terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Tempo de Advento

Quanto ao Natal que se aproxima tão rapidamente, lamento profundamente que a mensagem subjacente ao nascimento do nosso Senhor, do Rei dos reis, Deus feito homem, tão equivocamente tenha vingado em dois mil anos de catequização.
É urgente proclamar que o Salvador afinal nasce gloriosamente pobre e indefeso numa manjedoura, numa nação ocupada e reprimida... Que a mais fantástica e bela história do mundo indica-nos inequivocamente um caminho de libertação e de felicidade, justamente na entrega, e não na conquista. No dar e não no receber. E que a redenção se alcança em tudo ao contrário do que ensurdecedoramente nos “vendem” por todo os recantos desta civilização decadente. E que é ao libertarmo-nos do nosso sôfrego e deprimente umbigo que podemos alguma vez realizarmo-nos como homens livres. E que o nosso coração frio e egoísta é a imagem das albergarias de Belém quando se fecharam a Maria e José em vésperas do Grande Acontecimento. E que se vivermos o Natal de Jesus, nem que seja por um dia, seremos indubitavelmente melhores pessoas e mais felizes.
Assim Deus me ajude a viver este Natal.

sábado, 8 de dezembro de 2007



"Ó noite tu não tinhas tido necessidade de ir pedir licença a Pilatos.
É por isso que eu te amo e te saúdo.
E entre todas eu te glorifico e entre todas tu me glorificas
e tu me dás honra e glória;
porque tu consegues algumas vezes aquilo que há de mais difícil no mundo,
a desistência do Homem
o abandono do Homem entre as minhas mãos.
Conheço bem o Homem. Fui eu que o fiz.
Ainda se lhe pode pedir muito.
(…) com a minha graça, eu sei apanhá-lo a jeito. Pode-se-lhe pedir muito coração, muita caridade, muito sacrifício.
(…) mas o que não se lhe pode pedir, é um pouco de esperança.
Um pouco de entrega, um pouco de abandono nas minhas mãos.
Um pouco de desistência. Está sempre tenso.
Ora tu, minha filha noite, consegues algumas vezes, obténs algumas vezes isso
do Homem rebelde.
Que consinta, esse tal senhor, que se renda um pouco a mim.
Que distenda um pouco os seus pobres membros cansados num leito de repouso.
Que distenda um pouco sobre um leito de repouso o seu coração dorido.
Que a sua cabeça sobretudo deixe de andar.
E ele julga que é do trabalho, que a cabeça lhe anda assim”.

(Pórtico do Mistério da Segunda Virtude, Charles Péguy)

A vós suspiramos gemendo e chorando neste vale de lágrimas.
Advogada nossa, Mãe imaculada, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei!

Imaculada Conceição

Quem és tu, Maria?
Quem és tu, Imaculada?
Eu não realizo bem o que significa ser criatura de Deus,
e ainda menos o que significa ser filho adoptivo de Deus.
E tu quem és, ó Imaculada?

Não é apenas ser criatura.
Não é apenas ser filho adoptivo.
Mas Mãe de Deus e, mais importante,
não Mãe adoptiva mas Mãe real.
Facto que não é nem presunção, nem uma probabilidade,
mas uma verdade absoluta, um dogma de fé.

Serás tu sempre Mãe de Deus?
O título Mãe de Deus nunca será alterado.
Deus chamar-te-á sempre: ‘Minha Mãe’.
Aquele que nos deu o quarto mandamento
honrar-te-á para sempre…

Quem és tu, Deus?
O Deus encarnado gostava que O chamassem ‘Filho do Homem’.
Mas os homens não o compreenderam.
E, ainda nos dias de hoje, mesmo se algumas almas o compreendem
elas estão longe de serem perfeitas.

Ó Virgem Santíssima!
Permite-me que eu te louve!
Permite que os outros me ultrapassem no louvor a ti.
E eu que os volte a ultrapassar, novamente.
E assim, nessa santa competição,
a tua glória crescerá:
sempre em maior profundidade,
sempre mais rapidamente,
sempre mais poderosamente,
segundo a vontade d’Aquele que te concedeu tal graça.

