sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Capelanias

António Lobo Antunes deu recentemente duas entrevistas – uma ao Diário de Noticias, publicada na edição de dia 30/9 e outra à revista Visão publicada na edição da semana passada- entrevistas essas que me parecem duas peças que merecem ser lidas com atenção e pensadas enquanto reveladoras da complexidade da alma humana.

Transcrevo alguns excertos da entrevista dada à Visão, que me surgem especialmente significativos:

“(…)
As noites passadas num hospital duram mais?
São infinitas. E é aí que aparece o desamparo. Não estou a falar de mim, estou a falar de uma maneira geral. É óbvio que senti tudo isto. Sofri muito e, ao mesmo tempo, toda esta experiência também me enriqueceu. Sai-se disto com mais amor pela vida e com a sensação de que é uma honra estar-se vivo.

Na guerra, já tinha visto a morte de perto.
Na guerra, era mais fácil porque era uma qualquer coisa de exterior, podia sempre agarrar numa arma. (…) Eu agora tinha a morte dentro de mim. (…) Quando ia às sessões de radioterapia, encontrava pessoas de todas as idades. Lembro-me sobretudo de uma rapariga de 20 anos que usava uma cabeleira postiça. Percebia-se logo que a cabeleira era postiça, mas ela usava-a com tanta dignidade que era como se fosse uma coroa. Uma coroa de rainha. E era, de facto, uma rainha que ali estava.

A doença torna-nos mais doces ou, pelo contrário, mais amargos?
No meu caso, fez com que se acabassem os disfarces, as máscaras, as meias-frases e as meias-tintas. Agora digo o que penso e o que sinto. Estou a falar com as cartas viradas para cima. E é a primeira vez que o faço. Não há nada escondido, não há nada na manga, não há truques nem tentativas de a impressionar e de a comover.

Sente-se mais livre?
Foi muito difícil. Enfim, muito difícil é exagero...

Exagero porquê?
Porque, ao lado, vi pessoas que estavam muito piores que eu. Pessoas sem esperança, à espera da morte. As minhas hipóteses eram grandes e, por isso, às vezes, sinto-me culpado. Mas é verdade que me sinto mais livre, sinto-me muito mais livre. Livre para escrever, livre para viver, livre para amar. No outro dia, com os meus irmãos, disse ao João [o neurocirurgião João Lobo Antunes] que ele tinha escrito um texto muito bonito. E um deles comentou que nós não dizemos essas coisas uns aos outros. Eu agora digo, eu agora digo. E isso foi uma conquista porque, de repente, tornou-se evidente que esta é a única maneira de viver. Claro que tem que haver dignidade, e que não podem existir pieguices, mas acabaram-se as contenções. O meu avô morreu e, ainda hoje, sinto remorsos por não lhe ter dito que gostava muito dele (…)”.

Ao ler esta entrevista vi-me confrontado com muitas ideias, tendo pensado o quanto actual é a chamada à realidade do sofrimento vivido nos hospitais, sofrimento esse com o qual, mais tarde ou mais cedo, todos nos deparamos.
Como se pode pretender, como o faz o projecto de decreto-lei para regulamentar a assistência religiosa nos hospitais, apresentado pelo governo, que a assistência tenha de ser pedida pelos doentes por escrito e assinada?
Haverá alguma ideia, ainda que mínima, do sofrimento que se vive nos hospitais? Da fragilidade que ali se vive e que muitas vezes a única força que encontra é a presença do padre e através dele Daquele Outro que a tudo dá sentido?
Claro que não, mas o que se pretende mesmo é afrontar a Igreja e o seu património desinteressado de séculos no cuidado espiritual dos que sofrem. O que move os capelães portugueses não é a integração nos quadros da função pública, nem o respectivo salário, como afirmou aos órgãos de comunicação social o Padre José Nuno, coordenador das capelanias católicas. Mas desgraçadamente é este o quilate do argumentário dos lacaios que suportam as teses governamentais que, curiosamente, não escondem a sua origem maçónica.
Embora não tenha muitas esperanças, aguardemos que a promessa do primeiro ministro, que já se benze em cerimónias de inauguração de escolas e até agradece aos Bispos Europeus a preocupação com África e com o ecumenismo e lhes reconhece um papel a desempenhar numa agenda mais humanista, promessa essa de que a assistência religiosa nos hospitais terá “solução melhor”, se cumpra.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O tempo de Marques Mendes

A grande dificuldade de um político é conciliar o seu tempo com a época em que vive. Integrar as suas ideias, os seus valores, projectar e adivinhar o futuro. Marques Mendes não o fez, não ficará para a história do PSD como Sá Carneiro ou Cavaco. Mas teve grandes intuições, afirma um tempo. Foi formado nas bases do PSD, conhece o aparelho por dentro e por fora, os militantes, tem um sentido de dever. Durante anos foi Ministro dos Assuntos Parlamentares e muitos dos seus combates no Parlamento foram lições de estratégia política. Ajudou a afirmar a Direita Portuguesa, esteve com Cavaco, Barroso, lutou contra Portas e o "Independente". A história do PSD nos anos de ouro é a história de Marques Mendes. Foi fiél a príncipios, valores, ideias. Conquistou o cargo de Presidente num momento difícil e teve coragem. Não teve medo, afrontou o mais duro, os militantes, os seus exageros. Disse não a Valentim, a Isaltino, à confusão na Câmara. Perdeu e foi ás "directas", supremo saufrágio do caciquismo. Acreditou nas instituições e aí percebeu que o seu tempo não é este tempo. Não chega dizer mal da justiça, que os tribunais não prestam, os juízes comprados. Isso é Maio de 68, o hedonismo feliz da guitarra de Bob Dylan. O estado de direito, da afirmação plena do bem comum, constrói-se na relação e crença com as instituições ( De Gaspari). O futuro do Estado, como agente de bem, só se faz com as instituições. E aí morreu Marques Mendes. Chamaram-lhe "inocente", "vendido ao Ministério Público", que a partir de agora qualquer indiciado era culpado. Ficou sózinho, na solidão, a natureza humana repugna a perca. Vai-se embora, não tem mais nada a dizer, não vai ao Congresso. O silêncio de um homem grande é terrível, abre fendas na terra, no coração.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Ainda o tratamento por tu

Creio que o tratamento dos pais por 'tu' corresponde a um desejo de maior proximidade e comunicação na família, o que eu mesmo considero estimável. Todavia, o mesmo resultado poderia ser alcançado doutros modos...
No entanto, parece-me que seria importante considerar que tratar os pais por 'tu' esconde, ou falsifica mesmo, a realidade, que os colocou (aos pais e aos filhos) em patamares de responsabilidade diferente. Assim, o 'tu', que indicia 'igualdade', é uma formalidade que depois irá ser desmentida no uso da legitima autoridade paternal, que, se o for, não é nunca um exercício de 'igualdade'. A diferenciação de tratamento, que JSM nos convida pertinentemente a reflectir no seu post, apenas pede que se acolha a realidade: há papeis diferentes, nomeados diferentemente. Parece-me que esta questão tem ainda que ver com duas outras: o medo que o tema 'autoridade' evoca na mentalidade dos educadores, estereotipadamente democráticos, e algum eco de sentimentalismo 'roussouniano/marxista' que sugere uma sociedade sem classes (coisa que sempre resvalou para uma sociedade sem classe...). Lembro, aliás, que segundo Zita Seabra, todos os camaradas tratavam Cunhal por 'tu' e ele, na volta, agradecia e mandava 'democraticamente' neles todos - sob farsa da igualdade, a ditadura do mais forte. As pessoas que conseguem fazer distinções são sempre as pessoas que se distinguem- da música à ciência, do desporto à esolha dos vinhos. O cristianismo ensina, promove e multiplica as distinções: Deus/homem; céu/terra; Liturgia/vida de trabalho; Amor/ascese. E cada uma destas 'realidades' tem nomes, farda, formalidades próprias. Não por 'formalismo' mas por desejo de unidade, que é uma coisa muito diferente desta moda ideológica da igualdade que teima em tratar similarmente o que por natureza é diferente.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Cântico do Teu Canto

(Nos 10 anos da proclamação de
Stª Teresa do Menino Jesus e da Santa Face
como Doutora da Igreja)


Filha nascida no auge da literatura
de ódio
ao Pai.

Primavera inocente no tempo
da angústia.

Mãos postas sem artifício.

Rola a espreitar
a oportunidade
do voo.

Asas tenras de águia
dócil.

Olhar lince lance de criança,
confiança.

Face esplêndida
de misericórdia evidente.

Desejos infinitos na carne,
coração.

Canto
da boca limpa,
de um só beijo
desejado.

Amor de todos
na dádiva de tudo.

O longe trazido perto
para dentro do Coração
que é como
a Casa.

Rosa do canteiro
onde o Príncipe se encanta.

Madre virgem que guarda
e aguarda
num pequeno caminho
o encontro
face a face.

Tanta a beleza
de santa Teresa
do Menino Jesus
mansa face.

O tratamento por tu

Nos povos primitivos a linguagem era naturalmente primitiva, foi portanto com muito esforço que conseguimos sair do ambiente das cavernas, das pinturas rupestres, dos primeiros sinais de escrita, que podiam significar muitas coisas ao mesmo tempo, até chegarmos à actual riqueza vocabular e verbal. As relações humanas, cada vez mais complexas, exigiam uma linguagem e uma gramática cada vez mais complexa. É portanto fácil distinguir o grau de civilização de um povo pela sua riqueza vocabular, índice seguro de que passaram por muitos e variados cabos de esperança e de tormenta!

Felizmente que os portugueses têm verbos e expressões para tudo e mais alguma coisa, ao contrário de outros povos que medem a sua grandeza apenas pelo tamanho dos obuses! Para dar dois exemplos, os franceses têm poucos verbos e assim “avoir” pode querer dizer duas coisas – ter e haver! Nos ingleses, “you”, significa ao mesmo tempo ‘tu’ e ‘você’! Ou seja, os ingleses praticam e entendem-se actualmente numa linguagem primitiva! A simplificação, neste caso, não corresponde a nenhum avanço civilizacional no campo das relações humanas, que se tornam menos claras, mais pobres em termos de significado, o que constitui um indubitável retrocesso.

Mas a linguagem é a expressão da realidade e por isso não admira que “com orgulho e erro” assistamos à tentativa de justificar procedimentos deseducativos e rudes, à luz de uma ideia de falso progresso, como se fosse tudo “igual ao litro”! Assim, os pais aceitaram que os filhos os tratassem por ‘tu’, porque é moderno, para encurtar distâncias geracionais, porque acham que pais e filhos são a mesma coisa, ou por outro motivo ainda mais obscuro! Outros tratamentos, que marquem a distinção, a diferença, a cerimónia, tendem a ser abolidos, em nome do igualitarismo dominante, em que vale tudo, inclusivamente a falta de respeito pelo outro. Pelo próximo.

E assim vai o mundo… e a barbárie.

sábado, 29 de setembro de 2007

Foi ontem...

28 de Setembro contra o ‘inevitável’!

A história é escrita pelos vencedores que uma vez chegados ao poder justificam o lance com a inevitabilidade dos acontecimentos! A ideia é perigosa e pretende fazer crer que o dia de amanhã será sempre melhor que o de ontem! Assim, e no limite, só para citar dois exemplos, a bomba de Hiroshima tornou-se inevitável e a invasão do Iraque também! E o mundo ficou melhor, conclui o mesmo raciocínio!
Contra esta lógica, contra os chamados ‘ventos da história’, se rebelaram num dia 28 de Setembro de 1974 muitos portugueses, a maior parte eram jovens, que não queriam abdicar do sonho de um Portugal ultramarino. Por serem jovens não pensavam em si, sentiam-se responsáveis pelas populações africanas, temiam uma catástrofe. Só isso.
Foram a jogo e perderam.
Ganharam os que hoje se sentam no Parlamento, os que ocupam as magistraturas, os que ao longo de trinta anos se instalaram em Belém.
O Atlântico foi trocado por Bruxelas; as inevitáveis guerras civis aconteceram em todos os territórios que administrámos durante séculos; e até naqueles, como Timor, onde não existia a sombra de qualquer conflito, conseguiram os vencedores de Setembro de 74, ali semear a guerra e a discórdia!
África é hoje um continente assolado pela fome e pela destruição...sem fim à vista! As populações que foram enganadas, ou pura e simplesmente obrigadas a aceitar as ‘actuais independências’, abandonam o continente em massa, arriscando a morte na viagem!
Era também contra isto que aqueles jovens se manifestavam, agrupando-se para o efeito em pequenos partidos de que hoje poucos se lembram, que o tempo injustamente esqueceu.
Nada tenho contra o desenvolvimento, contra a verdadeira independência, mas pergunto, se era este o inevitável desfecho daquele dia em que lutámos contra o ‘inevitável’!

