sábado, 23 de fevereiro de 2008

Espanha

A afirmação da Conferência Episcopal Espanhola ainda não foi suficientemente aplaudida. É um gesto enorme, de coragem e fé. Num tempo onde tudo é igual, provisório e se cultiva a indiferença são precisos gestos deste tipo. De aprofundamento, de distinguir a essência. Entre o não e o sim há uma diferença: de qualidade, de visão, de afirmação. O que disse a Conferência Episcopal é muito simples: não se pode votar PSOE porque a nossa estrada é outra. Não afirmou pressupostos de carácter geral. Foi à base, á altura das coisas. Disse não. O que fez o PSOE não é nosso. E disse-o, como se dizem as outras coisas. É aqui que se ganham as batalhas, que se faz a separação. Existe, hoje, um conjunto de valores que derivam de interesses e não de necessidades reais ( veja-se, por exemplo, os números do aborto e de como as previsões estavam erradas). É que este tipo de cultura é quase imbatível: afirma a rotura, a separação, a suposta causa individual em detrimento da afirmação de necessidades públicas ( afirmar uma política pública de saúde não é uma exigência mais concreta que a suposta ligação legal entre pessoas do mesmo sexo?). Hà um mundo cultural fortíssimo que afirma isto: jornais, televisão, Hollywood (...todos apoiam Obama...), todos aceitam isto quase com deferência. É pena que pouca gente se indigne. Que pouca gente enalteça o gesto da Conferência Episcopal, que pouca gente questione a cultura que hoje é feita, que pouca gente afirme claramente um outro sim.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Tributo

Completam-se hoje quinze anos sobe a morte do meu pai. Deixou saudade e obra também. Luiz de Lancastre e Távora (1937 – 1993) dedicou-se largos anos à investigação histórica, com especial incidência nos campos da Genealogia, Heráldica e Sigilografia. Possuindo um elevado número de trabalhos publicados, duas das suas obras mereceram ser galardoadas, uma delas com um prémio internacional. Fez parte do corpo docente encarregado de ministrar os cursos de Iniciação à Genealogia e Heráldica iniciativa levada a cabo pelo I.P.P.C. através do Instituto Português de Heráldica e com o patrocínio das Universidades Clássica e Nova de Lisboa. Funcionário da Biblioteca da Assembleia da Republica, foi destacado para a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, onde, a par de outras funções, dirigiu as actividades do Projecto Arquivos de Família. Sócio efectivo do Instituto Português de Heráldica, da Associação Portuguesa de Genealogia, da Sociedade de Geografia de Lisboa, e da Associação dos Arqueólogos Portugueses. Galardoado com os prémios General França Borges (A.A.P.) e Salazar y Castro (Academia Internacional de Genealogia e Heráldica, com sede em Madrid).

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Uma cruz antiga

Houve um tempo em que velavas descalça, e os pés bonitos, (era preciso vê-los), sobressaíam no desconjunto da figura, e desse tempo, mais a voz rouca que bradava, ficou o teu retrato de mulher maltratada.
Houve um tempo em que amaste, e choraste, e voltaste a amar, da única maneira possível… ah, pois, os vícios, de mal a pior, não falemos nisso agora.
Houve um tempo em que foste menina e moça, como cantava Bernardim! Pouco sei da tua infância, mas se nunca me falaste nela, é porque não interessava. Ainda assim, deixa-me imaginar os olhos escuros rasgados e os sonhos claros alados de uma rapariga do norte!
Houve um tempo em que te conheci por dever de circunstância, tempo de lamber feridas, tempo de esperança, que foi crescendo até à insuportável ilusão de uma vida renovada!
Nesse tempo, candidamente, ofereceste-me um azulejo com o emblema que me agrada, uma cruz encarnada que pintaste sobre o azul do céu!
Depois, houve um tempo para tudo, para saíres e voltares, e partir outra vez, quase definitivamente, enquanto a tua cruz esmaecia, e é hoje um traço apenas de uma cruz antiga.

(memórias da Cândida)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

O Kosovo e o Escudo anti-mísseis americano

1º A Grande Sérvia conheceu o seu apogeu nos sécs XIII-XIV. Foi a época das famosas igrejas de cinco cúpulas, das gravuras sobre ouro, dos mosaicos, dos ícones e dos frescos. É também dessa época o ciclo das grandes epopeias nacionais servias do Kosovo, então parte integrante da Grande Sérvia. Porém, em 1389, nesse mesmo Kosovo, a nobreza sérvia soçobra face aos Turcos numa trágica batalha . Seguem-se séculos de dominação muçulmana. Os albaneses cedem: 70% da população abraça o Corão (note-se que os 30% restantes ainda foram a tempo de dar ao mundo, no séc XX, a Madre Teresa…). Idem com as gentes do Kosovo. Com outra tenacidade os sérvios resistem. Sobretudo em torno do Patriarcado Sérvio-Ortodoxo. Até que no início do séc (1815-17) retoma a sua independência, mas já então ‘dependente’ da protecção russa.

2º O Kosovo ‘independente’ será o primeiro país de maioria muçulmana na Europa (88% da população). Diz-se que outras 200 regiões por esse mundo fora aspiram a igual secessão. Passando por Taiwan. E também pelo País Basco e a Catalunha. Aliás, na própria Europa, para além de Portugal, raros são os países sem fracturas nacionalistas. Mesmo até na insonsa Escandinávia, como é o caso da Finlândia ou da Dinamarca.