Foi por ti que Deus foi glorificado, mais do que por qualquer outro santo!
Foi por ti que criou o mundo!
Foi, também, por ti que Deus me criou!

Que poderei dizer diante de tal felicidade?
Ó Virgem Santíssima, aceita o meu louvor!

S. Maximiliano Maria Kolbe

A festa de Lisboa

Para quem se identifica com uma história sem interrupções, faz-lhe alguma confusão ter que emprestar a sua casa para convidar os amigos para um fim de semana em Lisboa!
Mas valeu a pena, explicámos à europa e ao mundo que quinhentos anos de experiência continuam a fazer a diferença! Num excesso patriótico vi o mapa cor de rosa desfilar à minha frente... e o convite a Mugabe vingou o ultimatum! Com os africanos nos entendemos, não precisamos de intermediários para nada.
Falta agora lancetar o abcesso provocado pelas ideologias serventuárias dos vários socialismos, estranhas a África, e que lançaram o continente na miséria e na indignidade. Aqui já não estou tão certo das actuais capacidades portuguesas para dar a volta ao texto, serão precisos homens de ambos os lados que assumam sem complexos a história comum, incluindo nela todas as vicissitudes, o bom e o mau de uma presença impossível de apagar e que à vista da festa de Lisboa, ninguém quer apagar. Ainda se fala muito de petróleo e dinheiro, mas sente-se que existem coisas mais importantes para falar. Há sinais de esperança e o dia de hoje é um desses sinais – celebra-se a Senhora da Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

História de algibeira (22)

Entre 15 de Outubro de 1910 e 19 de Junho de 1911, a bandeira nacional foi alvo de acérrima contenda entre os republicanos, a chamada Polémica das Bandeiras. Por forma a marcar a mudança de regime urgia mudar o mais importante símbolo nacional. Então estiveram em confronto a facção moderada representada por Guerra Junqueiro, que defendia a manutenção das cores azul e branca, e a facção radical liderada por Teófilo Braga, que defendia a adopção das cores “verde-rubra” da bandeira do PRP como nova bandeira nacional. O culminar da disputa é por todos nós conhecido, e hoje temos a bandeira que temos...


Ilustração gentilmente cedida por Carlos Bobone – Livraria Bizantina

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Porque Hoje é Dia de S. Nicolau


Nesta quadra natalícia, há já bastantes anos que cá em casa insistimos persistentemente na mesma Campanha.

Sempre que uma das crianças fala no Pai Natal, é prontamente corrigida; quando as professoras pedem para escrever cartas ao Pai Natal, lá se explica que estão enganadas...; no dia de hoje, o livro do "Verdadeiro Pai Natal" vai para a escola, para mostrar a todos os meninos a verdade; praticamente em cada dia há pretexto para falar no assunto, e voltar a insistir na mesma tecla: é o São Nicolau! o São Nicolau é o Pai Natal! (e muitas vezes se volta a contar a história do bondoso bispo do séc. IV, muito amigo das crianças, que colocava um saco com moedas de ouro na chaminé das casas dos mais necessitados...)

Mas a tarefa não é nada fácil. A "contra campanha" impõem-se à intenção dos pais.

E, com pena, tenho que reconhecer que nunca ouvi nenhum dos nossos filhos falar do S. Nicolau...

