quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Então... feliz ano novo!

Talvez seja uma ilusão, mas o final do Verão sempre me pareceu demasiado abrupto: no espaço de uma ou duas semanas, os longos e radiosos dias quentes escurecem e minguam vertiginosamente, trazendo consigo uma suave nostalgia, quando não uma recôndita angústia. De repente sentimos saudades do Verão que passou... ainda na semana passada, num fim de tarde na Adraga, com chinelos e poeira, um petisco e uma cerveja, aquela eufórica sensação de liberdade e o coração tão aceso. Confesso que, apesar de trabalhar durante grande parte do Verão, vivo-o com o jovial espírito de “férias grandes” de outrora. São os jantares tardios na varanda, a cidade utopicamente deserta, as coloridas esplanadas para beber um simples café ou as longas saídas de fim-de-semana.
E de repente a rotina doméstica altera-se com a preparação do retorno às aulas. Umas "cópias" e umas leituras forçadas vêm cortar a indolência das tardes de Setembro à pequenota. Há uns amuos e os sonos ainda trocados. Os mais velhos resistem como podem ao fim da época balnear, e numa manhã destas finalmente lá foram, contrafeitos, tomar nota dos horários.

Ontem, a trovoada e uma impiedosa chuva aqui em Lisboa desfizeram definitivamente qualquer veleidade: apesar da praia estar logo ali atrás, começou de vez o ano lectivo, uma nova época de trabalho, aventuras e novas oportunidades. Para todos aproveitarmos com renovadas forças. Afinal, o meu verdadeiro ano novo ainda começa sempre no fim do Verão.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Madeleine

A Inglaterra campeã do mundo de fair-play. Campeã de cosmopolitanismo. Artifice dos principais jogos que divertem o mundo: whisky, gin e smoking, mais os beatles, os pink floyd e outros, a que acresce o football, o rugby, o poker e o king...
A Inglaterra, também, na linha da frente dos jornais sensacionalistas, de devassa da vida privada das suas estrelas. Despida de preconceitos e do resto da roupa. Exorbitante no consumo de álcool. E de haxixe. E heroína e coca. E massivamente consumidora de televisão & comp.
A Inglaterra que inventou uma princesa que parecia vinda de um enredo da periferia.
A Inglaterra formalmente religiosa: nos concertos dados nas abadias, nas nomes bíblicos das academias universitárias, no enterro solene dos seus personagens e no que mais resta de alguns gestos tradicionais. Stop.

Esta parte do mundo que esquece o resto do mundo e que se chama ocidente.
Esta parte do mundo que se esquece da injustiça no mundo (como, por exemplo, no Darfur, na China esclavagista, na Cuba (ainda) despótica, na África exemplarmente descolonizada…).
Esta parte do mundo que se gaba de ser racional face ao resto do mundo.
Esta parte do mundo a proibir a caça à raposa. A ter horror aos touros de morte. A sofrer com o desumano abandono de animais durante o período de férias. Com medo dos transgénicos. Ferozmente anti-tabaco. Com diferentes ASAE’s da UE inventariando crimes a exterminar.
Esta parte do mundo onde o aborto é legal e que luta pela manipulação genética. E pela eutanásia. Que vulgariza a homosexualidade. Aqui onde as ‘pedofilias’ todas tentam emergir legais. Onde há um medo paranóico do sofrimento. E medo do outro. Onde o medo anda travestido de tudo por medo daquela que, iniludível, nos virá buscar…

A culpa. Essa culpa de existir sem porquê, para nada. A angustia. A culpa por não haver nada a fazer com a culpa, senão compras, umas férias longe, e a tentativa de sermos comunidade na sensação que muita televisão nos dá de nos conhecermos todos bem. A culpa de sermos uma civilização que não o é.

O mundo chamado ocidente a viver a sua peregrinação possível. Obviamente de costas voltadas para a Jerusalém do alto. Obviamente, também, desconfortável face aos sanguinários gestos pré-colombianos. Intrepidamente contra os direitos absurdos da divindade muçulmana. A achar graça, porém, a essa finta que lhe permite voltar a apresentar-se a exame no ano seguinte, na reencarnação seguinte, deixando para depois a sua responsabilidade de hoje…Mas sem deixar nunca de ser racional.

A organização da existência sem Igreja, na posse da existência, dos seus sucessos e culpas, sem ritos sacrificiais. O sacudir da memória cristã, na aflição com a hipotética denúncia que outrem possa fazer reconhecendo vestígios de dogma.

Uma família classe média que aparenta classe. Os pais médicos=modelos de vida saudável e moderna. Férias comuns numa praia do sul. Das suas três crianças indefesas, a mais velha desaparece. Evidentemente raptada, provavelmente em direcção a Marrocos. A imediata identificação de todos com o amor dos pais. Mimetismo afectivo. A convocação automática da comunicação social, para salvar a criança perdida, para interceder, para explicar tudo, para fazer o julgamento sumário dos criminosos. Surge uma grande comunidade na dor, nos gestos sentimentais, como o das velas acesas, e na partilha de alguns trocos em favor de um saco azul de uma benevolência difusa.
A posterior complexidade da coisa. O avolumar de suspeitas sinistras que envolvem a Mãe! e o Pai!...

O relativizar da culpa privada. O eliminar de uma consciência sagrada face à culpa, sem o que o homem mente!! A insignificância da justiça divina face à potência do juízo televisivo. A irrelevância do pudor e do silêncio face à violência. O inferno bíblico considerado ridículo. A necessidade de reparação urgente: eficácia na punição. A comunhão com os que pareciam ser vítimas tornada ódio seminal pois, afinal, parecem ser eles os culpados.

A necessidade de ocupar o lugar que Ele deixou vago e poder dizer: omnisciente vejo tudo. Pornografia seria haver ainda algum segredo. Perscrutar, com os novos sumos sacerdotes da alma, a psique. Sou juiz: tu tens culpa, eu não. Não te esquecerei. Jamais!
Pelo menos até que outro episódio escandaloso me permita passar adiante, esquecendo tudo o que está por resolver, em mim…

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Educação e televisão


Temos de concordar que a televisão é inimiga do diálogo, e o diálogo é regra de ouro na família. A televisão, embora possa ter algumas coisas boas, se não é usada com prudência e sabedoria pode "disfarçadamente" deseducar os filhos e desencorajar hábitos que tanto trabalho deram aos pais a fomentar. É imprescindivel ter muita atenção e cuidado com os média, nomeadamente com a televisão. A regra deve ser a televisão apagada, sobretudo durante as refeições. Quem acende a televisão devem ser os adultos, sendo que os filhos se quiserem terão de pedir autorização aos pais para verem determinado programa. O deixar ou não ver determinado programa, concurso, filme ou documentário, deve ser uma decisão ponderada pelos pais com base na qualidade do programa em si e não com base no comportamento da criança ou na sua vontade. Há de facto algumas coisas boas na t.v., ela pode proporcionar um entretenimento saudável e moderado se for usada de forma razoável e inteligente (como meio de unir a família portanto! e não o oposto).
O ideal é que haja apenas um aparelho de televisão na casa, isto dá aos pais um maior controle e faz com que todos sejam mais responsáveis na sua utilização. O desejado é que a família possa assistir em conjunto a bons programas, filmes, eventos desportivos, que sejam fonte de diálogo, de troca de ideias, risos e emoções em conjunto. Claro que as crianças podem fazer sugestões e pedidos para ver determinada série, mas são os pais que decidem como, o quê e quando (depois de se informarem bem acerca do programa e do seu conteúdo educativo). Esta liderança enfatiza a autoridade dos pais.
O que os pais devem procurar no uso moderado da t.v. não é apenas proteger as crianças, mas também ensiná-las a discernir por meio de critérios firmes, o que é bom e o que é mau.
Quando se tem um controlo sobre a televisão e esta sai "do centro da sala", acontecem espaços de tempo (inicialmente estranhos mas depois maravilhosos) para a vida em família. Mais tempo para pais e filhos se conhecerem, jogarem juntos, lerem bons livros, ajudarem-se mutuamente nas tarefas de cada um... Regra de ouro: saber tirar o melhor partido do pequeno ecrã!

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Bons pais precisam-se!


Há uma boa notícia a dar no que diz respeito à educação dos filhos... qualquer um pode ser um bom pai! Ou seja, teoricamente qualquer ser humano que pratique o bem, saiba usar de bom senso e se esforce nesse sentido, pode dar uma boa educação aos seus filhos. Tenhamos pois esperança!
Apesar de todas as contrariedades da sociedade em que vivemos, apesar do consumismo, da televisão, da falta de diálogo, do stress, etc, etc, etc... há muitos pais que têm sucesso na sua missão de educadores, ultrapassando todas as contrariedades da vida, conseguindo que os seus filhos se tornem verdadeiros Homens/Mulheres de palavra, carácter, e cheios de virtudes na sua maneira de agir.
Ao que parece estes pais não têm um perfil especifico ou uma personalidade "tipica" que lhes permite o sucesso na educação, muito pelo contrário, existem diferentes formas de ser "bons pais", consoante a personalidade de cada um. Alguns podem ser mais compreensivos e calmos, outros mais seguros de si, uns podem ser lideres natos, outros mais reflexivos... Há bons pais que cresceram em lares equilibrados e felizes e bons pais que nasceram no seio de famílias disfuncionais e tristes (mas estão determinados a não seguir o exemplo que tiveram).
Apesar das diferenças de temperamento inevitáveis no ser humano, há algumas características comuns aos "bons pais" que não resisto a comentar, embora estas variem depois em pormenores de família para família:)
Os pais bem sucedidos geralmente estabelecem elevados graus de maturidade para os seus filhos, esperam que os filhos sejam melhores que eles em todos os aspectos, nunca perdendo a esperança nem a paciencia para os corrigir, orientar e direcionar sempre.
Os pais bem sucedidos vivem a unidade do casal e tranparecem isso aos seus filhos, amando o marido/mulher, o pai/mãe mostra ao filho como se esquece de si e serve as necessidades do outro. Se o pai honra a mãe, também o filho a honrará, se a mãe trata com carinho o pai, também a filha o fará. Neste sentido é frequente que os pais se ilustrem como exemplo um ao outro para explicar coisas aos filhos. Cada membro do casal deve pois "engrandecer" o outro, pois a reputação também traz respeito.
Os pais bem sucedidos esforçam-se por não discutir em frente dos filhos, pois percebem que isso não é bom para a dinâmica familiar, isto não quer dizer que não troquem ideias nem que não tenham diferentes pontos de vista, o que até pode ser enriquecedor. Contudo, em relação a questões da educação convém que os pais se ponham de acordo e se apoiem sem nunca se contradizerem em frente às crianças, caso contrário a sua autoridade será seriamente posta em causa.
Os pais bem sucedidos esforçam-se por colocar o orgulho de lado e saber pedir desculpas quando cometem erros, desta forma também os filhos vão perceber que é bom arrependermo-nos das ofensas que causamos às outras pessoas.

Prefiro este.

