quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Distorções

A ressonância cresce ritmada. Um som profundo e arrebatador emerge das entranhas da terra cadenciado, ameaçador. As loiças do armário tilintam; o ar, o soalho, os vidros vibram. Alerta, com os meus sentidos atentos, procuro identificar a “ameaça”. Nada a temer! É só um “ganda som” a troar do porta-bagagens de um pequeno carro utilitário que chegou à minha porta exibindo a última maravilha da tecnologia de hipermercado.

Há dias, um colega meu dizia, orgulhoso, que "sacara" mais 200 horas de música para um qualquer fantástico “gadjet” portátil. Assim, ele gaba-se de possuir, de forma quase gratuita, uma fonoteca infindável, um ruído permanente e acessível em todo o lado: no carro, no escritório ou em casa. A Internet, e os modernos softwares de compactação de ficheiros de musica, MP3 e quejandos operam milagres. Agora, quaisquer quatro gigas chegam para arrecadar toda a música do mundo até à mais antiga, a dos anos oitenta. Finalmente, vendem-se dispositivos de leitura de todas as cores para todos os gostos e em tamanhos e formatos impensáveis.
Mas o que está a dar, de resto, é o “cinema em casa” e o magnifico “surround”. O estrondo para todas as bolsas. Nos modernos equipamentos sonoros 5.1, o patego ouve um soco como uma batida dum bombo: até treme o ar. Um respirar temeroso soa como se fosse um ciclone. A cada gesto do herói, estrondosos ruídos movimentam-se no espaço - de trás para a frente e da esquerda para a direita. Com esta generosa tecnologia de ponta, podemos até ouvir um concerto que roda e salta sem parar à nossa volta. De trás do sofá, p’rá frente do retrato dos sogros. Em movimentos hipnóticos e surreais, um qualquer violoncelo surgirá em ameaços ao meu encontro, ou em movimentos laterais bem ritmados. Uma emoção sem fim. Não importa se ouvimos Bach, um uivar de cão ou um míssil a rasar. Para alegria e entretenimento geral, todos os efeitos se transformam em pura adrenalina, movimento, ritmo, enfim, numa animação feérica.
Alguém quer saber que a natureza não produza semelhantes sonoridades? Ou que os sons (frequências) “médios” aparentem provir de uma lata de coca-cola? O que interessa é a estridência dos cinco canais de som, apoiados pela estrela da companhia, o celebre “subwoofer” com a potência de uma máquina de lavar. Por fim, nada nem ninguém escapa a essas baixas frequências em alta intensidade. Não há mais subtileza, tonalidade, cor ou textura sonora. E está tudo a ficar surdo.
Aos cinco anos, os meus avós ofereceram-me um "transístor". Desde então sempre tive música perto de mim. Aos oito, fui com os meus tios ao S. Carlos e fiquei arrebatado pelo vigor de uma orquestra sinfónica. Pelos dez anos, aprendi o que era uma alta-fidelidade (atente-se no termo) quando a minha tia Isabel trocou de gira-discos e me proibiu de mexer no novo, mesmo que fosse com os olhos. E a delícia que era para os meus ouvidos o efeito (inconsciente) da estereofonia, e da amplitude da modelação das frequências sonoras? Até ter o meu primeiro emprego, nunca consegui ter um som de jeito, mas tentava, lá isso tentava. Construí colunas na aula de Trabalhos Manuais com altifalantes comprados na Feira da Ladra, fiz ligações perigosas entre vários aparelhos. No final salvava-me com a telefonia em FM que me oferecia já uma boa sonoridade.
Já adulto, depois de casado, fui “compondo” um sistema de som de que hoje me orgulho e me satisfaz. Bem tratada pelos diversos componentes, a minha música sai em plena e robusta liberdade de duas pesadas colunas Tannoy. À antiga, a estereofonia basta-me: quando bem instalada projecta um espectro de palco, com o relevo e dinamismo necessários. É aquilo que presenciamos num concerto, acústico ou amplificado seja no CCB ou no S. Luís. De resto, é fechar os olhos e deixar-me embalar pela infinita paleta de texturas, de cores e tons, todas as nuances sonoras que a arquitectura da minha sala permite. E, sossegado, ouvir uma obra-prima. Assim tenha eu tempo e disponibilidade interior para a arte e para a beleza. Para adivinhar o absoluto e assim ligar-me ao que é maior, divino e grande no homem.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

“Porque não te calas?!”

