quarta-feira, 26 de março de 2008

Uma raça perigosa

Eu ainda disse para fecharem as universidades, era uma maneira de estancar a degeneração, mas ninguém me ouviu, houve até quem insinuasse que se tratava de uma manobra para acabar com a raça dos doutores, espécie protegida como se sabe.
Sugeri então que se encerrasse a escola pública mais o seu monstruoso ministério! Que não, que não podia ser, onde é que se encaixava aquela mole imensa, era o desemprego, a miséria, o país não resistia! E o que é que se fazia a tanto professor?! Admiti o excesso e recuei, mas não deixei de resmungar: - para ‘ensinarem’ que o Dom João VI tinha ‘fugido’ para o Brasil, não eram precisos tantos! Bastava um casal para perpetuar a raça! Eu bem sei que muitos estão inocentes porque os conteúdos fazem parte da propaganda do ministério… e do regime! Bem, mas não podendo ser pelas razões caritativas expostas, há que encontrar uma solução rápidamente. Eu tenho uma ideia, aliás, duas ideias, a saber: partindo das actuais características da raça, resultado de um inesperado cruzamento de um dogue com um bovino, sabendo que atacam quando estão telemóveis por perto, e preferem o piercing ao açaime, eu tentava adaptar a prevista legislação sobre raças perigosas às escolas. E quanto ao piercing, em lugar de proibir tornava obrigatório o seu uso na orelha, mas com chip.
Se esta ideia não resultasse, avançaríamos para a outra, menos rápida mas mais radical: estou a pensar numa sábia combinação entre o aborto, a eutanásia e uns incentivos para casamentos homossexuais. E acabava-se de vez com esta raça perigosa.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Semana Santa

Em direcção ao escritório, no meio do transito implacável, oiço as notícias do mundo em ebulição. A chuva bate forte sob as nuvens pesadas e tristes. A guerra, a governança, a bola, a economia, reverberam nos altifalantes do rádio enquanto o país que se prepara para alvorar pró Algarve, pró Brasil ou simplesmente prá “terra” nestas mini-férias de Páscoa. A minha terra é Lisboa e eu ficarei por cá.
Então vem-me à memória um tempo em que, na família e no bairro, vivia-se uma Páscoa cristã. Pondo-me a pensar melhor, se calhar isso era apenas uma ilusão minha, provocada pelo o ambiente familiar que reflectia uma certa sobriedade própria da Semana Santa. Em minha casa ou nos meus avós, os rituais preparatórios da grande celebração cristã marcavam aqueles dias, e o melhor que podia acontecer naquele tristonho início de férias, era uma futebolada com os colegas da catequese no adro da igreja, entre uma manhã de Retiro espiritual e a Celebração Penitencial. A televisão e a rádio também espelhavam aquele tempo de recolhimento, com muita música clássica, longas metragens bíblicas ou alguma série histórica. À Sexta-feira nem publicidade passava.
Com isto não quero dizer que nutra particular saudade por essa época, ou que tais modos políticos fossem especialmente virtuosos, antes pelo contrário. Reconheçamos que também não serviu para nada o facto de então todo o país ver teatro à segunda, cinema à quarta ou Nemésio ao Domingo. A incivilidade e o atraso cultural permanece aquilo que todos sabemos.
O que é facto é que hoje sinto falta de parar um pouco, de um pouco de silêncio... Que parasse por uns dias toda esta atordoante alienação sonora e visual em que sobrevivemos. Parece-me que há barulho a mais, propaganda a mais, correria a mais, um ambiente que condena os mais incautos à mais básica exterioridade. Nada predispõe ninguém a uma pacifica oração, meditação ou escuta interior. E é pelo coração que ouvimos, entendemos ou descobrimos o que demais importante a vida tem para nos revelar.
Para os cristãos é então tempo de parar, pois é para o coração que Jesus nos fala e assim nos redime. É pela nossa felicidade que um silêncio interior se torna urgente.