Num dos habituais inquéritos de verão feitos em França perguntava-se qual era o mais belo desporto do mundo. Tenho para mim que é o râguebi, porque a essência do desporto é um misto de inteligência mental e de bondade para com o outro. Há muitos anos recordo-me de um jogo que assisti na África do Sul. Foi em Pretória e estavam mais de cinquenta mil pessoas a assistir. Os adeptos estavam misturados e cada ensaio era comemorado com contenção, com um grito de alegria sentido mas sem exuberância. Não existiam assobios, nem apupos ostensivos, nem ofensas verbais. Cada decisão do árbitro era respeitada e sentia-se um silêncio nas bancadas que evocava o esforço de cada homem que estava a jogar, a sua dignidade, a sua grandeza, o adversário como um aliado. O acto de jogar era infinitamente mais rico que o de ganhar. Foi o mais belo jogo que alguma vez assisti na vida numa África do Sul assolada pela violência. A partir daí o râguebi tornou-se o "desporto", o mais belo, o que até hoje nunca foi desmentido. Em Portugal o râguebi é um desporto de elite jogado nas universidades e por meia dúzia de equipas e quase sem expressão. Ir ao campeonato do mundo é um feito imenso que o mundo desportivo e político ignora completamente. Sábado joga-se com a Nova Zelândia e o jogo não é transmitido em canal aberto na televisão na terceira prova com mais prestígio no mundo depois dos JO e do Mundial de futebol. Que vergonha, que mediocridade de pensamento, que totalitarismo de gosto.Para que serve o canal 2? Jogar com a Nova Zelândia é uma vitória, é como para quem gosta de literatura estar com Herberto ou de cinema com Resnais. É por isso que o futebol se torna uma adição, uma droga, quase uma violência. Amanhã vão ser horas e horas a falar da vitória sobre a Sérvia, vai-se falar disso como uma conquista do Portugal verdadeiro. Mas isso é curto, demasiado pequeno. A derrota, no sábado, com a Nova Zelândia, transporta a aventura, a solidão de homens que não têm medo, o Adamastor da alma, o gesto épico de um País. Prefiro este. O País fora de estrutura.

A educação dos filhos


Proponho-me escrever alguns textos sobre este tema tão complexo quanto importante: a educação dos filhos.

Pode parecer "ingrato", pois todos os pais têm apenas uma e só uma oportunidade na vida de educar bem os seus filhos, convém pois que a aproveitem e proporcionem aos seus filhos a melhor educação possível.

É certo que as crianças são também fruto do meio que as rodeia e das relações que estabelecem com outras pessoas que não os pais, mas também não há dúvidas em relação ao papel determinante dos pais na formação do carácter dos filhos.

Bom, proponho-me isto por vários motivos, em primeiro lugar por ser mãe, e como mãe sentir o desejo enorme de formar bem os nossos filhos, não se tratando apenas de preservar o seu carácter mas sim de o formar! Em segundo lugar como psicóloga que trabalha com crianças e seus pais, e que tem constatado sérias dificuldades e pedidos de ajuda por parte destes que aflitos e com razão sentem que a boa vontade e o querer não chegam...


A educação dos filhos é a maior responsabilidade que temos a nosso cargo, sendo que a nossa tarefa é formar "adultos" e não crianças, devemos desde cedo apostar em educar o seu autodominio, ou seja, a capacidade de se negarem a si próprios, de desfrutarem as coisas boas da vida com moderação, de prescindir dos "louros" e gratificações, de ser "senhor/a" de si. Desde cedo também devemos apostar na educação da coragem, coragem em superar as dificuldades, mesmo a falta de conforto físico e a dor. Certamente já reparámos que muitas vezes as crianças caem, e por vezes se ninguém olha para elas continuam a sua brincadeira levantando-se contentes da vida, mas se olhamos ou tecemos qualquer comentário desatam num pranto... Aqui começa a educação da coragem:)!

O ser prudente, ser capaz de fazer bons raciocinios das coisas e das pessoas, de perceber o que é bom e o que é mau o que é feio e o que é bonito, também não pode ser descurado desde a infância, o mesmo acontece com a noção de justiça, que implica a aceitação do outro, esse outro que tem direitos e que também me cabe a mim tratar da sua felicidade.

Como é que nós passamos estas coisas tão importantes às crianças? Bom, em primeiro lugar, passamos pelo exemplo, pelo exemplo que nós pais damos aos nossos filhos e pelos exemplos que proporcionamos que eles vejam dados por outros. As crianças imitam com satisfação os pais e outros adultos! Em segundo lugar passamos estas coisas pela prática dirigida, ou seja, por aquilo que as crianças são levadas a fazer uma e outra vez pelos pais repetidamente, até apreenderem um determinado comportamento. E em terceiro lugar, mas não menos importante, as crianças também aprendem através da explicação verbal que lhes é dada, pois as palavras também são muito importantes na educação.

Para sermos bons pais, como certamente já constataram, temos efectivamente de ser pessoas melhores, devemos esforçar-nos por isso, por ser "pessoas exemplo" - exemplares. Portanto, graças aos nossos filhos, também nós podemos (e devemos) aperfeiçoar o nosso carácter e engrandecer o nosso coração! É também a nossa capacidade de liderança que os ajuda a formar o seu carácter.

domingo, 9 de setembro de 2007

História de algibeira (18)

1907 - Azedo Gneco discursando num comício republicano realizado no antigo recinto do teatro do Rato, em Lisboa.
O tipo à direita deve ser o “sigurança”.

Foto daqui

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Missionária da Caridade

(Nos 10 anos da morte da Madre Teresa)

Uma fotografia junto a um moribundo. Outra mostrando-a a sorrir. Uma frase lapidar ligando o aborto e a paz. Algum episódio que ouvimos acerca da sua vida ou qualquer coisa vista à pressa na televisão, transformaram esta freira que, em nome de Jesus, pretendeu enterrar-se nos confins do mundo, numa figura familiar a todos nós, e que todos, mais ou menos, julgávamos conhecer e compreender. Poucos terão deixado de se impressionar com a sua vida, toda dada aos pobres, vida essa que nos aparecia de um modo óbvio e como que sem segredos.

A publicação recente das suas cartas aos padres que ao longo dos anos a acompanharam em direcção espiritual vem por em causa a leitura linear da sua vida: católica-generosa-freira-orações-dedicada aos pobres-santa…

Eis que por detrás de anos de aparente tranquilidade surge a notícia de uma travessia sofridíssima face ao apelo de Deus para fundar as Missionárias da Caridade, na fidelidade intocável a essa vocação e na depuração total de uma noite começada nos anos 50 e que só terminaria a 5 de Setembro de 1997.

Não poucos cristãos, ligeiros na fé, reduzem esta a um sentimento que certifica a existência de Deus, ficando assim o Senhor refém das emoções de cada um. Mais sentimento, mais Deus. Mais sensação, mais certeza. Mais emoção, mais fé. Portanto, mais eu ‘contente’ mais Deus ‘contido’ em mim (donde, alguma razão teriam os que acusam os cristãos de serem gente que confunde a sua transpiração emocional com uma entidade pessoal a que chamam Deus). Como é óbvio, quem assim pensa e vive não deixará de encontrar motivos de desalento nas dúvidas da Madre Teresa.
Enganam-se os que sentem que Deus salva o mundo com bons sentimentos, borbulhas gasosas e outras sensações agradáveis. No âmbito do amor campeia hoje um vocabulário que não vai muito além do umbigo: ‘estar bem’, ‘realizar-se’, ‘ter direito a ser feliz’. Não que o Evangelho agache a promessa de felicidade: 100 vezes mais a promete o Senhor! Todavia, os termos são outros porque a realidade é Mistério que crucifica a pretensão do homem. Mesmo as suas boas intenções religiosas. Este só se abre ao Senhor na oblação da vontade chamada obediência, no esvaziamento de si em pobreza chamado comunhão, na ambição de uma aliança de amor maior chamada sacrifício.
A fé pode emergir dum sentimento, despertado pela Palavra. E quanto consolo não terá recebido a Madre Teresa quando o Senhor quis que ela o recebesse: alegria, alegria, paz, certeza, esperança! Mas a fé afirma-se na travessia do tempo como decisão, escolha, aventura de confiança: ‘mais Te escondes, mais o meu desejo permanece atento como sentinela’. Ou seja, a fé mede-se na fidelidade!

Deus revela-se, diz e diz-Se, apresenta-se como Pai, dá segurança e lei, vem como irmão e amigo, oferece a Sua presença interior, unção suave de gozo e paz e a partilha a Sua fecundidade. Mas o mesmo Deus vem buscar-nos a casa para nos trazer até à Sua Casa: seguem-se dias ou meses, todo o tempo que Ele providenciar, duma travessia sem dia de chegada marcado! Tempo assaltado por provações e tentações no silêncio escuro das estreitas veredas por onde se é chamado a seguir. Às vezes tempo de uma solidão invencível porque o Único que a podia vencer mais a afirma. Esse mesmo que sabe da nossa sede d’Ele e de quanta água temos guardada para o caminho nessa cisterna a que chamamos coração.

Acresce que surgiram a proclamar vitória e vingança os do costume, fardados com as pompas do ateísmo, confirmando a evidência de que a fé começa por ser um fruto da imaginação para terminar numa obsessão fraudulenta: fantasia-se Deus, Ele não se mostra, continua-se a viver fingindo que Ele existe. Daí que a Madre Teresa não fosse mais do que uma espécie de marxista sublimada, em versão católica.
Para o desmentir, bastaria lembrar que as utopias nascem generosas, afirmam-se na violência e morrem ferozes. Não consta que a Madre Teresa tenha pugnado por tribunais populares. Note-se, também, que a santa de Calcutá não deparou, a páginas tantas, na sua vida com o desmentido dos seus ideais: ‘é tudo falso’. O que se passou e que, pelo visto, muito a admirou na heroicidade do seu sofrimento, foi que nela encarnava e se cumpria o Evangelho todo, e também aquela parte em que Jesus sua sangue…

Outros, ainda, que fazem um percurso vivo e aprofundado da sua fé, não deixaram de encontrar nas dúvidas da Madre Teresa argumentos simétricos que justificam as suas próprias dificuldades existenciais que os fazem suspeitar de Deus, da Eucaristia, da alma, do céu e do resto do credo…
Julgam mal os que julgam reconhecer na Madre Teresa uma crise de fé como as suas: porque uma coisa é a suspeita de Deus que nos faz não embarcar e seguir com Ele. Não querer ir mais longe do que o nosso projecto/sonho de vida; e que o Senhor não venha perturbá-lo… Outra coisa é a aventura de quem se fez ao largo e fundo mar, lá onde fala o Adamastor, mantendo firme a face diante da vaga, das muitas vagas. Porque não é a presença de Deus no mar alto que assusta. É a Sua ausência. É o Seu permitir que sobre os justos rebentem ondas que rebentam tudo. ‘De Deus não farás imagens’ diz o mandamento. E que outra graça trouxeram à Madre Teresa todos os anos de deserto no mar alteroso senão aquela mesma que a fez identificar-se com o rosto do Filho na dom da Cruz.
Distinguem-se, ainda, os acontecimentos interiores no coração da Madre Teresa dos que nos ocorre reparar em nós, pelo facto de, nestes, a sua natureza ser vulgar: quantos ‘interesses’ próprios e privados nos que têm interesse em ter dúvidas de fé. Nada de existencial, no sentido de datado e definido pelo séc. XX, na experiência da irmã de Calcutá. Ela sabia-o: ‘não confiar’, ‘não acreditar’, ser paralisada pelo medo, são experiências correntes num tempo adoecido na lassidão da in-certeza do ‘eu’ contra a necessidade de relação disponível com o ‘Tu'.
Na Madre Teresa a raridade da vocação que a fez sofrer o que agora sabemos tem a origem no mesmo dom de excepção da sua força, da extensão da sua generosidade, da evidência do seu testemunho cristão.