Publicado no Interregno em 28 de Setembro de 2006.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

É Preciso Ter Muita Lata!

Recebi hoje um e-mail. Daqueles e-mails bem intencionados que correm centenas de caixas de correio devido a contínuos forwards que amigos e conhecidos vão fazendo para amigos e conhecidos.

Seguido ao título - CAMPANHA DA ALFREDO DA COSTA PARA EQUIPAR UNIDADE – é-nos comunicado que “a Maternidade Alfredo da Costa está a precisar da ajuda dos portugueses para equipar a sua nova unidade de bebés prematuros”. Segue-se uma súplica do Dr. Jorge Branco, Director da maternidade: "Até ao momento [sexta-feira à tarde] ainda só recebemos 20 mil e poucas chamadas. Não tenho outra opção senão pedir ajuda!".

Pois é. Para salvar vidas, não há outra opção se não pedir a todos nós, portugueses, que participemos na campanha “1 euro por uma vida”. Só assim a Maternidade Alfredo da Casta pode comprar incubadoras, ventiladores, jet-ventilation e bombas e infusoras para suporte de vida a bebés prematuros.

E o Dr. Jorge Branco já não dorme com a angústia dos portugueses poderem não responder ao seu apelo, e assim não conseguir salvar os bébés que, coitados, nascem prematuros na sua maternidade.

É preciso ter muita lata!

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Ei-las!

"...São muitas as questões que deveriam ser analisadas rigorosamente antes de assumir esta medida. O que parece não afligir ninguém, excepto os próprios toxicodependentes que sabem, por amarga experiência, que este caminho não conduz a uma luz ao fundo do túnel, mas condena a um túnel definitivamente sem luz.

Os decisores políticos, nestas matérias, são os "donos" dos destinatários, falam por eles, falam deles e, temo, raramente com eles.

As salas de chuto representam mais uma capitulação, de todos nós, face a esses e tantos "outros". Dá-se de barato que pouco ou nada se pode fazer por eles e entregam-se à sua circunstância, em vez de os tratar, reintegrar e devolver à vida, às suas capacidades e ao seu futuro.

Tentadoramente mais fácil, esta medida vistosa tem ainda a vantagem de se verem livres deles. Mas esta vantagem está camuflada pelas vestes da falsa compaixão e, por isso, não etiquetável de politicamente incorrecta. Fácil, indolor, invisível.

Desde o Admirável Mundo Novo, de Huxley, até ao New Age, passando pelo post-modernismo, as sociedades vão-se afogando no seu próprio modelo de individualismo libertário. Com a crescente complexidade dos problemas, a sua globalização, a fragmentação social, a perda de raízes e referências, as novas doenças, as desigualdades estratificadas, o aumento do abandono e da solidão, o desânimo generalizado, a depressão em cadeia, podemos dizer que a receita não provou. Hoje, os homens estão mais sós, mais vulneráveis, mais tristes e perdidos no seu interior. E se há coisa que este mundo admirável não previu foi tempo e paciência para cuidar deles. Daí ter-se vindo a especializar em medidas light, do tipo, "coitados, deixem-nos lá!". E é isso mesmo o que vamos fazer: pô-los e deixá-los lá."

Artigo de Mª José Nogueira Pinto publicado no DN há cerca de um ano.

Esta semana, com a implementação da distribuição de seringas, algumas prisões transformam-se nas primeiras "Salas de Chuto" do nosso País.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Prisão de Paços Ferreira...

Na manhã de 13 de Abril de 2008 o guarda prisional recolheu um paqueno saco de plástico dado pelo enfermeiro e colocou-o em cima da mesa, na sala asséptica defronte da enfermaria. O saco continha uma grama de heroína e uma quarta de cocaína, depois de devidamente controlada pela equipa médica. Ao lado, no canto superior esquerdo da mesa, repousava uma seringa. Depois, autorizado pelo enfermeiro, o guarda prisional dirigiu-de ao altifalante e chamou o 201. Passados cinco minutos o 201 cumprimentou o enfermeiro, e este perguntou-lhe como estava. Disse-lhe que tinha dormido mal e o sanitário respondeu-lhe que estava tudo pronto, se os braços estavam lavados, se não havia hematomas, nem restos de sangue. Fê-lo entrar na sala, o 201 sentou-se à mesa, abriu o saco de plástico, preparou a mistura, procurou o golpe, mas o gesto tornou-se insuficiente. Perante o fracasso, tocou a campainha que estava ao alcance da mão e, passados segundos, na sala asséptica, entrou o médico de serviço de bata asséptica. Este, perante a ânsia do 2001, amarrou o garrote com mais força, procurou com minúcia, encontrou e desferiu a carga. Um quarto de hora depois, o 201 disse ao médico que "a branca" não era da melhor, que há quinze dias se sentia assim. O médico acedeu, disse que sim, era do lote antigo, na próxima semana dos Serviços Centrais chegava uma com um grau de pureza maior, que para o seu caso já tinha feito a requisição. Antes do 201 sair, o enfermeiro entrou na sala, lavou-lhe o braço, recolheu o saco de plástico e a seringa solta, e com um pano limpou a mesa com umas luvas assépticas, e disse ao guarda prisional que agora a seguir podia chamar o 414.

Os Filhos e o Tempo…


O tempo passa muito depressa e os filhos crescem muito depressa, tão depressa que muitas vezes nos sentimos incapazes perante o tempo, como se o nosso dia a dia fosse uma corrida contra o relógio. O que é gastar bem o tempo com os filhos? Momentos de conversa, brincadeiras e jogos são momentos importantes ou perdas de tempo? Tempos gastos com repetição exaustiva de procedimentos são momentos perdidos ou ganhos?
Certamente já sabemos a resposta a estas questões, sabemos que a educação dos filhos, além de dedicação, amor, doação… exige tempo, e tempo que pode parecer-nos por vezes perdido, tempo que ilusoriamente poderia sempre ser ocupado com mil e um afazeres domésticos, de trabalho ou de lazer pessoal. É mais fácil dar a comida ao bebé do que deixá-lo comer sozinho e sujar a cozinha, é aborrecido ter de repetir 10 vezes a cada 30 segundos que não se atiram as coisas para o chão, é mais cómodo arrumar os brinquedos pela nossa mão, do que esperar a ajuda da criança a fazê-lo ainda que incentivado e controlado por nós.
O tempo gasto no convívio e educação é tempo precioso, bem aproveitado e que ainda por cima dará frutos futuros.
Que fazem os pais com o seu tempo? O tempo passa, é único e irrepetível, que fazemos nós dele? Como podemos aproveitar bem o tempo com os nossos filhos?
Analisemos pois as 24h do nosso dia, certamente uma boa parte deste tempo é passada a trabalhar, algumas horas a dormir, ambas actividades importantes! Mas como ocupamos o tempo que dispomos para a nossa família? O “resto” do tempo, que alguns dirão certamente que não é muito com razão… mas que por não ser muito, exige disciplina, alguma criatividade, paciência e organização! Se cairmos na tentação de não organizar minimamente o tempo livre, este com facilidade se transformará em ócio.
Para a criança brincar é o seu “trabalho” diário e o acto de brincar deve ser respeitado pelos adultos. Sempre que possível, mesmo que seja durante apenas alguns minutos, os pais devem brincar com os filhos, jogar um jogo, ler um livro, praticar um desporto. É muito importante para os filhos o tempo que os pais passam com eles, e aqui mais importante do que a quantidade é a qualidade de tempo. É diferente estar junto dos filhos a ler o jornal, estar perto dos filhos em frente ao computador, ou estar efectivamente a brincar com os filhos, a rir com eles, a desfrutar da sua presença.
Diria que todos os dias, nem que sejam 15 minutos, devemos brincar efectivamente com os nossos filhos, permitir que eles sintam que estamos ali para eles, só para eles naquele momento.

A Grande Família

O Tibete que, com toda a legitimidade, deseja ser um país livre e independente, teve a trágica sina de ter caído sob o jugo do imperialismo comunista chinês. A prórpia China é também, como todos sabemos, um dos (infelizmente) muitos países onde a esquerda ainda consegue impor ao povo todos os seus horrores!

Por esse motivo, a forma vergonhosa como o governo PS tratou o Dalai Lama - líder espiritual e político do povo Tibetano - favorecendo uma relação amigável com a tirânica China, em nada nos espantou.

Afinal, como não compreender a necessidade que o nosso governo de esquerda tem de pactuar com o primo vermelho do oriente? Quem não entende a necessidade de união entre as várias Famílias descendentes do velho marxismo?

Na mesma linha de pensamento, Portugal está a preparar-se para receber de braços abertos um dos maiores carrascos da actualidade africana, o senhor Mugabe. E parece que (para além dos ingleses) ninguém está grandemente preocupado com o assunto. Imaginem o que não seria a agitação se esse senhor se chamasse, por exemplo, Pinochet. A propósito, como os juizes espanhois que tentaram tramar este último devem andar por aí muito distraídos, lanço aqui um alerta para que não deixem escapar esta excelente oportunidade de levarem o senhor Mugabe ao banco dos réus, tão cedo ele ponha o pé em terra europeia.

Acabámos da assistir à triste figura do partido comunista, a celebrar os 90 anos da revolução bolchevique - que, como sabemos, foi a maior desgraça humanitária de toda a história, dizimando milhões de inocentes e destruindo todo um património económico, cultural e espiritual dum grande povo... e de muitos outros que por eles vieram a ser tiranizados

Pior do que isso, ouvimos o partido comunista a apelar à realização dessa mesma revolução em Portugal. Isso é duma gravidade sem igual! Jerónimo de Sousa deveria estar, neste momento, a partilhar a mesma cela com esse "skin-head" que por aí anda também a apelar à violência. No entanto, nada aconteceu, nem se ouviu a mais leve reprimenda das autoridades governamentais.

De novo, as Famílias protegem-se. O Don poupa, mais uma vez, o primo comunista...

Mas nós, o povo, estamos atentos...