quarta-feira, 19 de março de 2008

o menino

De dentro do caixão a mãe quase o erguia:"meu filho, meu filho". Tinha os cabelos desalinhados, perdidos, a mão estendida num gesto inócuo. A camâra mortuária era um silêncio, um véu de fogo. As crianças da turma juntavam-se a um canto, o silêncio era uma ferida, um golpe na alma de cada um. Ninguém dizia nada só o choro estendia o que sobra da linguagem. Quando os professores chegaram, a mãe correu para o presidente da escola. Ficaram assim abraçados, um tempo infinito, o que resta de cada um. Mais tarde, não sei quantos minutos, chegaram os escuteiros, a catequista e os companheiros da catequese. O Prior pediu para rezarem. Houve um escuteiro que pegou na guitarra e cantou o Pai-Nosso e os outros a chorar. A oração penetrou a sala, cobriu as paredes e o que está dentro. Era como se a oração envolvesse o nó do mistério, o nó da morte. A mãe olhava de frente, um olhar denso, e rezava com a voz clara. Sem medo era o jugo da esperança, do que está depois e antes. O rosto da mãe era um traço, uma comunhão. Do seu filho que morreu na aula de ginástica aos treze anos. Voltou novamente ao caixão e deu-lhe um beijo na face. Olhava o filho com paixão e amor e rezava a Avé-Maria com a voz limpída, o lastro da fé.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Catequese em forma de ícone

O ícone da Nossa Senhora da Paixão, ou do Perpétuo Socorro, é uma catequese magnífica sobre o Amor. Este ícone conta-nos uma história: Jesus menino acaba de ver a cruz e, assustado, corre para os braços de sua Mãe. Tão grande foi o seu sobressalto, que perde uma sandália. E pergunta a sua Mãe:

- Mãe, isto é para mim?
Maria não O engana. Responde-Lhe com verdade: “Sim, Jesus, isto é para Ti”.
- Mas eu não quero! - responde Jesus.
Maria, então, pergunta-lhe - Jesus, quem traz a cruz e a lança?
- Uns anjos - responde Jesus.
- E quem é que enviou os anjos?
- O meu Pai.
- E o Teu Pai pode enviar-Te alguma coisa má?
- Não.
- Então, Jesus, aprenderás a amar, ainda que uma coroa de espinhos Te cinja a cabeça e não compreendas o mal que te causa; ainda que uma lança atravesse o Teu coração e entregues tudo o que há nele; ainda que cravos Te atem as mãos e já não possas fazer mais nada senão amar. Porque quando ames com todo o Teu coração, com Toda a tua mente e com todas as Tuas forças, então viverás para sempre.
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Adaptado de uma mensagem de correio electrónico

