonte: Criança presente na cerimónia de apresentação do Plano Tecnológico da Educação.
Evitável, caro Watson.

Saudações monárquicas.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

História de algibeira (12)

Aquando do juramento da carta constitucional, por parte do Rei D. Carlos a 19 de Outubro de 1889 foi inaugurada em Lisboa a avenida com o seu nome (na foto, daqui).

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Câmara ardente

Inesgotável, depois dos doze candidatos é a vez da equipa morganática apontar baterias à Câmara de Lisboa. Para resolver os casos que afastaram Carmona e entronizaram Costa. Mas este movimento sabe a retirada estratégica que aquilo lá no apito dourado, com as gémeas à bulha, ameaça guerra civil! Estou a ver o filme – Ana do norte, envolta no estandarte do dragão, desafia Carolina do sul, encarniçada defensora da águia! É filme para festival, tem laivos de secessão, por isso, o avisado procurador da república mandou recolher as suas hostes. É pena, porque ficam por esclarecer aqueles casos do sumiço do dinheiro para paraísos fiscais, lembram-se?! As transferências do Mantorras, do Pepe, do João Pinto! E as escutas a sul de Rio Maior, as que se fizeram e as que se podiam ter feito.
Por outro lado, e caso não venham a existir quaisquer provas que incriminem Carmona e a sua equipa, o esforço da procuradora Morgado será inútil porque entretanto a Câmara já mudou de dono. Mais uma razão para acreditar que o apito está inquinado e não vai ser o sucesso justiceiro que tantos esperavam.
A ver vamos.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Un'entrevista di Lavoro à Perugia

[attenzione a la rissalva: questo italiano non é, oviamente, escrito con correzione!]

Patroni - Buon giorno, assietati per favore! Noi gostámi molto di te curriculum. Tu é un ragazzino molto inteligente é prático! Ma esclareceti una cosa: qué vuoi decire, in questa parte di le tue specialitá, qui tu é un specialista in bomb pontinho [bomb.]?
Ragazzo - Bomb pontinho? ... Ah. Ecco! Io sono un specialista in bomboni!
P - Bomboni!? Ma qui pena! La cosa nostra non’é bomboni ma bombini!
R - Ma si tu voi, io puo fare bomboni in forma di bombini!
P - Noi non gostiami di cose dulce, noi habiamo bisogno di un’altre cose! ... Et bombini in forma di bomboni? Tu pensi qui puoi fabricare?
R - Ma qué cosa dicheti? Mamma mia! Io penso qué é méio buscare un’altro lavoro! Arrivederci!
P - Arrivederci! Baci mille!

terça-feira, 24 de julho de 2007

O Tempo, as férias e o que queremos fazer deles


Comecei por estes dias a ler um livro dado à estampa sob o título “Imposturas anticristãs – Dos Evangelhos Apócrifos ao Código Da Vinci”, de Joseph-Marie Verlinde, editado pela Verbo.

Surgiu-me logo no início do capítulo I uma citação de Romano Guardini, extraída de “L’essence du christianisme”, que bem podemos ajustar ao tempo presente, período para muitos de paragem nas tarefas habituais. Falo das férias.

Podemos vivê-las de muitas maneiras, enquadráveis em duas categorias maiores: - de forma inteligente ou de outra.

Quanto à primeira, parece-me ser avisado atender à oportunidade que este tempo nos concede e que consiste em maior liberdade face aos compromissos habituais.
Usar esta liberdade em sentido edificante afigura-se-me um imperativo que deve ser aproveitado para promover a “…intensidade da relação…”. Vale promover a profundidade desta ligação porque a partir dela tudo o resto. “…todas as coisas, o mundo, o destino, as tarefas…” ganham uma nova densidade, ganham o seu sentido pleno.
A proposta de densificação da relação que proponho não é numericamente significativa. Trata-se tão somente de eleger Um só como alvo desta demanda. Que se rentabilize este período para nos aproximarmos d’Aquele que “…está contido em tudo, expresso em tudo, que a tudo dá o seu sentido…”.
É grande demência perdermos mais uma oportunidade da nossa vida, este tempo extraordinariamente favorável, para promovermos o nosso estar em todas as coisas, o nosso estar no mundo, como um autêntico estar no mundo – enraizado na pessoa de Jesus de Nazaré. E porque é que este enraizamento é decisivo? Porque a pessoa de Jesus “…determina tudo o resto, e tão mais profunda e totalmente quanto for a intensidade desta relação…”.

domingo, 22 de julho de 2007

A Costa do problema

Faz hoje uma semana que Lisboa tem um novo presidente. A poeira dos danos começa a assentar e contam-se os ferimentos da direita e da incapacidade do partido maioritário ter tido a maioria absoluta. O problema que se coloca agora é este: que políticas efectivas na área da toxicodependência e como as realizar? António Costa foi muito claro durante a campanha no apoio às salas de chuto como se estas fossem a panaceia que resolvessem todos os problemas. Olhar esta problemática só a partir desta realidade é não compreender o que a envolve.Querem um exemplo: o mundo da noite e a sua cultura. A permissividade da Câmara em deixar as discotecas fecharem para lá da hora e os "after-hours" contínuos que se vão sucedendo. A cultura do mundo da noite é um risco. Ignorar isto é enterrar a cabeça. O conceito de diversão do mundo contemporâneo é o excesso. O alcool, as pastinhas, a cultura dos dj´s, as noites do Algarve, as festas permanentes, o bronzeado invencível. E a droga mora ali, na esquina, na festa que termina às sete da manhã. As salas de chuto resolvem o problema. Assim, anula-se o que todos sabem mas ninguém fala: a droga é (também) um problema de cultura. Divertir-se não é integrar-se no tempo (Heidegger) divertir-se é esmagar o tempo que eu vivo (Lipovetsky). Seguramente Costa sabe disto e sabe que nunca tocará nisto. Perderia as eleições e a posição. Muito antes das salas de chuto estão as noites de verão e das outras estações, e no prazer comprado por medida. A isto chama-se a Costa do problema.