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

A Presidência Europeia e Sócrates

Diz-se que na escola primária não ia brincar para o pátio, com medo dos grandes do Liceu. Parece que tal recalcamento impede-o, ainda hoje, de receber o Dalai Lama.
Diz-se, também, que quando chegou a vez de estudar geografia confundia o Kosovo e Vizela. Daí, talvez, a desfaçatez com que hoje pretende redesenhar o mapa dos Balcãs.
Pelos 14 anos, quando botou corpo e despontou o buço, julgou-se capaz de desafiar o mundo. Foi por essa altura que decidiu que um dia iria discutir com o Presidente da América o Afeganistão, o Médio Oriente e, de novo, Vizela, ou melhor, o Kosovo.
Nunca foi aceite como aluno no elitista St Julian’s, de Carcavelos. Parece que remonta a essa época o seu já famoso desentendimento com o inglês. Jurou vingar-se. Estava escrito nas estrelas que haveria de dar uma festa em Lisboa para Robert Mugabe.
Chegado a casa, via o seu retrato sobre a credencia do pequeno hall de entrada. Também sobre a televisão havia o retrato que tirara de lacinho azul, embora a fotografia fosse a preto e branco. No quarto da mãe , ainda, estava um retrato grande do José vestido com uma fantasia infantil. E sobre a sua própria cama havia um retrato de grande formato, com o cabelo comprido, as calças boca de sino, os colarinhos grandes e os sapatos de salto alto. Embora fosse já no rescaldo das modas dos anos 70, verdade é que essas coisas chegavam mais tarde ao interior. Nunca duvidou que iria dar à Europa um Tratado Constitucional.
Estamos em crer que a grande obsessão do pequeno José Sócrates foi a leitura do livro do Guiness.

domingo, 23 de setembro de 2007

Memórias de Outono

Esperava um dia cinzento e húmido para escrever esta peça. É sobre as memórias que me desperta o Outono, com as tonalidades mornas e amareladas das folhas no chão. Do fumo bem cheiroso das castanhas a assar num triciclo ao fim da tarde. Ou da gota de chuva puxada pelo vento que estala na cara, anunciando o fim da do jogo da bola no Jardim da Burra, ali à Estrela. Há trinta e tal anos. Hoje até está o céu azul, e esta estação traz-me sempre memórias de infância. O Outono lembra-me o início das aulas, a escola primária e as minhas primeiras paixões, medos e emoções. Confesso que eu era malandro e não gostava muito da escola. Às tantas frequentei a Escola da Câmara Nº 6, na Rua da Belavista à Lapa, depois da minha mãe e das suas amigas, à época influenciadas por alguma revolucionária teoria pedagógica, tirarem os seus filhos dos colégios e organizarem uma turma na qual inscreveram os filhos, todos juntos, mais ou menos ingénuos meninos “bem”. Desta forma, aos oito anos, todos os dias me deslocava sozinho para a escola, para um mundo novo, louco e exigente. E todos os dias lá me encontrava com o professor Júlio sempre no estrado, enquadrado pelos planisférios e as figuras do Estado Novo. Lembro-me do seu aspecto austero e magro, enorme (?), dentro do seu fato escuro, com um ameaçador de ponteiro na mão. Eu, um verdadeiro cábula, “levava” reguadas todos os dias. Fosse por mau comportamento, ou porque não tivesse feito os trabalhos de casa, ou por causa dos erros de ortografia. Lembro-me da expressão ameaçadora do professor Júlio, apanhando-nos num flagrante rebuliço. E vociferava: “Isto não é nenhuma república!!!”. Eu, sem perceber bem, relacionava essa palavra com o senhor solene e careca emoldurado na parede. E tenho a vaga impressão que já na época me apercebera de que o meu pai não gostava nada disso.
O Outono era definitivamente uma época misteriosa e mágica, quando as intermináveis férias grandes acabavam naqueles dias já tão curtos. E lembro-me dos preparativos, quando chegava a casa com a minha mãe, vindos de comprar uma pasta nova, ou umas galochas pretas para eu levar para a escola. Então é que nunca mais chovia. Vaidoso, eu acabava por levar as botas de borracha mesmo com bom tempo e os pés suados.
Nesse tempo, tinha direito a cinco escudos diários para ir para a escola. Para ir de autocarro, o número nove, de Campo d’ Ourique até à Estrela. Fi-lo sozinho desde cedo. Sempre alerta, tinha que ter cuidado, não aparecessem alguns “ciganitos” do Casal Ventoso que me roubassem a bola de futebol e me espetassem uma “pêra”. O mundo de facto sempre foi perigoso. Regressávamos a casa normalmente em pequenos bandos pela Calçada da Estrela, a chutar nas pedras ou fazer corridas, pisar as folhas secas, ou chapinhar nas poças de água. Passávamos pelo Jardim da Estrela, respirávamos o fumo das castanhas e assustávamos os pombos esbaforidos. Depois subia a pé a Rua Domingos Sequeira para chegar a Campo D’Ourique já sozinho. Sempre a pé, pois que pela certa tinha gasto o dinheiro para o transporte em guloseimas, cromos ou outra coisa qualquer. Que o meu mundo era enorme nessa altura lembro-me bem. Lembro-me do Pedro, do Eduardo, do José Filipe do Manel e do Carrelhas. Lembro-me dos jogos da bola organizados por uma das mães, todos “à Sporting” na relva verde de Belém, contra uns indígenas quaisquer. Todos queríamos ser o Yazalde, o número nove. E lembro-me dos cinco tostões de tremoços, dos coloridos “esticas” e das pevides vendidas por uma velhinha à porta da escola. Das correrias para a "pendura" no eléctrico, ou daquela clandestina revista “de mulheres nuas”. Mas da Escola é que não gostava. Ao adormecer, rezava (!) angustiado para que um terramoto, incêndio ou outra catástrofe a fechasse por uns dias. De forma a ganhar tempo para (de novo não) fazer os “deveres” sempre adiados. E assim escapasse dumas valentes reguadas que invariavelmente me levavam às lágrimas.
Um dia de Outono como este, antes de chegar à escola, encontrei o meu primo homónimo que já frequentava a 4ª classe e me desafiou a faltar com ele. Nunca pela cabeça me passaria tal atrevimento, tão afoito. Alinhei, assustado, e não mais me esqueci daquele dia de emoções fortes. Toda a jornada deambulámos pelo bairro, até tão longe, bem longe de qualquer vista indiscreta. Fugidos até às Janelas Verdes, chegámos mesmo até Alcântara. Para ver os barcos, os guindastes, e toda aquela azáfama. Sem nunca termos a certeza do caminho de volta. Um saboroso crime estava feito, uma exaltada angústia misturava-se com as imagens da minha casa protectora, dos meus irmãos e da minha incauta mãe. Tudo tão longe. E logo, aflito, afastava da ideia a figura gigante do meu pai zangado, volvendo às explorações e correrias com o meu primo. Começava cedo a minha relação íntima com a cidade, com os seus sons, recantos e cores. Comecei cedo a ser gente, e terá sido este o meu primeiro grande segredo, na construção do homem que sou hoje.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

História de algibeira (19)


No século XIX, com o desenvolvimento das vias de comunicação, as visitas de estado tornaram-se acontecimentos correntes na gestão das relações entre os países europeus. Atingida (tardiamente) a plena ligação de Portugal à rede europeia de caminhos de ferro, D. Carlos, o rei-diplomata, empreendeu viagens diversas e foi anfitrião em Lisboa dos mais ilustres chefes de estado da época, como o monarca espanhol Afonso XIII e o presidente da França Émile Loubet.
Uma das visitas mais espectaculares terá sido a visita do seu tio Eduardo VII de Inglaterra, em 1903, em promoção da velha aliança, e a caminho de Paris. Além do habitual banquete no Palácio das Necessidades, e do serão no São Carlos, o programa da visita incluiu uma caçada às rolas e uma tourada na praça de touros do Campo Pequeno.
Lisboa esteve em grande festa durante três dias, e o testemunho que guardamos hoje desse grande evento é o conhecido parque de Lisboa, que foi baptizado com o nome do ilustre convidado: Eduardo VII.

Na foto (daqui): Eduardo VII à chegada, no Terreiro do Paço, acompanhado pelo chefe de Estado D. Carlos I

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Aquilino Ribeiro

Aproveitando a deixa pertinente de JSM, acrescento mais duas palavras sobre a trasladação da decência nacional, hoje acontecida.
Nascido no Portugal que se esvaía na degradação política do final do século, Aquilino ganhou direito a um lugar no panteão.
Não porque seja um escritor impar. De facto, porquê ele e não, por exemplo, o príncipe Almada, ou Pascoaes, sempre grandioso, ou, também, o Régio poeta, que despertou para a poesia (quase) todos os que se lhe seguiram. E porque não, ainda, Torga, como nenhum outro entusiasmado com a sua terra, ou Sofia de Melo Breyner, não por rendição ao critério das quotas mas por genuíno mérito da autora? Trata-se de reparar uma injustiça histórica? Então que dizer de Herculano e de Camilo, ausentes do panteão?
Certa vez, pouco antes de 1 de Fevereiro de 1908, dois homens ajustavam o manuseamento de uma bomba. Esta veio a explodir, e aqueles morreram. Nessa circunstância o agora novo inquilino do panteão foi preso. É que era ele o dono do quarto/campo de treinos onde os dois ensaiavam. Acresce que, posteriormente, participou também no regicídio! Por conseguinte, pode dizer-se que se ajeitava bem nesse ambiente hoje só comparável com o mundo do terrorismo.
Portanto, e obviamente, o mérito que trouxe este homem ressentido com a nobreza até ao panteão, este humanista medíocre e pequeno escritor regional até às luzes da ribalta, deve ser encontrado, não nas páginas da literatura, mas por entre os papéis que registam os que se acoitavam na maçonaria. É ai que se encontra a razão de ser da tolerância do regime para com este homem intolerante .
Enfim, é caso para dizer que o panteão está inquinado com a publicidade da Loja.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Coincidências

Correm hoje os novos dias da Bastilha, homicidas e violadores preparam-se para ser libertados em nome dos direitos dos arguidos, misterioso apelido onde cabem os mesmos homicidas e violadores. O risco para as verdadeiras vítimas existe e não é de desprezar, mas na assembleia pontificam o medo e a cumplicidade, ela é soberana, nela não se vislumbra oposição!
Arautos bem situados asseguram que o descanso dos portugueses será igual à paz… dos cemitérios!

No mesmo tempo e lugar prepara-se a trasladação dos restos mortais de um escritor para o denominado Panteão Nacional. “Arguido” de ser promotor do crime de regicídio, ou conivente com os regicidas, não deixa de ser uma triste coincidência a sua elevação à categoria de vulto nacional!
Os mortos devem descansar em paz, mas neste caso, são os vivos que não deixam descansar ninguém.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Scolari

(Devidamente autorizado pelo próprio, Pope dá a conhecer ao grande público alguns dos mail’s mais significativos, de entre os vários milhares que ‘atascaram’ a conta pessoal de Scolari nos últimos dias)

Mail enviado pelo DE (não foi possivel decifrar a sigla)

Luís Filipe
Seu sangue italiano teve mais uma erupção.

Falhou no resultado, falhou no soco.
E depois de ter dado com a mão nele você deu um pontapé na verdade,
nesses esclarecimento que posteriormente prestou, algo nebulosos…
Não foi bonito não!

Mail enviado pela Administração de Portugal dos Pequeninos

Nós, em nome das crianças indefesas de Portugal, vimos expressar o nosso mais veemente protesto, afirmar os nossos direitos e dizer que jamais poderemos tolerar o mau exemplo que V.Exª nos deu. Que se assobie o hino dos visitantes, que o árbitro seja empalado com ordinarices, que se insulte o adversário com palavrões, que se finja durante todo o jogo haver faltas que não existiram, isso são manifestações de tolerância desportiva. Mas saiba que nós mesmos temos um limite: violência não!

Mail enviado, às 02h37 do dia 13/09/07
pelos leitores de A Bola

É só isso.
Não tem mais jeito
Acabou, boa sorte

Não tenho o que dizer
São só palavras
E o que eu sinto
Não mudará

Tudo o que quer me dar
É demais
É pesado
Não há paz

Tudo o que quer de mim
Irreais
Expectativas
Desleais
(com a colaboração de Vanessa da Mata)

Mail enviado 72 horas depois dos lastimáveis acontecimentos
pela Presidência da Republica


Maria chocada.
Netos inconsoláveis.
Eu, que tenho pautado a minha magistratura presidencial pela coragem (vide, referendo de 11 de Março último ou a recepção ao Dalai Lama), fiquei deveras en-cavacado (espécie de paralisia facial/institucional, que só me permite afirmar os gestos políticos que são de prever mantenham a minha popularidade em alta).
Conselheiros, que habitualmente me sugerem prudência, dizem que é agora que poderei mostrar que tenho sentimentos viris.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Corpo Humano: Instrumento ou destinação?