quinta-feira, 13 de março de 2008

Do preconceito ao pecado

Ao contrário do que consta por aí não foi decretada pelo Vaticano uma "nova lista" de pecados mortais. O equívoco baseia-se numa entrevista do Bispo D. Gianfranco Girotti ao jornal do Vaticano L’Osservatore Romano, na qual o prelado, pertinentemente, aborda as novas formas do “pecado social”. Que eu saiba, os dez mandamentos ensinados pelo catecismo da igreja são suficientemente abrangentes para as mais imaginativas formas de corrupção humana.
Não sei em quantas casas portuguesas ainda se fala do pecado, um conceito que o contemporâneo caldinho de cultura e as mais diversas formas de relativismo puseram fora de moda. Na minha, onde se promove a vivência do modelo de Cristo, o assunto “pecado” não é tabu, porque achamos que para enfrentarmos os “bois” temos que chamá-los pelo seu nome.
Estranho bastante a cultura vigente, rápida na denúncia da violência abstractamente considerada, uma cultura que sofre com as estatísticas, por exemplo, da violência doméstica, mas que parece menosprezar o facto de esses números, que são agressões, terem origem em actos concretos, da responsabilidade de pessoas concretas e que vitimam seres de carne e osso, como nós. É normal e legítimo reclamar contra a corrupção, desonestidade e falta de princípios das pessoas. É vulgar e legitimo a denúncia dos problemas pessoais e sociais causados pelo consumo de drogas ou álcool. É de bom tom protestar contra a guerra ou contra a xenofobia, e indignarmo-nos com a simples existência de mães adolescentes ou mulheres que abortam.
A questão, é que por detrás de cada drama como os que referi, está um comportamento, um acto mal medido, mesmo que explicável pelas circunstâncias. Que não deixou de ser um equívoco, uma “falta”, um desvio à individual vocação de cada um para a íntima bondade e público bom senso. Equívocos, faltas e desvios, apesar de tudo, voluntários e, nessa medida, merecedores de uma censura que mais não é do que o reconhecimento de que outro comportamento deveria ter sido adoptado por aquela pessoa concreta. Com a sua história, com a sua estrutura e com o seu contexto. Isto, na minha linguagem, chama-se “pecado”. Resta salientar o mais importante, que a verdade do pecado, para o cristão deverá ser tão relevante quanto o perdão. Uma graça decisiva para o processo individual de crescimento, para quem tem fé, um árduo e exigente caminho para a redenção que alcançamos pelo amor do nosso Deus. E isto é uma coisa boa.

Ao Nuno Pombo um grato abraço.
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Publicado também no Corta-fitas

Reflexões sobre o tempo que passa…

Não foi apenas um debate, foram os trabalhos preparatórios de um futuro acordo, trabalhos que se iniciaram seguindo o antigo ritual de um medir de forças em que os adversários, agora proponentes, simulam alguma animosidade, esgrimem argumentos, mas sem estocadas perigosas ou fatais. Para isso e por isso lá estavam os melhores floretes da república, e não foi por acaso que do lado monárquico surgiu uma nova face, menos crispada e mais cordata, que não extravasasse a emoção de um aguardado ajuste de contas.
Pois bem, o debate decorreu neste clima e neste clima é mais fácil perceber que a velha república afrancesada, aquela que ainda recita Rousseau e gosta de entoar a marselhesa, essa república está esgotada. Em três horas de debate, durante noventa e oito anos, foi incapaz de explicar, e explicar-se, porque é que nunca se sujeitou a ser sufragada, ela que resiste no último argumento de que tudo o que mexe deve ser sufragado!
Do lado monárquico, também não valia a pena terem invocado os índices de desenvolvimento ou quaisquer rankings europeus ou mundiais que asseguram a superioridade das monarquias sobre as repúblicas, porque o Grão Mestre do Grande Oriente Lusitano ali presente, sabe melhor que ninguém sobre o declínio da França, que se mede facilmente pelo declínio da língua francesa, como sabe também que o nosso declínio tem a mesma matriz, com uma pequena diferença: a França é mais rica e sempre vai organizando umas ‘uniões europeias’ à sua volta, que a vão sustentando! A nós também nos sustentam... só não sabemos até quando!
E foi por isso que o sempre atento Medeiros Ferreira percebeu que estavam a ‘tocar algumas campainhas’, não apenas no arraial monárquico mas noutro, ou noutros, mais submersos e perigosos, e sendo assim, à cautela, sempre é melhor dialogar com os monárquicos do que com os outros! E escrevo isto sem crítica, valorizando dentro do mesmo clima, e dentro do possível, as preocupações patrióticas sobre o futuro de Portugal.
Não importa quem as exprime.

sábado, 8 de março de 2008

Dia de Festa


Hoje é dia de S. João de Deus. E hoje celebramos 14 anos de Vale de Acór.

Como é grande a gratidão pelo Bem que esta Casa faz, e nos faz. Um Bem indiscutivelmente abençoado pelo “olhar” deste Santo de Montemor, que lhe abriu os caminhos!