Libertinagens de conveniência

Eu por mim até já estou calejado. Em nome da sacro-santa liberdade de expressão alheia, desde sempre e sob o patrocínio do regime, testemunhei conformado nos media, as mais impunes e gratuitas provocações à minha fé e outras minhas causas desalinhadas. E diz-me a experiência que qualquer reacção piora sempre as coisas, é melhor nem ligar. Há muito que conheço o valor da minha liberdade em confronto com a das vozes do regime. Mas com o tempo ganhei imunidade e indiferença. Valem-me as minhas convicções, e também o exemplo de Cristo.
Vem isto a propósito do caso das infames caricaturas dos Príncipes Filipe e Letícia publicadas em Espanha. E não é que a fecunda liberdade de expressão de nuestros hermanos comoveu desde logo alguns nossos tolerantes e laicos republicanos? Foi o caso de Ferreira Fernandes com a sua ironia ao lado de quem, no mesmo DN, o caricaturista porno Vilhena (sem link) quase se revela um sensível conservador.
Mas cá no quintal, só se promove a respeitabilidade num sentido: o devido aos senhores do regime e seus venerandos mitos ou símbolos. Experimentem só xingar da bandeira da republica, ou gozar com a licenciatura do nosso primeiro ministro...
De resto, imagine-se indignação da "inteligenzia regimental", se uma perversa publicação doméstica parodiasse os nossos estimados Aníbal e Maria naqueles realíssimos preparos... Não tinha mesmo graça nenhuma, pois não?!

sexta-feira, 20 de julho de 2007

História de algibeira (11)

Na fotografia (daqui), a moderníssima Av. Rainha D. Amélia em 1908. Após a revolução de 5 de Outubro a conhecida artéria Lisboeta foi renomeada Almirante Reis.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Foi Assim

Não posso dizer que conheça a Zita Seabra para além daquilo que, ao longo destes trinta e tal anos, tem sido de domínio público. Talvez tenha sido por isso mesmo que este artigo de João Carlos Espada no expresso de Sábado passado me tocou tão fundo.

Neste artigo conseguimos perceber o doloroso percurso de alguém que tentou dedicar a sua vida à verdade e ao bem que a ela é inerente. Fala-nos de quem foi descobrindo rumos que compreendia serem mais certos, assumindo os seus erros com a coragem e a frontalidade de quem, humildemente, se sabe imperfeito.

Entre os muitos problemas da esquerda, talvez o mais grave seja a sua incapacidade de reconhecer o erro. Por um lado expulsaram das suas vidas os conceitos de pecado, arrependimento, perdão e reconciliação, como sendo medievalidades impostas pela Igreja Católica e que convém evitar a todo o custo.

Mas, por outro lado, não é possível vivermos condignamente se não conseguirmos encontrar o perdão (aos outros e a nós próprios) que nos leva à reconciliação. Como resultado, a esquerda só consegue conceber que existam os bons, que são eles próprios e que nunca podem falhar, e os maus, que são os outros, para onde são atiradas todas as culpas. Sempre que algo corre mal... é a direita, os patrões, os americanos, a Igreja, ou quaisquer outros genericamente designados por fascistas, imperialistas, conservadores ou reaccionários.

Olhar para este percurso relatado por JCE (percurso que ele próprio também já percorreu) só me pode trazer a esperança de que, um dia, cada um de nós possa conseguir desfazer-se do seu orgulho e optar por querer seguir o verdadeiro Caminho.

Ainda não li o "Foi assim" mas fá-lo-ei tão breve quanto possível.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Ecce Filius tuus

Foi nesta data, há 310 anos, que se encontrou com Jesus um homem que tão eloquentemente O pregou: Pe António Vieira, sj! Da Baía para uma outra, mais segura, onde o nosso coração pode verdadeiramente repousar!
Hoje também, a nível litúrgico, celebramos um outro grande expoente português: o nosso querido frei Bartolomeu dos Mártires, recentemente
beatificado, a 4 de Novembro de 2001! Pergunto-me em que escola se fizeram tão grandes homens e a melhor resposta que encontro, a partir de Jesus, é: o seu Baptismo – filiação divina – e a sua filiação em Maria.
Que pretendo dizer eu com isto? Eu, nada! Vieira explicou-o tão claramente que aqui coloco as suas palavras, para melhor me dar a entender! E à Senhora do Carmo, peço apenas que no-lo conceda!

''Quando Cristo deu a S. João o cuidado de servir à Senhora, as palavras que disse foram estas: Mulier, ecce Filius tuus: Mulher, eis aí teu filho. Deinde dicit discipulo: Ecce Mater tua: João, eis aí tua Mãe. Mãe e Filho, de que maneira? Mãe tinha S. João, mas era Maria Salomé: Filho era, mas do Zebedeu. Pois se estes eram seus pais, como se chama João filho da Senhora, e a Senhora Mãe de João? É porque João tornou a nascer nesta hora, e nasceu só da Virgem por força das palavras de Cristo. Autores houve, e entre eles expressamente S. Pedro Damião, que disseram, que assim como as palavras, Hoc est Corpus meum [«isto é o meu corpo»], ditas uma vez por Cristo, tiveram força para converter o pão em corpo do mesmo Cristo; assim as palavras, Mulier, ecce Filius tuus, tiveram força para fazer a S. João, e o converterem de filho do Zebedeu em filho de Maria. De maneira, que S. João teve dois nascimentos: um nascimento natural, com que nasceu filho do Zebedeu; outro nascimento sobrenatural, com que nasceu filho da Mãe de Deus. Pelo primeiro nascimento nasceu nas praias do Tiberíade; pelo segundo nascimento nasceu ao pé da cruz. Pelo primeiro nascimento nasceu de geração humilde; pelo segundo nascimento nasceu da mais ilustre e real prosápia que havia no mundo, filho de uma Senhora, herdeira de um rei morto à mão de seus inimigos: Jesus Nazarenus Rex Judaeorum [Jesus de Nazaré rei dos Judeus].''

[Excerto do Sermão do Padre António Vieira proferido na Capela Real em 1642, no dia do nascimento do Rei D. João IV e da festividade de S. José, 19 de Março]

terça-feira, 17 de julho de 2007

Nação Carente

Dediquei-me, há pouco mais de ano e meio, numa hora nocturna com tanto de insónia quanto de vivíssima lucidez, a comentar o atrevimento do então Presidente Sampaio, que por esses dias se dedicava a publicitar a obra que encomendara à pintora oficial de regime, de cujo nome, por ora, não me quero lembrar. Trata-se de um conjunto de quadros que foram colocados a ornamentar a capela do palácio de Belém. Tendo deparado no último sábado com uma entrevista da mesma ‘passionária’ no jornal semanário que frequento e face aos episódios eleitorais que, uma vez mais em Julho, nos guilhotinaram, permito-me partilhar convosco o meu desgosto, mas deixando também, certamente, antever algo do que preenche o meu gosto. Face a circunstâncias que se alteraram, algumas metáforas perderam a pertinência. Por causa de um ou outro constrangimento cortei algumas linhas. Mas, ainda assim, requentado, aqui fica este longo gemido.