Hugo Chavez terá uma vida inteira para digerir o insulto, e um dia talvez perceba que a história não se apaga facilmente. Por muito que isso custe, o índio teve que engolir e calar, sujeitando-se mais uma vez à voz de comando dos conquistadores. E existem mil razões para a razão do monarca, muito para além daquelas que suscitaram a aplaudida intervenção. Em primeiro lugar porque a Venezuela só existe através da Espanha, tal como o petróleo e o desenvolvimento, a escravatura ou a liberdade. E Chavez é ele próprio um produto de todas aquelas contradições. Depois, tornou-se claro que a legitimidade ocasional dos eleitos não era nada se comparada com o peso da representação histórica que o Rei transporta consigo. Com o incidente a Espanha ficou mais forte e as republicas sul-americanas ficaram menos órfãs. Afinal, a justa repreensão ficou em casa e o mundo hispânico compreendeu que tinha identidade própria. Quem por certo também compreendeu a mensagem foi o poderoso vizinho do norte – há que contar com a Espanha.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

O Ser e o não ser

Quando todo eu não estou em tudo

Quando tudo não é para O Todo

Fico só eu sem sentido.

Pouco mais que nada.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

As duas faces do escudo

No dia de hoje, numa intervenção perante empresários portugueses e chilenos, Cavaco Silva elogiou o Governo liderado por José Sócrates.
"As autoridades portuguesas estão a avançar com reformas profundas na administração pública, na justiça, na segurança social e em muitos outros domínios", afirmou Cavaco Silva.
O presidente da República realçou também os investimentos "muito, muito fortes" em domínios como a educação e formação profissional, sublinhando que são "uma condição de sucesso para vencer os reptos da globalização".
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Também neste mesmo dia, no discurso de abertura do ano académico 2007-2008 da UL, o reitor desta universidade, António Sampaio da Nóvoa, falou na necessidade de mudança e apontou o dedo ao Governo enquanto responsável por alguns entraves a essa mudança, como a "falta de modelos claros e transparentes de financiamento".
Referiu ainda que nos últimos dois anos Portugal foi o único país da Europa que reduziu o investimento no ensino superior, sustentando que “ao não favorecer a iniciativa, ao valer-se de argumentos de autoridade, ao debilitar as instituições, este Governo cria o desânimo entre todos aqueles que, genuinamente, se batem pelo progresso e pela inovação", sublinhando que "nada é pior do que a ilusão da mudança que deixa tudo na mesma".
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Será que estes dois senhores, ambos professores universitários com provas dadas e com reconhecido percurso académico, estão a falar do mesmo país?
Qual deles se terá enganado? Será que um por estar cá vê as coisas demasiado próximas e por isso lhes perde a perspectiva?
Ou será que outro por estar demasiado longe perdeu a mesma perspectiva por nem sequer vislumbrar as coisas de que fala? DESCUBRA VOCÊ MESMO.

Nos 90 anos da tomada do poder pelos Bolcheviques

Em homenagem ao povo Russo e aos povos de todos os territórios invadidos pela União Soviética, aqui ficam dois poemas de Anna Akmátova (1889,Odessa-1966,Komarovo) também chamada de 'Anna de Todas as Russias'.