Não nos resta senão bendizer a Deus que a provou, incendiou, e deu aos nossos tempos com o heróica vocação de testemunhar até ao fim um amor único, virginal, total, como 'escrava do Senhor'. Como Missionária da Caridade, portanto!

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Silêncio

Calma, SILÊNCIO, paz, SILÊNCIO, serenidade, SILÊNCIO, estou só acompanhada, por Aquele SILÊNCIO que me enche e preenche.
Todos precisamos de um tempo, de um espaço, de um espelho? NÃO.












SiLêNcIo. PÁRA Mundo, AcOrDa TU aí, que estás no barulho. Repousa sem dormir, aprende a escutar o Silêncio.

Visitas

Visitar a minha terra de lés a lés.

Cansar-me das suas desfigurações: acusá-las, gritá-las.
Coisas minhas -eu- atingidas, tingidas de decadência.

Chegar a cada canto e sofre-lo.
Chegar a cada canto e quere-lo.
Chegar a cada canto e dizer: “Mãe, cheguei!”

Celebrar as paisagens que dão sobre o mar
e as outras sobre a planície
que é também um mar
seco.
Dizer a vivacidade dos rios úberes
ou dos ribeiros rasos,
veias veios que sangram aflições.
Gostar dos pinheiros mansos, sempre de férias.
Reverberar suspeitas sobre os eucaliptos.
Encantar-me com as olaias.
E parar diante de um sobreiro,
soberbo.

Achar graça à pardalada.
Entrar na festa das andorinhas.
Perceber nas gaivotas o gosto pelos voos fúteis,
sempre por perto.
De quando em vez acompanhar a pretensão da águia,
que vê de cima.

Conviver com os seus escultores:
na capela levantada sobre o cabeço inacessível,
num rosto talhado a enxó
ou na face graciosa,
no assomo de carácter percebido no cão de raça
ou na expressão vernácula do dizer.

Seus maiores:
Os que fizeram os muros românicos e os barcos e os socalcos e as cidades
e inventaram sabores e fizeram vinhos e quintas
e as cantigas tristes
mais as outras,
airosas e felizes.
E os pormenores.

Bendizer os que se aventuraram:
a defender muralhas ou a embarcar prá Índia,
os que fizeram caminhos e casas lá onde a fome e a coragem os levou.
Conhecer-lhes o berço. Honrá-los.

Ser abraçado pelos seus.
Ser educado na resistência
só possível aos pobres.

E ter saudades.

domingo, 2 de setembro de 2007

A barbearia


Quando era pequeno, ir à barbearia do bairro era um ritual da minha masculinidade. Nem sempre voluntário, mas periodicamente inevitável, quando a juvenil guedelha hirsuta assim o exigia. Ao princípio ia com a minha mãe, que me entregava aos cirúrgicos cuidados do barbeiro e logo saía apressada, talvez pouco à vontade, talvez para fazer outras coisas úteis. Percebo perfeitamente, pois eu também não me sentia bem no território feminino, quando infortunadamente era obrigado a acompanhar a minha Avó ao cabeleireiro Brito & Brito, na Avenida da Liberdade. Eram momentos de sufocante opressão, com a ideia clara de que era um intruso naquele ambiente assexuado a cheirar a laca e a verniz. Espantavam-me aqueles estranhos capacetes espaciais, com as circunspectas senhoras debaixo, de dedos em riste pintados de fresco. Eram todos aqueles rolos, papelotes e turbantes na cabeça que me deixavam verdadeiramente intimidado, estarrecido.

O que me lembro do meu barbeiro ali na Rua Almeida e Sousa em Campo d’Ourique, era das suas mãos lavadas e relógio dourado no pulso. Sempre de impecável bata branca e de conversa fácil, com os seus dedos duros e frios a endireitarem firmemente a minha cabeça fugidia. Lembro-me das pinceladas de sabão morno, e do raspar da navalha afiada na nuca e nas patilhas inexistentes. Era parte dos procedimentos. Lembro-me do fatal calendário de “garagem” com uma loira bem curvada, do horário e dos diplomas emoldurados. Também sobressaiam, ao lado dos grandes espelhos, umas fotografias a preto-e-branco de garbosas e antiquadas cabeleiras, bem penteadas com Bel Hair ou Restaurador Olex. Fascinavam-me também os pesados cadeirões em ferro pintado, onde me sentava soerguido num caixote “adaptador” para as crianças pequenas. E do estofo de cabedal redondo, que com duas espanadelas, se virava do avesso para assento do cliente seguinte. Naquele pequeno espaço, os homens comentavam as banalidades da política e do futebol, ao som do Rádio Clube, com as tesouras sempre a cortar, a cortar, em golpes ritmados, tchic, tchic, tchic, tchic. Depois, vinha aquela pergunta redentora: “o cabelinho é para molhar?” Finalmente o sacrifício acabava, era tempo de voltar para as brincadeiras, para casa ou para a praceta, com os cabelos caídos a picar nas costas.

Um dia destes, aburguesado e imprudente com as pressas, descobri perto do escritório um moderníssimo Cabeleireiro de Homens, cheio de paninhos quentes e inauditas mordomias. Surpreendi-me logo com o pretensioso recepcionista, de modos efeminados, casaco fantasia e gravata Disney que confirmava a marcação. Sentado na sala de espera, procurei em vão literatura apropriada, o Record ou o Correio da Manhã para me entreter. Só descobri as brochuras dos milagrosos produtos capilares. Logo uma menina, de rabo bamboleante, se abeirou de mim perguntando-me se eu queria arranjar as unhas... Eu, arranjar as unhas?!? Notei também as conversas dum cliente com a manicura, talvez um bem sucedido gestor de Import - Export, que me soou excessivamente íntima. O homem emitia confiantes e bombásticas opiniões, sobre a política e as finanças “de cordel”. Quando, de cabelos lavados, cheguei às mãos da decotada cabeleireira, balbuciei que não queria modernices, o que a deixou visivelmente contrafeita. Depois, veio uma jovem estagiária oferecer uma massagem capilar... e um café. No final paguei 25.00€. Nunca me saiu tão cara uma bica...

Duas semanas depois, quando o cabelo mal cortado definitivamente não assentava mais, decidi-me a visitar o velho e fiel barbeiro aqui de S. João do Estoril. Decidi-me a perder uma manhã de Sábado a ler o Record e o Correio da Manhã, e cortar o cabelo como deve ser. Ouvindo o Jogo da Mala e o Bola Branca em ondas médias, sem paninhos quentes ou embaraçosas mordomias. Afinal um conservador é um conservador.

sábado, 1 de setembro de 2007

Bebés "irritáveis"

Em cima do teclado do computador tinha uma fotocópia de um mail, enviado para o nosso consultório (www.estimulopraxis.com). O mail era da revista "Crescer" com umas perguntas que deveria responder o mais rápido possível, para um artigo que deveria ter sido feito "ontem" (os jornalistas são todos assim?) sobre bebés "irritáveis". Aqui ficou a folha, esperando o tempo livre desta mãe psicóloga, que geralmente é... lá mais para a noite...
Acontece que o pai hoje veio a casa mais cedo (atípico) e resolveu colaborar... e eu não resisto a partilhar convosco algumas das suas respostas, escritas à mão por baixo das perguntas da jornalista:)
Pergunta 5 - "O que é feito para detectar as causas do choro?" Resposta: Primeiro abana-se o bebé e depois os pais gritam.
Pergunta 7 - "Em relação a esta situação (irritabilidade do bebé), existem alguns mitos que procurem desmistificar junto dos pais? Quais são?" Resposta: O mito do bebé calminho... só se for o bebé do vizinho.
Pergunta 8 - "Segundo a vossa experiência, a maioria das situações de choro irritável e prolongado conhece um final feliz?" Resposta: Sim. O bebé acaba por crescer e os cabelos brancos dos pais aumentam...

New age

O moderníssimo aparelho do meu carro lê os CDs em MP3. Neste “formato” cabem quase vinte álbuns num simples CD de 700 megas. A fartura é tanta que o pobre desconfia. Com o ouvido atento, apercebo-me como o processo de compactação digital nos defrauda, prescindindo de tantos “bites e baites”, aparentemente redundantes. Ou eliminando os sons considerados inaudíveis ao ouvido "comum". Confesso que aquele som, redondo e de plástico, ao princípio até soa agradável. Mas ficamos com a ausência da alma, dos sombreados, dos degradés e dos ecos mais subtis da peça. Desvanece-se a profundidade e o relevo, a coloração sonora impressa pelo espaço, pela sala ou pelo estúdio e os seus materiais.
Chegado a casa, cedo à urgência: ligo o amplificador, ponho a rodar o gira-discos, fecho a porta, ajusto o volume, ponho cuidadosamente o vinil a reproduzir o órgão de Tom Koopman, tocando a Tocata e Fuga BWV 565 de Bach. Respiro profundamente e deixo-me ir.
Infelizes os satisfeitos com o que os seus humanos e precários sentidos alcançam. Vendo pouco e crendo pouco. Conformados. Tantas vezes cínicos.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Aix

Os franceses chamam-lhe assim. So Aix. Aix-en-Provence dizem todos os estrangeiros. Se fosse possivel escolher um lugar, uma cidade, uma ideia, uma luz era aqui. Na estaçao de S. Charles, em Marselha, a esquerda, apanha-se um comboio regional, pequeno, estreito. Toda a gente folheia jornais regionais, quase ninguem toca nos jornais de Paris, e demasiado longe, o mundo e outro. A estaçao de Aix e pequena, duas linhas, para norte e Sul, e depois entra-se na luz, na claridade, em Cezanne, o mais belo pintor do tempo que ainda e o nosso. Existe um carossel onde as crianças brincam, existe algum lugar em França onde nao exista um carossel? E sabado a tarde e na Place Maribeau, o centro de Aix, so existe o silencio e as flores e a catedral e as ruelas por onde a luz nasce. So existe um pequeno rumor de um grande ecran onde se ve o jogo de raguebi, a França joga e e o desporto amado pelos franceses. Procurar a luz e procurar a essencia dos objectos, o que eles sao, a realidade. Cezanne e o pintor da luz, dos objectos que procuram uma ordem. As flores brilham, pendem das varandas e as casas projectam uma luminosidade e uma beleza que sufocam. Existe sempre referencias a Cezanne , a sua casa, as suas pinturas. A luz e o centro, e o misterio, o silencio perpetuo. Volto a Marselha no comboio e leio o jornal de Paris. Na pagina 13, ao fundo uma pequena noticia: um restaurante esta a vender pizzas com marijuana e um jornal publicou a receita o que esta a causar indignaçao na populacao local. A luz de Aix nao termina, a luz e o lugar.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

As Férias Que Mais Admiro


São as que moem até doer
e que espremem a resistência que pensávamos já não ter.
São as que nos entranham todo o corpo do lodo que trilhamos
e nos ensopam do frio da chuva
que aparece sem ser o seu tempo.
As que têm noites pouco dormidas
no desconforto de um chão duro
e dos zumbidos das melgas
impossíveis de combater no escuro.