E como forma de expressar esta mesma gratidão, que é realidade concreta na minha vida, aqui deixo um breve testemunho que escrevi recentemente sobre esta experiência de "ser" do Vale de Acór:

Em 14 anos de trabalho no Vale de Acór é para mim clara a confirmação permanente de que vale a pena acreditar na recuperação dos toxicodependentes. Retomar uma vida sem drogas, mesmo para aqueles casos que aparecem como desesperados, é sempre possível.

Sair da droga não é nada fácil. Assim é a nossa experiência aqui no Vale de Acór: dificuldades imensas, desilusões constantes, recaídas e desistências que surgem quando tudo parece ir bem, momentos difíceis sempre presentes.

Mas com tudo isto, também todos os dias há sinais concretos de uma outra realidade.

Porque não há destinos traçados e porque pode haver sempre uma outra escolha; porque o conhecimento sério de si mesmo e a confiança no outro transformam uma vida egoísta, fechada, destrutiva numa vida com verdade e com sentido; porque a experiência de uma relação autêntica com o outro, que nos olha nos olhos, abre caminho de mudança.

É esta mudança que por aqui vivemos.

E por isso continuamos a acreditar e a trabalhar, com seriedade e profissionalismo, mas também com a alegria, o empenho e a esperança que esta Missão nos exige.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Romper com as referências:

“Quando não há testemunhos exteriores que possamos tomar como ponto de referência, até os contornos da nossa própria vida perdem nitidez.”

A citação foi retirada do livro de George Orwell, “1984”. Não deixa de me causar uma certa impressão, que se trate, segundo o próprio autor, de uma advertência contra as sociedades totalitárias!

segunda-feira, 3 de março de 2008

Porque é que a Páscoa é tão cedo?

A Páscoa é sempre o primeiro Domingo depois da primeira lua cheia depois do equinócio de Primavera (20 de Março). Esta datação da Páscoa baseia-se no calendário lunar que o povo hebreu usava para identificar a Páscoa judaica, razão pela qual a Páscoa é uma festa móvel no calendário romano.
Este ano a Páscoa acontece mais cedo do que qualquer um de nós irá ver alguma vez na sua vida! E só os mais velhos da nossa população viram alguma vez uma Páscoa tão temporã (mais velhos do que 95 anos!).
1) A próxima vez que a Páscoa vai ser tão cedo como este ano (23 de Março) será no ano 2228 (daqui a 220 anos). A última vez que a Páscoa foi assim cedo foi em 1913.
2) Na próxima vez que a Páscoa for um dia mais cedo, 22 de Março, será no ano 2285 (daqui a 277 anos). A última vez que foi em 22 de Março foi em 1818. Por isso, ninguém que esteja vivo hoje, viu ou irá ver uma Páscoa mais cedo do que a deste ano.

sábado, 1 de março de 2008

"A Verdade torna-nos bons"