Pó cheira a raio de sol,
Mel bravo à liberdade,
Boca da moça a violeta,
E o ouro não cheira a nada.
A reseda cheira à água,
Amor á maça rescende,
Mas agora já sabemos-
Só o sangue cheira a sangue...
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Não, não estava sob um céu estrangeiro,
nem me protegiam asas estranhas.
estava com o meu povo, no lugar
em que infelizmente o meu povo estava.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Nuno Alvares Pereira

Ainda a celebrar o dia do Beato Nuno, 6 de Novembro, transcrevo, da Crónica do Condestável, um excerto da sua resposta face aos receios dos seus homens na véspera da batalha dos Atoleiros:

...Quanto a sermos poucos e eles muitos não deveis por isso duvidar que estais praticando uma grande obra: não vos esqueceis que já aconteceu os poucos vencerem os muitos. Rogo aos que quiserem ir comigo a esta batalha que atravessem este riacho.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

"Todos os tempos são de martírio"

Faz hoje um ano que Idalina Gomes, uma leiga missionária portuguesa, e o Pe. Waldyr dos Santos, jesuíta brasileiro, foram assassinados em Moçambique, na Missão de Fonte Boa.
Conheço Fonte Boa por lá ter passado alguns dias há cerca de 8 anos e vi o que significa ser ali missionário, ser testemunha do Bem e da Graça junto daqueles que nada têm, muitos deles nem existência para efeitos civis, nascendo e morrendo sem nunca serem inscritos em qualquer livro do Registo Civil.
Os missionários ali são tudo – padres, freiras, catequistas, mas também amigos, professores, médicos, aqueles que fazem o transporte de doentes, dos mortos para que possam ter um enterro junto dos seus nas respectivas aldeias, … seria impossível continuar a descrição.
A vida e morte dos missionários tem que ser semente, semente para aqueles que continuam a partir por um BEM MAIOR e para aqueles que ficam e que aceitam ser testemunhas do Evangelho no modo como tentam viver o dia a dia, cumprindo, em obediência, em sacrifício e abandono, as solicitações do trabalho, da família e tudo o mais a que vão sendo chamados.
Hoje, no dia em que a Igreja faz memória do nosso Beato Nuno de Santa Maria, o qual, renunciando às honras do mundo, escolheu um caminho de humildade e obediência, para, a exemplo de Cristo, servir melhor os homens, lembro todos aqueles que continuam a doar a sua vida ao serviço dos mais pobres, trabalhando de forma silenciosa pela liberdade e justiça no mundo.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Fátima

A oração é um precipício, um abismo.De todos os níveis da existência, este não tem um suporte artificial. Não vale a razão, os sentimentos, a poesia. Está para lá do sensível, das aprendizagens, dos dados maneiristas. É uma filiação, uma descoberta pessoal, intíma, de sentido. Não é um desafogo, um vale de lágrimas, enxugar os desabafos. Está antes e depois. Quando rezo estou no tempo que ocupo agora, mas que não é o meu. É uma busca, uma travessa, uma relação. O drama de ser cristão é o drama da oração. De me ligar a Deus a partir do tempo que é o tempo de Deus e da minha provisoriedade. De saber que tudo que aprendi como pessoa e como homem não chega, é parco, sofrível, pequeno. Que os livros da escola, da filosofia, das viagens, do amor e da poesia são sobras. Que aquilo que sou é uma filiação. Que para entrar dentro dos meus actos, das minhas palavras, no ser inteiro, é necessário uma ruptura, falésia aberta. Entrar no oração e na Palavra é o risco, suprema fenda. Mas a história de cada vida é carregada de tojos de cimento, hangares de espera, de solidão e sobras de pão. A dor é não entregar o meu tempo ao tempo que é de Deus. Sentado, na noite funda, no santuário vazio, sobram-me os actos, as cordas da insciência.

Disponibilidade

Agradeço ao MAC o convite amigo para participar neste impressionante blogue.
Temperamentalmente reservado, ouso publicar as minhas opiniões que procurarei apresentar de modo tão educado quanto convicto. Assim, e não abdicando de dizer o que penso, creio-me aberto a poder, eventualmente, esgrimir argumentos, desejando, no entanto e tanto quanto possível, não me envolver em disputas pessoais com os meus leitores.