3º Descobre-se aqui também uma total desconsideração da Europa como mapa cultural e religioso. Sobreleva-se a disponibilidade para pagar a factura de apoio a Israel e a tentativa de não excitar a vingança muçulmana. A Europa liberal (leia-se pós -e o mais das vezes anti- cristã) atropela as árduas costuras da sua própria história. Convidam-se os Turcos, Kosovares e amanhã os milhões de muçulmanos que por aqui já campeiam para nos ensinar a ser europeus. Como se houvesse alguma hipótese de perenidade fora da excelência que fomos buscar não à técnica, ao dinheiro ou aos militares (já frutos da civilização europeia e não causa da mesma…) mas a uma ideia de homem como pessoa, com dignidade e responsabilidades face à existência, inextrincáveis do apelo e do dom cristão.

4º Corriam os primeiros tempos da primeira presidência Bush. Ufano da excelência militar da sua pátria, e para a defender de ataques exteriores, o Presidente prometeu o escudo protector anti-mísseis: perfeito, inexpugnável, inultrapassável. Até que caíram as Torres gémeas. Atingidas por aviões que tinham levantado voo dentro do solo americano. Ou seja, dentro do tal escudo anti-mísseis!

5º Quem brinca nos Balcãs costuma aleijar-se. Muito! Lideres agarotados (vide o tosco Bush, ou os que se perfilam para o substituir, mas também o nosso standardizado Sócrates ou esse Zapatero desengraxado mental …) julgam que basta estender um pouco de arame farpado entre fronteiras e acenar com o abono da entrada na UE para aclamar os ânimos dessa gente. Não será assim. As vicissitudes são inúmeras nesses Balcãs de intensíssima história: tensão e violência, coragem, liberdade, desfaçatez, composição e recomposição.
Creio que o que hoje protege a América, e a nós também, é pouco mais do que muita burrice farpada.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

História de algibeira (26)

Debaixo de grande polémica, Carolina Beatriz Ângelo, médica, viúva e "chefe de família", ousou votar nas primeiras eleições republicanas a 28 de Maio de 1912 aproveitando as indefinições existentes no enunciado da Lei.
Na sequência da controvérsia, é aprovada pelo senado em 1913 a Lei Eleitoral da República (nº 3 de 3 de Julho) onde pela primeira vez num texto legislativo se determina expressamente o sexo dos cidadãos eleitores: “são eleitores dos cargos políticos e administrativos todos os cidadãos portugueses do sexo masculino, maiores de 21 anos, ou que completem essa idade até ao termo das operações de recenseamento, que estejam no gozo dos seus direitos civis e políticos, saibam ler e escrever português e residam no território da República Portuguesa".
O direito de voto às mulheres foi concedido (precariamente) pela primeira vez em Portugal, em 1931 sob o patrocínio legislativo do Estado Novo (lei nº 19:694 de 5 de Maio), restringido àquelas com o curso dos Liceus. Em 1934 nas eleições legislativas foram eleitas pela primeira vez mulheres para a assembleia nacional: Domitília Hormizinda Miranda de Carvalho, Maria dos Santos Guardiola e Maria Cândida Pereira.

Fonte: “A Concessão do Voto às Portuguesas” por Maria Reynolds de Souza, 2006 - Colecção Fio de Ariana editada pela Comissão Para a Igualdade e Para os Direitos das Mulheres.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

O ano de 2008

2008 é agora. Três grandes eleições vão definir o pensamento político dos próximos anos: Espanha, Itália, EUA, por ordem cronológica.Três testes decisivos que vâo marcar o decénio do século. Em Espanha, vai começar a campanha eleitoral. Rajoy não começou bem. Está a ir atrás de Zapatero. Este colocou a questão no aspecto económico e Rajoy foi a reboque. Ficar dependente de Zapatero é um erro profundo. Rajoy, um político que é uma incógnita, tem de determinar o debate e colocá-lo no plano que lhe interessa: a questão das autonomias das regiões, da abertura do diálogo com a ETA, e da moral pública. A este nível verdadeiramente espantosa a atitude da Conferência Episcopal Espanhola a sugerir que os católicos não deveriam votar neste governo, assunto que falarei no próximo artigo. Em Itália, Berlusconi vai ganhar. Berlusconi pode não ser um grande político mas tem três qualidades fundamentais: é vaidoso, muito vaidoso, e para um italiano esta é uma das mais nobres qualidades; sabe fundir a sua história pessoal com a história pública - na semana passada a mãe morreu, ontem, em Milão, na apresentação da coligação "Casa della libertá" exclamou:"A minha mãe agora no Céu deve estar feliz por ter um filho que ama e luta por Itália"; tem um sentido de "italianidade" que mais ninguém tem: o seu partido chama-se "Forza Itàlia", as cores são azuis, fala da ponte que ligará o continente à Sicília da mesma maneira que aos empresários das pequenas e médias empresas, ainda a coroa da Itália rica e industrial. Outro aspecto decisivo: é presidente do Milan, o grande clube das conquistas internacionais, o Benfica da Itália profunda, dos migrantes que sonham o poder da Lombardia. Nos EUA a vitória republicana de McCain será muito difícil. Tem 71 anos e é herdeiro de Bush. Mas o grande equívoco é Obama. É impressionante como a "inteligência de esquerda" americana e europeia está rendida à sua figura. É afro e isso basta. A sua campanha até agora não disse nada. O slogan" Change we can belive in..." não é nada. "We can", o quê? Ninguém sabe.