Os recentes comentários feitos neste blogue a propósito da edição do post do Pe Pedro sobre o entendimento de Alexandre Sokurovc acerca de Portugal e outros comentários que vão surgindo noutros postes, vêm pôr a nu um traço contemporâneo do modo de ser e de estar da personalidade de certas pessoas que, em geral, sabendo pouco substituem a sua ignoratio elenchi (ignorância do assunto) pelo império do argumentário ad hominem (argumento contra o homem).
A este respeito convém dizer o seguinte, que é óbvio, claro e distinto e que se refere ao conteúdo da tolerância e do tolerável:
Há uma extraordinária ausência de clareza quanto ao que se constitui como conteúdo ou matéria de tolerância. A tolerância é devida à pessoa, não, em caso algum, às ideias. Há uma tolerância humana que é imperativa, fundamentada na dignidade humana, mas não há lugar para a tolerância cognitiva. O erro conceptual ou eidético, quando ocorre, não é tolerável. É pura e simplesmente refutável. É imediatamente negado.
Consequentemente, os comentários infelizes, mal educados e absolutamente reprováveis publicados por anónimos exprimem, em primeiro lugar, uma indisfarçável anorexia intelectual que, seguida de orgulho incomensurável, desemboca no insulto fácil, máscara de fraqueza, que se poderá tornar patológica.
Há solução, contudo, para o problema. Passa por um processo de disciplina, melhor, por autodisciplina férrea na gestão do tempo em ordem à edificação do carácter forjado na dinâmica da leitura e da reflexão que lhe está associada.
Quem cultiva o saber frequentemente se depara com as alturas inultrapassáveis das suas limitações. Essa experiência não é desconstrutiva do carácter, mas edificante da personalidade, se entendida como desafio. Mas, por outro lado, vai emergindo em processo, um respeito profundo pela verdade e, consequentemente, pela responsabilidade que conduz à liberdade.
Sendo assim construído o carácter neste espaço titânico para escapar à ignorância, a prudência vai tomando lugar progressível, aí, onde outrora campeava a arrogância e a vaidade.
Cultivar-se também é aprender a amar. Quem se recusa a mergulhar no mar em tormenta do conhecimento, por desamor, aos outros não trará nunca a bonança. Daí a agilidade em que se expande a barbárie.
É que, como diz Bento XVI no texto que devia ter lido durante a visita à Universidade de Roma “La sapienza”, a propósito do sentido do questionar socrático, “… a verdade torna-nos bons e a bondade é verdadeira: tal é o optimismo que vive na fé cristã, porque a esta foi concedida a visão do Logos, da Razão criadora que, na encarnação de Deus, se revelou conjuntamente como o Bem, como a própria Bondade…”.
A Verdade torna-nos bons e a falta dela pessoas tristes.
E terminando por onde comecei: os comentários anónimos, infelizes e mal educados deixam-me triste… porque revelam tristeza.

“Com uma certa razão…”

Vasco Pulido Valente tem vindo a refinar com o tempo, o que significa que os momentos lúcidos são cada vez mais frequentes! Sobre o ‘mal-estar difuso’, que também glosei, escreve ele no jornal ‘Público’:

“ (…) Desde o princípio do século XVIII que Portugal quis ser ‘como a Europa’ e até hoje infelizmente não conseguiu. A cada revolução, a cada guerra civil, a cada regime, o indígena prestável, alfabeto, e ‘modernizante’ supunha que chegara ‘o dia’. E ‘o dia’ invariavelmente não chegava. (…) O português copiava com devoção o que via ‘lá fora’. Mas não saía da sua inferioridade e do seu atraso. No meio desta persistente desgraça, Portugal julgou três vezes que se aproximava da Europa: durante os primeiros tempos da ‘Regeneração’, durante o ‘fontismo’ e durante o ’cavaquismo’. Ao todo, trinta e tal anos de uma ordem política ‘civilizada’ e de um crescimento razoável. Mesmo assim, os fundamentos destes raríssimos milagres não eram sólidos. Nos três casos (embora com um ligeiro atraso), uma crise financeira pôs fim à festa e voltou a velha angústia nacional, a que por aí se convencionou chamar ‘mal-estar difuso’. O ‘mal-estar difuso’ é simplesmente o regresso à realidade. Portugal não tem meios para o Estado-providência e a espécie de vida que os portugueses reclamam. E como não tem, toda a gente se agita e ninguém faz nada com sentido. Esta fase também é conhecida.”

Este é um tema inesgotável mas por mais voltas que a gente dê… desagua sempre no Atlântico, e eu acrescentaria, na Lusitana Antiga Liberdade, única fórmula a meu ver viável (e foi) de garantirmos a existência ou sobrevivência de um país, à partida inviável.

Fonte: Jornal ‘Público’ de 29/02/2008.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Recado

"A tentação dos prudentes é a aceitação da falsa prudência, o consentimento secreto concedido ao pior, o medo que se chama amor da paz."

Jean Guitton

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

A história absolver-me-á

Fidel de Castro. Estudante nos bons colégios da oligarquia de Havana. Formado em direito, advogado determinado dos opositores ao regime do corrupto Fulgêncio Baptista, rapidamente tornado o porta-bandeira da pretendida revolução, fica senhor de Cuba em 1959.

