quinta-feira, 29 de novembro de 2007

A má educação

Parece-me de quase total ineficácia a catequização da moral cívica oficial, pregada pelo regime no ensino escolar. Sei por experiência própria os resultados práticos das “lavagens de cérebro” efectuadas aos miúdos, massacrados desde a creche pelos bons princípios do amor à natureza, do amor à reciclagem e à solidariedade universal - bem mais bombástica e fácil do que a mesquinha e concreta “caridade” (palavra maldita) doméstica.
Sempre me pareceram deprimentes aquelas festas das escolas dos nossos miúdos (tenho em casa quatro saudáveis exemplares) em que as criancinhas, sob o olhar nervoso e cúmplice do pedagogo, ao ritmo duma dança étnica qualquer, apontam os ensaiados dedinhos aos progenitores babados, acusando-os pelo racismo ou a fome existentes no mundo... Ou no Natal aqueles bem intencionados presépios vivos, em materiais reciclados, ao som dum hino à “solidariedade”, em karaoke, contra a injustiça global. Incrédulo, ouvi os meus miúdos, chegados à 2ª classe, declamarem durante meses a "roda dos alimentos", também pintada a lápis de cera numa enorme cartolina. Isto até à próxima indigestão de chocolates ou gomas. Quanto ao seu amor à natureza, estamos conversados: sempre que nos distraímos, os higiénicos rotineiros “duches” dos miúdos dão para encher uma piscina municipal. Mais; há infindáveis anos que todos os dias de todos as semanas lembramos os adoráveis petizes para desligar as luzes que se acendem magicamente por onde passam. Quanto à propalada solidariedade é o que se sabe: basta observar atentamente a miudagem à pêra no recreio, a fanarem os cromos uns dos outros ou a gozarem até à náusea o mais fragilizado colega. Lá em casa, se não houver uma “ortopédica” voz de comando, bem vejo como funciona esse solidário cívismo principalmente se isso implicar o sacrifício dum interesse pessoal. Até a nossa mais pequenita, na hora de pôr a loiça na máquina, já aprendeu a refugiar-se “aflita” na casa de banho. Os irmãos, que não gostam de passar por otários, rapidamente reclamam, e lá se vai a preciosa harmonia no lar.
A batalha da “educação” trava-se principalmente em casa, e depende, além das referências do meio, da persistência e do exemplo categórico dos pais. Na escola, de onde Deus foi definitivamente banido, ensina-se o Mundo de acordo com a cartilha do regime. Na política, o que é importante é a ilusão de que vamos mudá-lo, amestrá-lo, mesmo que saibamos como desde sempre esse Mundo teima manter-se imutavelmente desconcertante, à imagem dos seus protagonistas.
É fácil arguir contra a violência ou injustiça, queimar automóveis e partir as montras na rua em prol da harmonia no mundo. Difícil, difícil, é olharmo-nos com humildade cristã para melhorarmos o pouco que seja em nós mesmos - a única fórmula para benignamente influenciarmos o nosso pequeno meio. Organicamente. Mas essa tarefa, tão anónima quanto imensa, quase sempre esbarra com o nosso orgulho e interesse imediato. Para nos revolucionarmos “por dentro” quase sempre somos demasiadamente comodistas e dificilmente encontramos uma motivação peremptória. E cristalizamo-nos a um passo da verdadeira redenção, e a verberar contra os outros, contra o Mundo tão injusto, num acto de desesperada catarse.

Lealdade

A poda nos dias frios
A terra mexida
Depois
esperar
que a primavera
traga a surpresa
da flor
e do fruto

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Outono

O Inverno começou ontem. Rolos de água esmagam a terra, o pó e o ventre das raízes. Se calhar, quando Deus criou o tempo foi agora. Quando fez o frio descer das montanhas e se enleou no seio dos elementos. Da terra húmida escovada pelo vento e da água esculpida nos veios profundos da crosta. O Outono é o princípio de tudo: da água e do vinho, da terra coçada e do pão lavrado. É neste tempo que se começa, que se volta a partir, que a geada ceifa os caules . Ontem, o sol foi embora. Levou o cansaço e o ciar dos desencontros. A água recolhe sempre os silícios, regaço perpétuo do que sempre será. A chuva rasga o estreito das lágrimas, dedos fundidos de restos, de carvão. O que esmaga no Outono não é o granizo, nem as rodelas de folhas que cobrem os fetos. É o cheiro da terra, a nudez dos troncos e da memória, quando o escuro infindável da noite solta os cavalos no trilho da água.