Aborto, um ano depois...

Os Santos Inocentes

Tenho sete razões – diz Deus - para amar os inocentes assassinados por Herodes.

A primeira é que os amo. E isto basta.
Tal é a hierarquia da minha graça.

A segunda é que gosto deles. E isto basta.
Tal é a hierarquia da minha graça.

A terceira é que me agrada. E isto basta.
Tal é a hierarquia, a ordem e a regra da minha graça.

E agora vou dizer a quarta razão:
É porque as crianças não têm na comissura dos lábios
essa contracção de ingratidão e amargura, essa ferida de envelhecimento,
essa contracção de recordações que vemos em todos os demais lábios.

A quinta é por uma espécie de equivalência.
Porque, por uma espécie de contrapeso, estes inocentes pagaram pelo meu Filho:
Enquanto jaziam sobre o solo dos caminhos, das cidades, das aldeias,
menos tidos em conta que os cordeiros, os cabritos, e os leitões,
o meu filho fugia para o Egipto.
De modo que se deu uma espécie de quid pro quo,
uma espécie de mal entendido,
porque esses inocentes foram confundidos com o meu Filho,
e assassinados por Ele, em vez dele,
não só por causa dele, mas por Ele, crendo que era Ele.

A sexta razão é que eram contemporâneos do meu Filho,
da mesma idade, nascidos ao mesmo tempo,
e todos fazemos o que podemos pelos nossos colegas de curso,
e eles foram do curso, eram da turma de Jesus.

A sétima razão –e porque ei-de calá-la?-
é que também eram parecidos com o meu Filho.
O meu Filho era alguém terno e novo como eles,
E desconhecido como eles.
Não tinha na comissura dos lábios essa dobra de amargura e ingratidão,
nem essa outra dobra de rugas nos sobrolhos,
a dobra das lágrimas e de ter visto muito,
nem tinha nas comissuras da memória a dobra de não poder esquecer.
Ignorava ainda as vicissitudes que o esperavam,
tudo aquilo que mais tarde deixaria um eterno rasto:
a coroa de espinhos e o ceptro de cana
e a terrível agonia do calvário,
e a ainda mais terrível agonia na véspera no Jardim das Oliveiras.

Estas são a sexta e a sétima razão que tenho para amar os inocentes:
que me recordam o meu Filho como era
se não tivesse mudado logo,
recordam-mo quando era belo,
quando nada dessa terrível aventura ainda não tinha acontecido.

Eis aqui porque amo as crianças inocentes:
porque entre todos são elas as melhores testemunhas do meu Filho,
os Meninos-Jesus que não foram grandes nunca.

Charles Péguy

domingo, 10 de fevereiro de 2008

O caminho…

“Bestiais como sempre, carnais, egoístas como sempre,
interessados e obtusos como sempre o tinham sido antes,
e no entanto,
sempre em luta, reafirmando sempre,
retomando sempre o seu caminho na estrada iluminada pela luz;
muitas vezes parando, perdendo tempo, desviando-se, atrasando-se, voltando,
mas nunca seguindo um outro caminho”.

T.S.Eliot, “Coros de «A Rocha»”

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Uma "Grande" Carta

Recebi esta carta ontem via e-mail. É muito "grande", em todos os sentidos.

"Queridos todos

A nossa adorada Marta fez análises na segunda-feira dia 4 e confirmou-se que os valores estão a subir: hemoglobina a 10.8 (fazem transfusão abaixo de 7), 240.000 plaquetas (transfunde-se abaixo de 20.000), 800 neutrófilos... Esta aplasia (período em que os valores batem no fundo do poço) foi passada em casa! Agora, se não houver outro tipo de complicações, a Marta vai para o IPO na segunda dia 11, faz análises para confirmar que está tudo bem e começa a sua quarta quimioterapia.

Estes dias que a Marta passou em casa proporcionaram-me umas abertas a mim, Mãe da Marta - como somos tratadas no IPO. Nessas rápidas saídas, tenho encontrado pessoas que, muito atenciosas e preocupadas, me perguntam como é que eu estou. Eu respondo "Estou óptima!" Olham para mim perplexas, sem saber bem se estou a ser irónica, se estou a leste ou se simplesmente já 'me passei'! Mas a verdade é mesmo esta: estou óptima!

Estou também completamente ciente da gravidade do cancro da Marta. Sei que as leucémias mieloblásticas têm uma percentagem de cura que ronda os 30 por cento, que o facto do cancro se ter desenvolvido antes da Marta ter um ano, agrava a coisa, que os cancros têm a característica de serem imprevisíveis: agora está-se a reagir bem e daqui a meia hora está-se em perigo iminente de vida... Tendo já quatro meses de IPO, com vários internamentos e isolamentos, posso dizer que já vi muito. Já vi crianças moribundas que no dia seguinte entraram na salinha dos brinquedos pelo seu pé e já vi crianças que se diria tinham finalmente 'dado a volta' e que no dia seguinte tinham morrido. E já vi aquelas cujo estado geral se deteriora de tal maneira que vão ficando cada vez mais no seu quarto, cada vez mais ausentes até entrarem em coma cada vez mais profundo e morrerem.