África

O rosto de um pobre é a voz. Que não tem eco, amplificadores, retorno. Os pobres não falam, não dizem nada, não sabem dizer. Não tem nada a dizer, nada a pedir. Quando se perde a história, a terra, os filhos e o leito, resta um punho de fel cravado. Que se esconde lá por dentro, bolsas de resina, onde as palavras não chegam, pedras de solidão. O Zaire já não existe, o norte da República do Congo é uma terra em disputa, mortos em fila. A Somália é uma miragem, perdida, guerra de clãs, a Eritreia e a Etiópia á espreita.Do Sudão, Darfur, nascem os corredores da doença, descem da Tanzânia à África do Sul. No Burundi, Ruanda, ainda o cheiro fétido da memória inunda o Uganda e os rios. A Costa do Marfim, a "bela" Abdijan, é uma esfinge apodrecida de cacau. O mal não é Mugabe, esse é o mal que os ingleses querem mostrar, mentira de filigrana que só os ricos da televisão podem ver. O mal, todo o mal, são os rolos de raiva à deriva, lodos de miséria, compressão pungente que esmaga o sorriso da mãe e da terra quando a luz se acende. Lembro. A grande dor é a voz. Quando o punho de fel está cravado. Quando a voz é só ferida.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Ser Presente para quem Precisa

Não sabe o que há-de oferecer este Natal à mãe, ao avô, ao tio, à prima, ao vizinho, ao amigo?
O que vai inventar desta vez não lhes faz a mínima das faltas?
Não tem paciência de perder horas em centros comerciais atulhados de gente, à procura de não sabe o quê?
Está farto de embrulhos e mais embrulhos que em todo o lado sufocam o Presépio e o Menino Jesus?

Então, está na hora de fazer a diferença.

Tenha a alegria de dar presentes. E dê a quem os dá a alegria de os partilhar com quem mais precisa!
Parece complicado? Não é. Nem precisa de sair de casa.
Veja aqui como.

Estar a 100%

Desde que acordamos até que nos deitamos temos 1001 coisas para fazer, objectivos a cumprir, metas a alcançar.
Umas vezes os dias não parecem mais que uma sucessão infidável, cheios de coisas iguais e afazeres mecânicos.
Outras vezes, vem a surpresa, a novidade, o inesperado e com ele até muitas vezes a tristeza e o sofrimento, ou a alegria e a emoção.
Seja como for, seja que dia for, o importante parece-me é estar a 100%.
Passo a explicar: estar nas coisas de corpo e alma, toda eu nas coisas e as coisas em mim. Mediante cada situação que tenho à minha frente, cada dificuldade ou facilidade, cada tarefa mais monótona ou entusiasmante, quer eu goste quer me custe, estar a 100%.
Estar a 100% implica dar-me e debruçar-me, ver tudo o que posso fazer, como devo agir, o que é o melhor, para aquela situação, aquela pessoa, aquela família, aquilo que tenho à frente.
Estar com sabedoria, com profissionalismo, com caridade, com humildade.
Estar com tempo, com disponibilidade, com atenção, com compaixão.
Estar a 100% e oferecer, porque cada minuto é um bem precioso da vida e há que santificá-lo o mais possível para se ser verdadeiramente feliz.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Dia da Independência

Peço imensa desculpa por vir quebrar o sossego da nação, por vir lembrar uma data que os livres pensadores se esforçam por esquecer, que a grande maioria da população desconhece porque era esse o objectivo, mas tenham paciência, eu demoro pouco, meia dúzia de linhas no máximo.
Quando no primeiro de Dezembro de 1640 decidimos dar fim à união ibérica, reino unido de Portugal e Espanha, união europeia a que aderimos voluntariamente, quando os quarenta fidalgos souberam interpretar os desígnios da Pátria, reconduzindo-a ao trilho Fundador, quando tudo isso aconteceu… estávamos mais ou menos na mesma encruzilhada em que hoje nos encontramos!
Ontem como hoje e a troco da independência política, também nos eram prometidos mundos e fundos! Também embarcámos nas guerras dos outros, em armadas invencíveis, também quebrámos velhas alianças, também trocámos princípios por coisas, e parece que ao princípio a coisa corria bem… e também não havia alternativa!...
A única diferença é que a antiga adesão foi votada em Cortes, e aprovada, com a honrosa excepção do procurador por Lisboa, de seu nome Febo Moniz!
Sessenta anos depois, porém, reconhecido o erro, veio o tal dia 1 de Dezembro de 1640!
O Dia da Independência.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Ainda a Encíclica sobre a Esperança