Mas começo por apresentar-me perante a geografia política actual, dizendo da minha orfandade, não principalmente porque a esquerda é hoje poder mas, isso sim, e o que reputo mais grave, porque a direita esvaiu-se!
Ou seja, quero com isto dizer que concordo com o que o PSD afirma de si mesmo, quando insiste em dizer que não é um partido de direita! E basta olhar, por exemplo, para Cavaco, para confirmá-lo. Polícia sinaleiro do regime, obcecado com o rigor financeiro das contas do estado, mostra-se tímido face à deriva das referências estruturantes da nação, como sejam a defesa da dignidade da pessoa humana, desde o princípio da vida, ou a luta pelo integro funcionamento das instituições -vide o novelo que envolve o PGR…- ou, ainda, na incapacidade de promoção de um ideia de Portugal própria, face ao franchising ideológico de Sócrates.

Congruentemente, não concordo com o que o PP diz de si mesmo, apresentando-se como o partido representante da direita! Porque deve manter-se, a bem da distinção (elevação) dos ideais, a distinção (separação) entre uma compreensão da matriz que é própria à direita e aquela outra própria ao partido de Portas: grande defensor dos negócios dos privados mas tendencialmente omisso perante as responsabilidades sociais do estado e dos indivíduos; liberal nas referências culturais, já sem qualquer filiação filosófica efectiva no pensamento personalista cristão, pelo que moralmente hedonista (vide PP e homosexualidade…); populista nas oportunidades de demagogia e por isso incapaz de entusiasmar as elites.

Enfim, serve este meu primeiro post para ‘oferecer’ a minha disponibilidade perante um novo partido que tarda em se apresentar que seja direito e pela direita.
Mas deixo para um próximo post o que eu mesmo quero dizer com isto de ser de direita, hoje!

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Fieis Defuntos

"Mas se Deus não existe- se Deus não existe que me fica no mundo?
Sou nada no infinito. Fui tudo e sou nada. Leva-me a força bruta. Sou acaso na mistificação.
Sou menos que nada no monstruoso impulso.
Se Deus não existe tanto faz gritar como não gritar.
Não tenho destino a cumprir: saio do nada para o nada. "

Raul Brandão, Humus

"Não é a 'morte' que virá buscar-me. É Deus."
Stª Teresa do Menino Jesus e da Santa Face,
Caderno Amarelo

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Halloween

Entristece-me intimamente a ingénua adesão dos miúdos pequenos ao estéril folclore da triunfante cultura invasora. É com ou sem a nossa conivência que os seus ritos e liturgia entram sorrateiramente pelas nossas casas adentro.
Ao mesmo tempo que a desgarrada militância laicista promove o esvaziamento das nossas ancestrais tradições cristãs, em nome do progresso e duma presumida superioridade intelectual, os fundamentos da nossa identidade colectiva são sistematicamente ameaçados.
Sem nada para lá pôr no seu lugar, o povo espoliado e confuso agarra-se em desespero às abóboras ocas, luzinhas mágicas, pais natais, pozinhos de perlimpimpim e demais “espiritualices” alternativas.
Enfim, o progresso.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Feio, Porco e Mau!

O José, 32 anos, morador nos arredores de Lisboa,
estava a ser seguido num CAT (Centro de
Atendimento a Toxicodependentes) integrado
num programa de substituição. Diariamente
aí se dirigia para lhe ser dada uma dose de 90 mg
de metadona. Foi expulso, deste programa,
porque as análises, que regularmente era obrigado
a fazer, acusaram consumo de cocaína o que não
era permitido. Neste programa!! Então o José foi
mudado para um outro programa, chamado de
baixo limiar (o 1º será de limiar assim-assim?) ,
onde o Estado num acto de grande "humanidade"
lhe continua a dar a dose de metadona, e o Zé
pode ao mesmo tempo continuar a consumir
cocaína. Foi aqui que o encontrei, debaixo de um
viaduto da cidade de Lisboa, junto a uma carrinha
do Estado que distribuia a tal droga de
substituição. E ali à volta outros como ele. O Rui
com uma "g'anda"pedrada e que está com
300 mg, a Paula há dois anos com 50 mg o Márcio,
o António, a Vânia, o Manel e outros sem-nome.
Pelo meio, da carrinha do Ministério da Saúde,
juntamente com a droga, iam sendo distribuídas
seringas e preservativos, para o programa
ficar completo.
- Porreiro, pá!
Entretanto, numa qualquer casa noutro ponto
da cidade, ou num parque público manhoso,
senhores do regime vão alimentando os seus
apetites pedófilos com as crianças, que o mesmo
Estado, que distribui simpáticamente metadona,
deveria por todos e com todos os meios proteger.
O PGR diz que não é necessário uma equipa
especial para investigar estes abusos do regime.
Claro que o futebol é mais importante! E os
senhores deputados, tão escandalizados que
estão... com as escutas telefónicas!
Poeira para os olhos.E o governo? Muda as leis
para proteger os criminosos!E o nosso primeiro?
- Porreiro, pá!
Ah, falta a comunicação social:
- Silêncio que se vai cantar o fado!