Dou-me conta que mais ainda que o desenrolar do próprio cancro, há um sem fim de complicações que aparecem para alterar os prognósticos e os subsequentes tratamentos. Sei também que o processo está longe de estar concluído: quando acabar esta fase vem um ano da chamada 'manutenção' e depois vem a vigilância constante e regular: não se sabendo o que provoca este cancro não se têm pistas para antecipar uma possível recaída. E se houver recaída, tudo fica bem mais difícil e as hipóteses de cura bem mais remotas. Prognósticos aqui, só mesmo no fim do jogo!

E depois, há os tratamentos que são brutais. E brutais as consequências e os efeitos secundários dos tratamentos. E brutais todas aquelas coisas que se espera não aconteçam mas que já aconteceram noutros casos... E há as biópsias sob anestesia e ficar meio dia sem poder comer nem beber, e há as punções lombares feitas sem anestesia... E é a perspectiva de mais internamentos e de mais isolamentos e da vida posta de lado durante anos... E é o dó daqueles que sofrem sem se queixar, e daqueles que não aguentam mais, e dos pais que não são capazes de lidar com a doença, e das crianças que choram, choram... E é o ambiente que pode ser tão pesado que os próprios médicos dizem: 'há dias que nenhuma palavra é capaz de descrever o que aqui se passa'...

Para não falar no famoso transplante que a ouvir as pessoas é tão simples como tomar uma aspirina. Simples é, na medida em que o transplantado recebe a medula a transplantar através do caterer: parece uma transfusão. Mas aqui acabam as parecenças. Para preparar o doente para o transplante é preciso 'eliminar' por completo a medula do próprio, o que é feito com doses ainda mais 'letais' de quimioterapia e outros processos. E depois é preciso que o transplante agarre, que não seja rejeitado, que não rejeite o seu novo hospedeiro, que o que resta do sistema imunológico do doente não se ponha a combater desenfreadamente este invasor... E os vómitos, e os enjoos, e as feridas no sistema digestivo, e os problemas na pele, e as complicações... são proporcionais. E este isolamento sim é rigorosíssimo e não costuma durar menos de dois a três meses.

No meio disto tudo, a Marta tem tido um percurso surpreendentemente bom.

Porque a quimio tem resultado (há crianças cujos cancros não cedem nem um milímetro a doses sucessivas de quimioterapia), porque de todas as infecções que podia já ter feito - fez poucas, porque de todas as complicações - só fez a dos fungos... Porque odiava 'fazer o penso do cateter' que tem que ser mudado todas as semanas, chorava, gritava, debatia-se e ficava roxa que nem uma beringela (descolam-se os adesivos que agarram à pele e isolam de infecções primárias, limpa-se, desinfecta-se com alcóol e colocam-se novos adesivos) mas já fez dois pensos sem chorar! No hospital de dia toda a gente sabe que de todas as crianças e adolescentes que por lá passaram só havia uma menina que não chorava quando fazia o penso. Agora se calhar vai passar a haver uma segunda.

E esse famoso cateter que tem funcionado sem problemas! Há crianças que com o mesmo tempo de cancro que a Marta já mudaram 4 vezes de cateter, outras que não podem pôr cateter.... E é vê-los serem picados para tirar sangue, para fazer tratamentos. E já nem tem a ver com a perícia das enfermeiras que é muita, tem a ver com a saturação e a dificuldade em gerir esta 'doença prolongada'.

A Marta é um deslumbramento e vive este desafio com uma maturidade e um sentido de humor que fazem pasmar todos: ao pé dela, a gente sente-se bem! Como não tem irmãos compatíveis e tem respondido bem aos tratamentos, os médicos decidiram não agendar para já o transplante na esperança de que a Marta seja dos raríssimos casos de mieloblásticas que se curam sem transplante. Eu acho isto uma benção do céu, não acham?

Perante tanto milagre, tanto mimo de Deus, como não viver em acção de graças?
Como não receber com toda a gratidão os paliativos que Deus nos manda, à Marta e a nós?
Como não louvar a Deus por esta avalanche de orações que amigos e desconhecidos têm feito descer sobre nós?
Nunca achámos que a vida fosse feita sobretudo ou só de coisas boas. Se agradecemos essas, como não agradecer as outras?
Se pedimos a Deus para acabar a vida nos Seus braços divinos, como achar que o nosso caminhar se pode fazer à margem daquilo que é intrinsecamente humano e que inclui dor e sofrimento?
Se sabemos que Deus gosta da Marta e de cada um de nós com um amor indizível e irrepetível, que para ela e cada um tem um projecto de amor perfeito, como não confiar, sem réstia de medo?
Se sabemos que nos entregámos à Providência misericordiosa de Deus, como não viver em absoluta paz?
E se sabemos que a fé é um dom gratuito, como não o receber com toda a humildade?
A felicidade não é a ausência de dor. A morte é a passagem para a verdadeira vida.
Deus criou-nos para sermos felizes: em que é que andamos a perder tempo?
De facto, a única coisa que devemos temer é o mau uso da nossa liberdade porque isso sim afasta-nos da felicidade.
Tudo o mais é a certeza absoluta do carinho e da ternura avassaladora de Deus por cada um de nós. Ser feliz é ter a certeza do amor de Deus por mim. É cantar, como Nossa Senhora, o meu 'Magnificat'.