Entre Maio e Agosto deste ano, a mostra “O Corpo Humano como nunca o viu” foi visitada por mais de 100 mil pessoas.
A “exposição” realizada com corpos e órgãos reais, preservados através de um processo de polimerização – que permite mostrar a fisionomia do corpo humano – tem estado patente no Museu Nacional de História Natural.
A exposição do corpo humano desta forma é a redução do mesmo a uma máquina complexa, com a qual, sabendo-se à partida que gerará curiosidade, se pretende obter proventos – cada entrada na exposição ao fim de semana custa 21 Euros.
Mas o que de mais importante existe no ser humano jamais poderá ser visto ou exposto deste modo.
O corpo representa a vida, nele se encerrando a grandeza do mistério humano. Toda a expressão da vida é corpórea. É pelo corpo que exprimimos a ternura, que construímos intimidade e realizamos todos os gestos.
“Isto é o Meu Corpo que é para vós” – Jesus entregando-nos o Seu Corpo, dá-nos a Sua Vida, o mesmo é dizer dá-nos tudo o que É e o que tem e assim constitui modelo para todos o que O querem seguir. Este doar-se não tem a ver com expor-se, num sentido manipulatório.
O corpo humano tem uma dignidade que não é compatível com a exibição pública e ostentatória do mesmo.
O ser humano é criatura de Deus e o nosso corpo é templo do Espírito Santo. É através dele que exprimimos tudo o que somos – a grandeza e a nobreza da nossa humanidade, mas também a sua fragilidade e contradição.
O corpo de Jesus ressuscitado é o princípio da redenção do nosso próprio corpo e toda a redução deste a mera condição de sistema orgânico é a total perversão do sentido da realização humana.
É a descoberta deste sentido que devia ser o desejo maior da nossa vida e que devia (pre)ocupar a nossa existência, mas assim não acontece…
Continuamos distraídos e longe de querer começar a entender que se Aquele a quem estamos destinados nunca ninguém O viu, “O Unigénito do Pai no-lo revelou”: O destino para o qual o Homem é feito fez-se Um entre nós.

domingo, 16 de setembro de 2007

Para que a gratidão abençoe o tempo presente...

Um século depois da derrota de Lepanto (1571), os turcos tentam de novo, em 1683, dominar a Europa ocidental, desta vez por via terrestre. Maomé IV coloca o estandarte de Maomé nas mãos de Cara Mustafá, fazendo-o jurar defendê-lo, se necessário fosse com o custo da sua própria vida.O Grão Vizir leva consigo 300 000 homens e promete tomar Belgrado, Buda(peste), Viena, pretendendo avançar depois sobre Roma e tomar São Pedro.
Em Agosto desse ano, um frade capuchinho italiano, Marco de Aviano, que virá a ser beatificado por João Paulo II, é nomeado grande-esmoler das armas cristãs. A pequena ‘estória’ vê nele o criador do ‘capucino’, mas a história reconhece-o, sobretudo, como o homem que conseguiu convencer o rei da Polónia a vir em socorro da cidade imperial com os seus 40 000 homens. A cidade estava cercada desde 14 de Julho (!) e a sua rendição estava por horas. A relação de forças era desfavorável aos cristãos, mas Viena confiava-se à intercessão da Virgem Maria sendo a sua imagem erguida em todos os estandartes. Sobre o Kahlenberg, que domina a parte norte da cidade, o pe Marco celebra Missa, servido pelo rei Sobieski e perante o exército disposto em semi-circulo. O capuchinho entusiasma as hostes prevendo uma vitória inaudita. Ao terminar a Missa em vez de dizer as palavras litúrgicas ‘it Missa est’ grita ‘Ioannes vinces’-‘Jan vencerá!
Então, as tropas conduzidas pelo rei da Polónia, João III Sobieski, e pelo duque Carlos de Lorena atacam os otomanos ao romper da aurora de 11 de Setembro (!). Um sol esplêndido espelha-se sobre os dois exércitos de quem depende a sorte da Europa. Os sinos da cidade soam desde a manhã. As mulheres e as crianças rezam nas igrejas, implorando a ajuda de Nossa Senhora. Pela tarde, o estandarte do Grão Vizir cai nas mãos de Sobieski. Na manhã seguinte, entra na cidade em jubilo e vai assistir à Missa e ao Te Deum na Igreja de N. Srª do Loreto a quem atribui a vitória. Mas também o Papa atribui a vitória à intercessão de N. Srª. Como sinal de devoção Inocêncio XI institui assim a festa em honra do Santíssimo Nome de Maria. Esta será estendida a toda a Igreja sendo S. Pio X a fixá-la a 12 de Setembro, dia da celebração do aniversário da vitória. Todavia, tal celebração será retirada do calendário com a reforma litúrgica de 1970. Porém, o Papa polaco, aquando da reedição do Missal Romano, restabelece-a de novo nesta data. Em Março de 2002. Por providencial coincidência, alguns meses depois dos atentados de Nova Iorque.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Justiça em segredo

É sempre bom que as coisas fiquem claras, registadas, para saber quem é quem, para que amanhã não se desdiga o que se disse hoje. Relembremos a polémica norma do Código de Processo Penal, aprovado com os votos do PS e PSD, e promulgado por Cavaco Silva, para entrar amanhã em vigor! Reza assim o artigo 88, número 4:

“Não é permitida, sob pena de desobediência simples, a publicação, por qualquer meio, de conversações ou comunicações interceptadas no âmbito de um processo, salvo se não estiverem sujeitas a segredo de justiça e os intervenientes expressamente consentirem na publicação”.

Aqui está o resultado de um laborioso ‘pacto de justiça’ entre os partidos que nos têm governado desde a revolução dos cravos, a tal que invocava os valores da liberdade, da justiça, da separação dos poderes, em suma, da transparência que gera a confiança entre governantes e governados. Aqui está a cereja que faltava no bolo da terceira república.
A partir de agora vai ser um descanso, processos como o da Casa Pia, Portucale, Apitos, qualquer que seja a cor, e outros, nem do ovo saem, ficam no segredo dos deuses, com letra pequena. Primeiro está o bom nome das pessoas. E assim é que deve ser, porque como diz o ministro da Justiça – “as escutas são para a investigação, não para a divulgação”! Só faltou dizer – confiem em nós!

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Então... feliz ano novo!

Talvez seja uma ilusão, mas o final do Verão sempre me pareceu demasiado abrupto: no espaço de uma ou duas semanas, os longos e radiosos dias quentes escurecem e minguam vertiginosamente, trazendo consigo uma suave nostalgia, quando não uma recôndita angústia. De repente sentimos saudades do Verão que passou... ainda na semana passada, num fim de tarde na Adraga, com chinelos e poeira, um petisco e uma cerveja, aquela eufórica sensação de liberdade e o coração tão aceso. Confesso que, apesar de trabalhar durante grande parte do Verão, vivo-o com o jovial espírito de “férias grandes” de outrora. São os jantares tardios na varanda, a cidade utopicamente deserta, as coloridas esplanadas para beber um simples café ou as longas saídas de fim-de-semana.
E de repente a rotina doméstica altera-se com a preparação do retorno às aulas. Umas "cópias" e umas leituras forçadas vêm cortar a indolência das tardes de Setembro à pequenota. Há uns amuos e os sonos ainda trocados. Os mais velhos resistem como podem ao fim da época balnear, e numa manhã destas finalmente lá foram, contrafeitos, tomar nota dos horários.

Ontem, a trovoada e uma impiedosa chuva aqui em Lisboa desfizeram definitivamente qualquer veleidade: apesar da praia estar logo ali atrás, começou de vez o ano lectivo, uma nova época de trabalho, aventuras e novas oportunidades. Para todos aproveitarmos com renovadas forças. Afinal, o meu verdadeiro ano novo ainda começa sempre no fim do Verão.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Madeleine

A Inglaterra campeã do mundo de fair-play. Campeã de cosmopolitanismo. Artifice dos principais jogos que divertem o mundo: whisky, gin e smoking, mais os beatles, os pink floyd e outros, a que acresce o football, o rugby, o poker e o king...
A Inglaterra, também, na linha da frente dos jornais sensacionalistas, de devassa da vida privada das suas estrelas. Despida de preconceitos e do resto da roupa. Exorbitante no consumo de álcool. E de haxixe. E heroína e coca. E massivamente consumidora de televisão & comp.
A Inglaterra que inventou uma princesa que parecia vinda de um enredo da periferia.
A Inglaterra formalmente religiosa: nos concertos dados nas abadias, nas nomes bíblicos das academias universitárias, no enterro solene dos seus personagens e no que mais resta de alguns gestos tradicionais. Stop.

Esta parte do mundo que esquece o resto do mundo e que se chama ocidente.
Esta parte do mundo que se esquece da injustiça no mundo (como, por exemplo, no Darfur, na China esclavagista, na Cuba (ainda) despótica, na África exemplarmente descolonizada…).
Esta parte do mundo que se gaba de ser racional face ao resto do mundo.
Esta parte do mundo a proibir a caça à raposa. A ter horror aos touros de morte. A sofrer com o desumano abandono de animais durante o período de férias. Com medo dos transgénicos. Ferozmente anti-tabaco. Com diferentes ASAE’s da UE inventariando crimes a exterminar.
Esta parte do mundo onde o aborto é legal e que luta pela manipulação genética. E pela eutanásia. Que vulgariza a homosexualidade. Aqui onde as ‘pedofilias’ todas tentam emergir legais. Onde há um medo paranóico do sofrimento. E medo do outro. Onde o medo anda travestido de tudo por medo daquela que, iniludível, nos virá buscar…

A culpa. Essa culpa de existir sem porquê, para nada. A angustia. A culpa por não haver nada a fazer com a culpa, senão compras, umas férias longe, e a tentativa de sermos comunidade na sensação que muita televisão nos dá de nos conhecermos todos bem. A culpa de sermos uma civilização que não o é.

O mundo chamado ocidente a viver a sua peregrinação possível. Obviamente de costas voltadas para a Jerusalém do alto. Obviamente, também, desconfortável face aos sanguinários gestos pré-colombianos. Intrepidamente contra os direitos absurdos da divindade muçulmana. A achar graça, porém, a essa finta que lhe permite voltar a apresentar-se a exame no ano seguinte, na reencarnação seguinte, deixando para depois a sua responsabilidade de hoje…Mas sem deixar nunca de ser racional.

A organização da existência sem Igreja, na posse da existência, dos seus sucessos e culpas, sem ritos sacrificiais. O sacudir da memória cristã, na aflição com a hipotética denúncia que outrem possa fazer reconhecendo vestígios de dogma.

Uma família classe média que aparenta classe. Os pais médicos=modelos de vida saudável e moderna. Férias comuns numa praia do sul. Das suas três crianças indefesas, a mais velha desaparece. Evidentemente raptada, provavelmente em direcção a Marrocos. A imediata identificação de todos com o amor dos pais. Mimetismo afectivo. A convocação automática da comunicação social, para salvar a criança perdida, para interceder, para explicar tudo, para fazer o julgamento sumário dos criminosos. Surge uma grande comunidade na dor, nos gestos sentimentais, como o das velas acesas, e na partilha de alguns trocos em favor de um saco azul de uma benevolência difusa.
A posterior complexidade da coisa. O avolumar de suspeitas sinistras que envolvem a Mãe! e o Pai!...

O relativizar da culpa privada. O eliminar de uma consciência sagrada face à culpa, sem o que o homem mente!! A insignificância da justiça divina face à potência do juízo televisivo. A irrelevância do pudor e do silêncio face à violência. O inferno bíblico considerado ridículo. A necessidade de reparação urgente: eficácia na punição. A comunhão com os que pareciam ser vítimas tornada ódio seminal pois, afinal, parecem ser eles os culpados.

A necessidade de ocupar o lugar que Ele deixou vago e poder dizer: omnisciente vejo tudo. Pornografia seria haver ainda algum segredo. Perscrutar, com os novos sumos sacerdotes da alma, a psique. Sou juiz: tu tens culpa, eu não. Não te esquecerei. Jamais!
Pelo menos até que outro episódio escandaloso me permita passar adiante, esquecendo tudo o que está por resolver, em mim…

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Educação e televisão


Temos de concordar que a televisão é inimiga do diálogo, e o diálogo é regra de ouro na família. A televisão, embora possa ter algumas coisas boas, se não é usada com prudência e sabedoria pode "disfarçadamente" deseducar os filhos e desencorajar hábitos que tanto trabalho deram aos pais a fomentar. É imprescindivel ter muita atenção e cuidado com os média, nomeadamente com a televisão. A regra deve ser a televisão apagada, sobretudo durante as refeições. Quem acende a televisão devem ser os adultos, sendo que os filhos se quiserem terão de pedir autorização aos pais para verem determinado programa. O deixar ou não ver determinado programa, concurso, filme ou documentário, deve ser uma decisão ponderada pelos pais com base na qualidade do programa em si e não com base no comportamento da criança ou na sua vontade. Há de facto algumas coisas boas na t.v., ela pode proporcionar um entretenimento saudável e moderado se for usada de forma razoável e inteligente (como meio de unir a família portanto! e não o oposto).
O ideal é que haja apenas um aparelho de televisão na casa, isto dá aos pais um maior controle e faz com que todos sejam mais responsáveis na sua utilização. O desejado é que a família possa assistir em conjunto a bons programas, filmes, eventos desportivos, que sejam fonte de diálogo, de troca de ideias, risos e emoções em conjunto. Claro que as crianças podem fazer sugestões e pedidos para ver determinada série, mas são os pais que decidem como, o quê e quando (depois de se informarem bem acerca do programa e do seu conteúdo educativo). Esta liderança enfatiza a autoridade dos pais.
O que os pais devem procurar no uso moderado da t.v. não é apenas proteger as crianças, mas também ensiná-las a discernir por meio de critérios firmes, o que é bom e o que é mau.
Quando se tem um controlo sobre a televisão e esta sai "do centro da sala", acontecem espaços de tempo (inicialmente estranhos mas depois maravilhosos) para a vida em família. Mais tempo para pais e filhos se conhecerem, jogarem juntos, lerem bons livros, ajudarem-se mutuamente nas tarefas de cada um... Regra de ouro: saber tirar o melhor partido do pequeno ecrã!