Sua Excelência Soberana
anã rã pã
disforme de bom gosto
cegou,
encomendou,
capitulou
e transferiu assim
-contente-
a morgue da Rego para o Palácio!

Mulher exposta descomposta,
mulher embriagada de ressentimentos,
mulher feia no rosto da obra,
mulher configurada desfigurada,
ei-la que berrou,
ou entornou,
ou secou,
ou espirrou –isso-
ou expirou
- ela diz que pintou-
a Anunciação,
a Purificação,
a Natividade,
a Adoração,
a Fuga para o Egipto,
a Lamentação,
a Piedade

que são outros tantos nomes gratuitamente deslocados para descrever as suas insónias,
dificuldades em concentrar-se,
má disposição crónica e desgostos vários
que, afinal, sempre os temos!

E eis, por isso, que nos permitimos sugerir-lhe com toda a sinceridade, com generosidade mesmo:
ela que pinte a mãe, o pai, os irmãos e os filhos e os primos e os vizinhos e mais quem quiser.
Que imprima as suas cores e tensões e todas as outras geniais e comerciais intuições.
Mas ela que nos deixe sossegados.
Ela que nos respeite os sacrários.
Ela que entre para a história pelo lado do mérito.
Ela que faça o flirt ao presidente enviando-lhe postais com outros temas,
como, por exemplo:
Os Painéis de São Vicente (Nuno Gonçalves): o presidente a fazer compras no El Corte Inglês com 40 empresários amigos;
Lição de Anatomia (Rembrandt): outros amigos do presidente a mexer nas vísceras das vítimas (vg, Fidel de Castro, Eduardo dos Santos...);
A Rendição de Breda (Velázquez): o presidente solidário a visitar uma sala de chuto;
Os Fuzilamentos de 3 de Maio (Goya): o presidente a ver o telejornal das privadas;
O Império das Luzes (Magritte): enquanto no céu de Lisboa a luz dança, as janelas abertas do palácio mostram que por ali é noite;
Gótico Americano (Grant Wood): retrato de família;
O Juízo Final (Miguel Ângelo): o presidente de joelhos diante das vítimas do aborto;
Natureza Morta: o presidente a falar à nação que prefere o canal da bola.

Mas está visto que o presidente, que pensa, não pode aceitar a sugestão.
Porque ele pensa o pensamento prensado por outros,
hoje já com um certo travo a azedo, empada de antiga ética laica e republicana,
respeitosíssima dos direitos de todos os cidadãos, iguais face à lei,
mas capaz de uma escapadelasita passional legitimadora de se achincalhar os católicos.

Que fazer, por conseguinte,
já que o presidente é culto, burguês,
e gosta de tertúlias,
das pastelarias de Lisboa e dos pasteis de Londres?
Que fazer, então,
agora que deu em apreciador de pasteis de massa envenenada
made in England,
lá por entre as brumas onde se passeiam feiticeiras castiças


Daí que viva a república!
E que venha de Inglaterra uma vez mais o ultimato!
Que venha de Inglaterra uma vez mais a aliança secular da rainha vitoriosa,
corsáriasita de pincel na mão,
a insinuar-se junto do sucessor angustiado pela necessidade de deixar a sua marca na história.
Ela que venha impor o mapa que retalha a geografia de uma fé.
Sim, que venha o bolo inglês amargado.
Que venha a ancestral democracia imperial desembaraçar-nos da mínima convicção católica.
Que venha outro sorriso liberal à Blair brandir argumentos cirúrgicos contra os inimigos da liberdade.

Porque a democracia tem coisas destas:
o supremo magistrado da nação
–sabichão da flacidez dos ungidos do Senhor,
cansados da história-

encomenda a violação
e recomenda e não se emenda:
a religião que seja bombardeada
já que é perigosa a sua química potência de destruição maciça
capaz de atingir, tingir,
de arrepiante castração o Portugal moderno.
Importe-se a libertação:
e que importa o seu vómito de despeito?
Porque, note-se, o presidente é um democrata!
Ele preocupa-se com o Iraque!
Ele visita minorias!
Ele é um homem ousado,
embora de atrevimentos já um pouco usados;
Ele é um homem de faro e dá-se bem com os resíduos sólidos por tratar;
Ele é um homem marcante no cenário da cultura, com especial gosto por cenas tristes;
Ele recomenda sem cessar fogo: a ONU!
Mas o presidente é covarde: vai nu!
Nu no 25 de Abril de 74: no abrigo de sua casa!
Nu na casa que é de um povo e que profanou agora!

A autonomia da arte não licencia ao inquilino inquinar a capela.
A autonomia da arte não licencia o desaforo;
A autonomia da arte não licencia a desforra;
A autonomia da arte não licencia o vómito institucional.
A autonomia da arte não licencia a exibição das menoridades espirituais do génio da pequenota.

Enfim, lamentamos dizê-lo naquele estilo porreirinho,
Presidente é de mau gosto!
Presidente és vesgo no gosto!
Presidente és um desgosto!
Presidente tens mao gosto!

Talvez que vomites esta argumentação assanhada e te aprontes a exclamar:
Eis a intolerância! Eis a reacção!
Ah! Ah! Já ouves os passos da inquisição?
Ei-la aí, então, vizinha de pesadelos microscópicos
ampliados nessa cabeça ruiva, rasa de percepção.
Acorda:
o inimigo desta vez é a besta que não permite que o teu povo vá mais longe
do que pequena área da TV, caixinha alarve,
alarde da autonomia do intelecto
alienado, confiscado, ofuscado, vulgarizado, pasteurizado,
já sem sabor nenhum senão a pacote.
Sim, acorda!
O teu povo está
distraído da actividade de pensar
a qual é ligeiramente mais complexa do que ler o Record
ver novelas,
contabilizar sondagens,


Mas tu não estás isentado de percebê-lo,
tal é o espectáculo
boçal que nos legam as nossas elites,
elas também alienadas na sua falta de ambição de sentido e significado,
esgotadas na luta entre o estar bem e o bem estar,
própria desse navegadores adoentados,
descendentes daqueles de 500 que,
receosos,
ficaram por cá,
encarregues de guardar os quintais uns dos outros.

No mais e ao resto liberalizar:
aborto, droga,
nados mortos onde se a cultura se afoga
com a benevolência do regente de cabeça ruiva,
ruça de percepção.
É que nem a vizinhança da Torre vos salva,
Excelência Soberana anã rã pã,
do contágio da mesquinhez,
coveiro da necrópole da Rego no Palácio...