E destas férias nasce o descanso mais procurado
(e tão pouco encontrado)

São as que nos põem a andar horas a fio,
secos ou molhados, sem conhecer o fim
mas na certeza que vamos e chegamos contentes,
porque vale a pena arriscar no que mais custa.
Vimos e ouvimos o Belo
e aprendemos a deseja-lo mais nosso.
Com gosto, esforçamo-nos pelos outros,
e percebemos como isso é tão bom.
Muitos, e com vidas tão diferentes,
rimos de coisas simples, e sorrimos por dentro
ao olhar para os risos sinceros de quem nunca assim se riu.
Sentimos a falta dos nossos que não estão,
mas aprendemos a amar mais os que estão.

Acabamos com a alma grande,
admirados com a certeza de que
(como alguém dizia)
O Bem vence.

Entre amigos, são assim as férias que mais me admiram,
as que passamos juntos,
nos acampamentos do Vale de Acór.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Bom dia!!!

Bom dia, bom dia, bom dia a toda a gente
Eu hoje vou trabalhar e por isso estou contente!!!


P. S. - É óptimo depois das férias saber que temos um trabalho que nos espera... não?

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Foi Assim II

Tenho estado de férias e (salvo esta rara excepção) muito longe de qualquer possibilidade de acesso à internet e à blogosfera - Deus seja louvado por isso, que eu bem precisava deste descanso. Aproveitei entretanto para pôr algumas leituras em dia e foi assim que, na sequência duma promessa anterior me deitei a ler o "Foi Assim" de Zita Seabra.

Impressionou-me a descrição daqueles dias de medo e solidão, daquela entrega total e gratuita ao que, para si e naquela altura, era a causa mais bela e nobre que alguém poderia abraçar, a luta pelo supremo bem! Confesso que li a obra com o mesmo tipo de paixão com que se lê um bom romance. Senti-me na pele da autora, sofri com ela, tive medo por ela, vibrei com ela no "dia da liberdade", senti o alívio de poder viver já sem medo. Senti-lhe a alegria de poder voltar a estar com a família e com os amigos de quem se separara havia tantos anos; de poder finalmente encontrar-se frente a frente com caras que sabia existirem mas que nunca tinha podido olhar. Quando parecia que se iria finalmente realizar aquilo porque tanto lutara, consegui perceber o seu empenhamento nessa causa e a obediência cega aos que determinavam o rumo deste "grandioso" momento da história do nosso país.

Finalmente, vivi com ela os tempos de encontro directo com o comunismo real. Senti-lhe a decepção, o horror, a culpa. Intuí-lhe o desespero do sofrimento por uma causa que, não só era uma perfeita mentira, como se revelou como a mais horrível e monstruosa criação da humanidade...

Achei muito importante a denúncia das mentiras e dos enredos enganosos que todos conhecíamos ao Partido Comunista e a Álvaro Cunhal, mas que nunca tinham sido tão sistemática e, nalguns casos, pormenorizadamente descritos. Foi importante ter-nos feito perceber que estivemos por um fio de sermos engolidos por toda essa vergonhosa trama em que a autora tem a coragem de assumir a sua participação activa.

Só me pareceu ter ficado a faltar nesta obra uma referência, senão um agradecimento, por breve que fosse, e que me teria parecido justa, a todos aqueles que, conhecendo de há muito o comunismo real lutaram, antes e depois do 25 de Abril, com todas as suas forças, muitas vezes contra a própria autora, para que tal desgraça nunca caísse sobre Portugal (incluíndo colónias onde, infelizmente, isso não foi conseguido). Mas não me sinto no direito de exigir mais a quem acordou deste longo pesadelo que viveu tão intensamente e durante tanto tempo. Esse pesadelo que, como referi acima, foi a mais horrível e monstruosa criação da humanidade.

"Foi Assim" de Zita Seabra é um livro de que recomendo a todos a leitura.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Tomando sempre novas qualidades...

A maior "revolução" operada na sociedade contemporânea, subtil e orgânica, é aquela que aconteceu à relação entre o pai e os seus filhos. Mais até do que as conquistas femininas, de lugares nos estádios ou em promissoras carreiras.
Apercebo-me hoje que o meu pai ainda esboçou uns tímidos esforços, desajeitadas tentativas de intimidade, inspiradas nos inevitáveis sinais de mudança. Mas a rigidez dos "papéis" estava-lhe demasiado impregnada. Assim como aquela solidão.
A maior "revolução" dos tempos modernos, é a "revelação" da plena paternidade. Hoje, conhecemo-nos cedo, com a ajuda da pele e de uma orgânica cumplicidade. Com muitas canções, lenga-lengas, banhos de banheira, de mar e de mundo. Depois de tudo isto, que venha a vida toda, com os seus anunciados terrores e tempestades. Seremos mais fortes, por certo, o que já não é pouco.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Férias e filhos...


Este mês fomos de férias, nós e tantas outras famílias portuguesas, por esse mundo fora, e por esse "fora cá dentro". Depois da árdua tarefa de conseguir juntar todas as coisas necessárias para uma semana em família, lá fomos nós a caminho dessa casa pequenina, nesse algarve que ninguém conhece.

Aprendemos a simplificar, a piscina de praia é também banheira, para 4, 2 toalhas, põe-se menos sal na sopa para que todos possam comer da mesma, provar a areia é apenas mais uma actividade não dramatizável...

Às sete e meia da manhã começa o dia cheio de energia, não se pára um segundo, não dá para bocejar... Descansámos? Não... mas mudámos de ares, na certeza que somos os mais felizes do mundo por dormir tão pouco e estarmos tão cheios de tanto brincar!!!

História de algibeira (16)

D. Carlos I (1863-1908) foi o primeiro rei de Portugal a morrer de morte violenta depois de D. Sebastião, em 1578. Foi também um dos mais inteligentes e capazes reis do seu tempo, quando a Europa era ainda, com excepção da França e da Suíça, um conjunto de monarquias. (…) D. Carlos tinha 26 anos quando foi aclamado rei, a 19 de Outubro de 1889, e apenas 44 quando morreu, a 1 de Fevereiro de 1908. (…) Era um homem independente, sensato e corajoso, capaz de suportar grandes pressões e de tomar decisões arriscadas quando se impunham. Morreu por causa das suas qualidades, não por causa dos seus defeitos.


In: D. Carlos, por Rui Ramos. Colecção Reis de Portugal - Circulo de Leitores 2006

Agosto

Todos contamos com o calor de Agosto, achamos sempre que os dias vão aquecer, que amanhã é que é, mas o certo é que nunca mais é o bom tempo definitivo, o tempo que esperamos em Agosto.
Todos gostamos de planear qaulquer coisa e tudo, gostamos de saber com o que contar e contar o que sabemos por certo com ar de quem sabe:) Mas na verdade, já alguém o disse de certeza, nada sabemos e nada decidimos ao certo...
Passo a explicar, ou a complicar: agora a coisa é assim, amanhã, o que tenho como certo hoje pode alterar-se de tal forma que o que não era nada esperado se torna realidade.
É como o tempo em Agosto...

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Bandos e bandas

“Drogas em festival de música” era assim que começava a notícia que já não é notícia. E prosseguia: “Desde sexta-feira, dia 17, segundo dia do ‘Freedom Festival’, já deram entrada no serviço de urgência do Hospital de Santa Luzia em Elvas, 36 pessoas com sinais de consumo excessivo de drogas. Uma mulher acabou por morrer…”!
Como é que a coisa se processa? Eu explico: o país está a saque, o clima é ameno, arma-se a tenda num descampado qualquer, o presidente da junta fica muito agradecido porque aparece na televisão, a ‘organização do festival’, palavra-chave que irresponsabiliza toda a gente, faz então a convocatória do evento, anuncia bandas e decibéis. Respondem à chamada hordas de infelizes, só funcionam em bando, só conseguem respirar no restrito circuito do “sexo, drogas e rock and roll”!
À volta do acampamento, a guarda republicana vigia como quem toma conta de um jardim de infância!
.
Fonte: "Correio da Manhã" de 21/08/07.

domingo, 19 de agosto de 2007

A concorrência

Aí estão os primeiros pontapés a sério, a jornada é longa, alarga-se por cinco dias, originalidade portuguesa que só tem paralelo no tamanho dos nossos telejornais, outro caso a pedir reflexão, próprio de alcoviteiros sem emenda.
Mas regressemos ao esférico e àquele jogo de solteiros e casados que decidiu a super taça! Ganharam os casados mas completamente divorciados do bom futebol e não fora um tiro imprevisto de um homem de leste, estou convencido que a coisa só se resolveria na marca das grandes penalidades. E por falar em penalidades, começou um novo campeonato, sem apitos, cheio de promessas, mas a tradição ainda é o que era: Elmano, que não tem nada de sadino, lá fez vista grossa a um daqueles penalties que só não se marcam em Alvalade! À noite, no indescritível programa da TVI que só fala dos clubes do estado, o assunto foi naturalmente desvalorizado, mas se fosse ao contrário, se o Sporting precisasse do rigor da lei para conseguir um bom resultado, o chinfrim que não seria!!!
Vamos até Braga onde os arsenalistas receberam os azuis e brancos com Jesualdo no fio da navalha. Valeu-lhe Quaresma em ‘livre sim’, porque correr e lutar não chegam para ganhar na cidade dos Arcebispos.
A quem não chegou jogar em campo neutro para ganhar, foi ao Benfica! Equipados a rigor, cor-de-rosa, os pupilos de Fernando Santos até nem jogaram mal na segunda parte, Katsouranis elevou-se bem na marcação de um canto e desviou para Petit ganhar vantagem, mas as equipas de Carlos Brito só se rendem no fim e o Leixões conseguiu empatar no fim. Ezequias, o mesmo que quase comprometia a equipa em lance faltoso não sancionado, num último fôlego, lançou o seu ataque e a bola cruzada para o coração da área acabou no fundo da baliza encarnada. O Benfica sem o Veiga não é tão perigoso.
Se é isto a concorrência, o Belenenses pode estar descansado. Do que vi e não vi parece-me que os ‘clubes do estado’ estão mais frágeis, porque o estado está também mais frágil. Uma boa oportunidade para o Belém se aproximar do cimo da tabela.
Saudações azuis.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

História de algibeira (14)

Segundo um relatório de um espião da coroa britânica de serviço em Lisboa ao tempo da “questão inglesa” era nas manobras dos chefes políticos que estava a lógica dos acontecimentos, porque em Portugal “a animosidade dos partidos é mais poderosa do que o patriotismo”.


George Petre, oficio a lord Salsbury, 31.3.1890 In D. Carlos – Rui Ramos, Círculo de Leitores 2006

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Aparição

Já aí vinha o rei de Castela, João,
como se suas muitas gentes fossem as águas do Mondego
escorrerendo tranquilas,
de Coimbra a Lisboa
em passeio.

Já o Mestre ouvira o parecer dos habituais da corte: ‘não’
fazer perigosa guerra
desproporcionada,
pois de um lado ao outro das nossas almas
há receio.

Já em silêncio austero com os seus largara Nuno
levando no sangue
a terra sua
cuja extrema fronteira
era lá aonde chegava
a sua honra.

Quando lhe veio no encalço João Afonso de Santarém:
Que avaliasse melhor,
Que retornasse a Abrantes,
Que viesse a nova conferência.
Que não era homem de muitos conselhos
retorquiu-lhe o Condestável.
Que esperaria o Rei em Tomar.
Senão haver-se-ia com os seus

face ao Leão de Castela.