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Honrosas excepções

Nem tudo está perdido, ainda existem autarcas que desafiando o legalismo estrito em que algumas empresas públicas se movimentam, não têm dúvidas de que lado é que está a razão! Fátima Campos, presidente da junta de freguesia de Monte Abraão soube distinguir entre o interesse concreto que representa a saúde dos habitantes que a elegeram e o denominado interesse geral que a REN anuncia em abstracto. Para levar a sua avante enfrentou a paralisia da Câmara de Sintra, o Supremo Tribunal Administrativo, que decidiu a seu favor, e ainda, a enorme inércia nacional.
Esta vitória jurídica pode ajudar noutros casos e noutras lutas.

Outro exemplo de reacção proveniente da sociedade civil surge em Almada, mais propriamente no Lazarim: “ O Colégio Campo de Flores começou esta semana a efectuar medições do campo electromagnético através de um medidor idêntico ao que a REN utiliza e que custou 15 mil euros. O director da escola explicou ao DN que o aparelho está ligado e que os dados serão disponibilizados na Internet. As medições estão a ser feitas junto ao local onde vai passar a linha de muito alta tensão que irá ligar a subestação da Trafaria a Fernão Ferro, Seixal. Apesar da linha passar a oitenta metros da escola, João Almeida acredita que quando for ligada, em Março, os valores serão respeitados. As medições são uma medida preventiva para descansar quem aqui trabalha e quem aqui tem filhos, mas vamos imputar os custos à REN, assegura”.

Fonte: DN de hoje.

sábado, 27 de outubro de 2007

Alta tensão

Se quisermos interpretar os recentes episódios que opõem o bem-estar das populações aos interesses sem rosto da REN (redes energéticas nacionais), podemos certamente inscrevê-los na luta ancestral travada entre as liberdades comunitárias e o desígnio centralizador (e uniformizador) do Estado. Fica claro que o chamado poder local, partidarizado como está, não tem vocação para defender pessoas e bens, refugia-se na legalidade, ou quando questionado de perto, demite-se das suas funções invocando antigos editais afixados nos paços do concelho! Não é surpresa, porque é da essência dos partidos o horror à descentralização, não nos esqueçamos que os autarcas são eleitos através de listas partidárias, na sua grande maioria são desconhecidos das populações, e pior, eles próprios desconhecem o concelho ou freguesia onde são eleitos! Na prática funcionam como meras correias de ventoinha dos comités centrais e ai de quem se lhes oponha ou siga caminhos diferentes. Será imediatamente convidado a abandonar o cargo no total desprezo pelo voto dos eleitores! Foi este o preço que pagámos pela utopia da liberdade individual sem limites, desligada de tudo, em primeiro lugar da Ligação primeira, depois, da família, seguindo-se todo o laborioso travejamento em que assentava a liberdade de todos e de cada um.
Portanto, a pergunta é: quem nos defende da REN, que ao abrigo de lei própria semeia pelo país e a seu belo prazer, torres e postes de alta e altíssima tensão, numa clara agressão aos interesses primários dos seus habitantes? Ou dito ao contrário, quem representa hoje os interesses legítimos das pessoas e das comunidades, face a esse terrível inimigo em que o Estado se transformou?
Responda quem souber.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Quando o homem quiser?