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Bons pais precisam-se!


Há uma boa notícia a dar no que diz respeito à educação dos filhos... qualquer um pode ser um bom pai! Ou seja, teoricamente qualquer ser humano que pratique o bem, saiba usar de bom senso e se esforce nesse sentido, pode dar uma boa educação aos seus filhos. Tenhamos pois esperança!
Apesar de todas as contrariedades da sociedade em que vivemos, apesar do consumismo, da televisão, da falta de diálogo, do stress, etc, etc, etc... há muitos pais que têm sucesso na sua missão de educadores, ultrapassando todas as contrariedades da vida, conseguindo que os seus filhos se tornem verdadeiros Homens/Mulheres de palavra, carácter, e cheios de virtudes na sua maneira de agir.
Ao que parece estes pais não têm um perfil especifico ou uma personalidade "tipica" que lhes permite o sucesso na educação, muito pelo contrário, existem diferentes formas de ser "bons pais", consoante a personalidade de cada um. Alguns podem ser mais compreensivos e calmos, outros mais seguros de si, uns podem ser lideres natos, outros mais reflexivos... Há bons pais que cresceram em lares equilibrados e felizes e bons pais que nasceram no seio de famílias disfuncionais e tristes (mas estão determinados a não seguir o exemplo que tiveram).
Apesar das diferenças de temperamento inevitáveis no ser humano, há algumas características comuns aos "bons pais" que não resisto a comentar, embora estas variem depois em pormenores de família para família:)
Os pais bem sucedidos geralmente estabelecem elevados graus de maturidade para os seus filhos, esperam que os filhos sejam melhores que eles em todos os aspectos, nunca perdendo a esperança nem a paciencia para os corrigir, orientar e direcionar sempre.
Os pais bem sucedidos vivem a unidade do casal e tranparecem isso aos seus filhos, amando o marido/mulher, o pai/mãe mostra ao filho como se esquece de si e serve as necessidades do outro. Se o pai honra a mãe, também o filho a honrará, se a mãe trata com carinho o pai, também a filha o fará. Neste sentido é frequente que os pais se ilustrem como exemplo um ao outro para explicar coisas aos filhos. Cada membro do casal deve pois "engrandecer" o outro, pois a reputação também traz respeito.
Os pais bem sucedidos esforçam-se por não discutir em frente dos filhos, pois percebem que isso não é bom para a dinâmica familiar, isto não quer dizer que não troquem ideias nem que não tenham diferentes pontos de vista, o que até pode ser enriquecedor. Contudo, em relação a questões da educação convém que os pais se ponham de acordo e se apoiem sem nunca se contradizerem em frente às crianças, caso contrário a sua autoridade será seriamente posta em causa.
Os pais bem sucedidos esforçam-se por colocar o orgulho de lado e saber pedir desculpas quando cometem erros, desta forma também os filhos vão perceber que é bom arrependermo-nos das ofensas que causamos às outras pessoas.

Prefiro este.

Num dos habituais inquéritos de verão feitos em França perguntava-se qual era o mais belo desporto do mundo. Tenho para mim que é o râguebi, porque a essência do desporto é um misto de inteligência mental e de bondade para com o outro. Há muitos anos recordo-me de um jogo que assisti na África do Sul. Foi em Pretória e estavam mais de cinquenta mil pessoas a assistir. Os adeptos estavam misturados e cada ensaio era comemorado com contenção, com um grito de alegria sentido mas sem exuberância. Não existiam assobios, nem apupos ostensivos, nem ofensas verbais. Cada decisão do árbitro era respeitada e sentia-se um silêncio nas bancadas que evocava o esforço de cada homem que estava a jogar, a sua dignidade, a sua grandeza, o adversário como um aliado. O acto de jogar era infinitamente mais rico que o de ganhar. Foi o mais belo jogo que alguma vez assisti na vida numa África do Sul assolada pela violência. A partir daí o râguebi tornou-se o "desporto", o mais belo, o que até hoje nunca foi desmentido. Em Portugal o râguebi é um desporto de elite jogado nas universidades e por meia dúzia de equipas e quase sem expressão. Ir ao campeonato do mundo é um feito imenso que o mundo desportivo e político ignora completamente. Sábado joga-se com a Nova Zelândia e o jogo não é transmitido em canal aberto na televisão na terceira prova com mais prestígio no mundo depois dos JO e do Mundial de futebol. Que vergonha, que mediocridade de pensamento, que totalitarismo de gosto.Para que serve o canal 2? Jogar com a Nova Zelândia é uma vitória, é como para quem gosta de literatura estar com Herberto ou de cinema com Resnais. É por isso que o futebol se torna uma adição, uma droga, quase uma violência. Amanhã vão ser horas e horas a falar da vitória sobre a Sérvia, vai-se falar disso como uma conquista do Portugal verdadeiro. Mas isso é curto, demasiado pequeno. A derrota, no sábado, com a Nova Zelândia, transporta a aventura, a solidão de homens que não têm medo, o Adamastor da alma, o gesto épico de um País. Prefiro este. O País fora de estrutura.

A educação dos filhos


Proponho-me escrever alguns textos sobre este tema tão complexo quanto importante: a educação dos filhos.

Pode parecer "ingrato", pois todos os pais têm apenas uma e só uma oportunidade na vida de educar bem os seus filhos, convém pois que a aproveitem e proporcionem aos seus filhos a melhor educação possível.

É certo que as crianças são também fruto do meio que as rodeia e das relações que estabelecem com outras pessoas que não os pais, mas também não há dúvidas em relação ao papel determinante dos pais na formação do carácter dos filhos.

Bom, proponho-me isto por vários motivos, em primeiro lugar por ser mãe, e como mãe sentir o desejo enorme de formar bem os nossos filhos, não se tratando apenas de preservar o seu carácter mas sim de o formar! Em segundo lugar como psicóloga que trabalha com crianças e seus pais, e que tem constatado sérias dificuldades e pedidos de ajuda por parte destes que aflitos e com razão sentem que a boa vontade e o querer não chegam...


A educação dos filhos é a maior responsabilidade que temos a nosso cargo, sendo que a nossa tarefa é formar "adultos" e não crianças, devemos desde cedo apostar em educar o seu autodominio, ou seja, a capacidade de se negarem a si próprios, de desfrutarem as coisas boas da vida com moderação, de prescindir dos "louros" e gratificações, de ser "senhor/a" de si. Desde cedo também devemos apostar na educação da coragem, coragem em superar as dificuldades, mesmo a falta de conforto físico e a dor. Certamente já reparámos que muitas vezes as crianças caem, e por vezes se ninguém olha para elas continuam a sua brincadeira levantando-se contentes da vida, mas se olhamos ou tecemos qualquer comentário desatam num pranto... Aqui começa a educação da coragem:)!

O ser prudente, ser capaz de fazer bons raciocinios das coisas e das pessoas, de perceber o que é bom e o que é mau o que é feio e o que é bonito, também não pode ser descurado desde a infância, o mesmo acontece com a noção de justiça, que implica a aceitação do outro, esse outro que tem direitos e que também me cabe a mim tratar da sua felicidade.

Como é que nós passamos estas coisas tão importantes às crianças? Bom, em primeiro lugar, passamos pelo exemplo, pelo exemplo que nós pais damos aos nossos filhos e pelos exemplos que proporcionamos que eles vejam dados por outros. As crianças imitam com satisfação os pais e outros adultos! Em segundo lugar passamos estas coisas pela prática dirigida, ou seja, por aquilo que as crianças são levadas a fazer uma e outra vez pelos pais repetidamente, até apreenderem um determinado comportamento. E em terceiro lugar, mas não menos importante, as crianças também aprendem através da explicação verbal que lhes é dada, pois as palavras também são muito importantes na educação.

Para sermos bons pais, como certamente já constataram, temos efectivamente de ser pessoas melhores, devemos esforçar-nos por isso, por ser "pessoas exemplo" - exemplares. Portanto, graças aos nossos filhos, também nós podemos (e devemos) aperfeiçoar o nosso carácter e engrandecer o nosso coração! É também a nossa capacidade de liderança que os ajuda a formar o seu carácter.

domingo, 9 de setembro de 2007

História de algibeira (18)

1907 - Azedo Gneco discursando num comício republicano realizado no antigo recinto do teatro do Rato, em Lisboa.
O tipo à direita deve ser o “sigurança”.

Foto daqui

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Missionária da Caridade

(Nos 10 anos da morte da Madre Teresa)

Uma fotografia junto a um moribundo. Outra mostrando-a a sorrir. Uma frase lapidar ligando o aborto e a paz. Algum episódio que ouvimos acerca da sua vida ou qualquer coisa vista à pressa na televisão, transformaram esta freira que, em nome de Jesus, pretendeu enterrar-se nos confins do mundo, numa figura familiar a todos nós, e que todos, mais ou menos, julgávamos conhecer e compreender. Poucos terão deixado de se impressionar com a sua vida, toda dada aos pobres, vida essa que nos aparecia de um modo óbvio e como que sem segredos.

A publicação recente das suas cartas aos padres que ao longo dos anos a acompanharam em direcção espiritual vem por em causa a leitura linear da sua vida: católica-generosa-freira-orações-dedicada aos pobres-santa…

Eis que por detrás de anos de aparente tranquilidade surge a notícia de uma travessia sofridíssima face ao apelo de Deus para fundar as Missionárias da Caridade, na fidelidade intocável a essa vocação e na depuração total de uma noite começada nos anos 50 e que só terminaria a 5 de Setembro de 1997.

Não poucos cristãos, ligeiros na fé, reduzem esta a um sentimento que certifica a existência de Deus, ficando assim o Senhor refém das emoções de cada um. Mais sentimento, mais Deus. Mais sensação, mais certeza. Mais emoção, mais fé. Portanto, mais eu ‘contente’ mais Deus ‘contido’ em mim (donde, alguma razão teriam os que acusam os cristãos de serem gente que confunde a sua transpiração emocional com uma entidade pessoal a que chamam Deus). Como é óbvio, quem assim pensa e vive não deixará de encontrar motivos de desalento nas dúvidas da Madre Teresa.
Enganam-se os que sentem que Deus salva o mundo com bons sentimentos, borbulhas gasosas e outras sensações agradáveis. No âmbito do amor campeia hoje um vocabulário que não vai muito além do umbigo: ‘estar bem’, ‘realizar-se’, ‘ter direito a ser feliz’. Não que o Evangelho agache a promessa de felicidade: 100 vezes mais a promete o Senhor! Todavia, os termos são outros porque a realidade é Mistério que crucifica a pretensão do homem. Mesmo as suas boas intenções religiosas. Este só se abre ao Senhor na oblação da vontade chamada obediência, no esvaziamento de si em pobreza chamado comunhão, na ambição de uma aliança de amor maior chamada sacrifício.
A fé pode emergir dum sentimento, despertado pela Palavra. E quanto consolo não terá recebido a Madre Teresa quando o Senhor quis que ela o recebesse: alegria, alegria, paz, certeza, esperança! Mas a fé afirma-se na travessia do tempo como decisão, escolha, aventura de confiança: ‘mais Te escondes, mais o meu desejo permanece atento como sentinela’. Ou seja, a fé mede-se na fidelidade!