(E tu, Paula, bate, continua a bater:
não serias a primeira de tal nome a cair da besta
aterrando finalmente por terra.
Coragem! Ânimo! Rasgo! Originalidade!
Dois mil anos mais à frente,
cem anos depois,
continua a arranhar nas cenas sagradas e no Padre Amaro.
Deus é mais generoso do que nós:
talvez que um dia resvales para dentro
...e sossegues!)

Conhece-te a ti próprio

A empresa onde trabalho iniciou recentemente um programa de formação para quadros superiores que visa acima de tudo o desenvolvimento de competências pessoais e interpessoais, mais do que competências técnicas. E iniciou, como de esperar, com um diagnóstico extensivo de gostos, preferências e atitudes próprias segundo um questionário de modelo americano mas de aferição europeia (valha-nos isso).

O resultado deste questionário é um perfil pessoal, não de competências mas sim comportamental, orientado em 4 eixos, todos positivos (não quero entrar em pormenores técnicos, porque não é a altura para isso). A apresentação dos outputs começava por uma auto-avaliação em que, confrontados com os pólos, escolhíamos o nosso lado.

Eu considero-me uma pessoa bem conhecedora de mim próprio e, confrontado com os meus resultados, deparei-me com 2 situações:

- O que pensava que era, não o era pelas razões que pensava
- O que pensava que não era, até o sou

Parece quase semântico, mas não - cada uma delas pôs o dedo na ferida. Não estou numa fase existencialista da minha vida por isso acolhi os resultados com pragmatismo, condensando duas máximas socráticas: Só sei que nada sei de mim próprio.

O resto é filosofia.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

6 coisas que me chatearam nestas autárquicas

1 – Abstenção. O Tuga não quer mesmo “saber”, a não ser que venha para a rambóia na cámineta do partido com as despesas pagas, "a mais" ao garrafão. Houve quem levianamente rezasse ao S. Pedro para que nos levasse o Sol, o que, como se viu, não serviu de nada. É o “sistema” posto em causa e uma brecha no regime.
2 – A eleição de Sá Fernandes, o socialista de esquerda (!). O anti-sistema a mamar do “sistema”.
3 – O PSD e o seu Negrão. Foi o que se viu, a noite das facas longas é já daqui a pouco. Uma telenovela a não perder, nos meses que se seguem.
4 – CDS. Um partido inteiro a meter água, esvaído de ideias... e de pessoas. E aqueles cartazes que eram um susto!
5 – Um país cor-de-rosa. Com a da direita em autofagia, e uma mãozinha do 5º poder, a jacobinada vai tomando conta do "sistema". O problema é que o “sistema” já tresanda...
6 – Ver a bandeira portuguesa da monarquia arrastada nas mãos dum imbecil, como se este símbolo nacional fosse um mero franchising para obtenção de resultados... pessoais.

domingo, 15 de julho de 2007

Eis a Barbárie!

Hoje, 15 de Julho de 2007. Um dos dias mais negros da nossa história. A partir de hoje passa a ser legal (o que não quer dizer que seja legítimo) a matança indiscriminada de crianças por nascer. É um Estado bárbaro, este que dá o poder ao mais forte para eliminar, de uma forma brutal, o mais fraco. Este é um acto de uma extrema violência. E a violência gera violência. Quem aborta, sem reconhecer nisso um mal, ganhará um inimigo implacável, que lhe fará uma guerra surda e destruidora: a culpa. Os transtornos psicológicos, os desequilíbrios afectivos e sexuais, as depressões, o vazio e falta de sentido e sobretudo a solidão, são os vários rostos desse inimigo tão cruel. É uma guerra que vai corroendo por dentro lentamente.
Ontem, 14 de Julho, comemorou-se a tomada da Bastilha. O inicio da revolução republicana laicista. Dois acontecimentos tão distantes no tempo, mas tão próximos no conteúdo. Quando Deus deixa de ser o centro da história colectiva e individual, é o homem, com os seus instintos mais primários, que passa a ocupar esse lugar. E eis então que a barbárie se instala no poder. Assim é hoje em 2007, como o foi outrora em 1789!

Compreensão

Um ser amado que desilude.
Escrevi-lhe.
É impossível que não me responda
aquilo que eu me disse a mim mesma
em seu nome.

Os homens devem-nos
o que imaginamos que nos vão dar.
Pagar-lhes esta dívida.

Aceitar que sejam diferentes
das criaturas da nossa imaginação,
é imitar a renúncia de Deus.

Também eu sou diferente
daquilo que imagino ser.
Saber isto,
é perdoar.

Simone Weil

É tudo tão verdade!

Entra hoje em vigor a lei que permite o aborto por iniciativa da mulher até às 10 semanas de gestação.
Toda a vida é única e preciosa porque Dom de Deus.
Deixo aqui Almada Negreiros e a Verdade dos gestos simples, invocando todas as mulheres que, mesmo no meio de muito sofrimento, acolhem o Dom da Maternidade.

“Mãe! Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!
Traz tinta encarnada para escrever estas coisas!
Tinta cor de sangue encarnada, sangue verdadeiro, encarnado!
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.
Quando eu voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me ao teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras. Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa. Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!”
«A Invenção do Dia Claro»

sexta-feira, 13 de julho de 2007

A canção nacional

Que estranho, afinal ninguém aprecia a canção nacional! Mas como tinha previsto, a Judite, aquela que não quer trabalhar num quiosque, essa mesmo, a mulher do ex-Seara do CDS, pois lá estava ela a entrevistar o Vieira do Benfica, o que já foi ex-amigo do Porto, o padrinho do Mantorras, esse mesmo, e nem sei se posso chamar àquilo entrevista, pareceu-me mais uma conversa em família, com um ponto alto no final… e a república na maior expectativa – Então, ainda vai contratar mais jogadores? Quando? Quantos? E os olhos de Judite rebrilhavam! Se não me diz agora, pergunto logo ao meu marido! Vieira sorriu… e continuaram ambos a varrer para debaixo do tapete uma série de coisas que gostava de saber. Também era só eu que gostava de saber e por isso não havia interesse em aprofundar, por exemplo, quem é que anda a dar golpes especulativos na Bolsa de Lisboa?!...São apenas chinesices ou há mais alguém metido ao barulho?! Enfim, nada de interessante.
Já a terminar Vieira queixou-se, e cito, que “os outros grandes andam atrás de nós”! E parece que sim, o Benfica pediu dinheiro à Caixa Geral de Depósitos para fazer um centro de estágio no Seixal, depois resolve hipotecar esse mesmo centro à mesma Caixa, e apareceram logo os outros dois clubes do estado a quererem fazer o mesmo! Isso não vale, é ‘copianço’.
Bem, vou ficar por aqui, à espera da próxima entrevista laudatória, que se calhar é já com o comissário ribeirinho.
Saudações ribeirinhas…

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Eis a Civilização!