Bons sinais

Uma notícia aqui, uma opinião ali, um evento que se anuncia para amanhã, começamos a descobrir que andávamos a ser enganados, que a verdade histórica estava subtilmente amordaçada, mal contada, ou simplesmente esquecida! Também li o artigo de Pulido Valente, ele próprio um dos desenganados, afinal o Rei Dom João VI foi um estadista notável, não o imbecil que Junqueiro e as repúblicas, de um lado e do outro do Atlântico, se esforçaram por fazer crer. O Rei que Napoleão não conseguiu destituir ou prender, mantendo assim a independência do Reino, o Rei que fabricou o Brasil, unificando o maior e mais poderoso País da América do Sul, dando-lhe o estatuto de Reino, que teve o talento e a previsão de sonhar o Reino Unido de Portugal e Brasil, que ainda hoje é desígnio maior de quem ainda sabe sonhar, esse Rei só merece a nossa gratidão e homenagem. E quando digo nossa, refiro-me naturalmente a portugueses e brasileiros.
Os manuais escolares anti-portugueses e anti-brasileiros ainda insistem que fugiu para o Brasil cumprindo instruções dos ingleses! Seria caso para indagar se era do interesse de Portugal que Dom João VI fosse preso e humilhado pelos franceses como aconteceu com o Rei de Espanha, destituído sumariamente por Bonaparte! Claro que não era, e daí também a diferente designação que espanhóis e portugueses dão à mesma realidade bélica que constituiu a expulsão dos invasores: enquanto os espanhóis lhe chamam ‘guerra da independência’, porque de facto a tinham perdido quando perderam o seu rei, os portugueses chamam-lhe ‘guerra peninsular’ porque mantivemos a independência, uma vez que o nosso Rei continuou livre e a dar as suas ordens a partir do Rio de Janeiro.
Mas Pulido Valente tem razão quando reconhece a tentativa de silenciar e menorizar a guerra que travámos contra o invasor jacobino: - “… Porque sucedeu isto? Por causa da subordinação cultural de Portugal à França e ao mito da França como ‘libertadora da humanidade’ (que não se adaptava bem à razia de Bonaparte). E por causa do republicanismo, que nunca desculpou à Igreja, ao ‘Antigo Regime’ e à própria Monarquia liberal a defesa do país contra a ‘revolução’, mesmo sob a forma de império napoleónico. O homem da época passou a ser Gomes Freire de Andrade, um traidor que lutou até ao fim pelo inimigo. Quando por aí a inconsciência política resolve apelar ao patriotismo, nunca me esqueço da omissão e distorção da nossa guerra da independência contra a França. O Portugal moderno nasceu torto. Como, de resto, se viu no PREC”.

Fonte: Jornal Público de 23/11/07.

sábado, 24 de novembro de 2007

Alentejo

Porque a Sofia faz 40 anos.
E porque o Alentejo é a sua terra.

Portalegre
nome saudade de Portugal.

Marvão
milhafre da liberdade
sempre vizinha
dos excessos do vento.
Grito lançado para o lado do mar.

Castelo de Vide
escala,
proporção,
delicadeza.
Portugal a explicar o seu jeito.

Crato, Flor da Rosa
lugar da consumação do amor entre um povo e uma terra.
Robustez queridíssima da alma nossa.

Campo Maior, Ouguela,
estandartes da arte de vencer gigantes.

Elvas
daqui não passa
quem não se inclina
ao forte da Graça!

Vila Viçosa
condestável da honra.
Empreender no lance da reconquista imaculada
da liberdade,
inegociável.