Era um chefe. Quase 5 décadas completas de império, na ilha, dispensam qualquer necessidade de argumentar em favor da sua autoridade.
Desafiou, humilhou, resistiu, aos EUA. Mérito seu, certo. Mas, sandice também do país que se lhe opunha, sempre mais hábil nas coisas da tecnologia e logística do que nas subtilezas do jogo diplomático, na inteligência das relações e na criação de cenários favoráveis ás suas pretensões.
Recebeu incondicional apoio da URSS. Pudera! Ter um aliado ás portas da Florida não era coisa de somenos.

Mas Fidel foi grande sobretudo, na afirmação de uma nova mitologia. Todas as palavras sagradas da revolução (a começar por esta mesma) tinham um valor absoluto, quando propagandeadas nos paises dos outros: progresso, cultura, saúde, e principalmente liberdade...
Pai da revolução adoptou o feroz Che como filho da mesma. Quando as relações azedaram exportou-o. E todo o franchising fotográfico e ornamental anexo.

Mas é sobretudo na literatura, na literatura de suporte, que está o coração do milagre. Gerações de cubanos perseguidos por delitos de opinião. Prisões sumárias, condenações à morte, proibição de liberdade de religiosa, obstinação na ideologia deixando o seu povo à fome, traficando dólares, nesta fase final do regime, no turismo de prostituição. E tolerância máxima para Fidel na comunicação social.

Sim: A comunicação social é o segredo. Obstinada, corajosa, criativa, solidária, quando se trata de travar e expulsar um qualquer general que veio da direita. Compreensiva, boemiamente celebrativa, radicalmente anti-americana, passiva quando chega a hora de enfrentar Fidel.

Daí não podermos deixar de dizer ‘o rei vai nu’. Estranho que ainda ninguém se tenha lembrado de acenar para o que parece ser óbvio: Fidel já morreu. E para fazer a transição sem sobressaltos internacionais a coisa foi escondida. A prova do argumento? Não tardará 3 meses até assistirmos ao seu enterro de estado.
‘A história absolver-me-á’ escreveu um dia Fidel.
Duvido.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Alexandre Sokurov

Primeiro conheci-o através de Pai e Filho, um filme cuja rodagem passou por Lisboa. Mais recentemente, vi também Mãe e Filho, outro filme dedicado por Sokurov ao mesmo ciclo das relações essenciais. Porque é isso que ele tenta e alcança na sua obra. Com particular intensidade e génio, capta em imagens de imensa atenção e beleza o mistério e dignidade das pessoas. Sem a linearidade de personagens, sem a demagogia do sensual, sem a redução do humano ao psicológico, eis que nos é feita a dádiva de um cinema intensamente humano, porque intensamente dramático e invocativo. Da palavra e presença de um Outro.
Finalmente, a razão de ser deste post: um pequeno texto que me chegou ás mãos com as suas opiniões sobre esta pátria. Luminosas.

"É um país espantoso, talvez o mais misterioso da Europa. Em Portugal há uma qualidade que me impressiona muito, a tristeza. Muitos portugueses foram pessoas geniais. Portugal será dos países onde há mais génios que não são conhecidos. São pessoas tristes que vivem para si, uma qualidade de experiência pessoal que os diferencia dos demais. E um carácter nacional inacreditável. Digo isto por intuição e não porque me baseie em algum conhecimento particular. Vocês têm uma grande quantidade de energia escondida. (...) É muito fácil encontrar portugueses numa multidão de europeus, do mesmo modo que numa multidão de asiáticos é muito fácil descobrir onde estão os japoneses. (...) Quanto mais Portugal se juntar ao espaço europeu maior será a tragédia da cultura portuguesa, ela estará cada vez mais próxima de um estado de choque, porque precisa de dar azo aos seus sentimentos para se desenvolver. É muito complexo. As misturas são muito complexas. (...) As formas artísticas populares são muito complexas. Mas elas existem, estão lá. Por exemplo, se os espanhóis (falo de espanhóis porque estão aqui perto) vos impusessem a sua forma de vida, as suas imagens, a sua cultura, seria um caos. Em termos fincanceiros e económicos, a união europeia terá muitas vantagens, mas em termos culturais a ideia inspira-me muita desconfiança e alarme, acho que é uma tragédia".