" Nada deve ser anteposto ao amor de Cristo
Nada, absolutamente, deve ser preferido a Cristo"
Da regra de S.Bento, patrono da Europa

China - 1; Portugal - 1.36

Muito recentemente falou-se neste blogue da barbárie do governo chinês, que persegue quem tenha a veleidade de ter mais de um filho. Ora por cá, dissimuladamente, vai-se passando algo com contornos cada vez mais semelhantes.
Dia 9 foi revelado pelo INE o Índice Sintético de Natalidade (ISN): 1.36. Este é o valor mais baixo de sempre, que coloca Portugal no podium dos raros países europeus com taxa de natalidade decrescente.
Olhamos para a esmagadora maioria dos nossos parceiros europeus e vemos uma assumida preocupação com a reduzida taxa de natalidade. E, com sucesso, têm vindo a ser adoptadas medidas de apoio às famílias com filhos. Ainda há pouco, em Espanha, foi anunciada a atribuição de um subsídio de nascimento de 2500€.
E nós? Sabemos bem o que por cá se passa.
É incompreensível a violência exercida sobre o povo chinês, que não pode livremente decidir sobre um dos direitos e deveres mais básicos e bonitos do Homem.
Mas é também incompreensível que aqui, no centro do mundo moderno, o nosso governo vá destruindo o desejo e a possibilidade dos portugueses de terem filhos, através da disseminação de uma cultura e de uma política desenvergonhadamente anti-natalísta e penalizadora das famílias.

História de algibeira (10)

Sobre a infância do Rei D. Carlos:


Um dos companheiros de D. Carlos e D. Afonso lembrava-se sobretudo, quase sessenta anos depois, de “um barco com rodas, patins e uma caixa cheia de ferramentas com as quais escangalhávamos tudo quanto apanhávamos a jeito”. D. Carlos e o irmão usavam quase todo o Palácio (da Ajuda). Os corredores e as grandes salas do “andar nobre” serviam para deslizar em patins com rodas. No jardim botânico, entretinham-se a arreliar os macacos da enorme colecção de animais do rei.

In “D. Carlos”, por Rui Ramos, da colecção Reis de Portugal (Círculo de Leitores, 2006)

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Nomeações ribeirinhas

Em plena campanha eleitoral para a Câmara de Lisboa, o governo de Sócrates resolveu nomear um comissário para a zona ribeirinha da cidade que por coincidência é o mandatário da candidatura do Costa do governo, à mesma Câmara! Dir-se-á que é um gesto que contempla a oposição social democrata não fosse o recente abandono do PSD por parte do mesmo José Miguel Júdice! Então como interpretar a oportunidade de tal nomeação por parte de Sócrates?! Deixo isso ao critério do eventual leitor, enquanto vou tentando recordar o destino fascinante de certas personalidades da vida portuguesa, e estou a pensar num conjunto de jovens que nasceram para a política a seguir ao 25 de Abril!
Este Júdice, por exemplo, é um dos antigos juniores de Sá Carneiro, que pelos vistos antecipou academias de Alcochete e Seixal com inesperado sucesso! Todos os seus pupilos se converteram ao euro, em euros, e deixaram de ter qualquer paridade com a comunidade a que pertencem. Estão vocacionados para tarefas especiais, práticamente apartidárias, possuem uma natureza incolor, inodora, que dão jeito a qualquer equipa que queira ganhar títulos. Desses mesmos que estão a pensar.
Acresce que o nosso Júdice tem alguma tendência para a vitimização, e já não lhe chegam para isso as lágrimas do Mondego, porque secam no estio, precisa agora de um estuário para chorar à vontade. Vem de borla, o que é ainda mais perigoso. Temos baba e ranho de certeza.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Ditaduras

Quando há tempos, em conversa, chamava a atenção para o facto das grandes ditaduras deste século serem todas de esquerda, levantou-se de imediato um coro de protestos.

Após algum tempo de discussão mais acesa, um dos presentes virou-se para mim e, num tom muito sério disse:

"É que isso (as referidas ditaduras) não é esquerda, é... uma esquerda... humm... de direita!".

Não fosse o tom realmente circunspecto do interlocutor, a coisa teria passado com uma boa gargalhada. No caso, deitei-me a cismar que a situação era bem mais séria do que eu pensara.

É certo que a esquerda nos tem vindo a prometer muito paraíso, o que é sempre uma boa forma de vender. Mas ter conseguido que uma larga maioria da população não consiga associar ditadura e esquerda, é obra!... Dei por mim a pensar se seria o único a conseguir ver por detrás da propaganda...

Evidentemente a conversa ficou por alí, não fosse alguém lembrar-se ainda de apelar a uma qualquer legitimidade revolucionária e dar-me, ali mesmo, "o devido correctivo"...

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Duas Notícias

Duas pequenas notícias na página 31 do Diário de Notícias de hoje (não consigo incluir os links porque, de tão pequenas, não aparecem no site do jornal) chamaram-me a atenção.

Uma dizia assim: «CHINESES MULTADOS POR FILHOS A MAIS - Penalização. Dois mil funcionários violaram regra do filho único em Hunan e governo quer aumentar multas». E segue explicando que o governo chinês persegue com multas, que pretende cada vez mais pesadas, quem (principalmente os mais ricos) tenha a veleidade de ter mais de um filho. É certo que eles já são muitos, mas não deixa de ser triste e muito grave que isto esteja a acontecer. Estou certo que o Partido Comunista terá de responder um dia por estas e todas as outras loucuras que tem vindo a protagonizar impunemente ao longo de tantos anos.

A outra, de título «KACZYNSKI NA MISSA DA RÁDIO MARIA», conta a ligação dos gémeos Jaroslaw e Lech Kaczynski, actualmente no governo e presidência polacos, à estação de rádio Maria, referindo a forte adesão do povo a esta emissora. A notícia até é bonita e oferece-nos uma visão de esperança por aquele povo tão sofredor e tão ligado à Igreja.

No entanto, estraga tudo com o seu sub-títu-lo: «Fundamentalismo. A estação ultraconservadora católica apoiou os gémeos nas eleições de 2005».