Para nos aguçar ainda mais o apetite, aqui fica um pequeno trecho da Encíclica hoje publicada:

"Precisamos das esperanças – menores ou maiores – que, dia após dia, nos mantêm a caminho. Mas, sem a grande esperança que deve superar tudo o resto, aquelas não bastam. Esta grande esperança só pode ser Deus, que abraça o universo e nos pode propor e dar aquilo que, sozinhos, não podemos conseguir. Precisamente o ser gratificado com um dom faz parte da esperança. Deus é o fundamento da esperança – não um deus qualquer, mas aquele Deus que possui um rosto humano e que nos amou até ao fim: cada indivíduo e a humanidade no seu conjunto. O seu reino não é um além imaginário, colocado num futuro que nunca mais chega; o seu reino está presente onde Ele é amado e onde o seu amor nos alcança. Somente o seu amor nos dá a possibilidade de perseverar com toda a sobriedade dia após dia, sem perder o ardor da esperança, num mundo que, por sua natureza, é imperfeito. E, ao mesmo tempo, o seu amor é para nós a garantia de que existe aquilo que intuímos só vagamente e, contudo, no íntimo esperamos: a vida que é «verdadeiramente» vida."

Enciclica sobre a Esperança

Hoje o Papa publica a sua segunda encíclica, sobre a Esperança.
No passado dia 1 de Setembro o Papa encontrou-se com a juventude italiana em Loreto. Houve espaço para conversar. Transcrevo um excerto desse diálogo que me pareceu sugestivo.

Pergunta formulada por Piero Tisti e Giovanna Di Mucci:

A muitos de nós, jovens de periferia, falta um centro, um lugar ou pessoas capazes de dar-nos uma identidade. Com frequência vivemos sem história, sem perspectiva e, consequentemente, sem futuro. Parece que aquilo que esperamos verdadeiramente nunca acontece. Disto nasce a experiência da solidão e, às vezes, algumas dependências. Santidade, há algo ou alguém para o qual possamos tornar-nos importantes? Como é possível esperar, quando a realidade nega todos os sonhos de felicidade, todos os projectos de vida?

Resposta do Papa:

Obrigado por esta pergunta e pela apresentação muito realista da situação. Acerca das periferias deste mundo com grandes problemas não é fácil responder agora e não queremos viver um optimismo fácil, mas por outro lado, devemos ter coragem e ir em frente. Anteciparia a substância da minha resposta assim: "Sim, também hoje há esperança, cada um de vós é importante, porque cada um é conhecido e querido por Deus e para cada um Deus tem um seu projecto". Devemos descobri-lo e responder a ele, para que seja possível, não obstante estas situações de precariedade e de marginalização, realizar o projecto de Deus sobre nós.
(…) É necessária esta coragem, para criar centros, mesmo se já não parece existir esperança. Devemos opor-nos a este desespero, devemos colaborar com grande solidariedade e fazer o que for possível para que cresça a esperança, para que os homens possam colaborar e viver. Como vemos, o mundo tem que ser mudado, mas é exactamente esta a missão da juventude! Não podemos fazê-lo somente com as nossas forças, mas em comunhão de fé e de caminho. Em comunhão com Maria, com todos os Santos, em comunhão com Cristo podemos fazer algo de essencial e encorajo-vos e convido-vos a ter confiança em Cristo, e ter confiança em Deus. Estar na grande companhia dos Santos e ir adiante com eles pode mudar o mundo, criando centros na periferia, para que realmente se torne visível e se torne realista a esperança de todos e cada um possa dizer: "Eu sou importante na totalidade da história. O Senhor ajudar-nos-á". Obrigado.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Petro-Marx

" Os revolucionários acreditaram durante muito tempo
que as revoluções se faziam com ideologia. Chávez
provou que se fazem melhor com dinheiro. Na
Venezuela, o petróleo substituiu o marxismo."
Público, 28 de Nov. artigo de Rui Ramos