Estremoz
tão apurada na arte de bem receber
que, solene,
à própria Rainha Santa
abriu a porta que dava
sob o paraíso.

Évora Monte
abraçada à paisagem com o nó manuelino de um amor fatal.
Gávea donde os olhos se balançam, de um ao outro lado do horizonte,
pasmados de contentes.
E quem assim cismou assim se encantou.

Arraiolos
título de Nuno,
que só se comprazia com o mais honrado.
Atalaia dos caminhos que cruzam a liberdade do reino

Évora
Eva reencontra-se com a sua beleza de sempre noiva:
convento do Paraíso, do Espinheiro.
Scala Coeli.
A Sé.
A pátria antiga vinha a ti fazer cortesias.
Tua a arte daqueles que
assim como beijavam assim construiam.

Montemor-o-Novo
aqui soube o Rei, e a sua corte,
da nova do regresso da aventura do Gama.
Daqui partiu descalço, e só,
João,
levando cozida no coração a Boa-Nova,
que um dia havia de desdobrar,
vestindo tantos
com a ventura púrpura da misericórdia.

Alcácer do Sal
garbosa colina, graciosa muralha,
alta honra de igrejas, capelas, conventos
como se fora uma iluminura da nova Jerusalém.

Monsaraz
caravela serrana, tesouro de ourivesaria manuelina.
Barroca?
Engenho artístico de um povo pobre.

Moura
porta do Carmo.
O calor insuportável suplica a brisa
que tarda,
e que tarde,
já sem ânsias,
virá.

Stº Aleixo da Restauração
colina elevada tanto acima da covardia
quantos os heróis, sem nome,
alistados para te defender,
para morrer.

Serpa
no fim de Portugal
galhardia,
reconquista,
aristocracia,
sofrido canto genuíno da planície,
da distância.

Noudar
aqui se desfraldou a bandeira
livre,
destemida,
e só.

Mértola
último segredo do Alentejo a escorrer para sul,
como as aves,
como o rio,
como as barcas,
com as gentes perfumadas
na gravidade e beleza
ali aportada.

Alentejo,
roteiro franco,
resumo largo do saber viver nobre.

Alentejo,
gratidão face a Ti,
além tudo.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

História de algibeira (21)

A Rainha D. Amélia (...) foi na opinião dos seus contemporâneos a rainha mais bela do seu tempo. (...) em 1898, aos 33 anos, apareceu ao escritor Eça de Queirós como “terrivelmente linda – e extra-amável”. Foi também uma das rainhas menos afortunadas. Cumpriu o seu papel oficial durante vinte e um anos, apenas para ver o marido e o filho mais velho morrerem à sua frente , assassinados durante um atentado em que ela teve de se defender batendo na cara de um dos pistoleiros com um ramo de flores. Aconteceu a 1 de Fevereiro de 1908, na Praça do Comércio, em Lisboa. Aos 43 anos, D. Amélia vestia-se de negro.
Pouco tempo depois (...) a mulher do representante diplomático de França em Portugal encontrou a rainha no Palácio das Necessidades, em Lisboa. (...) Acabara de enterrar o marido mais velho num país onde ninguém mostrava grande pena pelo destino da família real. O filho mais novo, que tinha sido ferido no atentado e era agora o rei de Portugal parecia ameaçado. Outros talvez se tivessem entregue ao desespero, desistido, fugido. Mas D. Amélia sabia que não era uma pessoa qualquer. Como explicou à mulher do diplomata francês: “Quando on est dans le métier, on ne lâche jamais.” Era uma rainha, nascida de uma família real. Não ia desistir, ia aguentar até ao fim, enfrentar tudo, cumprir o seu dever.


Excerto da introdução de Rui Ramos ao livro Rainha D. Amélia Memórias Inéditas de Lucien Corpechot, Editora Caleidoscópio Abril 2007.
Imagem: D. Amélia em visita ao Dispensário de Alcântara - daqui

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Quem és tu António?!...