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

O Douro e os outros dias

Caramba!!! Hoje o dia está tão bonito!
O ar, os cheiros, as cores, uma certa temperatura com que o sol nos acaricia!
Estes dias fazem-nos lembrar outros tantos, igualmente venturosos, em que semelhantes (ou díspares – que importa!), raios, cheiros, ares e cores nos entram pela alma adentro, como amigos que nos visitam…

… Quando os rapazes hoje transportavam às costas os cestos de roupa, no seu trajecto vindimeiro de a irem buscar ladeira acima, veio-me à memória, como tantas vezes vem, uns certos dias do Julho anterior em que nos foi dado o Douro pelas mãos de Deus, do seu servo e amigo Padre Pedro, e de um outro servo que não sabia bem que o era – Miguel Torga:

“Covas do Doiro, 11 de Setembro de 1981 – Diferentes em tudo, até no ofício, um ao serviço de Deus e o outro ao serviço dos homens [não sabias tu que não se pode servir Um sem servir os outros, nem verdadeiramente servir os outros, sem que se sirva o Um!], nunca o julguei capaz de semelhante comunhão. Vinha a seu lado num deslumbramento mudo, docemente embalado no carro, que parecia um pião tonto a rodopiar pelas encostas enjeiradas reflectidas no espelho sinuoso do rio. Mas às tantas não resisti. Num ímpeto de confissão, murmurei:
– Só tenho pena de morrer por causa desta paisagem…
E ele, como num eco:
– Também eu…”


Miguel Torga,
in Diário – XIII volume, Gráfica de Coimbra, 1983.


Muito grata, Pe Pedro, por nos ter dado o Douro como o sente!
E por este sulco de saudade que nos ficou no coração!

domingo, 24 de fevereiro de 2008

O 7º Dia

O teu corpo é o teu corpo e a tua alma é a tua alma e foste parte desta espécie que é o homem. Tiveste um nome que te deram e a junção de todos os teus actos foram recolhidos na bolsa de onde vieram. Agora não tens tempo, nem hoje, nem depois. Não tens parcelas, nem vasos foscos onde dorme o esquecimento. Vives na eternidade. Que é sempre o agora, antes e depois, no ponto onde tudo se junta dentro e fora do tempo. O que és e o que foste são os teus actos e nós somos a memória incompleta desses actos, o que resta de ti quando já não és. Somos a tua sobra, o teu testemunho, o dia que serás. Tu foste. Depois da morte vem a eternidade. Continuas a ser, mas já não és, agora és tudo, desde o teu pai e de tua mãe, desde o acto da Criação, desde o acto da Criação até ao fim dos fins, és o tudo que cabe no acto que é sempre o agora. Tudo está em ti, todos os teus actos dispersos e caóticos, perdidos e fortuitos, sáo um só. Juntos, uma gota de tudo o que és dentro da eternidade. Tu és o tudo de todas as coisas que se juntam. A memória é o pó, a saliva, a terra lambida. É o gesto da dor e do sofrimento de quem ainda não sabe. Resta-me a cinza: sentada no banco verde, ao fim da tarde, quando o tempo ainda era tempo e havia lágrimas, ouvi-te chorar e dizer-te a cor e o derrame. Rezo-te, Cândida, porque te desejo a eternidade.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Espanha