E, depois,
aos que o seguiam,
com a fluência e gravidade de quem está tomado
de limpa certeza,
com a face como se fora a de um mastro
que flama de beleza,
valente
e fraterno
afiançou:
‘Amanhã estaremos o dar guerra ao rei de Castela
porque a merece.
Deus não é mais inimigo deles do que dos cobardes
que moram do lado de cá.
Deus não é contra os castelhanos, os francos
ou qualquer outro gentio que fora.
Mas Deus dispersa os soberbos.
Deus não é nunca pelos que torcem a liberdade.
Porque Deus amou tanto a liberdade que Lhe chamou santidade.
Deixemos, portanto, a vergonha aos que cresceram a espiarem-se uns aos outros,
adivinhando intrigas.
Vós que do Alentejo comigo viestes
vistes o mundo aparecer-vos largo e fundo.
Trazei sempre dentro da alma a memória do que é grande.
Que o longe seja a vossa cerca.
Deus apareceu a Abraão, a Moisés
e ao meu querido Patriarca Elias.
E o anjo apareceu a Maria porque Deus quis fazer-lhe alta cortesia.
Pela santa Encarnação Deus apareceu a todos os homens.
Os 12 apóstolos apareceram em nome d’Ele em todos os cantos da terra.
E todos os santos são maneiras mil de Deus continuar a aparecer.
E os amigos que são amigos aparecem.
Como nós, então, soldados, amigos do Deus amigo da liberdade,
não haveríamos amanhã de aparecer ao invasor!
Sabeis agora ao que se parece a covardia: não aparecer!
Porque aparecer é já vitória.
Tomemos do Senhor o alento que Ele em nós quis fazer aparecer.
E ousemos, assim,
estar lá
em nome de um povo que espera a nossa aparição’.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Ainda Torga

Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.


Impressiona o drama da sua existência – uma existência tão independente, que procura sempre criticar e actuar contra os atropelos à dignidade, à justiça, preservando a liberdade no sentido que julgava mais autêntico, mas que se foi afastando da fé cristã e da Igreja e, de acordo com a verdade que a caracteriza, não encontrou outro que as substituísse
Daí o seu lamento: "Isto de religião está cada vez pior dentro de mim. Depois de uns arrancos fundos e angustiados, a coisa foi secando até chegar a esta mirra mística, que já não há Jordão teológico capaz de vivificar. Mas quanto mais pobre estou desse conteúdo humano, mais cheio me sinto de desespero. O que eu dava para me levantar cedo esta manhã, ir à missa, e voltar da Igreja com a cara que trazia o meu vizinho" Diário I.
A sua ligação à terra, à montanha, à planície e o relato que faz das mesmas e da lusa gente traça-nos um retrato ainda hoje tão actual do Portugal que somos. Aquele que lê o DIÁRIO, como escreve Sofia de Melo Breyner, "percorre Portugal de lés a lés, o seu espaço telúrico, humano, e o espaço histórico e cultural" (Miguel Torga, Poeta Ibérico).
“Na sua escrita forte como um grito, um apelo da terra que o viu nascer, na sua exemplar dignidade cívica, na inteireza do seu carácter, reencontramo-nos com Portugal”, lê-se na mensagem de Cavaco Silva divulgada pela Presidência da República.
Daí que se perceba tão mal a falta de um membro do governo na comemoração do seu centenário ontem, em Coimbra.
Afinal, sinal dos tempos, este gesto mediocrizante dos responsáveis políticos da nação não é inédito. Mostra bem como encarreiraram por uma compreensão estéril da condição humana, que se resolve bem com planos tecnológicos subservientes da eficiência e da eficácia, mas que ignoram a profundidade da alma humana. Quem se distraiu com as ligeirezas de currículos da disciplina de português do básico e secundário, com os critérios desculpabilizantes dos exames nacionais, com a exoneração da directora do Museu Nacional de Arte Antiga, que julga que os problemas da educação em Portugal se ultrapassam com a facilitação do acesso a computadores portáteis, à introdução de quadros digitais nas salas de aula…, não pode agora espantar-se boquiaberto perante o Marão da indiferença da intelligentzia liderante de Portugal face à efeméride. O pragmatismo reinante é secante, uma vez que diz do caminho a percorrer que ele se faz de eficácia e eficiência que levam ao “sucesso”. Estimular o contacto com os que antes de nós tiveram de lidar, bem ou mal, com o cabo das tormentas com que tantas vezes a existência nos brinda, não é caminho para considerar em tempo de luta contra o deficit ou de recuperação do atraso económico face ao resto da Europa comunitária. Esta percepção das coisas castra a vida que habita o homem, reduzindo-o apenas a peça de uma mera engrenagem. É outra a voz agora escutada. A. Huxley e o seu Admirável Mundo Novo estão decerto bem mais próximo das cogitações dos senhores do momento. Pior para todos.

domingo, 12 de agosto de 2007

A Torga

(No dia em que se festejam os 100 anos do seu nascimento)

I

Nervos tensos em direcção à liberdade
sem jamais te ajoelhares livre,
até de ti mesmo.

Revolta de adolescente perpetuada
na saturação da Casa,
sempre a dizer não.

Sempre a solitária coragem,
gémea do medo
ao sabor da comunhão no Sangue.

Teu o desejo de aventura,
margeando o Caminho,
sem te abeirares da sua graça.

Cantos à justiça que mutuamente nos devemos
alevantados numa memória ferida por todas as fomes,
mas que recusou o Pão.

Que pena tua pena
de poeta,
sim,
mas de poeta santo
não.

II

Sabe, porém,
que nunca te esqueci
Sou o teu irmão Abel.
embora nos dias das tuas palavras amargas
me julgues mais parecido com o ressentido Caim.

E venho hoje agradecer-te
o quanto vindimaste para mim,
ó homem duro do douro tão amado:
Vertigens, paisagens perigosas que transportamos em nós.
Brusquidões, vulcões por dentro e por fora.
Descrição, navegação certeira no oceano da vida.
Nobreza, grandeza no espanto face à terra.
Intuição, fruição do que desponta de único nas gentes.
Alento, rebentar a querer dizer.
Mirad’oiros, versos nascidos nas fragas,
lá onde a beleza te inflamava.

sábado, 11 de agosto de 2007

Inácio

(Embora chegue atrasada aqui fica também a minha homenagem a um ‘fora de estrutura’ muito peculiar)

Chamava-se Inácio Beja. Era alentejano. Mas poderia ser também de Braga ou Castelo Branco, homem que era da cor de Portugal inteiro. Por alcunha chamavam-no ‘china’, ele que teve sempre os olhos rasgados na direcção da aventura. Cresceu em Lisboa, lá para o Intendente. Aí se talhou o seu carácter castiço e fadistote, sempre pronto para os lances marialvas. Terá amado alguma mulher, ele que procurou consolo em tantas? Foi emigrante em França, a ver se escapava a esse outro fado da miséria.
Por saudades da mãe regressou. Assim o confidenciou certa vez, ele que parecia não ter ‘fraquezas’. O pai comunista não venceu nele o amor da pátria. E lá foi, soldado comando, onde o chamava o sentido guerreiro da honra. Porque 600 anos de história tinham-no habituado a considerar que era venturoso por a lança em África (nesse tempo em que a geografia nacional não incluía a Bósnia, o Afeganistão ou outros destinos esdrúxulos...).
Não deveriam ser muito diferentes dele os soldados do Mouzinho ou os homens tipo Silva Porto. Os que se aventuraram bandeirantes pelo Sertão e pela Amazónia seriam , certamente, gente da sua têmpera. E assim, também, os heróis que não viraram a cara ao Adamastor. Creio, obviamente, que ele teria sido um peão valente em Aljubarrota e teria estado entre os primeiros que, ás ordens de algum dos Afonsos, fosse mandado escalar a muralha dum qualquer castelo mouro.
Mas ele era ainda português pela particular índole da sua cordialidade. Teimoso e obstinado, capaz de umas quantas piruetas para se safar nalgum ‘flagrante delito’, o Inácio aparecia sempre a querer conversar, a dizer qualquer coisa, a animar a conversa com uma história, uma opinião ou uma facécia qualquer. Era amigo naquele sentido preciso, e precioso, de quem deseja, sobretudo, estar com os seus amigos. Com os subalternos era capaz de ser severo, mas mais por gostar de embirrar.
Desembaraçado, bravo, na cara gasta, que não mentia acerca de um corpo exausto, via-se que gostava de viver com as duas mãos cheias.
Tinha uma consciência tímida, que sempre fez por disfarçar, porque os homens não choram. E por isso mutilou-se asperamente e chorou sozinho anos a fio. Até que no Vale de Acór deixou de se flagelar. Aí a sua liberdade passou a ser querer estar em relação, com os do Vale de Acór. Na verdade, foi aí, também, que a misericórdia de Deus o entregou àquela Casa sustentada pelo Samaritano. No dia 7 cumpriu a sua última missão, apresentando à sua filha a Igreja . Com efeito, também ela participou na Procissão acendida na fé dos amigos que o acompanharam àquela terra última que é apenas sacramento da outra prometida.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

O amor de Deus

Partiste quando as crianças jogavam à bola no pátio, quando os teus filhos na dor, na solidão e no sofrimento tomavam banho e não sabem o que é a morte. As nossas crianças do campo de férias são teus filhos, Inácio, amam a vida e constroem -na para lá da ausência, da separação, da raiva da expurgação. Uma criança é fruto de um gesto, uma consequência que ultrapassa a individualidade dos seres. Estar vivo é aceitar que se pode amar, caminhar. Partiste durante o nosso campo de férias. Quando a inocência, o gesto incontrolado, e o sorriso eram o fruto. Lembro-me de ti, Inácio, a tua vida escorria sangue, fel, ruptura. Mas tu não amavas as palavras, as cadências, a ti o que te sobrava era a vontade, o gesto que se aproximava da acção, qualquer coisa vital. Choraste uma vez à minha frente há muito anos atrás quando as crianças corriam no pátio como hoje e te esqueceste dos frutos da figueira, que a dor tem um nome.Falavas da cidade de Lisboa que tu amavas, das ruas que só tu conhecias, e do tempo que não é este tempo. As tuas feridas eram as de um povo, uma nação, uma terra que aprendeste a amar. O amor de Deus supera, ultrapassa, guia, orienta. Deus quer que tu estejas ali onde estás agora. As crianças orfãs, sem pai, mãe, abandonadas, esquecidas, jogam no pátio. Os teus filhos são parte do amor de Deus. Adeus, Inácio, reza por nós, que a redenção vença o egoísmo.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Silêncio

Silêncio que as palavras pouco dizem
Surpresa mas a palavra não é justa
Silêncio e fica tanto por dizer
O nome diz-me sempre tanta coisa
Ígnea e incandescente criatura
A dureza na crueza de uma vida
A cada um a sua sepultura
Melhor será lembrar a tua gesta
Bem longe dos trilhos e da glória
Morreste sem o cheiro do capim
Mas podes no silêncio destes versos
Ouvir o último toque do clarim.

À memória de Inácio Beja.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

O povo e o poder

Durante a Monarquia, as reformas que o PRP tão eloquentemente recomendava tê-lo-iam fortalecido nas grandes cidades e em meia dúzia de capitais de distrito. Com sorte, teriam talvez levado trinta e tal deputados republicanos ao Parlamento e permitido a conquista de outras tantas câmaras. Assentavam, porém, num postulado falso: o de que o país queria a República. Depois do 5 de Outubro, depressa se tomou claro que não queria. E, assim, esquecendo as suas mais solenes promessas, o PRP nunca decretou o sufrágio universal ou lutou pela descentralização eleitoral e administrativa. A longo prazo, o democratismo republicano não podia deixar de se revelar por aquilo que era: a expressão ideológica da vontade revolucionária da pequena burguesia urbana.