Quem és tu António?!
Ouvi-te lançar notas soltas. E pergunto-te quantas vezes rezaste as palavras que dizes? Os pensamentos (sobre tudo!!) que te escorrem à velocidade das audiências.
Quantas vezes já leste os Textos Santos? Quantas vezes já te ajoelhaste? Sim, quantas vezes já reconheceste o teu verdadeiro (pequeno) tamanho?!
Quem és tu para falar da Casa que não visitas?
Balbucias de fora, uma sinfonia desafinada, que faz os deleites do teu tempo. Dos que te entrevistam. Estão soltas as tuas notas. Estão fora do redil! Têm o peso, e a densidade de uma folha de papel ao vento. Não dá segurança tamanha ‘soltura’…
Falas do Papa “conservador”, com o mesmo tom com que comentas a corrupção no futebol! QUEM ÉS TU?!! Vai escrever notas soltas nas margens dos teus livros, resolve com outro papel a tua soltura!
Que sabes tu da dificuldade com que a Igreja convive com a contracepção, com a ideia de família e natalidade? Tu que não convives com Ela!
Quem és tu António Vitorino?!Se não queres entrar, deixa-nos!

Defensor de Chávez

Por estes dias, neste verão, visitou Portugal a 14ª reencarnação do Dalai Lama. O governo da república achou por bem não receber oficialmente tal dignitário para não ferir as susceptibilidades de Pequim.
Por esses dias, neste verão, o governo da nação não conseguiu haver-se com adolescentes mentais, com barba mal semeada, que lançaram mão da colheita transgénica de um malfadado lavrador.
Por estes dias, já inverno, o governo da república esforça-se por conseguir trazer a Lisboa Mugabe, reencarnação ágil dos ódios tribais facínoras africanos. Acresce a vontade de Lisboa em ver consumada a humilhação da Servia cristã ortodoxa face ao Kosovo que se pretende entregar à Albânia, oferecido pelos EUA à hegemonia muçulmana internacional (dizem as más línguas que a troco de alguma contenção árabe no médio oriente em relação a Israel).
Por estes dias, ainda, homens de barba rija, nas barbas das autoridades que representam a soberania e o governo da nação, brincam a sério aos cowboy’s nas ruas das nossas cidades.
Por estes dias, também, de manifesto mau tempo, um herói boçal que trafica petróleo numa gigantesca estação de serviço na América do Sul, é recebido por estes lados como Chefe de Estado. Embora seja incapaz de articular uma ideia, é muito rápido a puxar do rifle dos insultos e a disparar. Foi capaz, mesmo, de irritar o rei mais vegetariano que a Espanha deu ao mundo, notável pelo seu estômago abrangente (primeiro papou o Franco, depois banqueteou-se socialista, mastigou convicções católicas, e agora consegue usar os sapatos apertados que o actual Primeiro Sinistro lhe ofereceu, sem dar sinais de indigestão…), mas manifestamente indisposto pelo indecoro do gaúcho gorducho.
Serviram estes dias, portanto, para dar a conhecer o ADN de José Sócrates, descodificado nestes seus gestos. Com soberana probabilidade percebe-se que o componente químico primário de que são compostos os seus cromossomas e o material de que são formados os seus genes é, não o ácido desoxirribonucleico, mas, isso sim, gel pinoca, para a fotografia, geleia adocicada, para oferecer aos hóspedes, gelado rijo, tal a frieza da sua ética, e gelatina trémula, tal a inconsistência desta milésima reencarnação da safadeza.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Jogos&Vidas

Ao pegar no jornal de fim-de-semana, começo sempre por uma rápida olhadela às inúmeras brochuras de publicidade e suplementos que avolumam o saco, por forma a deitar logo para o lixo a maior parte da papelada. Ontem, ao cumprir esta função, dei de caras com um “Especial Jogos”: uma selecção dos melhores jogos para a PlayStation, a pensar nas crianças, das mais pequenas às maiorzinhas. Entre outros, fiquei a conhecer o Assassin´s Creed.
“Experimenta a arte de um assassino! Assassin´s Creed é o jogo da próxima geração que irá redefinir o género de acção. Tu és um assassino, um guerreiro envolto em mistério e temido pela sua crueldade. As tuas acções podem lançar o ambiente circundante no caos”.