O autor não vem identificado mas, seja lá quem ele for, aconselho-o antes de mais a cultivar-se um pouco quanto ao significado dos termos empregues e a aprender que a Igreja Católica, por definição, nunca poderá ser fundamentalista nem tão pouco ultraconservadora.

Se, como eu suspeito, o autor pretende demonstrar-nos que a Igreja Católica, assim como a rádio Maria e os actuais governantes polacos, são uns fanáticos e "medievais" religiosos, aconselho-o a olhar um pouco para si próprio: Quem é afinal o medieval e fanático anti-religioso senão aquele que ataca desta forma uma tão significativa maioria do povo polaco, que escolheu democraticamente aqueles dirigentes e está tão ligado àquela emissora de rádio?

E ataca tão fanaticamente porquê? Só porque não pensam como ele?...

Intendente,18h20

A hora de ponta é a hora maior. É quando a rua fica nervosa, os dealers medem a distância, e a praça, a poeira, os cheiros e a desconfiança tocam no fundo. Ao longe, todos tomam posição. É preciso um recanto, um esconso, o limão é podre. Não existem rostos, nem traços de lembrança. Caminha-se em frente, a raiva espetada. Ninguém vê, ninguém sabe. Os nomes são falsos, becos saturados de cansaço. Eles chegam, andam, um vai e vem, a praça é feita de centímetros. O que vale é o delírio, o esquecimento. As horas são soltas, violentas, ritmadas pela música que se ergue dos bares. O sorriso já não vale, é uma cumplicidade.Tudo vai em frente, atado, a rastejar. A hora de ponta está inquinada de fel, gesso, pó de talco e cortes de vazio.

domingo, 8 de julho de 2007

Depois de 07/07/2007


Conhecemos bem o número sete e o que ele representa – a plenitude, a perfeição, a totalidade, …
Embora compreendendo mal a não inclusão entre os candidatos às novas Sete Maravilhas do Mundo de monumentos ligados à Universalidade e Beleza Cristãs, como por exemplo, a Capela Sistina, a Basílica do Santo Sepulcro e tantos outros lugares da Terra Santa, entre muitos outros, não deixa de ser significativo ver a organização do evento passar por Portugal.
Numa altura em que abunda o desânimo, o desinteresse e a falta de “garra”, devíamos ter bem presente que estaremos para sempre ligados à abertura do Mundo a Novos Mundos e à beleza da transmissão da fé cristã.
Também não deixa de ser significativo que a Grande Muralha da China seja anunciada a primeira nova maravilha precisamente sete dias depois do Papa Bento XVI ter publicado a “Carta aos Bispos, aos presbíteros, às pessoas consagradas e aos fiéis leigos da Igreja Católica na República Popular da China”.
Tudo isto merecia ser pensado e não deixar que passado o evento apenas ficasse do mesmo a actuação de Jennifer Lopez (esquecendo-se os 1,5 milhões de euros que ela recebeu pela interpretação de duas canções…).

sexta-feira, 6 de julho de 2007

História de Algibeira (9)

Acontece com a biografia de D. Maria II de Maria de Fátima Bonifácio da colecção Reis de Portugal editado pelo Círculo de Leitores: toda a conjuntura política, conspirações e pronunciamentos, manifestos e marchas são devidamente testemunhadas; do Duque de Palmela a Costa Cabral, do Duque de Saldanha a Sá da Bandeira todos os protagonistas dessas salgalhadas são devidamente revisitados. No fim, pouco encontramos da própria D. Maria II, seus amigos, acontecimentos e traços “privados” como seria de desejar numa boa biografia. Será o desprezo pela “pequena história”?Por um estranho vício, sobreavaliamos por sistema o “jogo” do poder político e seus protagonistas. Fica-nos a faltar aquilo que os molda, e os nós de toda uma teia que transforma a realidade. Quase sempre aparentes “faits divers”.

Afinal era golpe...

“Hoje percebe-se que havia uma vontade de nos querer tirar da Câmara” observou Carmona Rodrigues quando se ficou a saber que o tribunal decidiu arquivar as acusações ao antigo vice-presidente Fontão de Carvalho no chamado caso EPUL! E acrescentou – “Não podemos ficar calados perante aqueles que usaram o que estava a passar-se no sistema judicial para tirar ilacções políticas”.
Tudo isto aconteceu num dia em que as sondagens não conseguem empurrar o ‘Costa do governo’ para a maioria esperada, nem conseguem interromper a ascenção de Carmona, que sobe paulatinamente nas intenções de voto dos lisboetas, preparando-se para ultrapassar Negrão!
Já por aqui tinhamos denunciado a instrumentalização da figura do arguido como pretexto para golpes políticos palacianos; já tinhamos também denunciado o apetite voraz de que é vítima a Câmara Municipal de Lisboa! Que não obstante o pregão de falência técnica, leva tanta gente a interessar-se por ela, ao ponto de perder a cabeça ou de trocar de afeições políticas e partidárias. Tudo em nome de Lisboa...coitada.
Faltam poucos dias para as eleições, e enquanto a polémica sobre o aeroporto jaz em conveniente silêncio, eu só espero que Lisboa resista a tanto enlevo, tanta jura de amor, tanto plano e promessa de obra!
Não vai ser fácil.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

BONS EXEMPLOS, BONS LIVROS

Estou a acabar de ler a biografia do Padre Pedro Arrupe, SJ, escrita pelo Padre Pedro Miguel Lamet, SJ. Um calhamaço de 2003, das edições Tenacitas (também SJ), muito bem escrito. Mas o que ressalta é a dinâmica da Igreja Católica, a sua presença permanente na história do Homem, onde quer que ele esteja, quem quer que ele seja.

A biografia é a de um Padre Jesuíta, com formação em medicina, que às tantas, entusiasmado com o exemplo de São Francisco Xavier, deixou crescer em si o desejo de ser missionário no Japão de entre as duas últimas guerras mundiais. Acabou por lhe ser dada essa oportunidade e vivia a poucos kilómetros de Hiroshima quando deflagrou a bomba atómica. A experiência foi indelével, como facilmente aceitamos.

É, depois, a biografia de um quadro de uma grande ordem religiosa, que culmina na biografia de um Padre Geral da Companhia de Jesus. A partir deste ponto, o biógrafo é obrigado a contar a interacção complexa do Padre Pedro Arrupe com o Papa e com a Cúria Romana, visto que ela passa a representar uma parte importante da vida do biografado.