Como é que eu estou? Estou óptima!"

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

O Imperador

Homenagem ao Pe António Vieira
nos 400 anos do seu nascimento

A fachada erguia-se ancestral e rude.
Sibilavam ventos e sons guturais, lançados das portas.
Escárnios e cantigas negras abafavam a harmonia.
Convidados a entrar, os gonzos pesados gemiam ainda agonias.

Outro espectáculo nos era dado considerar
para lá daquele primeiro abalroamento de ruídos:
salas renascentistas homenageavam os grandes da família.
Aprumados e apurados viam-se os ancestrais maiores,
épicos e líricos desse reino.
E era voz de Príncipe a que elevava sublime o canto da nossa gesta.

Depois, porém, fomos ensurdecidos com a fantasia.
Sucediam-se salas de oiro e de brilhos barrocos,
salões sumptuosos,
e bailes apaixonados de palavras.

Mordomos vários indicavam ao séquito estar, todavia, já próxima a sala do trono.
O rigor arquitectónico era agora limpidíssimo. Preciso.
Notavam-se subtis escadarias em espirais.
Pelas janelas inacianas entrava uma luz suavíssima.
E os ares eram rarefeitos.
Havia fragrâncias que sugeriam raridades exóticas.
Tingidas de sangue as tapeçarias expunham tons vários
denunciando crimes, combates e enredos mil
que o palácio escondia.

Mas chegados, então, junto da majestade
eis que nos abriu os braços em gesto largo de nobreza atlântica
o velho sábio de mãos de filigrana e nervo:
santo incontestável da liberdade da terra e da língua,
prega-dor da doçura de floreados levíssimos,
o nosso mui pobre senhor, António Vieira
búzio do mistério da pátria,
sacerdote do destino católico de nós todos,
destemido navegador da língua,
mártir da paixão por um Portugal de honra e beleza.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Outros Carnavais

Nunca aderi espontaneamente à festa do Carnaval. A chegada das serpentinas, máscaras e bombinhas às montras das tabacarias despertava-me algum interesse, mas esse não superava de imediato um leve sentimento de melancolia provocado pelas recém-finalizadas festas natalícias e pelo reinício da implacável disciplina escolar.
As minhas mais remotas recordações do Carnaval referem-se à casa da Avenida, onde a minha bisavó Valentina imprimia ao evento uma marca particular, fruto da sua passagem pelo Brasil. Por exemplo, lembro-me de um grande boneco que nos aguardava, medonho, à entrada da casa de jantar. Era feito de roupas e enchimento em cima de um cabide de fato e usava o chapéu do meu avô João. Os croquetes feitos com algodão e outras partidas célebres desses Carnavais da Avenida não alcança a minha memória.
O que me desagradava profundamente era que me mascarassem. Mesmo de Cowboy, figura heróica de todo o ano. Detestava que me pintassem com bigodes e patilhas de cortiça chamuscada, ou me espetassem com um chapéu de plástico que me caía continuamente da cabeça a baixo. Além disso ficava com uma intimidante “noção de mim”, era o fim da espontaneidade. O que eu gostava mesmo era dos lustrosos revólveres prateados e umas cargas de fulminantes para correr aos tiros atrás dos meus primos. No recreio da escola, a figura de Cowboy ainda valia o esforço de pôr a bata xadrez entalada para dentro das calças de ganga. Era o que bastava para me sentir um autêntico Cartwright. Mas isto nada tem que ver com o tema desta crónica. Carnaval para mim eram as semanas precedentes ao feriado, em que eu e os meus colegas da escola experimentávamos as mais endiabradas aventuras com bisnagas, bombas e “estalinhos”. Com cinco tostões comprávamos cinco estalinhos ou… uma bomba. Com cinco escudos possuíamos um verdadeiro arsenal. À saída da escola, munidos de uma carteira de fósforos, corríamos o bairro, de caminho para casa a rebentar bombas nos sítios mais insólitos. Nada como uma boa explosão dentro de uma funda sarjeta, ou na escadaria de pedra de um prédio. Até os vidros tremiam, enquanto já a milhas corríamos em fuga. Ainda pelas ruas de Campo d’ Ourique armados com coloridas pistolas espaciais, corríamos endiabrados à volta dos carros estacionados disparando potentes esguichos de água uns aos outros. Até esbarrarmos com uns quaisquer gandulos do Casal Ventoso que, violentos, com uns gritos e uns socos se apoderavam das nossas preciosas armas. Era a lei da rua, a lei do mais forte.
No Carnaval era a festa de anos do meu primo Manuel. Festas inesquecíveis, com muita criançada, em que acabávamos a tarde exaustos, enrolados em quilómetros de serpentinas, às escuras, a ver projectados desenhos animados Silly Symphonies de Walt Disney ou umas curtas-metragens do Charlot em Super 8.
Na entrada da adolescência, no Liceu Pedro Nunes, por altura do PREC, quando qualquer divergência se resolvia democraticamente à pedrada, as partidas carnavalescas atingiam requintes de malvadez. Por pudor escuso-me a relatar algumas arbitrariedades por mim testemunhadas. Mas era comum detonar uma dessas poderosas bombas no “Metromijas”, o WC dos rapazes, umas instalações subterrâneas situadas no meio do pátio. Depois era esperar, após a estrondosa explosão, que as vítimas assomassem ao cimo das escadas, esquálidas e despenteadas…
Chegados ao Entrudo, os excessos e a brincadeira estavam feitos e gastos. Então, sempre me pareceram patéticas as figuras daqueles miúdos mascarados em passeio com os seus babosos pais, com quem me cruzava a andar de bicicleta no Jardim da Estrela. Que tristonhas “espanholas” e “noivas do Minho”, que infelizes aqueles repetidos “Zorros” e “campinos”, de bochechas pintadas e olhos tristes. Com uma matinée no cinema Europa, umas voltas de bicicleta e muita televisão passava-se o meu Carnaval. Mas afinal que bom que eram para mim aqueles cinco dias sem ir à escola!