Para mim a festa de Natal é no dia 25 de Dezembro. Para a ocasião guardo uns dias de férias e, com a alma vestida de gala, nesse dia celebro em família o nascimento de Jesus Cristo. Diariamente durante as quatro semanas precedentes, com a ajuda das crianças, iremos desfolhar um calendário do advento numa honesta tentativa de preparação para o grande evento. Para mim, a celebração do Natal está protegida pelo sentido e pela essência que a fundamenta.
Porém, com crescente ruído outra festa já se faz anunciar. Uma canseira. Chamam-lhe natal, mas será outra coisa por certo. É que ao contrário do que disse um poeta, seguramente o Natal não é “quando um homem quiser”. O "homem" normalmente quer outras coisas.
Hoje, a quase dois meses da data, deparo-me aqui no C.C. das Amoreiras com a sua ofuscante decoração Natalícia. Tenho notícia que em Algés já estão ligadas as luzes de Natal. A feira começou, nem posso acreditar! A televisão já iniciou as exaustivas lavagens de cérebro apresentando um infindável e tentador catálogo de coloridos pechisbeques, que farão a criançada feliz por cinco minutos - ou apenas um instante. Anunciam-se automóveis de sonho em prestações suaves a pagar lá para as calendas gregas. Centenas de pais natais, animados, reais, digitais, vestidos à Benfica preparam-se e já “aquecem” ordenadamente para o massacre. Nos próximos dois meses vamos levar com o Santa Claus no Espaço, no Comboio, no Far West, na neve e no Havai, na rua do Ouro e no Shopping. Tanta poluição sonora e visual desorienta as crianças e confunde-nos a nós, adultos.
Enfim, o sonho já está à venda para todas as bolsas. O problema é que, como acontece com todos os sonhos, um dia acordamos estremunhados com a realidade. Sem resolver o vazio, sem praticar o amor, sem cumprir a relação que nos justifica.
Aproveitada pelo político, pelo publicitário ou pelo comerciante, despojada do seu fundamento espiritual (essencial), a festa do Natal hoje em Portugal é vulgarizada e desvirtuada. Impregnada de frágeis e patéticos ideais líricos, esta quadra tornou-se território de um ensurdecedor despique de marketing, um monumento ao desperdício e à opulência. A felicidade descartável, os sonhos recarregáveis estão em promoção num qualquer hipermercado perto de nós. Um deprimente histerismo consumista é (cada vez mais) longa e exaustivamente promovido pelos ares da cidade, pronto-a-vestir, pronto-a-comer, pronto-a-usar e pronto a esquecer.
E se calhar alguns inocentes mais entusiastas consumidores desta "feira burlesca", atafulhados de dívidas e de tralhas inúteis vão despertar de novo, em Janeiro, para uma pesada e gratuita depressão pós-traumática pós-stress.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Um País de Feijões

O João tem 12 anos. Em Dezembro do ano passado, na escola estatal onde anda, um professor pediu-lhe para responder a um inquérito da iniciativa do Instituto da Droga e da Toxicodependência. Entre outras, continha as seguintes perguntas:

"O teu pai, ou substituto
… insulta (a sós ou na presença de outras pessoas) a tua mãe?
… bate (dá pontapés, murros, puxa cabelos, etc.) à tua mãe?
… impede-a de falar ou de estar com familiares ou amigos?
… impede a tua mãe de ter acesso ao dinheiro?
… obriga a fazer vida sexual com ele contra a vontade dela?


Isto passou-se com o João e com mais 100 mil alunos, dos 11 aos 18 anos, de 800 escolas do nosso pais.

O João contou ao pai, e o pai indignou-se. Protestou e o assunto veio a público.

Soube-se na altura que a coordenadora do projecto (que contou com o aval dos Ministérios da Saúde e da Educação), uma senhora chamada Fernanda Feijão, ficou muito surpreendida com a “tempestade num copo de água” que se verificou, entendendo que o trabalho é “rigoroso, equilibrado e sereno”.