Vasco Pulido Valente - O Poder e o Povo, 1976 - Edição Gradiva 2004

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Os desempregados do sistema e as Bolas de Berlim

19 agentes da Polícia Marítima, 21 da GNR, 6 do SEF e mais 6 da insuperável ASAE (nova versão da polícia de costumes) lançaram-se, vertiginosamente, na perseguição de perigosos vendedores de bolas de Berlim. Foi no nosso Algarve, por estes dias.
E a despropósito de bolos veio-me à ideia uma pergunta: onde param os desempregados dos antigos ideais socialistas de paixão centralista? Dou um palpite: talvez que uma boa parte dos que ficaram órfãos depois da queda do Muro de Berlim se tenham reciclado e sejam agora ‘chefes’, pequenos burocratas sublimados, pontuais cumpridores dos limites de velocidade. Mas, como antes, continuam igualmente obstinados, inflexíveis, e não muito inteligentes. Anseiam com fidelidade canina por mais uma lei do Estado, anódina e mesquinha, para impor e fazer cumprir. São eles que dão ordens aos agentes para que se persigam os tendeiros, os que fazem bolos com colheres de pau, os que preparam enchidos com as perigosas práticas tradicionais, e os que fumam! Disciplinados, quadrados, legalistas, europeístas convictos, ei-los a dar ordens aos subalternos enquanto marcham a 'passo de ganso’ prontos a filar no primeiro 'ilegal' que lhes sair ao caminho. O Muro caiu mas que ninguém se fique a rir e a comer bolas com creme. Como as pessoas, também os povos que não têm coragem de enfrentar o que é importante, distraem-se...

domingo, 5 de agosto de 2007

A luta continua

A “soviética” revolução de Outubro, violentíssima génese do mais sanguinário regime conhecido, celebra 90 anos dentro de alguns meses, e é razão para entusiásticas celebrações na próxima festa do “Avante!”, órgão oficial do sistémico Partido Comunista. A inteligenzia apaniguada do regime fechará convenientemente os olhos à ignóbil celebração. Para tanto basta um convite para uma pública passeata no santuário do Seixal que logo o tinto carrascão e umas febras fumegantes, adormecem a sua sensibilidade democrática. A boa propaganda assim aconselha, pois afinal não é tudo tão “relativo”?
Entretanto, à conta do erário público, preparam-se os nacionalíssimos festejos do centenário da velha e caduca república do não menos passado Dr. Vital Moreira. Celebremos então a carbonária, a formiga branca e o camião da morte. Rejubilemos com as perseguições e o ressentimento sanguinário, o assassinato politico, a desregulação democrática, enfim, o completo caos.
A gananciosa fidalguia regimental, em plena posse da máquina de propaganda, rejubila com a previsível festança para o pagode iletrado. Para o povo historicamente analfabeto e acrítico, hoje alienado com as ilusões da fortuna pós-moderna: viagens enlatadas, telemóveis topo de gama, unhas de gel e outros ídolos do jet 7. Uma vertigem de prazer inusitado.
Abaixo da superfície, uma ligeira vibração é perceptível. Sinais de que a história não acaba aqui e de que a luta continua.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

História de algibeira (13)


Em cima, um precioso instantâneo de Joshua Benoliel, tirado no fatídico dia 1 de Fevereiro de 1908 no Terreiro do Paço onde se encontram D. José de Mello (Sabugosa), Tenente-coronel Alfredo de Albuquerque, Conde de Castro (meu bisavô), Capitão Roçadas e o conde de Mesquitela, aguardando a chegada da família real vinda de Vila Viçosa.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Outubro Negro

«Pela primeira vez pus em dúvida o verdadeiro
sentido do conceito de superioridade moral
dos comunistas, ao constatar que as vítimas
do comunismo são vítimas iguais às do nazismo.
O terror revolucionário, com raízes no terror
jacobino, abriu caminho a um dos
maiores dramas a que assistimos no século XX,
o comunismo (…)A imprensa russa publicava
todos os dias novos casos de vítimas da
repressão comunista:Oitenta por cento dos
membros do Partido Comunista, filiados antes
de 1917, foram presos e mortos. Nos anos 30,
um milhão e 300 mil comunistas (mais de
um terço do total de militantes) foram presos.
Em 1934, cinquenta por cento do total de
membros do PCUS tinham já sido presos e
na sua maioria fuzilados. Dois terços dos
membros do Comité Central do tempo de Lenine
foram mortos, barbaramente assassinados,
depois de torturados e caluniados.”»
do livro “Foi Assim” de Zita Seabra


Já viram os cartazes da festa do Avante, a anunciar a comemoração dos noventa anos desta revolução?!! O pior cego é aquele que, podendo, se recusa a ver. E esta é uma cegueira que domina grande parte do pensamento e da cultura actual. Será, sem dúvida, um grande Bem para todos, que dela se libertem.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Bergman, o sec.xx

Morreu esta tarde quando as agências anunciaram a sua morte. Com Tarkovsky foi o maior cineasta do cinema europeu. Este filmou a Fé, o homem diante dela. Bergman filmou o Eros, as resiliências da alma, a dúvida, os actos humanos. Aborrecia-se quando diziam que a sua influência era Kierkegaard. Queria estar perto do Díonisos de Nietzsche, atormentava-o o sofrimento da vontade, a chama do fogo.Bergman nunca filmou o acto de consumir, as drogas como derrota do homem, como fazem os medíocres. Mas filmou o que está antes, a génese e o príncipio da crise, a ruptura existencial: a solidão, a incapacidade de amar, o degelo das relações, o mal estar que o outro provoca, a violência dos sentimentos como entidade anónima que supera o eu, a ruptura com qualquer horizonte de sentido. Em Bergman o acto de viver é sempre um traço instável, as coisas assumem-se, não como um valor, mas como um desafio que se tem de incorporar. Veja-se a questão da afectividade e de como esta é quase sempre uma violência, remetendo para uma animalidade incontida ( " O Silêncio", " Lágrimas e Suspiros", "Persona", " Mónica e o desejo"). Bergman encarnou em toda a segunda metade do sec xx, as dúvidas do homem depois das guerras mundias, e os significados da ausência de sentido. O último filme "Sarabanda" era a possibilidade, o violoncelo imenso, infindável, que no recorte da tela branca procura o repouso, a recta interminável que se estica na busca de um fim.

Férias

Estava a entrar naquele estado de sonolência, que o sol provoca, depois de um reconfortante banho de mar, quando a minha filha Margarida de seis anos, sentando-se ao meu lado, a olhar o oceano, pergunta:
-Ó Pai, o que há no outro lado do mar?
- A América...onde vive a tia Catarina – resposta imediata.

Este curtíssimo diálogo despertou-me da sonolência e deixou-me a pensar. Há 500 anos
como teria respondido o pai à sua filha? Aliás, há 500 anos atrás, muitos pais se
puseram diante deste mistério, e partiram, largando família, terras, bens, à descoberta de “novos mundos para dar ao Mundo”. Tinham uma alma grande como tão bem descreve Fernando Pessoa:

“E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar
.”

Que diferença! Que pequenino me sinto com tão pequenina resposta!
Hoje, que ambições nos movem, o que nos faz “partir”? Dinheiro, bem-estar,
sucesso, prazer e que mais? Ou pior ainda, será que já nem perguntas nos fazemos?
Hoje sabemos mais, muito mais, mas não será que estamos bem mais aquém?
E mais uma vez o poeta me vem à memória:

«Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

……………………………………………
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!»


Estava eu absorto nestes pensamentos, quando escuto a Margarida, a fazer a mesma pergunta, desta vez à mãe, provavelmente insatisfeita com a minha resposta:
-Ó mãe, o que há no outro lado do mar?
-África…onde vivem a tia Isabel e o tio João.

domingo, 29 de julho de 2007

A minha selecção

Olho os escaparates dos jornais e o mundo parece querer dar-me razão, mas é apenas uma ilusão de óptica, a vida é um jogo, amanhã é a vez dos outros e tudo volta ao princípio! Ainda assim, hoje, posso celebrar o acerto de algumas previsões:

“Morgado alvo de inquérito” – Inevitável, caro Watson, como diria o nosso amigo Sherlok Holmes, temos o apito envenenado, transformado em arma de arremesso entre clubes, ajuste de contas entre o norte e o sul. É caso para exclamar – meu Deus, como aumentou o poder da burocracia na capital! E concluir – meu Deus, como baixou a capacidade industrial do norte!
E o nosso detective haveria de perguntar – então, e as escutas a sul de Rio Maior? Será que a corrupção desportiva é privilégio nortenho? Quem são afinal os clubes que ganham sempre…há mais de meio século? A haver suspeitas deveriam recair sobre este facto insólito e sobre os ditos clubes. São três, não há que enganar, ocupam tudo e todos, dispõem de tudo e de todos, parece até que os outros não existem, nem são necessários!
Bem, o Boavista ganhou uma vez, sussurrou Watson, a medo. Mas em que condições, insistiu Sherlok?
Mudemos de assunto porque já percebi que por aqui não me governo.

“Pinto Monteiro nomeou a equipa de Maria José Morgado coordenadora de todos os processos relativos à Câmara de Lisboa” – Inevitável, caro Watson, com as gémeas à bulha, o melhor é retirar para local mais seguro. A Câmara é agora um sítio pacificado, sem Carmona, tudo se resolve. O Governo apoia no que for preciso.
Mas agora digo eu – depois das declarações pós-eleitorais de Saldanha Sanches, em que sugeriu que Carmona devia ser ‘banido’ por ter desbaratado dinheiros públicos, chegando ao ponto de se preocupar com os votos que lhe foram atribuídos nas intercalares, não me parece boa ideia nomear Maria José Morgado, que é sua mulher, para averiguar processos em que o mesmo Carmona é arguido!
O que é que acham?
Mudemos também de assunto.

"Viemos aqui parar através de uma agência de ‘casting’ chamada NPB. Recebemos trinta euros”.
Fonte: Criança presente na cerimónia de apresentação do Plano Tecnológico da Educação.
Evitável, caro Watson.

Saudações monárquicas.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

História de algibeira (12)

Aquando do juramento da carta constitucional, por parte do Rei D. Carlos a 19 de Outubro de 1889 foi inaugurada em Lisboa a avenida com o seu nome (na foto, daqui).

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Câmara ardente

Inesgotável, depois dos doze candidatos é a vez da equipa morganática apontar baterias à Câmara de Lisboa. Para resolver os casos que afastaram Carmona e entronizaram Costa. Mas este movimento sabe a retirada estratégica que aquilo lá no apito dourado, com as gémeas à bulha, ameaça guerra civil! Estou a ver o filme – Ana do norte, envolta no estandarte do dragão, desafia Carolina do sul, encarniçada defensora da águia! É filme para festival, tem laivos de secessão, por isso, o avisado procurador da república mandou recolher as suas hostes. É pena, porque ficam por esclarecer aqueles casos do sumiço do dinheiro para paraísos fiscais, lembram-se?! As transferências do Mantorras, do Pepe, do João Pinto! E as escutas a sul de Rio Maior, as que se fizeram e as que se podiam ter feito.
Por outro lado, e caso não venham a existir quaisquer provas que incriminem Carmona e a sua equipa, o esforço da procuradora Morgado será inútil porque entretanto a Câmara já mudou de dono. Mais uma razão para acreditar que o apito está inquinado e não vai ser o sucesso justiceiro que tantos esperavam.
A ver vamos.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Un'entrevista di Lavoro à Perugia

[attenzione a la rissalva: questo italiano non é, oviamente, escrito con correzione!]