Fotos: Daqui

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Cem anos de decadência

Faz hoje cem anos que matámos o rei, o dia amanheceu solene e triste, as primeiras notícias confirmam o que esperávamos, o bastonário da ordem dos advogados cumpre os serviços mínimos para que foi eleito – interferir e descredibilizar ainda mais o processo da Casa Pia.
Há cem anos, o processo do Regicídio também se perdeu nos gabinetes da primeira república, a verdade nunca se apurou, e a impunidade venceu.
Faz hoje cem anos que perdemos o fio à meada, não admira portanto que tenhamos perdido o sentido comunitário da honra, da liberdade e da independência.
Acreditamos hoje que o crime do Terreiro do Paço, e as sucessivas (e inevitáveis) revoluções republicanas que lhe seguiram, serão as grandes responsáveis pelo atraso a que estamos votados.
Sabemos hoje, apesar da censura, da propaganda, das várias cumplicidades, que o rei foi um extraordinário estadista, que visava longe, desde logo a reforma do estado, o reforço da centralidade atlântica, a investigação e valorização dos nossos recursos marinhos, que tão bem conhecia, mas sobretudo, a defesa e o desenvolvimento dos territórios africanos que estavam à nossa guarda. Nesse sentido, o Príncipe Luís Filipe, herdeiro do trono, viajou até Àfrica naquela que foi a primeira deslocação de um membro da família real às colónias portuguesas.
Mas também sabemos que o espírito reformador do rei colidia com os interesses instalados, e na política externa, com os interesses das grandes potências, que cobiçavam as nossas colónias. Tudo isso, tudo junto, compôs o cenário do crime. Tudo isso, tudo junto, foi ganho pelo atentado.
Cem anos depois, a reforma do estado continua por fazer, o rotativismo que vivemos é o mesmo, ou pior, a justiça não funciona, e trocámos a centralidade atlântica, base secular da nossa independência, pela periferia de uma união europeia que pode falir a qualquer momento.
Com tudo isto, e tudo junto, cem anos depois, passámos de média nação europeia... para a cauda da Europa!
Por tudo isto, faz todo o sentido, que todos juntos, evoquemos os cem anos da morte do Rei Dom Carlos.
Que esta homenagem seja o primeiro passo para a reconciliação de Portugal com a sua história.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Regicídio - Em abono da verdade

Foi ontem apresentado no Palácio da Independência ao Rossio o Dossier Regicídio – O Processo Desaparecido, um trabalho de dois anos de investigação coordenado por Mendo Castro henriques e com a colaboração de Maria João Medeiros, João Mendes Rosa, Jaime Regalado e Luiz Alberto Moniz Bandeira. O livro com 348 páginas e 400 ilustrações, resulta de dois anos de investigação que tratou cerca de 1.500 documentos, alguns inéditos, 400 artigos e opúsculos, 60 livros, de arquivos públicos e particulares.
Na falta do processo instaurado na época pelo juízo de instrução criminal e convenientemente sumido depois do cinco de Outubro algures no gabinete de Afonso Costa, a obra centra-se na documentação possível dos factos ocorridos na trágica data, obviamente sem que se possam assacar conclusões cabais.
Sobre o assunto, o Juiz Desembargador Rui Rangel a quem coube a apresentação da obra, salientou a fatídica tradição nacional da incapacidade instituição judicial portuguesa evitar a interferência dos poderes políticos. Como exemplo, o orador referiu alem do regicídio de 1908, o assassinato de Humberto Delgado e o caso Camarate.
Uma obra a não perder, em abono da verdade.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

"Qual é o segredo?"



«(…) Isodoro Alonso nasceu em Santa Gadea del Cid, uma aldeia de 500 habitantes perto de Burgos, no seio de uma família muito católica (…)
Aos 18 anos foi como missionário para a América do Sul, de onde só regressou 18 anos depois, para ingressar na Cartuxa. “Nunca tinha visto o mar, até entrar para o barco e passar 20 dias no mar”. Na Bolívia e no Peru foi professor “de tudo”. Foram 18 anos de aventuras inimagináveis, de lutas religiosas contra os convertidos protestantes, de evangelização, de discursos, de discussões públicas para trazer os jovens para a fé… E de repente… o silêncio. (…) “Toda a minha vida tive este pensamento, de entrar para a Cartuxa. Tinha de o realizar”
Mas compreende por que razões já não há vocações. Uma vez, já depois de muitos anos de Cartuxa, Isidoro foi a um encontro internacional de priores Cartuxos em França. Na viagem pararam no Corte Inglês, para almoçar. Foi um assombro. O menu era uma confusão de nomes incompreensíveis. “Eu não sabia o que escolher. ‘Escolham por mim’, disse. ‘Deve ser tudo bom’” Comeram lavagante. “Uma maravilha! Depois as mesas, a decoração, tudo bonito. As casas de banho limpíssimas… Uma maravilha! O carro, um Mercedes, uma maravilha!”
Após uns dias de maravilhamento ininterrupto, o padre compreendeu por que ninguém quer ir para um convento.”Vive melhor hoje um pobre do que vivia um rei há 100 anos. Por isso as pessoas andam distraídas do que é importante, de Deus. Mas, depois, toda essa abundância material leva a um imenso vazio. E solidão. Sinto que as pessoas em Lisboa vivem mais sós do que os monges aqui, na Cartuxa” (…)»