(…)

Na semana passada fui visitar um amigo ao EPL de Lisboa. Condenado recentemente a 5 anos, esta é mais uma reincidência na prisão, provocada por uma vida de drogas e crime. (Tenho no entanto que sublinhar que o conheci também numa outra”vida”, capaz de gestos de amizade sincera e de sinais de grande bondade de coração).
À despedida disse-lhe: “os meus filhos mandam-te um abraço”.
Sorriu e perguntou: “ o João continua a brincar com pistólas? Diz-lhe que se deixe disso.”
Enchi-me de razão e respondi: “não acho mal que ele brinque com pistólas na idade certa….”, e continuei o meu raciocínio, aproveitando mais esta oportunidade para lhe dar um pequeno sermão.
Ouviu, e no fim insistiu: “Ok, mas de qualquer modo diz-lhe que não brinque com pistólas.”

domingo, 18 de novembro de 2007

Sto. António dos Olivais

É verdade que passei uma boa temporada em Coimbra, vivi em Sto. António dos Olivais. Lembro-me que ouvia Lloyd Cole de mais, e que um dia uma bem intencionada alma me ofereceu um gatito siamês para minha salutar companhia. Acho que o animal chegou demasiado crescido às minhas mãos, já elegante e lustroso. Desde então tentámos com afinco domesticarmo-nos mutuamente, mas a causa era perdida - foi curta e inglória a sua passagem na minha vida. O bichano, além de não me ligar peva, possuía uma estranha extravagância: subir às arvores que não sabia descer. Uma noite, de madrugada, acordei estremunhado com os seus miados aflitos. Espreitei ensonado para o quintal, e lá estava ele, empoleirado num tronco da alta árvore. Na noite seguinte ao chegar a casa, àquela pacata rua de província, o gato lá permanecia, balanceante, num ramo ainda mais alto e mais frágil, com um miar mais sonoro e desesperado. Pressenti os olhares estremunhados e recriminatórios dos meus vizinhos, ocultos pelas suas térreas gelosias. Ao terceiro dia, finalmente entrou em casa despenteado, rouco e a coxear. Dei-lhe uma reconfortante refeição, e nessa noite ambos dormimos um sono profundo e retemperador. Que eu me lembre, a cena repetiu-se mais duas vezes. À medida que o tempo passava, o bicho subia mais alto, para os mais frágeis e trémulos ramos, ao nível de um segundo andar. O pânico da vertigem impelia-o para o alto. Atirei-lhe com pinhas, chamei os bombeiros, a situação era desesperada. Até que o gato caía de maduro, pelo cansaço ou pela força do vento.
O bicho era bonito. Olhos verdes claros, por detrás duma mascarilha castanha a condizer com as botas e luvinhas, sobre um pelo sedoso bege claro. Uns dias mais tarde o bichano desapareceu. Foi algum incauto forasteiro que o roubou, atraído pela fidalga figura do estúpido animal. Ou então um vizinho mais zeloso lhe deu um curativo fatal. Para bem da boa vizinhança.
Demorou algum tempo mais para que eu próprio, pelo meu pé, descesse da minha árvore.

sábado, 17 de novembro de 2007

Sócrates e o Tratado de Lisboa

A menos de um mês de ser (ass)assinado o Tratado de Lisboa

Leis psicológicas que desconheço, acasos e escolhas pessoais, podem fazer de uma pessoa alguém inchadíssimo no seu ego, sempre ávido de sucesso e visibilidade.
Sócrates tem no seu ADN o registo de uma grande combatividade e voluntarismo. Fantástico e de valorizar numa nação desde há 30 anos muito, muito cansada.
Mas isso não prenuncia que se esteja diante de alguém notável, embora se note muito a sua presença.