Patroni - Buon giorno, assietati per favore! Noi gostámi molto di te curriculum. Tu é un ragazzino molto inteligente é prático! Ma esclareceti una cosa: qué vuoi decire, in questa parte di le tue specialitá, qui tu é un specialista in bomb pontinho [bomb.]?
Ragazzo - Bomb pontinho? ... Ah. Ecco! Io sono un specialista in bomboni!
P - Bomboni!? Ma qui pena! La cosa nostra non’é bomboni ma bombini!
R - Ma si tu voi, io puo fare bomboni in forma di bombini!
P - Noi non gostiami di cose dulce, noi habiamo bisogno di un’altre cose! ... Et bombini in forma di bomboni? Tu pensi qui puoi fabricare?
R - Ma qué cosa dicheti? Mamma mia! Io penso qué é méio buscare un’altro lavoro! Arrivederci!
P - Arrivederci! Baci mille!

terça-feira, 24 de julho de 2007

O Tempo, as férias e o que queremos fazer deles


Comecei por estes dias a ler um livro dado à estampa sob o título “Imposturas anticristãs – Dos Evangelhos Apócrifos ao Código Da Vinci”, de Joseph-Marie Verlinde, editado pela Verbo.

Surgiu-me logo no início do capítulo I uma citação de Romano Guardini, extraída de “L’essence du christianisme”, que bem podemos ajustar ao tempo presente, período para muitos de paragem nas tarefas habituais. Falo das férias.

Podemos vivê-las de muitas maneiras, enquadráveis em duas categorias maiores: - de forma inteligente ou de outra.

Quanto à primeira, parece-me ser avisado atender à oportunidade que este tempo nos concede e que consiste em maior liberdade face aos compromissos habituais.
Usar esta liberdade em sentido edificante afigura-se-me um imperativo que deve ser aproveitado para promover a “…intensidade da relação…”. Vale promover a profundidade desta ligação porque a partir dela tudo o resto. “…todas as coisas, o mundo, o destino, as tarefas…” ganham uma nova densidade, ganham o seu sentido pleno.
A proposta de densificação da relação que proponho não é numericamente significativa. Trata-se tão somente de eleger Um só como alvo desta demanda. Que se rentabilize este período para nos aproximarmos d’Aquele que “…está contido em tudo, expresso em tudo, que a tudo dá o seu sentido…”.
É grande demência perdermos mais uma oportunidade da nossa vida, este tempo extraordinariamente favorável, para promovermos o nosso estar em todas as coisas, o nosso estar no mundo, como um autêntico estar no mundo – enraizado na pessoa de Jesus de Nazaré. E porque é que este enraizamento é decisivo? Porque a pessoa de Jesus “…determina tudo o resto, e tão mais profunda e totalmente quanto for a intensidade desta relação…”.

domingo, 22 de julho de 2007

A Costa do problema

Faz hoje uma semana que Lisboa tem um novo presidente. A poeira dos danos começa a assentar e contam-se os ferimentos da direita e da incapacidade do partido maioritário ter tido a maioria absoluta. O problema que se coloca agora é este: que políticas efectivas na área da toxicodependência e como as realizar? António Costa foi muito claro durante a campanha no apoio às salas de chuto como se estas fossem a panaceia que resolvessem todos os problemas. Olhar esta problemática só a partir desta realidade é não compreender o que a envolve.Querem um exemplo: o mundo da noite e a sua cultura. A permissividade da Câmara em deixar as discotecas fecharem para lá da hora e os "after-hours" contínuos que se vão sucedendo. A cultura do mundo da noite é um risco. Ignorar isto é enterrar a cabeça. O conceito de diversão do mundo contemporâneo é o excesso. O alcool, as pastinhas, a cultura dos dj´s, as noites do Algarve, as festas permanentes, o bronzeado invencível. E a droga mora ali, na esquina, na festa que termina às sete da manhã. As salas de chuto resolvem o problema. Assim, anula-se o que todos sabem mas ninguém fala: a droga é (também) um problema de cultura. Divertir-se não é integrar-se no tempo (Heidegger) divertir-se é esmagar o tempo que eu vivo (Lipovetsky). Seguramente Costa sabe disto e sabe que nunca tocará nisto. Perderia as eleições e a posição. Muito antes das salas de chuto estão as noites de verão e das outras estações, e no prazer comprado por medida. A isto chama-se a Costa do problema.

Libertinagens de conveniência

Eu por mim até já estou calejado. Em nome da sacro-santa liberdade de expressão alheia, desde sempre e sob o patrocínio do regime, testemunhei conformado nos media, as mais impunes e gratuitas provocações à minha fé e outras minhas causas desalinhadas. E diz-me a experiência que qualquer reacção piora sempre as coisas, é melhor nem ligar. Há muito que conheço o valor da minha liberdade em confronto com a das vozes do regime. Mas com o tempo ganhei imunidade e indiferença. Valem-me as minhas convicções, e também o exemplo de Cristo.
Vem isto a propósito do caso das infames caricaturas dos Príncipes Filipe e Letícia publicadas em Espanha. E não é que a fecunda liberdade de expressão de nuestros hermanos comoveu desde logo alguns nossos tolerantes e laicos republicanos? Foi o caso de Ferreira Fernandes com a sua ironia ao lado de quem, no mesmo DN, o caricaturista porno Vilhena (sem link) quase se revela um sensível conservador.
Mas cá no quintal, só se promove a respeitabilidade num sentido: o devido aos senhores do regime e seus venerandos mitos ou símbolos. Experimentem só xingar da bandeira da republica, ou gozar com a licenciatura do nosso primeiro ministro...
De resto, imagine-se indignação da "inteligenzia regimental", se uma perversa publicação doméstica parodiasse os nossos estimados Aníbal e Maria naqueles realíssimos preparos... Não tinha mesmo graça nenhuma, pois não?!

sexta-feira, 20 de julho de 2007

História de algibeira (11)

Na fotografia (daqui), a moderníssima Av. Rainha D. Amélia em 1908. Após a revolução de 5 de Outubro a conhecida artéria Lisboeta foi renomeada Almirante Reis.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Foi Assim

Não posso dizer que conheça a Zita Seabra para além daquilo que, ao longo destes trinta e tal anos, tem sido de domínio público. Talvez tenha sido por isso mesmo que este artigo de João Carlos Espada no expresso de Sábado passado me tocou tão fundo.

Neste artigo conseguimos perceber o doloroso percurso de alguém que tentou dedicar a sua vida à verdade e ao bem que a ela é inerente. Fala-nos de quem foi descobrindo rumos que compreendia serem mais certos, assumindo os seus erros com a coragem e a frontalidade de quem, humildemente, se sabe imperfeito.

Entre os muitos problemas da esquerda, talvez o mais grave seja a sua incapacidade de reconhecer o erro. Por um lado expulsaram das suas vidas os conceitos de pecado, arrependimento, perdão e reconciliação, como sendo medievalidades impostas pela Igreja Católica e que convém evitar a todo o custo.

Mas, por outro lado, não é possível vivermos condignamente se não conseguirmos encontrar o perdão (aos outros e a nós próprios) que nos leva à reconciliação. Como resultado, a esquerda só consegue conceber que existam os bons, que são eles próprios e que nunca podem falhar, e os maus, que são os outros, para onde são atiradas todas as culpas. Sempre que algo corre mal... é a direita, os patrões, os americanos, a Igreja, ou quaisquer outros genericamente designados por fascistas, imperialistas, conservadores ou reaccionários.

Olhar para este percurso relatado por JCE (percurso que ele próprio também já percorreu) só me pode trazer a esperança de que, um dia, cada um de nós possa conseguir desfazer-se do seu orgulho e optar por querer seguir o verdadeiro Caminho.

Ainda não li o "Foi assim" mas fá-lo-ei tão breve quanto possível.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Ecce Filius tuus

Foi nesta data, há 310 anos, que se encontrou com Jesus um homem que tão eloquentemente O pregou: Pe António Vieira, sj! Da Baía para uma outra, mais segura, onde o nosso coração pode verdadeiramente repousar!
Hoje também, a nível litúrgico, celebramos um outro grande expoente português: o nosso querido frei Bartolomeu dos Mártires, recentemente
beatificado, a 4 de Novembro de 2001! Pergunto-me em que escola se fizeram tão grandes homens e a melhor resposta que encontro, a partir de Jesus, é: o seu Baptismo – filiação divina – e a sua filiação em Maria.
Que pretendo dizer eu com isto? Eu, nada! Vieira explicou-o tão claramente que aqui coloco as suas palavras, para melhor me dar a entender! E à Senhora do Carmo, peço apenas que no-lo conceda!

''Quando Cristo deu a S. João o cuidado de servir à Senhora, as palavras que disse foram estas: Mulier, ecce Filius tuus: Mulher, eis aí teu filho. Deinde dicit discipulo: Ecce Mater tua: João, eis aí tua Mãe. Mãe e Filho, de que maneira? Mãe tinha S. João, mas era Maria Salomé: Filho era, mas do Zebedeu. Pois se estes eram seus pais, como se chama João filho da Senhora, e a Senhora Mãe de João? É porque João tornou a nascer nesta hora, e nasceu só da Virgem por força das palavras de Cristo. Autores houve, e entre eles expressamente S. Pedro Damião, que disseram, que assim como as palavras, Hoc est Corpus meum [«isto é o meu corpo»], ditas uma vez por Cristo, tiveram força para converter o pão em corpo do mesmo Cristo; assim as palavras, Mulier, ecce Filius tuus, tiveram força para fazer a S. João, e o converterem de filho do Zebedeu em filho de Maria. De maneira, que S. João teve dois nascimentos: um nascimento natural, com que nasceu filho do Zebedeu; outro nascimento sobrenatural, com que nasceu filho da Mãe de Deus. Pelo primeiro nascimento nasceu nas praias do Tiberíade; pelo segundo nascimento nasceu ao pé da cruz. Pelo primeiro nascimento nasceu de geração humilde; pelo segundo nascimento nasceu da mais ilustre e real prosápia que havia no mundo, filho de uma Senhora, herdeira de um rei morto à mão de seus inimigos: Jesus Nazarenus Rex Judaeorum [Jesus de Nazaré rei dos Judeus].''

[Excerto do Sermão do Padre António Vieira proferido na Capela Real em 1642, no dia do nascimento do Rei D. João IV e da festividade de S. José, 19 de Março]

terça-feira, 17 de julho de 2007

Nação Carente

Dediquei-me, há pouco mais de ano e meio, numa hora nocturna com tanto de insónia quanto de vivíssima lucidez, a comentar o atrevimento do então Presidente Sampaio, que por esses dias se dedicava a publicitar a obra que encomendara à pintora oficial de regime, de cujo nome, por ora, não me quero lembrar. Trata-se de um conjunto de quadros que foram colocados a ornamentar a capela do palácio de Belém. Tendo deparado no último sábado com uma entrevista da mesma ‘passionária’ no jornal semanário que frequento e face aos episódios eleitorais que, uma vez mais em Julho, nos guilhotinaram, permito-me partilhar convosco o meu desgosto, mas deixando também, certamente, antever algo do que preenche o meu gosto. Face a circunstâncias que se alteraram, algumas metáforas perderam a pertinência. Por causa de um ou outro constrangimento cortei algumas linhas. Mas, ainda assim, requentado, aqui fica este longo gemido.