Do livro “O Segredo da Cartuxa”, Pedra da Lua, citando o Frei Isidoro Alonso, Prior da Cartuxa Scala Coeli, Évora.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Sarkozy

Na sexta-feira passada, ao serão, alguns de nós, que escrevemos neste blogue, juntámo-nos para partilharmos algumas leituras de que gostamos muito. Lemos um texto lindíssimo da Raissa Maritain, da sua conversão ao cristianismo. Com uma escrita límpida, serena, com uma tal evidência que supera qualquer perspectiva céptica da existência. É um texto de uma iluminação absoluta, quase inalcansável nas suas premissas, só tangível numa atitude de acolhimento e de aceitação perante a vida. Mergulhámos em Péguy, " O pórtico do Mistério da segunda virtude", um dos textos mais assombrosos que os meus olhos alguma vez tocaram. Um livro para amar, chorar, o sabor do "gosto do pão". E no fim da sessão, noite dentro, a grande surpresa, um texto de Sarkozy. Um texto imenso, magnético, um relâmpago, flecha de cristal "mais un homme qui croit, c´est un homme qui espère". Foi pronunciado em Roma, penso que no final do ano passado, em S. João Latrão" Les racines de la France sont essentiell chrétiennes. Et la France a apporté au rayonnement du christianisme une contribution exceptionnelle". São afirmações surpreendentes em catadupa " le fait spirituel, c´est la tendance naturelle de tous les hommes à rechercher une transcendance" que não são pertença do espaço público político dominante. Este texto é um desafio, uma interrogação, uma folha de aço a brilhar. É uma urgência lê-lo, uma urgência meditá-lo. É uma estrela que caíu como no filme de Capra. Que rasgou a noite e gerou a inquietude.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

História de algibeira (25)

Na imagem acima, o Benz da Casa Real, de 1907. Este automóvel foi utilizado pelo Rei D. Carlos e conduzido pelo motorista Luís Francisco, o "Ponta da Unha". O célebre Benz ainda serviu o Rei D. Manuel II. Depois da proclamação da República, com o Presidente Manuel de Arriaga "ainda subia envolto em densa fumarada a Calçada da Ajuda com força e potência do seu motor mas já sem o brilho e o aparato dos bons velhos tempos".

In Apontamentos Memoriais de João Pinto de Carvalho.

Notas e imagem daqui

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Rui Ramos, hoje no Público

Obrigado aos “sábios” de Roma

«Há dias que quase toda a gente os anda a condenar. Parece-me que chegou a altura de lhes agradecer. Falo dos “sábios” que a semana passada, guiados por um velho estalinista e apoiados pela polícia de choque da “antiglobalização”, dissuadiram o Papa de visitar a Universidade La Sapienza de Roma. No fim, deram-nos a todos um pretexto para rever matéria sobre teoria e história da tolerância. Não era esse o objectivo? Foi esse o efeito. E permitam-me que também aproveite a boleia. Quem sabe? Talvez os “sábios” tenham aprendido alguma coisa e não nos proporcionem tão cedo outra oportunidade.

Parece que há gente, na Europa, a quem as religiões voltaram a meter medo. Depois do 11 de Setembro, a religião tomou o lugar que o nacionalismo tinha no tempo da guerra da Jugoslávia. [...] Enganaram-se de século? É por hábito? Ou dá-lhes mais jeito mostrar contra o Papa a coragem que lhes falta perante os jihadistas? Pois: morrer pelas ideias, mas de morte lenta. Sim, na Europa, até ao século XIX, as igrejas de Estado resistiram ao pluralismo e à sua expressão. Mas a intolerância e a perseguição que milhões de europeus sofreram nos últimos duzentos anos não se ficaram a dever às religiões tradicionais, mas às modernas ideologias laicas. Os deuses dos que não acreditam em Deus foram sempre os mais sedentos. Em nome do Ente Supremo, da ciência ou do racismo pagão, republicanos jacobinos, marxistas-leninistas e fascistas “moralizaram”, proibiram e abasteceram largamente cemitérios e valas comuns. Os que prezam a liberdade de “errar” (e não apenas a de pensar “correctamente”) têm uma dívida para com quem criticou os velhos dogmas, como Voltaire, mas também para com quem resistiu aos novos, como João Paulo II. Neste mundo, a liberdade de pensamento não tem pais exclusivos. O fundamentalismo laicista trata toda a convicção religiosa como o vestígio absurdo de uma idade arcaica, intolerável fora do espaço privado. Mas a fé não é fácil, não é uma opção primitiva nem simplesmente um preconceito. Ou antes: pode ser tudo isso, mas pode também corresponder à mais forte exigência intelectual e à disponibilidade para enfrentar profundamente as mais difíceis de todas as dúvidas. Exactamente, aliás, como o ateísmo: há quem o viva como um dogma beato, muito contente consigo próprio, ou quem o tenha adoptado como a forma mais conveniente de não pensar. Muitos são hoje ateus pelas mesmas razões por que teriam sido beatos no século XVII. E se mandam calar Bento XVI é porque, há quatro séculos, teriam mandado calar Galileu.