Deus revela-se, diz e diz-Se, apresenta-se como Pai, dá segurança e lei, vem como irmão e amigo, oferece a Sua presença interior, unção suave de gozo e paz e a partilha a Sua fecundidade. Mas o mesmo Deus vem buscar-nos a casa para nos trazer até à Sua Casa: seguem-se dias ou meses, todo o tempo que Ele providenciar, duma travessia sem dia de chegada marcado! Tempo assaltado por provações e tentações no silêncio escuro das estreitas veredas por onde se é chamado a seguir. Às vezes tempo de uma solidão invencível porque o Único que a podia vencer mais a afirma. Esse mesmo que sabe da nossa sede d’Ele e de quanta água temos guardada para o caminho nessa cisterna a que chamamos coração.

Acresce que surgiram a proclamar vitória e vingança os do costume, fardados com as pompas do ateísmo, confirmando a evidência de que a fé começa por ser um fruto da imaginação para terminar numa obsessão fraudulenta: fantasia-se Deus, Ele não se mostra, continua-se a viver fingindo que Ele existe. Daí que a Madre Teresa não fosse mais do que uma espécie de marxista sublimada, em versão católica.
Para o desmentir, bastaria lembrar que as utopias nascem generosas, afirmam-se na violência e morrem ferozes. Não consta que a Madre Teresa tenha pugnado por tribunais populares. Note-se, também, que a santa de Calcutá não deparou, a páginas tantas, na sua vida com o desmentido dos seus ideais: ‘é tudo falso’. O que se passou e que, pelo visto, muito a admirou na heroicidade do seu sofrimento, foi que nela encarnava e se cumpria o Evangelho todo, e também aquela parte em que Jesus sua sangue…

Outros, ainda, que fazem um percurso vivo e aprofundado da sua fé, não deixaram de encontrar nas dúvidas da Madre Teresa argumentos simétricos que justificam as suas próprias dificuldades existenciais que os fazem suspeitar de Deus, da Eucaristia, da alma, do céu e do resto do credo…
Julgam mal os que julgam reconhecer na Madre Teresa uma crise de fé como as suas: porque uma coisa é a suspeita de Deus que nos faz não embarcar e seguir com Ele. Não querer ir mais longe do que o nosso projecto/sonho de vida; e que o Senhor não venha perturbá-lo… Outra coisa é a aventura de quem se fez ao largo e fundo mar, lá onde fala o Adamastor, mantendo firme a face diante da vaga, das muitas vagas. Porque não é a presença de Deus no mar alto que assusta. É a Sua ausência. É o Seu permitir que sobre os justos rebentem ondas que rebentam tudo. ‘De Deus não farás imagens’ diz o mandamento. E que outra graça trouxeram à Madre Teresa todos os anos de deserto no mar alteroso senão aquela mesma que a fez identificar-se com o rosto do Filho na dom da Cruz.
Distinguem-se, ainda, os acontecimentos interiores no coração da Madre Teresa dos que nos ocorre reparar em nós, pelo facto de, nestes, a sua natureza ser vulgar: quantos ‘interesses’ próprios e privados nos que têm interesse em ter dúvidas de fé. Nada de existencial, no sentido de datado e definido pelo séc. XX, na experiência da irmã de Calcutá. Ela sabia-o: ‘não confiar’, ‘não acreditar’, ser paralisada pelo medo, são experiências correntes num tempo adoecido na lassidão da in-certeza do ‘eu’ contra a necessidade de relação disponível com o ‘Tu'.
Na Madre Teresa a raridade da vocação que a fez sofrer o que agora sabemos tem a origem no mesmo dom de excepção da sua força, da extensão da sua generosidade, da evidência do seu testemunho cristão.

Não nos resta senão bendizer a Deus que a provou, incendiou, e deu aos nossos tempos com o heróica vocação de testemunhar até ao fim um amor único, virginal, total, como 'escrava do Senhor'. Como Missionária da Caridade, portanto!

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Silêncio

Calma, SILÊNCIO, paz, SILÊNCIO, serenidade, SILÊNCIO, estou só acompanhada, por Aquele SILÊNCIO que me enche e preenche.
Todos precisamos de um tempo, de um espaço, de um espelho? NÃO.












SiLêNcIo. PÁRA Mundo, AcOrDa TU aí, que estás no barulho. Repousa sem dormir, aprende a escutar o Silêncio.

Visitas

Visitar a minha terra de lés a lés.

Cansar-me das suas desfigurações: acusá-las, gritá-las.
Coisas minhas -eu- atingidas, tingidas de decadência.

Chegar a cada canto e sofre-lo.
Chegar a cada canto e quere-lo.
Chegar a cada canto e dizer: “Mãe, cheguei!”

Celebrar as paisagens que dão sobre o mar
e as outras sobre a planície
que é também um mar
seco.
Dizer a vivacidade dos rios úberes
ou dos ribeiros rasos,
veias veios que sangram aflições.
Gostar dos pinheiros mansos, sempre de férias.
Reverberar suspeitas sobre os eucaliptos.
Encantar-me com as olaias.
E parar diante de um sobreiro,
soberbo.

Achar graça à pardalada.
Entrar na festa das andorinhas.
Perceber nas gaivotas o gosto pelos voos fúteis,
sempre por perto.
De quando em vez acompanhar a pretensão da águia,
que vê de cima.

Conviver com os seus escultores:
na capela levantada sobre o cabeço inacessível,
num rosto talhado a enxó
ou na face graciosa,
no assomo de carácter percebido no cão de raça
ou na expressão vernácula do dizer.

Seus maiores:
Os que fizeram os muros românicos e os barcos e os socalcos e as cidades
e inventaram sabores e fizeram vinhos e quintas
e as cantigas tristes
mais as outras,
airosas e felizes.
E os pormenores.

Bendizer os que se aventuraram:
a defender muralhas ou a embarcar prá Índia,
os que fizeram caminhos e casas lá onde a fome e a coragem os levou.
Conhecer-lhes o berço. Honrá-los.

Ser abraçado pelos seus.
Ser educado na resistência
só possível aos pobres.

E ter saudades.

domingo, 2 de setembro de 2007

A barbearia


Quando era pequeno, ir à barbearia do bairro era um ritual da minha masculinidade. Nem sempre voluntário, mas periodicamente inevitável, quando a juvenil guedelha hirsuta assim o exigia. Ao princípio ia com a minha mãe, que me entregava aos cirúrgicos cuidados do barbeiro e logo saía apressada, talvez pouco à vontade, talvez para fazer outras coisas úteis. Percebo perfeitamente, pois eu também não me sentia bem no território feminino, quando infortunadamente era obrigado a acompanhar a minha Avó ao cabeleireiro Brito & Brito, na Avenida da Liberdade. Eram momentos de sufocante opressão, com a ideia clara de que era um intruso naquele ambiente assexuado a cheirar a laca e a verniz. Espantavam-me aqueles estranhos capacetes espaciais, com as circunspectas senhoras debaixo, de dedos em riste pintados de fresco. Eram todos aqueles rolos, papelotes e turbantes na cabeça que me deixavam verdadeiramente intimidado, estarrecido.

O que me lembro do meu barbeiro ali na Rua Almeida e Sousa em Campo d’Ourique, era das suas mãos lavadas e relógio dourado no pulso. Sempre de impecável bata branca e de conversa fácil, com os seus dedos duros e frios a endireitarem firmemente a minha cabeça fugidia. Lembro-me das pinceladas de sabão morno, e do raspar da navalha afiada na nuca e nas patilhas inexistentes. Era parte dos procedimentos. Lembro-me do fatal calendário de “garagem” com uma loira bem curvada, do horário e dos diplomas emoldurados. Também sobressaiam, ao lado dos grandes espelhos, umas fotografias a preto-e-branco de garbosas e antiquadas cabeleiras, bem penteadas com Bel Hair ou Restaurador Olex. Fascinavam-me também os pesados cadeirões em ferro pintado, onde me sentava soerguido num caixote “adaptador” para as crianças pequenas. E do estofo de cabedal redondo, que com duas espanadelas, se virava do avesso para assento do cliente seguinte. Naquele pequeno espaço, os homens comentavam as banalidades da política e do futebol, ao som do Rádio Clube, com as tesouras sempre a cortar, a cortar, em golpes ritmados, tchic, tchic, tchic, tchic. Depois, vinha aquela pergunta redentora: “o cabelinho é para molhar?” Finalmente o sacrifício acabava, era tempo de voltar para as brincadeiras, para casa ou para a praceta, com os cabelos caídos a picar nas costas.

Um dia destes, aburguesado e imprudente com as pressas, descobri perto do escritório um moderníssimo Cabeleireiro de Homens, cheio de paninhos quentes e inauditas mordomias. Surpreendi-me logo com o pretensioso recepcionista, de modos efeminados, casaco fantasia e gravata Disney que confirmava a marcação. Sentado na sala de espera, procurei em vão literatura apropriada, o Record ou o Correio da Manhã para me entreter. Só descobri as brochuras dos milagrosos produtos capilares. Logo uma menina, de rabo bamboleante, se abeirou de mim perguntando-me se eu queria arranjar as unhas... Eu, arranjar as unhas?!? Notei também as conversas dum cliente com a manicura, talvez um bem sucedido gestor de Import - Export, que me soou excessivamente íntima. O homem emitia confiantes e bombásticas opiniões, sobre a política e as finanças “de cordel”. Quando, de cabelos lavados, cheguei às mãos da decotada cabeleireira, balbuciei que não queria modernices, o que a deixou visivelmente contrafeita. Depois, veio uma jovem estagiária oferecer uma massagem capilar... e um café. No final paguei 25.00€. Nunca me saiu tão cara uma bica...

Duas semanas depois, quando o cabelo mal cortado definitivamente não assentava mais, decidi-me a visitar o velho e fiel barbeiro aqui de S. João do Estoril. Decidi-me a perder uma manhã de Sábado a ler o Record e o Correio da Manhã, e cortar o cabelo como deve ser. Ouvindo o Jogo da Mala e o Bola Branca em ondas médias, sem paninhos quentes ou embaraçosas mordomias. Afinal um conservador é um conservador.

sábado, 1 de setembro de 2007

Bebés "irritáveis"

Em cima do teclado do computador tinha uma fotocópia de um mail, enviado para o nosso consultório (www.estimulopraxis.com). O mail era da revista "Crescer" com umas perguntas que deveria responder o mais rápido possível, para um artigo que deveria ter sido feito "ontem" (os jornalistas são todos assim?) sobre bebés "irritáveis". Aqui ficou a folha, esperando o tempo livre desta mãe psicóloga, que geralmente é... lá mais para a noite...
Acontece que o pai hoje veio a casa mais cedo (atípico) e resolveu colaborar... e eu não resisto a partilhar convosco algumas das suas respostas, escritas à mão por baixo das perguntas da jornalista:)
Pergunta 5 - "O que é feito para detectar as causas do choro?" Resposta: Primeiro abana-se o bebé e depois os pais gritam.
Pergunta 7 - "Em relação a esta situação (irritabilidade do bebé), existem alguns mitos que procurem desmistificar junto dos pais? Quais são?" Resposta: O mito do bebé calminho... só se for o bebé do vizinho.
Pergunta 8 - "Segundo a vossa experiência, a maioria das situações de choro irritável e prolongado conhece um final feliz?" Resposta: Sim. O bebé acaba por crescer e os cabelos brancos dos pais aumentam...