Sua Excelência Soberana
anã rã pã
disforme de bom gosto
cegou,
encomendou,
capitulou
e transferiu assim
-contente-
a morgue da Rego para o Palácio!

Mulher exposta descomposta,
mulher embriagada de ressentimentos,
mulher feia no rosto da obra,
mulher configurada desfigurada,
ei-la que berrou,
ou entornou,
ou secou,
ou espirrou –isso-
ou expirou
- ela diz que pintou-
a Anunciação,
a Purificação,
a Natividade,
a Adoração,
a Fuga para o Egipto,
a Lamentação,
a Piedade

que são outros tantos nomes gratuitamente deslocados para descrever as suas insónias,
dificuldades em concentrar-se,
má disposição crónica e desgostos vários
que, afinal, sempre os temos!

E eis, por isso, que nos permitimos sugerir-lhe com toda a sinceridade, com generosidade mesmo:
ela que pinte a mãe, o pai, os irmãos e os filhos e os primos e os vizinhos e mais quem quiser.
Que imprima as suas cores e tensões e todas as outras geniais e comerciais intuições.
Mas ela que nos deixe sossegados.
Ela que nos respeite os sacrários.
Ela que entre para a história pelo lado do mérito.
Ela que faça o flirt ao presidente enviando-lhe postais com outros temas,
como, por exemplo:
Os Painéis de São Vicente (Nuno Gonçalves): o presidente a fazer compras no El Corte Inglês com 40 empresários amigos;
Lição de Anatomia (Rembrandt): outros amigos do presidente a mexer nas vísceras das vítimas (vg, Fidel de Castro, Eduardo dos Santos...);
A Rendição de Breda (Velázquez): o presidente solidário a visitar uma sala de chuto;
Os Fuzilamentos de 3 de Maio (Goya): o presidente a ver o telejornal das privadas;
O Império das Luzes (Magritte): enquanto no céu de Lisboa a luz dança, as janelas abertas do palácio mostram que por ali é noite;
Gótico Americano (Grant Wood): retrato de família;
O Juízo Final (Miguel Ângelo): o presidente de joelhos diante das vítimas do aborto;
Natureza Morta: o presidente a falar à nação que prefere o canal da bola.

Mas está visto que o presidente, que pensa, não pode aceitar a sugestão.
Porque ele pensa o pensamento prensado por outros,
hoje já com um certo travo a azedo, empada de antiga ética laica e republicana,
respeitosíssima dos direitos de todos os cidadãos, iguais face à lei,
mas capaz de uma escapadelasita passional legitimadora de se achincalhar os católicos.

Que fazer, por conseguinte,
já que o presidente é culto, burguês,
e gosta de tertúlias,
das pastelarias de Lisboa e dos pasteis de Londres?
Que fazer, então,
agora que deu em apreciador de pasteis de massa envenenada
made in England,
lá por entre as brumas onde se passeiam feiticeiras castiças


Daí que viva a república!
E que venha de Inglaterra uma vez mais o ultimato!
Que venha de Inglaterra uma vez mais a aliança secular da rainha vitoriosa,
corsáriasita de pincel na mão,
a insinuar-se junto do sucessor angustiado pela necessidade de deixar a sua marca na história.
Ela que venha impor o mapa que retalha a geografia de uma fé.
Sim, que venha o bolo inglês amargado.
Que venha a ancestral democracia imperial desembaraçar-nos da mínima convicção católica.
Que venha outro sorriso liberal à Blair brandir argumentos cirúrgicos contra os inimigos da liberdade.

Porque a democracia tem coisas destas:
o supremo magistrado da nação
–sabichão da flacidez dos ungidos do Senhor,
cansados da história-

encomenda a violação
e recomenda e não se emenda:
a religião que seja bombardeada
já que é perigosa a sua química potência de destruição maciça
capaz de atingir, tingir,
de arrepiante castração o Portugal moderno.
Importe-se a libertação:
e que importa o seu vómito de despeito?
Porque, note-se, o presidente é um democrata!
Ele preocupa-se com o Iraque!
Ele visita minorias!
Ele é um homem ousado,
embora de atrevimentos já um pouco usados;
Ele é um homem de faro e dá-se bem com os resíduos sólidos por tratar;
Ele é um homem marcante no cenário da cultura, com especial gosto por cenas tristes;
Ele recomenda sem cessar fogo: a ONU!
Mas o presidente é covarde: vai nu!
Nu no 25 de Abril de 74: no abrigo de sua casa!
Nu na casa que é de um povo e que profanou agora!

A autonomia da arte não licencia ao inquilino inquinar a capela.
A autonomia da arte não licencia o desaforo;
A autonomia da arte não licencia a desforra;
A autonomia da arte não licencia o vómito institucional.
A autonomia da arte não licencia a exibição das menoridades espirituais do génio da pequenota.

Enfim, lamentamos dizê-lo naquele estilo porreirinho,
Presidente é de mau gosto!
Presidente és vesgo no gosto!
Presidente és um desgosto!
Presidente tens mao gosto!

Talvez que vomites esta argumentação assanhada e te aprontes a exclamar:
Eis a intolerância! Eis a reacção!
Ah! Ah! Já ouves os passos da inquisição?
Ei-la aí, então, vizinha de pesadelos microscópicos
ampliados nessa cabeça ruiva, rasa de percepção.
Acorda:
o inimigo desta vez é a besta que não permite que o teu povo vá mais longe
do que pequena área da TV, caixinha alarve,
alarde da autonomia do intelecto
alienado, confiscado, ofuscado, vulgarizado, pasteurizado,
já sem sabor nenhum senão a pacote.
Sim, acorda!
O teu povo está
distraído da actividade de pensar
a qual é ligeiramente mais complexa do que ler o Record
ver novelas,
contabilizar sondagens,


Mas tu não estás isentado de percebê-lo,
tal é o espectáculo
boçal que nos legam as nossas elites,
elas também alienadas na sua falta de ambição de sentido e significado,
esgotadas na luta entre o estar bem e o bem estar,
própria desse navegadores adoentados,
descendentes daqueles de 500 que,
receosos,
ficaram por cá,
encarregues de guardar os quintais uns dos outros.

No mais e ao resto liberalizar:
aborto, droga,
nados mortos onde se a cultura se afoga
com a benevolência do regente de cabeça ruiva,
ruça de percepção.
É que nem a vizinhança da Torre vos salva,
Excelência Soberana anã rã pã,
do contágio da mesquinhez,
coveiro da necrópole da Rego no Palácio...

(E tu, Paula, bate, continua a bater:
não serias a primeira de tal nome a cair da besta
aterrando finalmente por terra.
Coragem! Ânimo! Rasgo! Originalidade!
Dois mil anos mais à frente,
cem anos depois,
continua a arranhar nas cenas sagradas e no Padre Amaro.
Deus é mais generoso do que nós:
talvez que um dia resvales para dentro
...e sossegues!)

Conhece-te a ti próprio

A empresa onde trabalho iniciou recentemente um programa de formação para quadros superiores que visa acima de tudo o desenvolvimento de competências pessoais e interpessoais, mais do que competências técnicas. E iniciou, como de esperar, com um diagnóstico extensivo de gostos, preferências e atitudes próprias segundo um questionário de modelo americano mas de aferição europeia (valha-nos isso).

O resultado deste questionário é um perfil pessoal, não de competências mas sim comportamental, orientado em 4 eixos, todos positivos (não quero entrar em pormenores técnicos, porque não é a altura para isso). A apresentação dos outputs começava por uma auto-avaliação em que, confrontados com os pólos, escolhíamos o nosso lado.

Eu considero-me uma pessoa bem conhecedora de mim próprio e, confrontado com os meus resultados, deparei-me com 2 situações:

- O que pensava que era, não o era pelas razões que pensava
- O que pensava que não era, até o sou

Parece quase semântico, mas não - cada uma delas pôs o dedo na ferida. Não estou numa fase existencialista da minha vida por isso acolhi os resultados com pragmatismo, condensando duas máximas socráticas: Só sei que nada sei de mim próprio.

O resto é filosofia.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

6 coisas que me chatearam nestas autárquicas

1 – Abstenção. O Tuga não quer mesmo “saber”, a não ser que venha para a rambóia na cámineta do partido com as despesas pagas, "a mais" ao garrafão. Houve quem levianamente rezasse ao S. Pedro para que nos levasse o Sol, o que, como se viu, não serviu de nada. É o “sistema” posto em causa e uma brecha no regime.
2 – A eleição de Sá Fernandes, o socialista de esquerda (!). O anti-sistema a mamar do “sistema”.
3 – O PSD e o seu Negrão. Foi o que se viu, a noite das facas longas é já daqui a pouco. Uma telenovela a não perder, nos meses que se seguem.
4 – CDS. Um partido inteiro a meter água, esvaído de ideias... e de pessoas. E aqueles cartazes que eram um susto!
5 – Um país cor-de-rosa. Com a da direita em autofagia, e uma mãozinha do 5º poder, a jacobinada vai tomando conta do "sistema". O problema é que o “sistema” já tresanda...
6 – Ver a bandeira portuguesa da monarquia arrastada nas mãos dum imbecil, como se este símbolo nacional fosse um mero franchising para obtenção de resultados... pessoais.

domingo, 15 de julho de 2007

Eis a Barbárie!

Hoje, 15 de Julho de 2007. Um dos dias mais negros da nossa história. A partir de hoje passa a ser legal (o que não quer dizer que seja legítimo) a matança indiscriminada de crianças por nascer. É um Estado bárbaro, este que dá o poder ao mais forte para eliminar, de uma forma brutal, o mais fraco. Este é um acto de uma extrema violência. E a violência gera violência. Quem aborta, sem reconhecer nisso um mal, ganhará um inimigo implacável, que lhe fará uma guerra surda e destruidora: a culpa. Os transtornos psicológicos, os desequilíbrios afectivos e sexuais, as depressões, o vazio e falta de sentido e sobretudo a solidão, são os vários rostos desse inimigo tão cruel. É uma guerra que vai corroendo por dentro lentamente.
Ontem, 14 de Julho, comemorou-se a tomada da Bastilha. O inicio da revolução republicana laicista. Dois acontecimentos tão distantes no tempo, mas tão próximos no conteúdo. Quando Deus deixa de ser o centro da história colectiva e individual, é o homem, com os seus instintos mais primários, que passa a ocupar esse lugar. E eis então que a barbárie se instala no poder. Assim é hoje em 2007, como o foi outrora em 1789!

Compreensão

Um ser amado que desilude.
Escrevi-lhe.
É impossível que não me responda
aquilo que eu me disse a mim mesma
em seu nome.

Os homens devem-nos
o que imaginamos que nos vão dar.
Pagar-lhes esta dívida.

Aceitar que sejam diferentes
das criaturas da nossa imaginação,
é imitar a renúncia de Deus.

Também eu sou diferente
daquilo que imagino ser.
Saber isto,
é perdoar.

Simone Weil