Percebe-se que o autor, Sacerdote, luta para não faltar à caridade dentro da Igreja, quando relata os contextos em que o seu admirado e amado Padre Geral se vê obrigado a abdicar das suas perspectivas para obedecer ao Papa. Tudo isto são bons exemplos, desde o respeito do autor pela sua própria condição sacerdotal, a que atribui um papel para lá do mero autor literário, até à obediência do Padre Geral, num contexto em que muitas eram as forças centrífugas (é o que se depreende do livro).

Mas há mais – há um caminho da Igreja que orientou a enorme dinâmica da Companhia de Jesus, transformando-a numa nova dinâmica. Uma Orientação inexaurível, que se manifestou em parte no exercício da Autoridade (aqui no sentido etimológico do termo) do Papa. O autor relata o exercício gradual desta autoridade, até ao ponto em que se pode dizer que o Papa deu, em pessoa, uma ordem directa ao Padre Geral da Companhia de Jesus, um sénior, que a acatou, não sem que tenha chorado ao recebê-la e ao acatá-la.

Tudo isto é a vida da Igreja, num patamar muito para cima do meu, mas em que reconheço o Bem, na defesa de princípios em que verdadeiramente se acredita, na liberdade individual bem intencionada e na dinâmica de grupos que cria, mas balizadas pela inserção na Igreja e submetidas, como disciplina que valoriza a liberdade, à sua Autoridade. Temos de fazer com que os bons exemplos, mesmo se longínquos, não fiquem Fora de Estrutura.

“Oh pulgas lusitanas...”

Pimpões pela Europa, o mundo é pequeno para tanta divagação, parece assombração, pois como dizia vossa mercê o desenvolvimento sustentável, entre outras lindezas tamanhas, é o grande objectivo da nossa presidência! Se bem captei a mensagem, oh zé aperta o laço, aperta o cinto, não te esqueças de me apertar o pescoço, pudera, a vida corre-te bem, já viram que somos iguais aos outros, na fotografia, ao jantar, ouvindo Beethowen... Mas não é o que parece, também dá trabalho, amanhá ou depois vou discursar aos africanos, em África.
Mas senhor ministro, aqui na terra como no mar, a gente não pesca nada, não temos vantagem! Oh rapaz, você está a propor que abandonemos a união europeia! Uma opinião que nem eu nem o governo subscrevem. Tenha juizo, a dizer barbaridades na frente do senhor comissário, o que é que ele vai pensar de nós!
Seremos o farol que orienta os navegantes, a feira dos mil eventos, por mês, por dia, congressos ao pequeno-almoço, finais e finalíssimas de todas as espécies, concursos, ainda querem mais?! Estamos no mapa como nunca estivemos, olham para nós, olham para mim, por favor, não comparem...
Euro excluído, infra falido, sufocado em impostos, para onde irá o dinheiro, boa pergunta, essas maravilhas não passam pela minha algibeira, nem percebo metade do que diz, não distingo os órgãos para além dos meus, e ando bastante adoentado por sinal. Oiça, estamos fartos de pessimismo, de lamúrias, isso pertence ao passado, não há razão nenhuma para não estarmos na primeira linha do desenvolvimento sustentado...eu já disse esta frase… não vou portanto repetir-me, quero apenas reafirmar uma coisa muito simples – estou absolutamente convicto que será nesta presidência que a europa vai entrar nos eixos!
Não duvido, mas eu estou mais preocupado com o salário mínimo lá de casa, com a minha reforma, com o fosso… Oh homem acabe lá com essa conversa miserabilista, e além do mais egoísta, nós aqui a mudarmos o mundo e vem você com pieguices! Com franqueza.

Título inspirado num verso de Jorge de Sena. Texto inspirado nos discursos da presidência portuguesa da união europeia.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

CARTA DE BENTO XVI AOS CATÓLICOS DA CHINA

(Da nota explicativa)
Com a “Carta aos Bispos, aos presbíteros, às pessoas consagradas e aos fiéis leigos da Igreja católica na República Popular da China”, que leva a data do Domingo de Pentecostes, o Papa Bento XVI deseja manifestar o seu amor e a sua proximidade aos católicos que estão na China. Fá-lo, sem dúvida, como Sucessor de Pedro e Pastor Universal da Igreja.
Do texto despontam dois pensamentos fundamentais: de um lado, um profundo afeto por toda a comunidade católica na China e, de outro, uma ardente fidelidade pelos grandes valores da tradição católica no campo eclesiológico; portanto, uma paixão pela caridade e pela verdade. O Papa recorda as grandes linhas eclesiológicas do Concílio Vaticano II e da tradição católica mas, ao mesmo tempo, leva em consideração aspectos particulares da vida da Igreja na China, situando-os numa ampla visão teológica.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Beleza aos (M)olhos

Olá bloggviewers! Esta missiva dirige-se a todos os
apreciadores de arte em geral,
e de pintura em particular,
mas também a todos os espíritos abertos à Beleza.

Acontece que estão patentes em Lisboa,
no Palácio Galveias e na Gulbenkian -
- Galeria de Exposições Temporárias,
duas exposições a não perder!

Trata-se de algumas obras de Robert de Niro, Sr
(sim, pai do famoso actor!) e de várias outras obras
pertencentes a uma valiosa colecção
[finais séc.XIX e inícios séc.XX] do
Museu Sakip Sabanci, de Istambul.

Muito poderia dizer, a fim de vos convencer a que
vencessem a inércia (des)humana que por vezes
nos assalta e impede de fazermos encontros com o Belo.
Apenas vos atiro com um proverbiozito:
Olhos que não vêem, coração que não sente!

Ah! Atenção que a primeira exposição está patente
apenas até Domingo, todos os dias,
entre as 10h e as 19h. A outra não digo,
que é para não relaxarem!