A má educação

Parece-me de quase total ineficácia a catequização da moral cívica oficial, pregada pelo regime no ensino escolar. Sei por experiência própria os resultados práticos das “lavagens de cérebro” efectuadas aos miúdos, massacrados desde a creche pelos bons princípios do amor à natureza, do amor à reciclagem e à solidariedade universal - bem mais bombástica e fácil do que a mesquinha e concreta “caridade” (palavra maldita) doméstica.
Sempre me pareceram deprimentes aquelas festas das escolas dos nossos miúdos (tenho em casa quatro saudáveis exemplares) em que as criancinhas, sob o olhar nervoso e cúmplice do pedagogo, ao ritmo duma dança étnica qualquer, apontam os ensaiados dedinhos aos progenitores babados, acusando-os pelo racismo ou a fome existentes no mundo... Ou no Natal aqueles bem intencionados presépios vivos, em materiais reciclados, ao som dum hino à “solidariedade”, em karaoke, contra a injustiça global. Incrédulo, ouvi os meus miúdos, chegados à 2ª classe, declamarem durante meses a "roda dos alimentos", também pintada a lápis de cera numa enorme cartolina. Isto até à próxima indigestão de chocolates ou gomas. Quanto ao seu amor à natureza, estamos conversados: sempre que nos distraímos, os higiénicos rotineiros “duches” dos miúdos dão para encher uma piscina municipal. Mais; há infindáveis anos que todos os dias de todos as semanas lembramos os adoráveis petizes para desligar as luzes que se acendem magicamente por onde passam. Quanto à propalada solidariedade é o que se sabe: basta observar atentamente a miudagem à pêra no recreio, a fanarem os cromos uns dos outros ou a gozarem até à náusea o mais fragilizado colega. Lá em casa, se não houver uma “ortopédica” voz de comando, bem vejo como funciona esse solidário cívismo principalmente se isso implicar o sacrifício dum interesse pessoal. Até a nossa mais pequenita, na hora de pôr a loiça na máquina, já aprendeu a refugiar-se “aflita” na casa de banho. Os irmãos, que não gostam de passar por otários, rapidamente reclamam, e lá se vai a preciosa harmonia no lar.
A batalha da “educação” trava-se principalmente em casa, e depende, além das referências do meio, da persistência e do exemplo categórico dos pais. Na escola, de onde Deus foi definitivamente banido, ensina-se o Mundo de acordo com a cartilha do regime. Na política, o que é importante é a ilusão de que vamos mudá-lo, amestrá-lo, mesmo que saibamos como desde sempre esse Mundo teima manter-se imutavelmente desconcertante, à imagem dos seus protagonistas.
É fácil arguir contra a violência ou injustiça, queimar automóveis e partir as montras na rua em prol da harmonia no mundo. Difícil, difícil, é olharmo-nos com humildade cristã para melhorarmos o pouco que seja em nós mesmos - a única fórmula para benignamente influenciarmos o nosso pequeno meio. Organicamente. Mas essa tarefa, tão anónima quanto imensa, quase sempre esbarra com o nosso orgulho e interesse imediato. Para nos revolucionarmos “por dentro” quase sempre somos demasiadamente comodistas e dificilmente encontramos uma motivação peremptória. E cristalizamo-nos a um passo da verdadeira redenção, e a verberar contra os outros, contra o Mundo tão injusto, num acto de desesperada catarse.

Lealdade

A poda nos dias frios
A terra mexida
Depois
esperar
que a primavera
traga a surpresa
da flor
e do fruto

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Outono

O Inverno começou ontem. Rolos de água esmagam a terra, o pó e o ventre das raízes. Se calhar, quando Deus criou o tempo foi agora. Quando fez o frio descer das montanhas e se enleou no seio dos elementos. Da terra húmida escovada pelo vento e da água esculpida nos veios profundos da crosta. O Outono é o princípio de tudo: da água e do vinho, da terra coçada e do pão lavrado. É neste tempo que se começa, que se volta a partir, que a geada ceifa os caules . Ontem, o sol foi embora. Levou o cansaço e o ciar dos desencontros. A água recolhe sempre os silícios, regaço perpétuo do que sempre será. A chuva rasga o estreito das lágrimas, dedos fundidos de restos, de carvão. O que esmaga no Outono não é o granizo, nem as rodelas de folhas que cobrem os fetos. É o cheiro da terra, a nudez dos troncos e da memória, quando o escuro infindável da noite solta os cavalos no trilho da água.