Pode um homem menor ficar para a história como um grande personagem? Apenas como anedota, ou melhor, como um nome acerca do qual se contam histórias mais ou menos engraçadas. Não acredito que quem tem por conteúdo principal do seu pensamento registar-se no Guiness europeu de novidades seja um personagem notável. Os acordos de Lomé (1975) não celebrizaram o Togo nem o seu primeiro ministro, cujo nome não sei, nem quero lembrar... Tão pouco Lomé II (1979). Nem Lomé III (1984). Ou ainda Lomé IV (1990); mas, no seu âmbito próprio, convenhamos que foram marcos muito importantes na história dos tratados celebrados pela União Europeia.

Não acredito que o que falta ao mundo, e a esta parte do mundo que se chama Europa, seja um tratado que arruma as competências das partes em torno da proeminência dos países grandes e das vantagens económicas deixadas aos países pequenos.
Um Tratado que não deixa os povos pronunciarem-se é coisa de tratantes.
Um Tratado que assim nos trata obriga-nos a dizer-lhes para irem tratar-se.
Um Tratado que faz da Europa um club de bem estar sem ideais, sem responsabilidades, sem pretensões de correr riscos fora de muros, choca os seus mortos. De tal modo que conseguiram por Carlos Magno, Afonso Henriques, Filipe o Belo, D. Manuel e Carlos V, Napoleão, Bismarck e Disraeli abraçados e a chorar. Enigmaticamente, porém, qual Gioconda sagaz, algures no além, vê-se Salazar a sorrir(-se)…

Creio que desta vez, e com razão, os povos da Europa, a seu tempo, se encarregaram de fazer uma oportuna e legítima IVG.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Stop:)


Código do(s) Aborto(s)

Notícia última hora stop ministro saúde exige Igreja stop
deixe considerar aborto como pecado stop por isso ser
contra lei "Caso a Igreja se recuse a mudar cabe ao
Ministério Público instaurar uma acção administrativa
especial tendente à ilegalidade deste pecado. É uma lei
que tem de ser cumprida" stop sublinhou ministro do
governo democrata stop esperam-se mais "exigências"
para próximos tempos stop

Apresentações...

Foi-me pedido que me apresentasse com mais detalhe. Deixo, por isso, para um próximo post a promessa de desenvolver o tema com que me iniciei neste blogue. Assim, e fazendo por conservar a minha índole reservada, avessa a publicitar-me em fotografias pessoais de frívola promiscuidade, escolho dizer-me por contraste, avançando com alguns traços do meu perfil intelectual.
Já é dizer qualquer coisa de mim confiar-vos que MAC tem tido paciência para me ouvir. Muitas vezes passeamos juntos, longamente, e verdade é que sucedendo-se os dias e os anos vemos o tempo confirmar a nossa comunhão. Obviamente, falta-me a unção do Pe Pedro. Também não trago comigo a fascinante verve de JSM. Quanto ao seu notável exercício de pedagogia monárquica, se nem sempre me convence percebo-a sempre original! Partilho com J Távora o gosto pela história e por estórias. Não tenho a serenidade laboriosa de PL. Invejo a vivacidade dos post’s da Rita. Na SIdeias sinto o pulsar de uma mão artista. Encanta-me na Xana o seu cuidado e saber maternal. Ao Gito, sobretudo, admiro-o. A.Z. representa para mim a combatividade pertinente: sem subterfúgios, presente. Entusiasma-me a ironia ousada do Pope. E tenho muita pena da longa ausência doutros/as escribas deste blogue, há muito arredados/as desta lide.
Por conseguinte, é assim que me lanço nesta aventura de partilha de ideias e ideais.
Porque é isto, na verdade, que me impressiona neste blogue: notável espaço de liberdade face ao marasmo contemporâneo onde impera o totalitarismo das vulgares utopias de esquerda e dos seus recalcamentos anti-católicos. Mas marasmo, também, ociosidade mental e omissões militantes, dos que não pensam assim…