Have Fun!

segunda-feira, 2 de julho de 2007

História de Algibeira (8)

Nos finais do século XIX, a partir de Alcântara, localidade rural para lá da antiga estrada da circunvalação (artéria que delimitava a cidade), usava-se dizer "ir a Lisboa", aquando se empreendia uma viagem à Baixa, ao Bairro Alto ou ao Passeio Público. Por exemplo, em 1870 a Junqueira era um destino de veraneio para a burguesia e fidalguia abastada da cidade.

domingo, 1 de julho de 2007

Droga na cidade

Há um fenómeno novo na cidade: a forma despudorada como se oferece droga. Várias pessoas que visitam Lisboa já tinham falado disto dizendo-me que a única cidade que a batia era... Maraquexe. Óbviamente sempre pensei isto como um exagero. Mas, nestas últimas semanas fui abordado três vezes. A primeira quando subia a rua da Atalaia e a rua da Rosa, a horas decentes, 9 da noite. É uma das ruas mais in da cidade e onde se concentram inúmeros restaurantes sinalizados em qualquer roteiro turístico. Certo, é o Bairro Alto,mas a forma descontraída como foi feita a proposta, presumo que também aos turistas que passavam, é de uma leviandade imensa. Idêntica abordagem foi-me feita na rua Augusta diante dos meus filhos. Ontem, na Av. Fontes Pereira de Melo quando subia para a maternidade. O que é isto? O que se está a passar? Ninguém fala, ninguém diz nada? Agora, em cada canto de Lisboa ao dobrar a esquina corremos o risco de ter um encontro deste tipo? Vamos ter eleições e, aposto, que não se toca no assunto. Mas, tem de haver discussão, trazer este problema para debate. Corremos o risco da Meia Laranja e do Intendente começarem a tomar conta da cidade. De bolsas difusas onde vender droga se torna num acto normativo. l

Sim, mas...

Parciamente aquiescente. Condicionamente afirmativo.

A relativização do absoluto parece-me correlacionada com a diminuição da humildade face à ignorância desta sociedade de informação. Sabe-se um pouco de tudo e muito de nada. Consequência imediata é uma coisa chamada opinião. E a opinião parece rainha no meio desta incerteza quântica.

Todos temos alguma coisa a dizer quando confrontados com o absoluto:
- A dialética existencialista da obra denota uma clara noção do bem e do mal.
- Sim, mas isso é devido ao contexto emocional do autor.

Nesta caminhada, da opinião passamos para a frivolidade:
- Gosto muito deste quadro de Picasso.
- Sim, mas preferia em verde, porque dá melhor com os cortinados da sala.

Quando juntamos a opinião e a frivolidade obtém-se uma coisa chamada PC (Politicamente Correcto) que não é mais do que uma atitude apática e avessa ao confronto, uma falsa crítica que castra todas as hipóteses da discussão no caminho da síntese.

O preto e o branco já não existem. Mas para compensar temos um lindo mundo em escalas de cinzento.

Sim, mas...

Charada

“Eu sou o mais tolerante possível, não aceito é que se desrespeite o dever de imparcialidade política e de lealdade”.

Quem é o autor desta graçola ( ou ironia?! ) e em que contexto se inscreve? Três hipóteses:

a)- Correia de Campos, ministro da saúde, justificando a demissão
da Directora do Centro de Saúde de Vieira do Minho
b)- António de Oliveira Salazar, 1º Ministro do antigo regime,
num discurso proferido na tv.
c)- Frase inscrita num pisa – papeis, encontrado no gabinete do
director da antiga PIDE-DGS, encima da secretária, sobre uns
relatórios que denunciavam as actividades, supostamente
subversivas, de alguns funcionários públicos.

Quem acertar na resposta, receberá como prémio, uma caixa dos melhores charutos de Havana,assinada pelo Presidente Fidel Castro, e ainda…uma licenciatura sobre qualquer coisa,na Universidade Independente, e que lhe garante um título qualquer, como por exemplo Sr. Engenheiro.

Uma pergunta ainda. Os ministros são os únicos que podem ser irónicos e dizer graçolas, sem sofrerem consequências?

Vale Tudo? Ai concerteza!


“Uma pessoa de direita pode votar na esquerda?”
Maria José Nogueira Pinto: “Ai concerteza! Uma pessoa de direita não pode ser prisioneira da direita e uma pessoa de esquerda não pode ser prisioneira da esquerda. Há que ter é lealdade a Lisboa!”

sábado, 30 de junho de 2007

Gestores de bancada

É um facto relativamente recente e vem na sequência da revolução operada na gestão financeira dos clubes de futebol: hoje em dia, no café ou na rua, o povo comenta animadamente as notícias das contas dos seus clubes do coração. Numa qualquer tasca do Bairro Alto ou café em Amarante, além da jornada desportiva são esgrimidos argumentos como a cotação das SADs, aumentos de capital, activos, passivos, custos com pessoal, produtividade, etc. etc.
Agora resta-nos aguardar com esperança que estes entusiasmados adeptos e conscientes gestores, apliquem nas suas vidas e profissões os princípios que anseiam ver cumpridos nos seus clubes de futebol. Anuncia-se assim um novo realismo nas negociações com o patronato, o fim das greves irresponsáveis, um reforço das noções de produtividade e uma consciente e positiva adesão aos objectivos da empresa. Que bom, prenuncia-se para breve um país de sucesso!

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Bons pais 2:)

Definitivamente "bons" pais precisam-se, para que as crianças sejam adultos cheios de virtudes, felizes, capazes de tornar o mundo cada vez melhor! O mais importante de tudo? Esta psicóloga diz que é o exemplo:) O exemplo que os pais dão a seus filhos é fundamental na educação do carácter. Acreditemos que, mesmo as coisas que nos parecem que os filhos nunca farão, mesmo aquelas que lhes dizemos que estão erradas, se as praticamos é meio caminho andado para que os nossos filhos nos imitem.
Temos apenas uma oportunidade para educar bem os nossos filhos, que vamos fazer dela?

Joe

Joe é um self-made-men, quer dizer, homem-construido-pelo-eu, na sua língua de origem.
Joe é isso mesmo: eu Joe, imagem e semelhança do Joe. Joe é um deus! Joe é um filantropo - "O que fiz por Portugal nunca foi para ganhar dinheiro" in Tabu de 23 junho - que vende "coltura" por 300 milhões de euros, que financia aeroportos, compra diamantes, futebolistas, acções, vinho, constroi "jardins orientais". Joe não bate bem da cuca e é disléxico ( na mesma entrevista de 23 de Junho )

É o Joe contemporâneo, podre de rico, a quem o poder político se vende e se submete.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

"What attributes do you wish were seen more commonly among children?"

"Good parents!" (Bill Watterson)


História de Algibeira (7)

Entre Outubro e Dezembro de 1910, Afonso Costa, ministro da Justiça e dos Cultos do Governo Provisório, aboliu os feriados católicos excepto o Natal, que passou a chamar-se Dia da Família. Enquanto se substituía afanosamente a ancestral toponímia das cidades com a nova nomenclatura República Cândido dos Reis, Elias Garcia e demais revolucionários, estalou uma polémica com o inconcebível bolo-rei, que passou a chamar-se "democraticamente" bolo-nacional.