Bons sinais

Uma notícia aqui, uma opinião ali, um evento que se anuncia para amanhã, começamos a descobrir que andávamos a ser enganados, que a verdade histórica estava subtilmente amordaçada, mal contada, ou simplesmente esquecida! Também li o artigo de Pulido Valente, ele próprio um dos desenganados, afinal o Rei Dom João VI foi um estadista notável, não o imbecil que Junqueiro e as repúblicas, de um lado e do outro do Atlântico, se esforçaram por fazer crer. O Rei que Napoleão não conseguiu destituir ou prender, mantendo assim a independência do Reino, o Rei que fabricou o Brasil, unificando o maior e mais poderoso País da América do Sul, dando-lhe o estatuto de Reino, que teve o talento e a previsão de sonhar o Reino Unido de Portugal e Brasil, que ainda hoje é desígnio maior de quem ainda sabe sonhar, esse Rei só merece a nossa gratidão e homenagem. E quando digo nossa, refiro-me naturalmente a portugueses e brasileiros.
Os manuais escolares anti-portugueses e anti-brasileiros ainda insistem que fugiu para o Brasil cumprindo instruções dos ingleses! Seria caso para indagar se era do interesse de Portugal que Dom João VI fosse preso e humilhado pelos franceses como aconteceu com o Rei de Espanha, destituído sumariamente por Bonaparte! Claro que não era, e daí também a diferente designação que espanhóis e portugueses dão à mesma realidade bélica que constituiu a expulsão dos invasores: enquanto os espanhóis lhe chamam ‘guerra da independência’, porque de facto a tinham perdido quando perderam o seu rei, os portugueses chamam-lhe ‘guerra peninsular’ porque mantivemos a independência, uma vez que o nosso Rei continuou livre e a dar as suas ordens a partir do Rio de Janeiro.
Mas Pulido Valente tem razão quando reconhece a tentativa de silenciar e menorizar a guerra que travámos contra o invasor jacobino: - “… Porque sucedeu isto? Por causa da subordinação cultural de Portugal à França e ao mito da França como ‘libertadora da humanidade’ (que não se adaptava bem à razia de Bonaparte). E por causa do republicanismo, que nunca desculpou à Igreja, ao ‘Antigo Regime’ e à própria Monarquia liberal a defesa do país contra a ‘revolução’, mesmo sob a forma de império napoleónico. O homem da época passou a ser Gomes Freire de Andrade, um traidor que lutou até ao fim pelo inimigo. Quando por aí a inconsciência política resolve apelar ao patriotismo, nunca me esqueço da omissão e distorção da nossa guerra da independência contra a França. O Portugal moderno nasceu torto. Como, de resto, se viu no PREC”.

Fonte: Jornal Público de 23/11/07.

sábado, 24 de novembro de 2007

Alentejo

Porque a Sofia faz 40 anos.
E porque o Alentejo é a sua terra.

Portalegre
nome saudade de Portugal.

Marvão
milhafre da liberdade
sempre vizinha
dos excessos do vento.
Grito lançado para o lado do mar.

Castelo de Vide
escala,
proporção,
delicadeza.
Portugal a explicar o seu jeito.

Crato, Flor da Rosa
lugar da consumação do amor entre um povo e uma terra.
Robustez queridíssima da alma nossa.

Campo Maior, Ouguela,
estandartes da arte de vencer gigantes.

Elvas
daqui não passa
quem não se inclina
ao forte da Graça!