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

O rio

O rio é feito de crostas, de laços de memória, pedaços de pérolas encalhados nos escolhos. Todos os dias ele está lá. Ninguém o sabe, ninguém o vê. Compram casas por 7oo mil euros para terem um friso, uma fantasia , um cubo de água. Compram restos, esconsos. Quando o vejo, de frente, de Santa Apolónia a Alcântara, roliço, esventrado, na curva do vento, sei que esta é a terra, a cor do sangue. Lisboa não existe, é um caroço, escroque ressequido. Lisboa é o rio, a história e a água. Os barcos de quinhentos e os homens de quinhentos. Que foram em frente, o fim do rio é não terminar. Como há duzentos anos, neste mês, dia vinte e nove, às sete da manhã, quando se foram embora. Dez mil aristocratas, os homens de oitocentos partiram, lambidos pelo vento. Em sete de Março de 1808 o Tejo desaguou no Rio de Janeiro. Como nos anos 60 quando os homens partiam para o Ultramar e as mães enxugavam as lágrimas nos folhos de água parda. O rio é a terra, grandeza e miséria, sebo e cristais de prata. É a pérola que brilha, vaso onde os homens escondem a alma.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Sem nome


Era tão pequeno

que ninguém o via.

Dormia sereno,

enquanto crescia.

Sem falar, pedia

- porque era semente-

ver a luz do dia

como toda a gente.

Não tinha usurpado

a sua morada.

Não tinha pecado.

Não fizera nada.

Foi sacrificado

enquanto dormia.

Esterilizado

com toda a mestria.

Antes que a tivesse

taparam-lhe a boca

-tratado parece,

qual bicho na toca.

Não soltou vagido.

Não teve amanhã.

Não ouviu "-Querido..."

Não disse: "-Mamã..."

Não sentiu um beijo.

Nunca andou ao colo.

Nunca teve o ensejo

de pisar o solo,

pezito descalço,

andar hesitante,

sorrindo no encalço

do abraço distante.


Nunca foi à escola

de sacola ao ombro,

nem olhou as estrelas

com olhos de assombro.

Crianças iguais

à que ele seria,

não brincou com elas

nem soube que havia.

Não roubou maçãs,

não ouviu os grilos,

não apanhou rãs

nos charcos tranquilos.

Nunca teve um cão,

vadio que fosse,

a lamber-lhe a mão,

à espera do doce.


Não soube que há rios

e ventos e espaços.

E invernos e estios.

E mares e sargaços,

e flores e poentes.

E peixes e feras-

as hoje vigentes

e as de antigas eras.


Não soube do mundo

Não viu a magia.


Num breve segundo,

foi neutralizado

com toda a mestria:

Com as alvas batas,

máscaras de entrudo,

técnicas exactas,

mãos de especialistas

negaram-lhe tudo

(o destino inteiro...)


- porque os abortistas

nasceram primeiro.


Renato de Azevedo

Distorções

A ressonância cresce ritmada. Um som profundo e arrebatador emerge das entranhas da terra cadenciado, ameaçador. As loiças do armário tilintam; o ar, o soalho, os vidros vibram. Alerta, com os meus sentidos atentos, procuro identificar a “ameaça”. Nada a temer! É só um “ganda som” a troar do porta-bagagens de um pequeno carro utilitário que chegou à minha porta exibindo a última maravilha da tecnologia de hipermercado.