New age

O moderníssimo aparelho do meu carro lê os CDs em MP3. Neste “formato” cabem quase vinte álbuns num simples CD de 700 megas. A fartura é tanta que o pobre desconfia. Com o ouvido atento, apercebo-me como o processo de compactação digital nos defrauda, prescindindo de tantos “bites e baites”, aparentemente redundantes. Ou eliminando os sons considerados inaudíveis ao ouvido "comum". Confesso que aquele som, redondo e de plástico, ao princípio até soa agradável. Mas ficamos com a ausência da alma, dos sombreados, dos degradés e dos ecos mais subtis da peça. Desvanece-se a profundidade e o relevo, a coloração sonora impressa pelo espaço, pela sala ou pelo estúdio e os seus materiais.
Chegado a casa, cedo à urgência: ligo o amplificador, ponho a rodar o gira-discos, fecho a porta, ajusto o volume, ponho cuidadosamente o vinil a reproduzir o órgão de Tom Koopman, tocando a Tocata e Fuga BWV 565 de Bach. Respiro profundamente e deixo-me ir.
Infelizes os satisfeitos com o que os seus humanos e precários sentidos alcançam. Vendo pouco e crendo pouco. Conformados. Tantas vezes cínicos.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Aix

Os franceses chamam-lhe assim. So Aix. Aix-en-Provence dizem todos os estrangeiros. Se fosse possivel escolher um lugar, uma cidade, uma ideia, uma luz era aqui. Na estaçao de S. Charles, em Marselha, a esquerda, apanha-se um comboio regional, pequeno, estreito. Toda a gente folheia jornais regionais, quase ninguem toca nos jornais de Paris, e demasiado longe, o mundo e outro. A estaçao de Aix e pequena, duas linhas, para norte e Sul, e depois entra-se na luz, na claridade, em Cezanne, o mais belo pintor do tempo que ainda e o nosso. Existe um carossel onde as crianças brincam, existe algum lugar em França onde nao exista um carossel? E sabado a tarde e na Place Maribeau, o centro de Aix, so existe o silencio e as flores e a catedral e as ruelas por onde a luz nasce. So existe um pequeno rumor de um grande ecran onde se ve o jogo de raguebi, a França joga e e o desporto amado pelos franceses. Procurar a luz e procurar a essencia dos objectos, o que eles sao, a realidade. Cezanne e o pintor da luz, dos objectos que procuram uma ordem. As flores brilham, pendem das varandas e as casas projectam uma luminosidade e uma beleza que sufocam. Existe sempre referencias a Cezanne , a sua casa, as suas pinturas. A luz e o centro, e o misterio, o silencio perpetuo. Volto a Marselha no comboio e leio o jornal de Paris. Na pagina 13, ao fundo uma pequena noticia: um restaurante esta a vender pizzas com marijuana e um jornal publicou a receita o que esta a causar indignaçao na populacao local. A luz de Aix nao termina, a luz e o lugar.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

As Férias Que Mais Admiro


São as que moem até doer
e que espremem a resistência que pensávamos já não ter.
São as que nos entranham todo o corpo do lodo que trilhamos
e nos ensopam do frio da chuva
que aparece sem ser o seu tempo.
As que têm noites pouco dormidas
no desconforto de um chão duro
e dos zumbidos das melgas
impossíveis de combater no escuro.

E destas férias nasce o descanso mais procurado
(e tão pouco encontrado)

São as que nos põem a andar horas a fio,
secos ou molhados, sem conhecer o fim
mas na certeza que vamos e chegamos contentes,
porque vale a pena arriscar no que mais custa.
Vimos e ouvimos o Belo
e aprendemos a deseja-lo mais nosso.
Com gosto, esforçamo-nos pelos outros,
e percebemos como isso é tão bom.
Muitos, e com vidas tão diferentes,
rimos de coisas simples, e sorrimos por dentro
ao olhar para os risos sinceros de quem nunca assim se riu.
Sentimos a falta dos nossos que não estão,
mas aprendemos a amar mais os que estão.

Acabamos com a alma grande,
admirados com a certeza de que
(como alguém dizia)
O Bem vence.

Entre amigos, são assim as férias que mais me admiram,
as que passamos juntos,
nos acampamentos do Vale de Acór.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Bom dia!!!

Bom dia, bom dia, bom dia a toda a gente
Eu hoje vou trabalhar e por isso estou contente!!!


P. S. - É óptimo depois das férias saber que temos um trabalho que nos espera... não?

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Foi Assim II

Tenho estado de férias e (salvo esta rara excepção) muito longe de qualquer possibilidade de acesso à internet e à blogosfera - Deus seja louvado por isso, que eu bem precisava deste descanso. Aproveitei entretanto para pôr algumas leituras em dia e foi assim que, na sequência duma promessa anterior me deitei a ler o "Foi Assim" de Zita Seabra.

Impressionou-me a descrição daqueles dias de medo e solidão, daquela entrega total e gratuita ao que, para si e naquela altura, era a causa mais bela e nobre que alguém poderia abraçar, a luta pelo supremo bem! Confesso que li a obra com o mesmo tipo de paixão com que se lê um bom romance. Senti-me na pele da autora, sofri com ela, tive medo por ela, vibrei com ela no "dia da liberdade", senti o alívio de poder viver já sem medo. Senti-lhe a alegria de poder voltar a estar com a família e com os amigos de quem se separara havia tantos anos; de poder finalmente encontrar-se frente a frente com caras que sabia existirem mas que nunca tinha podido olhar. Quando parecia que se iria finalmente realizar aquilo porque tanto lutara, consegui perceber o seu empenhamento nessa causa e a obediência cega aos que determinavam o rumo deste "grandioso" momento da história do nosso país.

Finalmente, vivi com ela os tempos de encontro directo com o comunismo real. Senti-lhe a decepção, o horror, a culpa. Intuí-lhe o desespero do sofrimento por uma causa que, não só era uma perfeita mentira, como se revelou como a mais horrível e monstruosa criação da humanidade...

Achei muito importante a denúncia das mentiras e dos enredos enganosos que todos conhecíamos ao Partido Comunista e a Álvaro Cunhal, mas que nunca tinham sido tão sistemática e, nalguns casos, pormenorizadamente descritos. Foi importante ter-nos feito perceber que estivemos por um fio de sermos engolidos por toda essa vergonhosa trama em que a autora tem a coragem de assumir a sua participação activa.

Só me pareceu ter ficado a faltar nesta obra uma referência, senão um agradecimento, por breve que fosse, e que me teria parecido justa, a todos aqueles que, conhecendo de há muito o comunismo real lutaram, antes e depois do 25 de Abril, com todas as suas forças, muitas vezes contra a própria autora, para que tal desgraça nunca caísse sobre Portugal (incluíndo colónias onde, infelizmente, isso não foi conseguido). Mas não me sinto no direito de exigir mais a quem acordou deste longo pesadelo que viveu tão intensamente e durante tanto tempo. Esse pesadelo que, como referi acima, foi a mais horrível e monstruosa criação da humanidade.

"Foi Assim" de Zita Seabra é um livro de que recomendo a todos a leitura.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Tomando sempre novas qualidades...

A maior "revolução" operada na sociedade contemporânea, subtil e orgânica, é aquela que aconteceu à relação entre o pai e os seus filhos. Mais até do que as conquistas femininas, de lugares nos estádios ou em promissoras carreiras.
Apercebo-me hoje que o meu pai ainda esboçou uns tímidos esforços, desajeitadas tentativas de intimidade, inspiradas nos inevitáveis sinais de mudança. Mas a rigidez dos "papéis" estava-lhe demasiado impregnada. Assim como aquela solidão.
A maior "revolução" dos tempos modernos, é a "revelação" da plena paternidade. Hoje, conhecemo-nos cedo, com a ajuda da pele e de uma orgânica cumplicidade. Com muitas canções, lenga-lengas, banhos de banheira, de mar e de mundo. Depois de tudo isto, que venha a vida toda, com os seus anunciados terrores e tempestades. Seremos mais fortes, por certo, o que já não é pouco.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Férias e filhos...


Este mês fomos de férias, nós e tantas outras famílias portuguesas, por esse mundo fora, e por esse "fora cá dentro". Depois da árdua tarefa de conseguir juntar todas as coisas necessárias para uma semana em família, lá fomos nós a caminho dessa casa pequenina, nesse algarve que ninguém conhece.

Aprendemos a simplificar, a piscina de praia é também banheira, para 4, 2 toalhas, põe-se menos sal na sopa para que todos possam comer da mesma, provar a areia é apenas mais uma actividade não dramatizável...

Às sete e meia da manhã começa o dia cheio de energia, não se pára um segundo, não dá para bocejar... Descansámos? Não... mas mudámos de ares, na certeza que somos os mais felizes do mundo por dormir tão pouco e estarmos tão cheios de tanto brincar!!!

História de algibeira (16)

D. Carlos I (1863-1908) foi o primeiro rei de Portugal a morrer de morte violenta depois de D. Sebastião, em 1578. Foi também um dos mais inteligentes e capazes reis do seu tempo, quando a Europa era ainda, com excepção da França e da Suíça, um conjunto de monarquias. (…) D. Carlos tinha 26 anos quando foi aclamado rei, a 19 de Outubro de 1889, e apenas 44 quando morreu, a 1 de Fevereiro de 1908. (…) Era um homem independente, sensato e corajoso, capaz de suportar grandes pressões e de tomar decisões arriscadas quando se impunham. Morreu por causa das suas qualidades, não por causa dos seus defeitos.


In: D. Carlos, por Rui Ramos. Colecção Reis de Portugal - Circulo de Leitores 2006

Agosto

Todos contamos com o calor de Agosto, achamos sempre que os dias vão aquecer, que amanhã é que é, mas o certo é que nunca mais é o bom tempo definitivo, o tempo que esperamos em Agosto.
Todos gostamos de planear qaulquer coisa e tudo, gostamos de saber com o que contar e contar o que sabemos por certo com ar de quem sabe:) Mas na verdade, já alguém o disse de certeza, nada sabemos e nada decidimos ao certo...
Passo a explicar, ou a complicar: agora a coisa é assim, amanhã, o que tenho como certo hoje pode alterar-se de tal forma que o que não era nada esperado se torna realidade.
É como o tempo em Agosto...

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Bandos e bandas

“Drogas em festival de música” era assim que começava a notícia que já não é notícia. E prosseguia: “Desde sexta-feira, dia 17, segundo dia do ‘Freedom Festival’, já deram entrada no serviço de urgência do Hospital de Santa Luzia em Elvas, 36 pessoas com sinais de consumo excessivo de drogas. Uma mulher acabou por morrer…”!
Como é que a coisa se processa? Eu explico: o país está a saque, o clima é ameno, arma-se a tenda num descampado qualquer, o presidente da junta fica muito agradecido porque aparece na televisão, a ‘organização do festival’, palavra-chave que irresponsabiliza toda a gente, faz então a convocatória do evento, anuncia bandas e decibéis. Respondem à chamada hordas de infelizes, só funcionam em bando, só conseguem respirar no restrito circuito do “sexo, drogas e rock and roll”!
À volta do acampamento, a guarda republicana vigia como quem toma conta de um jardim de infância!
.
Fonte: "Correio da Manhã" de 21/08/07.

domingo, 19 de agosto de 2007

A concorrência

Aí estão os primeiros pontapés a sério, a jornada é longa, alarga-se por cinco dias, originalidade portuguesa que só tem paralelo no tamanho dos nossos telejornais, outro caso a pedir reflexão, próprio de alcoviteiros sem emenda.
Mas regressemos ao esférico e àquele jogo de solteiros e casados que decidiu a super taça! Ganharam os casados mas completamente divorciados do bom futebol e não fora um tiro imprevisto de um homem de leste, estou convencido que a coisa só se resolveria na marca das grandes penalidades. E por falar em penalidades, começou um novo campeonato, sem apitos, cheio de promessas, mas a tradição ainda é o que era: Elmano, que não tem nada de sadino, lá fez vista grossa a um daqueles penalties que só não se marcam em Alvalade! À noite, no indescritível programa da TVI que só fala dos clubes do estado, o assunto foi naturalmente desvalorizado, mas se fosse ao contrário, se o Sporting precisasse do rigor da lei para conseguir um bom resultado, o chinfrim que não seria!!!
Vamos até Braga onde os arsenalistas receberam os azuis e brancos com Jesualdo no fio da navalha. Valeu-lhe Quaresma em ‘livre sim’, porque correr e lutar não chegam para ganhar na cidade dos Arcebispos.
A quem não chegou jogar em campo neutro para ganhar, foi ao Benfica! Equipados a rigor, cor-de-rosa, os pupilos de Fernando Santos até nem jogaram mal na segunda parte, Katsouranis elevou-se bem na marcação de um canto e desviou para Petit ganhar vantagem, mas as equipas de Carlos Brito só se rendem no fim e o Leixões conseguiu empatar no fim. Ezequias, o mesmo que quase comprometia a equipa em lance faltoso não sancionado, num último fôlego, lançou o seu ataque e a bola cruzada para o coração da área acabou no fundo da baliza encarnada. O Benfica sem o Veiga não é tão perigoso.
Se é isto a concorrência, o Belenenses pode estar descansado. Do que vi e não vi parece-me que os ‘clubes do estado’ estão mais frágeis, porque o estado está também mais frágil. Uma boa oportunidade para o Belém se aproximar do cimo da tabela.
Saudações azuis.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

História de algibeira (14)

Segundo um relatório de um espião da coroa britânica de serviço em Lisboa ao tempo da “questão inglesa” era nas manobras dos chefes políticos que estava a lógica dos acontecimentos, porque em Portugal “a animosidade dos partidos é mais poderosa do que o patriotismo”.