O assunto provocou consenso na indignação, parecendo deixar a Srª Feijão isolada na sua serenidade. Foi até a um debate mensal na A.R., tendo Sócrates afirmado na altura: "o inquérito, no meu ponto de vista, é um inquérito que não faz sentido. Foi um erro e temos de corrigir esse erro para que não se repita no futuro".

Um processo de averiguação interna foi aberto pelo Ministério da Saúde.

Passaram-se 9 meses. E este episódio acaba agora da seguinte forma:

O Sr. Provedor de Justiça enviou um ofício ao Sr. Presidente do IDT a fazer recomendações no sentido de “assegurar que os problemas não se repetirão no futuro”. Neste ofício, o Senhor Provedor dá como certo que as perguntas polémicas foram incluídas no inquérito “por iniciativa própria da coordenadora do projecto (a Srª Feijão), sem que se alcance de onde emanou a sua legitimidade técnica para aquela tarefa”. Destaca a sua “falta de competência profissional e de aptidão científica”. E não isenta a direcção do IDT de culpas.

O Dr. João Goulão, presidente do IDT, reconhece o erro e “encara com naturalidade as propostas do provedor”. Mas deixa claro que “não houve lugar a penas disciplinares aos técnicos envolvidos”.

Conclusão:

A Srª Feijão lá continua, trabalhando com “rigor, equilíbrio e serenidade”.

O Sr. Provedor e o Dr. Goulão lá continuam, proporcionando condições de trabalho “rigoroso, equilibrado e sereno” às muitas senhoras e senhores Feijão.

E nós, cá continuamos… a ter que aturar isto, com “serenas” caras de … Feijão!

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

P. Monteiro

Um ano como Procurador. O assumir de um cargo decisivo para a promoção da confiança na res-pública. Ter que fazer avançar dossiers complicados como os que envolvem a alta finança e os seus baixos truques, o far-west do futebol e as coboiadas do poder local. Supinamente, sobra-lhe ainda fôlego para interferir no código deontológico dos médicos (o que fez entrar em cena, de novo, o pequeno Kim il Sung dos remédios portugueses, algo agitado e a declamar: ‘ou Hipócrates ou Eu’. Mas sem jamais dar abébias a eles, os não nascidos).

Ainda assim, a pedra de toque do seu consulado é a Casa Pia : julgamento que obriga a um juízo sobre a bondade da república de Abril. Julgamento que julga o regime. Julgamento cujos enviesamentos legitimam o deslizar do poder dos cidadãos para fora do poder das instituições. Julgamento que, se torcido, aborta a legitimidade das instituições. Julgamento que acasalado com a legalização do aborto destrona a autoridade do estado, entretido uma vez mais com o assassínio de Antígona. Julgamento que, se frustrado, imporia a revolução. Assim houvessem revolucionários.

Pinto Monteiro dá uma gorda entrevista no último Sol. Diz não ter medo de ninguém, o que permite por a hipótese de estar a falar debaixo de efeito de substâncias estimulantes.... Para além disso está muito contente, consigo próprio. Jura não ser maçon. Mas deixa o rabo de fora, ajuntando, de cada vez que se volta à pergunta, que também não é da Opus Dei. Grande vitória da agitprop maçónica, esta de conseguir, quase sempre, fazer associar a si mesma a comparação com a Opus Dei.
Quanto à Opus sabe-se dos seus defeitos. Todavia sabe-se também quem manda por lá – em última análise o Papa; conhecem-se os seus textos fundadores e fundamentais (dos Evangelhos ao Catecismo da Igreja, passando pelo Código de Direito Canónico e os escritos do fundador). E a história não assinala que tenha deixado atrás de si um rasto de violência ideológica, secretismo e sangue. Como a maçonaria. Acresce que a Opus Dei se mantém realista e racional. Realidades estas muita queridas ao catolicismo. Ao contrário da maçonaria: ferozmente calculista nas suas estratégias mas algo patusca e idiota no uso do avental para o culto, fazendo deste qualquer coisa mais parecido com uma ‘petiscada’ e não com uma coisa séria.