Há dias, um colega meu dizia, orgulhoso, que "sacara" mais 200 horas de música para um qualquer fantástico “gadjet” portátil. Assim, ele gaba-se de possuir, de forma quase gratuita, uma fonoteca infindável, um ruído permanente e acessível em todo o lado: no carro, no escritório ou em casa. A Internet, e os modernos softwares de compactação de ficheiros de musica, MP3 e quejandos operam milagres. Agora, quaisquer quatro gigas chegam para arrecadar toda a música do mundo até à mais antiga, a dos anos oitenta. Finalmente, vendem-se dispositivos de leitura de todas as cores para todos os gostos e em tamanhos e formatos impensáveis.
Mas o que está a dar, de resto, é o “cinema em casa” e o magnifico “surround”. O estrondo para todas as bolsas. Nos modernos equipamentos sonoros 5.1, o patego ouve um soco como uma batida dum bombo: até treme o ar. Um respirar temeroso soa como se fosse um ciclone. A cada gesto do herói, estrondosos ruídos movimentam-se no espaço - de trás para a frente e da esquerda para a direita. Com esta generosa tecnologia de ponta, podemos até ouvir um concerto que roda e salta sem parar à nossa volta. De trás do sofá, p’rá frente do retrato dos sogros. Em movimentos hipnóticos e surreais, um qualquer violoncelo surgirá em ameaços ao meu encontro, ou em movimentos laterais bem ritmados. Uma emoção sem fim. Não importa se ouvimos Bach, um uivar de cão ou um míssil a rasar. Para alegria e entretenimento geral, todos os efeitos se transformam em pura adrenalina, movimento, ritmo, enfim, numa animação feérica.
Alguém quer saber que a natureza não produza semelhantes sonoridades? Ou que os sons (frequências) “médios” aparentem provir de uma lata de coca-cola? O que interessa é a estridência dos cinco canais de som, apoiados pela estrela da companhia, o celebre “subwoofer” com a potência de uma máquina de lavar. Por fim, nada nem ninguém escapa a essas baixas frequências em alta intensidade. Não há mais subtileza, tonalidade, cor ou textura sonora. E está tudo a ficar surdo.
Aos cinco anos, os meus avós ofereceram-me um "transístor". Desde então sempre tive música perto de mim. Aos oito, fui com os meus tios ao S. Carlos e fiquei arrebatado pelo vigor de uma orquestra sinfónica. Pelos dez anos, aprendi o que era uma alta-fidelidade (atente-se no termo) quando a minha tia Isabel trocou de gira-discos e me proibiu de mexer no novo, mesmo que fosse com os olhos. E a delícia que era para os meus ouvidos o efeito (inconsciente) da estereofonia, e da amplitude da modelação das frequências sonoras? Até ter o meu primeiro emprego, nunca consegui ter um som de jeito, mas tentava, lá isso tentava. Construí colunas na aula de Trabalhos Manuais com altifalantes comprados na Feira da Ladra, fiz ligações perigosas entre vários aparelhos. No final salvava-me com a telefonia em FM que me oferecia já uma boa sonoridade.
Já adulto, depois de casado, fui “compondo” um sistema de som de que hoje me orgulho e me satisfaz. Bem tratada pelos diversos componentes, a minha música sai em plena e robusta liberdade de duas pesadas colunas Tannoy. À antiga, a estereofonia basta-me: quando bem instalada projecta um espectro de palco, com o relevo e dinamismo necessários. É aquilo que presenciamos num concerto, acústico ou amplificado seja no CCB ou no S. Luís. De resto, é fechar os olhos e deixar-me embalar pela infinita paleta de texturas, de cores e tons, todas as nuances sonoras que a arquitectura da minha sala permite. E, sossegado, ouvir uma obra-prima. Assim tenha eu tempo e disponibilidade interior para a arte e para a beleza. Para adivinhar o absoluto e assim ligar-me ao que é maior, divino e grande no homem.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

“Porque não te calas?!”

Hugo Chavez terá uma vida inteira para digerir o insulto, e um dia talvez perceba que a história não se apaga facilmente. Por muito que isso custe, o índio teve que engolir e calar, sujeitando-se mais uma vez à voz de comando dos conquistadores. E existem mil razões para a razão do monarca, muito para além daquelas que suscitaram a aplaudida intervenção. Em primeiro lugar porque a Venezuela só existe através da Espanha, tal como o petróleo e o desenvolvimento, a escravatura ou a liberdade. E Chavez é ele próprio um produto de todas aquelas contradições. Depois, tornou-se claro que a legitimidade ocasional dos eleitos não era nada se comparada com o peso da representação histórica que o Rei transporta consigo. Com o incidente a Espanha ficou mais forte e as republicas sul-americanas ficaram menos órfãs. Afinal, a justa repreensão ficou em casa e o mundo hispânico compreendeu que tinha identidade própria. Quem por certo também compreendeu a mensagem foi o poderoso vizinho do norte – há que contar com a Espanha.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

O Ser e o não ser

Quando todo eu não estou em tudo

Quando tudo não é para O Todo

Fico só eu sem sentido.

Pouco mais que nada.