George Petre, oficio a lord Salsbury, 31.3.1890 In D. Carlos – Rui Ramos, Círculo de Leitores 2006

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Aparição

Já aí vinha o rei de Castela, João,
como se suas muitas gentes fossem as águas do Mondego
escorrerendo tranquilas,
de Coimbra a Lisboa
em passeio.

Já o Mestre ouvira o parecer dos habituais da corte: ‘não’
fazer perigosa guerra
desproporcionada,
pois de um lado ao outro das nossas almas
há receio.

Já em silêncio austero com os seus largara Nuno
levando no sangue
a terra sua
cuja extrema fronteira
era lá aonde chegava
a sua honra.

Quando lhe veio no encalço João Afonso de Santarém:
Que avaliasse melhor,
Que retornasse a Abrantes,
Que viesse a nova conferência.
Que não era homem de muitos conselhos
retorquiu-lhe o Condestável.
Que esperaria o Rei em Tomar.
Senão haver-se-ia com os seus

face ao Leão de Castela.

E, depois,
aos que o seguiam,
com a fluência e gravidade de quem está tomado
de limpa certeza,
com a face como se fora a de um mastro
que flama de beleza,
valente
e fraterno
afiançou:
‘Amanhã estaremos o dar guerra ao rei de Castela
porque a merece.
Deus não é mais inimigo deles do que dos cobardes
que moram do lado de cá.
Deus não é contra os castelhanos, os francos
ou qualquer outro gentio que fora.
Mas Deus dispersa os soberbos.
Deus não é nunca pelos que torcem a liberdade.
Porque Deus amou tanto a liberdade que Lhe chamou santidade.
Deixemos, portanto, a vergonha aos que cresceram a espiarem-se uns aos outros,
adivinhando intrigas.
Vós que do Alentejo comigo viestes
vistes o mundo aparecer-vos largo e fundo.
Trazei sempre dentro da alma a memória do que é grande.
Que o longe seja a vossa cerca.
Deus apareceu a Abraão, a Moisés
e ao meu querido Patriarca Elias.
E o anjo apareceu a Maria porque Deus quis fazer-lhe alta cortesia.
Pela santa Encarnação Deus apareceu a todos os homens.
Os 12 apóstolos apareceram em nome d’Ele em todos os cantos da terra.
E todos os santos são maneiras mil de Deus continuar a aparecer.
E os amigos que são amigos aparecem.
Como nós, então, soldados, amigos do Deus amigo da liberdade,
não haveríamos amanhã de aparecer ao invasor!
Sabeis agora ao que se parece a covardia: não aparecer!
Porque aparecer é já vitória.
Tomemos do Senhor o alento que Ele em nós quis fazer aparecer.
E ousemos, assim,
estar lá
em nome de um povo que espera a nossa aparição’.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Ainda Torga

Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.


Impressiona o drama da sua existência – uma existência tão independente, que procura sempre criticar e actuar contra os atropelos à dignidade, à justiça, preservando a liberdade no sentido que julgava mais autêntico, mas que se foi afastando da fé cristã e da Igreja e, de acordo com a verdade que a caracteriza, não encontrou outro que as substituísse
Daí o seu lamento: "Isto de religião está cada vez pior dentro de mim. Depois de uns arrancos fundos e angustiados, a coisa foi secando até chegar a esta mirra mística, que já não há Jordão teológico capaz de vivificar. Mas quanto mais pobre estou desse conteúdo humano, mais cheio me sinto de desespero. O que eu dava para me levantar cedo esta manhã, ir à missa, e voltar da Igreja com a cara que trazia o meu vizinho" Diário I.
A sua ligação à terra, à montanha, à planície e o relato que faz das mesmas e da lusa gente traça-nos um retrato ainda hoje tão actual do Portugal que somos. Aquele que lê o DIÁRIO, como escreve Sofia de Melo Breyner, "percorre Portugal de lés a lés, o seu espaço telúrico, humano, e o espaço histórico e cultural" (Miguel Torga, Poeta Ibérico).
“Na sua escrita forte como um grito, um apelo da terra que o viu nascer, na sua exemplar dignidade cívica, na inteireza do seu carácter, reencontramo-nos com Portugal”, lê-se na mensagem de Cavaco Silva divulgada pela Presidência da República.
Daí que se perceba tão mal a falta de um membro do governo na comemoração do seu centenário ontem, em Coimbra.
Afinal, sinal dos tempos, este gesto mediocrizante dos responsáveis políticos da nação não é inédito. Mostra bem como encarreiraram por uma compreensão estéril da condição humana, que se resolve bem com planos tecnológicos subservientes da eficiência e da eficácia, mas que ignoram a profundidade da alma humana. Quem se distraiu com as ligeirezas de currículos da disciplina de português do básico e secundário, com os critérios desculpabilizantes dos exames nacionais, com a exoneração da directora do Museu Nacional de Arte Antiga, que julga que os problemas da educação em Portugal se ultrapassam com a facilitação do acesso a computadores portáteis, à introdução de quadros digitais nas salas de aula…, não pode agora espantar-se boquiaberto perante o Marão da indiferença da intelligentzia liderante de Portugal face à efeméride. O pragmatismo reinante é secante, uma vez que diz do caminho a percorrer que ele se faz de eficácia e eficiência que levam ao “sucesso”. Estimular o contacto com os que antes de nós tiveram de lidar, bem ou mal, com o cabo das tormentas com que tantas vezes a existência nos brinda, não é caminho para considerar em tempo de luta contra o deficit ou de recuperação do atraso económico face ao resto da Europa comunitária. Esta percepção das coisas castra a vida que habita o homem, reduzindo-o apenas a peça de uma mera engrenagem. É outra a voz agora escutada. A. Huxley e o seu Admirável Mundo Novo estão decerto bem mais próximo das cogitações dos senhores do momento. Pior para todos.

domingo, 12 de agosto de 2007

A Torga

(No dia em que se festejam os 100 anos do seu nascimento)

I

Nervos tensos em direcção à liberdade
sem jamais te ajoelhares livre,
até de ti mesmo.

Revolta de adolescente perpetuada
na saturação da Casa,
sempre a dizer não.

Sempre a solitária coragem,
gémea do medo
ao sabor da comunhão no Sangue.

Teu o desejo de aventura,
margeando o Caminho,
sem te abeirares da sua graça.

Cantos à justiça que mutuamente nos devemos
alevantados numa memória ferida por todas as fomes,
mas que recusou o Pão.

Que pena tua pena
de poeta,
sim,
mas de poeta santo
não.

II

Sabe, porém,
que nunca te esqueci
Sou o teu irmão Abel.
embora nos dias das tuas palavras amargas
me julgues mais parecido com o ressentido Caim.

E venho hoje agradecer-te
o quanto vindimaste para mim,
ó homem duro do douro tão amado:
Vertigens, paisagens perigosas que transportamos em nós.
Brusquidões, vulcões por dentro e por fora.
Descrição, navegação certeira no oceano da vida.
Nobreza, grandeza no espanto face à terra.
Intuição, fruição do que desponta de único nas gentes.
Alento, rebentar a querer dizer.
Mirad’oiros, versos nascidos nas fragas,
lá onde a beleza te inflamava.

sábado, 11 de agosto de 2007

Inácio

(Embora chegue atrasada aqui fica também a minha homenagem a um ‘fora de estrutura’ muito peculiar)

Chamava-se Inácio Beja. Era alentejano. Mas poderia ser também de Braga ou Castelo Branco, homem que era da cor de Portugal inteiro. Por alcunha chamavam-no ‘china’, ele que teve sempre os olhos rasgados na direcção da aventura. Cresceu em Lisboa, lá para o Intendente. Aí se talhou o seu carácter castiço e fadistote, sempre pronto para os lances marialvas. Terá amado alguma mulher, ele que procurou consolo em tantas? Foi emigrante em França, a ver se escapava a esse outro fado da miséria.
Por saudades da mãe regressou. Assim o confidenciou certa vez, ele que parecia não ter ‘fraquezas’. O pai comunista não venceu nele o amor da pátria. E lá foi, soldado comando, onde o chamava o sentido guerreiro da honra. Porque 600 anos de história tinham-no habituado a considerar que era venturoso por a lança em África (nesse tempo em que a geografia nacional não incluía a Bósnia, o Afeganistão ou outros destinos esdrúxulos...).
Não deveriam ser muito diferentes dele os soldados do Mouzinho ou os homens tipo Silva Porto. Os que se aventuraram bandeirantes pelo Sertão e pela Amazónia seriam , certamente, gente da sua têmpera. E assim, também, os heróis que não viraram a cara ao Adamastor. Creio, obviamente, que ele teria sido um peão valente em Aljubarrota e teria estado entre os primeiros que, ás ordens de algum dos Afonsos, fosse mandado escalar a muralha dum qualquer castelo mouro.
Mas ele era ainda português pela particular índole da sua cordialidade. Teimoso e obstinado, capaz de umas quantas piruetas para se safar nalgum ‘flagrante delito’, o Inácio aparecia sempre a querer conversar, a dizer qualquer coisa, a animar a conversa com uma história, uma opinião ou uma facécia qualquer. Era amigo naquele sentido preciso, e precioso, de quem deseja, sobretudo, estar com os seus amigos. Com os subalternos era capaz de ser severo, mas mais por gostar de embirrar.
Desembaraçado, bravo, na cara gasta, que não mentia acerca de um corpo exausto, via-se que gostava de viver com as duas mãos cheias.
Tinha uma consciência tímida, que sempre fez por disfarçar, porque os homens não choram. E por isso mutilou-se asperamente e chorou sozinho anos a fio. Até que no Vale de Acór deixou de se flagelar. Aí a sua liberdade passou a ser querer estar em relação, com os do Vale de Acór. Na verdade, foi aí, também, que a misericórdia de Deus o entregou àquela Casa sustentada pelo Samaritano. No dia 7 cumpriu a sua última missão, apresentando à sua filha a Igreja . Com efeito, também ela participou na Procissão acendida na fé dos amigos que o acompanharam àquela terra última que é apenas sacramento da outra prometida.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

O amor de Deus

Partiste quando as crianças jogavam à bola no pátio, quando os teus filhos na dor, na solidão e no sofrimento tomavam banho e não sabem o que é a morte. As nossas crianças do campo de férias são teus filhos, Inácio, amam a vida e constroem -na para lá da ausência, da separação, da raiva da expurgação. Uma criança é fruto de um gesto, uma consequência que ultrapassa a individualidade dos seres. Estar vivo é aceitar que se pode amar, caminhar. Partiste durante o nosso campo de férias. Quando a inocência, o gesto incontrolado, e o sorriso eram o fruto. Lembro-me de ti, Inácio, a tua vida escorria sangue, fel, ruptura. Mas tu não amavas as palavras, as cadências, a ti o que te sobrava era a vontade, o gesto que se aproximava da acção, qualquer coisa vital. Choraste uma vez à minha frente há muito anos atrás quando as crianças corriam no pátio como hoje e te esqueceste dos frutos da figueira, que a dor tem um nome.Falavas da cidade de Lisboa que tu amavas, das ruas que só tu conhecias, e do tempo que não é este tempo. As tuas feridas eram as de um povo, uma nação, uma terra que aprendeste a amar. O amor de Deus supera, ultrapassa, guia, orienta. Deus quer que tu estejas ali onde estás agora. As crianças orfãs, sem pai, mãe, abandonadas, esquecidas, jogam no pátio. Os teus filhos são parte do amor de Deus. Adeus, Inácio, reza por nós, que a redenção vença o egoísmo.