Enfim, são muitos os dislates e as inconsistências de um homem que deveria representar a circunspecção das instituições.

Pela minha parte, e não querendo faltar ao respeito pelo artista do Estado Novo, sugiro uma pequena alteração no nome do nosso procurador, que respeitaria, no entanto, a sua evolução morfológica. Com efeito, que tal Pardal Monteiro?

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Descubra as diferenças

"Na Alemanha nazi era legal matar judeus, logo
o código deontológico dos médicos alemães foi
actualizado em conformidade, como se verificou
em diversos campos de concentração. Acontece
que esses médicos foram condenados no final
da segunda gerra mundial, em Nuremberga,
tendo-lhes sido explicado que nem tudo o que
é legal é legítimo (ou seja ético). Agora, o conselho
consultivo da Procuradoria-Geral da República
(CCPGR) vem dizer que o código deontológico
dos médicos é ilegal pois contraria a lei do
aborto. Ou seja, para estes juristas, ser legal
é equivalente a ser legítimo, ou ético. Então
porque foram condenados vários médicos alemães
em Nuremberga? Felizmente que a acusação em
Nuremberga não era constituída por membros
do CCPGR, senão todos os funcionários dos
campos de concentração nazis teriam saído em
liberdade graças a este mesmo argumento!»


Carta dirigida ao Director do Diário de Notícias,
escrita por um amigo meu Luis Mamede Alves,
a propósito do artigo ' PGR obriga médicos a mudar
código deontológico '.

domingo, 21 de outubro de 2007

South África

Foi depois do ourives ter gravado o nome, de duas crianças terem conduzido a taça até o centro do campo e de Sarkozy ter entregue a taça, que os jogadores levantaram Thabo Mbeky. Este gesto não é só uma vitória desportiva é a história de um país que se ergue. E, então, lembrei-me de tudo, do traço da memória. De Johanesburgo, dos mineiros moçambicanos, das crianças negras a venderem na rua o "Star". De Soweto, da luz negra do pó. Das noites fechadas no tempo do apartheid, quando defronte da casa se ouvia os homens a ler a Bíblia em voz alta na igreja protestante. Do Gospel, a alma profunda dos negros, das vozes que procuram Deus e o amor.Das crianças descalças nas bermas das estradas, e dos batustões, terra de ninguém, sangue da cor da pele. Lembro-me do Padre Pierre sentado na cadeira de verga, no alpendre da casa, dizer-me a cor da pele. O branco é o lastro, o luxo, o negro, o batustão, o pó. E sempre, sempre do canto, na missa ao ar livre de domingo, que durava toda a manhã. Dos surfistas idosos de Durban, da música dos Zulus, da grandeza de Mandela por ter evitado a guerra civil. Isso foi dantes. Há muito tempo. Durante o apartheid, quando cheirava a guerra. Quando as cidades eram dois riscos e a essência era a pele. A cor das mãos, dos braços e da dor. Isso nunca se esquece: afirmar o valor e a verdade por causa da cor. Obrigado "Springboks". A coragem, a determinação e a força são a alma. Amanhã é domingo. Vai ser uma festa imensa. As igrejas vão encher-se, os missionários católicos irlandeses e os pastores protestantes irão falar nos dialectos locais, porque nos dias de festa todos têm de perceber bem o que se diz. Vai-se rezar pela terra manchada, pelos filhos da cor, agradecer o chão que pisam. South África amanhã vai ser uma oração. Como no Gospel. No choro do canto. Quando a alma se dobra sobre a terra e lhe suga as raízes.

sábado, 20 de outubro de 2007

Petição


Queridos amigos Convido todos a assinarem a
"Petição contra a discriminação dos pais casados e viúvos em sede de IRS"

É só irem ao site:

http://www.apfn.com.pt/Noticias/Out2007/apfn061007b.htm

e clicar onde diz: Assine e divulgue!

Peço também que a divulguem junto de todos os vossos familiares e amigos,

Muito obrigada, sei que posso contar com todos!