Vila Viçosa
condestável da honra.
Empreender no lance da reconquista imaculada
da liberdade,
inegociável.

Estremoz
tão apurada na arte de bem receber
que, solene,
à própria Rainha Santa
abriu a porta que dava
sob o paraíso.

Évora Monte
abraçada à paisagem com o nó manuelino de um amor fatal.
Gávea donde os olhos se balançam, de um ao outro lado do horizonte,
pasmados de contentes.
E quem assim cismou assim se encantou.

Arraiolos
título de Nuno,
que só se comprazia com o mais honrado.
Atalaia dos caminhos que cruzam a liberdade do reino

Évora
Eva reencontra-se com a sua beleza de sempre noiva:
convento do Paraíso, do Espinheiro.
Scala Coeli.
A Sé.
A pátria antiga vinha a ti fazer cortesias.
Tua a arte daqueles que
assim como beijavam assim construiam.

Montemor-o-Novo
aqui soube o Rei, e a sua corte,
da nova do regresso da aventura do Gama.
Daqui partiu descalço, e só,
João,
levando cozida no coração a Boa-Nova,
que um dia havia de desdobrar,
vestindo tantos
com a ventura púrpura da misericórdia.

Alcácer do Sal
garbosa colina, graciosa muralha,
alta honra de igrejas, capelas, conventos
como se fora uma iluminura da nova Jerusalém.

Monsaraz
caravela serrana, tesouro de ourivesaria manuelina.
Barroca?
Engenho artístico de um povo pobre.

Moura
porta do Carmo.
O calor insuportável suplica a brisa
que tarda,
e que tarde,
já sem ânsias,
virá.

Stº Aleixo da Restauração
colina elevada tanto acima da covardia
quantos os heróis, sem nome,
alistados para te defender,
para morrer.

Serpa
no fim de Portugal
galhardia,
reconquista,
aristocracia,
sofrido canto genuíno da planície,
da distância.

Noudar
aqui se desfraldou a bandeira
livre,
destemida,
e só.

Mértola
último segredo do Alentejo a escorrer para sul,
como as aves,
como o rio,
como as barcas,
com as gentes perfumadas
na gravidade e beleza
ali aportada.

Alentejo,
roteiro franco,
resumo largo do saber viver nobre.

Alentejo,
gratidão face a Ti,
além tudo.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

História de algibeira (21)

A Rainha D. Amélia (...) foi na opinião dos seus contemporâneos a rainha mais bela do seu tempo. (...) em 1898, aos 33 anos, apareceu ao escritor Eça de Queirós como “terrivelmente linda – e extra-amável”. Foi também uma das rainhas menos afortunadas. Cumpriu o seu papel oficial durante vinte e um anos, apenas para ver o marido e o filho mais velho morrerem à sua frente , assassinados durante um atentado em que ela teve de se defender batendo na cara de um dos pistoleiros com um ramo de flores. Aconteceu a 1 de Fevereiro de 1908, na Praça do Comércio, em Lisboa. Aos 43 anos, D. Amélia vestia-se de negro.
Pouco tempo depois (...) a mulher do representante diplomático de França em Portugal encontrou a rainha no Palácio das Necessidades, em Lisboa. (...) Acabara de enterrar o marido mais velho num país onde ninguém mostrava grande pena pelo destino da família real. O filho mais novo, que tinha sido ferido no atentado e era agora o rei de Portugal parecia ameaçado. Outros talvez se tivessem entregue ao desespero, desistido, fugido. Mas D. Amélia sabia que não era uma pessoa qualquer. Como explicou à mulher do diplomata francês: “Quando on est dans le métier, on ne lâche jamais.” Era uma rainha, nascida de uma família real. Não ia desistir, ia aguentar até ao fim, enfrentar tudo, cumprir o seu dever.


Excerto da introdução de Rui Ramos ao livro Rainha D. Amélia Memórias Inéditas de Lucien Corpechot, Editora Caleidoscópio Abril 2007.
Imagem: D. Amélia em visita ao Dispensário de Alcântara - daqui