[...] Numa cultura intoxicada pela hubris da ciência e das ideologias modernas, certas religiões conservaram, melhor do que outros sistemas, a consciência e o escrúpulo dos limites. O mesmo se poderia dizer da questão da verdade, que a ciência pós-moderna negou, sem se importar de reduzir o debate intelectual ao choque animalesco de subjectividades.

Não, não é preciso fé para perceber que das religiões reveladas (e doutras tradições de iniciação espiritual) depende largamente a infra-estrutura de convicções e sentimentos que sustenta a nossa vida. O seu silenciamento no espaço público não seria um ganho, mas uma perda. No dia em que não pudermos ouvir Bento XVI, seremos mais obscurantistas e menos livres. Obrigado aos “sábios” de Roma por nos terem dado ocasião para lembrar isto.»

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

O povo

Ontem foi Madrid, hoje foi Roma. Eles estão ali no lugar onde sempre estiveram. Antes foram os pais, os avós, a família, a terra e a história. Não é gente nova, não inventam nada, têm apenas o dom de estar no lugar da pertença e da sabedoria. E reconhecer que a atitude perante a existência, do âmago da vida, é participar no coração dos actos que são os nossos. Existem coisas que são nossas, que são de nós: a terra onde nascemos, os pais que amamos, a família onde crescemos, os filhos que vimos nascer, as orações que aprendemos, o mar onde mergulhámos, a memória onde atámos o nosso ser. Estas coisas são nossas, de nós todos, de toda a gente. São o sinal daquilo que fazemos, os elementos dos quais somos parte. Quando os vemos em Madrid ou na praça de S. Pedro sabemos que o nosso lugar é ali. Que fazemos parte desta família, que a nossa casa é esta. Que este é o nosso sangue, que o sangue dos nossos filhos escorre nessas veias. Que ali se constrói o mundo pelo qual trabalhamos e queremos ter. A grande luta do nosso tempo é estar ali. Do lugar dos que procuram, da busca. O mais difícil não é o caminho, o caminhar para a frente, é o caminhar de frente. Com a face desvelada e o coração dócil. Lembro-me de uma canção que ouvia aos meus filhos quando eram pequeninos: " Come sei bella Italia cosí senza giorni di pioggia".

As abelhas castelhanas

O apicultor estava desolado, as suas abelhas estão a desaparecer, morrem de fome e cansaço, vítimas de um poderoso enxame espanhol, cujas obreiras invadem diáriamente a fronteira, comem o pólen lusitano e dizimam as nossas compatriotas! Verdade que a abelha nacional não estava preparada para tal concorrência e quando lhe falaram de europa não percebeu que isso soava ao toque da antiga trombeta castelhana! E assim, distraída, pensando apenas no mel dos subsídios, esquecendo que de Espanha... ‘nem bom vento nem bom casamento’, a pobre abelhinha lá vai definhando à espera de um Condestável, que tarda!
Mas se as colmeias portuguesas estão em crise, mais a sul, a situação é diferente. Em pleno Alentejo, as terras abandonadas pelas ocupações de Abril e pelas experiências colectivas soviéticas, estão agora recobertas de extensos e viçosos olivais, propriedade castelhana, que prometem produzir o melhor azeite espanhol da europa!
E nós… ‘vamos cantando e rindo, levados, levados, sim...’

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Memórias urbanas

Sempre que necessito deslocar-me dentro de Lisboa, o meu transporte favorito, se por lá passar, é sem dúvida o Metro. Mas quando tal não é possível, o Táxi é uma solução bem eficiente, em certos casos até económica, se considerarmos os preços do estacionamento. Se com alguma sorte o motorista não for excessivamente intrusivo, esta alternativa torna-se até quase perfeita. Mais, quando algures na cidade procuro um Táxi, e se puder escolher, garanto-vos que escolho um Táxi "verde e preto", que é a cor verdadeira dos táxis. Assim como quando eu era pequeno considerava que o português era "a" língua “verdadeira” e aquelas incompreensíveis verborreias dos filmes de TV umas exóticas e deficientes tentativas de comunicação, os táxis beges são para mim uma espécie de degeneração estrangeirada dos “verdadeiros” táxis. É que, no meu tempo de criança, um Táxi era simplesmente um Mercedes 180 "verde e preto", de bancos corridos em cabedal e com uma fascinante manete de mudanças saída do volante cor de marfim. Quanto muito nessa altura cheguei a admitir a modernice dos “Datsuns”, umas revolucionárias banheiras com rodas que apareceram nos anos 70… mas sempre na condição alegre e tradicional do “verde e preto”.
Depois, nos anos 90, umas luminárias cá do burgo (nunca entendi bem a verdadeira história) decidiram que se pintassem todos os táxis de "cor-de-burro-quando-foge”. Hoje, é com uma confortável satisfação que vejo crescer o número de táxis “verdadeiros” na minha cidade. Coisas minhas, coisas cá deste intrépido e incurável conservador.