A afirmação da Conferência Episcopal Espanhola ainda não foi suficientemente aplaudida. É um gesto enorme, de coragem e fé. Num tempo onde tudo é igual, provisório e se cultiva a indiferença são precisos gestos deste tipo. De aprofundamento, de distinguir a essência. Entre o não e o sim há uma diferença: de qualidade, de visão, de afirmação. O que disse a Conferência Episcopal é muito simples: não se pode votar PSOE porque a nossa estrada é outra. Não afirmou pressupostos de carácter geral. Foi à base, á altura das coisas. Disse não. O que fez o PSOE não é nosso. E disse-o, como se dizem as outras coisas. É aqui que se ganham as batalhas, que se faz a separação. Existe, hoje, um conjunto de valores que derivam de interesses e não de necessidades reais ( veja-se, por exemplo, os números do aborto e de como as previsões estavam erradas). É que este tipo de cultura é quase imbatível: afirma a rotura, a separação, a suposta causa individual em detrimento da afirmação de necessidades públicas ( afirmar uma política pública de saúde não é uma exigência mais concreta que a suposta ligação legal entre pessoas do mesmo sexo?). Hà um mundo cultural fortíssimo que afirma isto: jornais, televisão, Hollywood (...todos apoiam Obama...), todos aceitam isto quase com deferência. É pena que pouca gente se indigne. Que pouca gente enalteça o gesto da Conferência Episcopal, que pouca gente questione a cultura que hoje é feita, que pouca gente afirme claramente um outro sim.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Tributo

Completam-se hoje quinze anos sobe a morte do meu pai. Deixou saudade e obra também. Luiz de Lancastre e Távora (1937 – 1993) dedicou-se largos anos à investigação histórica, com especial incidência nos campos da Genealogia, Heráldica e Sigilografia. Possuindo um elevado número de trabalhos publicados, duas das suas obras mereceram ser galardoadas, uma delas com um prémio internacional. Fez parte do corpo docente encarregado de ministrar os cursos de Iniciação à Genealogia e Heráldica iniciativa levada a cabo pelo I.P.P.C. através do Instituto Português de Heráldica e com o patrocínio das Universidades Clássica e Nova de Lisboa. Funcionário da Biblioteca da Assembleia da Republica, foi destacado para a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, onde, a par de outras funções, dirigiu as actividades do Projecto Arquivos de Família. Sócio efectivo do Instituto Português de Heráldica, da Associação Portuguesa de Genealogia, da Sociedade de Geografia de Lisboa, e da Associação dos Arqueólogos Portugueses. Galardoado com os prémios General França Borges (A.A.P.) e Salazar y Castro (Academia Internacional de Genealogia e Heráldica, com sede em Madrid).

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Uma cruz antiga

Houve um tempo em que velavas descalça, e os pés bonitos, (era preciso vê-los), sobressaíam no desconjunto da figura, e desse tempo, mais a voz rouca que bradava, ficou o teu retrato de mulher maltratada.
Houve um tempo em que amaste, e choraste, e voltaste a amar, da única maneira possível… ah, pois, os vícios, de mal a pior, não falemos nisso agora.
Houve um tempo em que foste menina e moça, como cantava Bernardim! Pouco sei da tua infância, mas se nunca me falaste nela, é porque não interessava. Ainda assim, deixa-me imaginar os olhos escuros rasgados e os sonhos claros alados de uma rapariga do norte!
Houve um tempo em que te conheci por dever de circunstância, tempo de lamber feridas, tempo de esperança, que foi crescendo até à insuportável ilusão de uma vida renovada!
Nesse tempo, candidamente, ofereceste-me um azulejo com o emblema que me agrada, uma cruz encarnada que pintaste sobre o azul do céu!
Depois, houve um tempo para tudo, para saíres e voltares, e partir outra vez, quase definitivamente, enquanto a tua cruz esmaecia, e é hoje um traço apenas de uma cruz antiga.

(memórias da Cândida)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

O Kosovo e o Escudo anti-mísseis americano

1º A Grande Sérvia conheceu o seu apogeu nos sécs XIII-XIV. Foi a época das famosas igrejas de cinco cúpulas, das gravuras sobre ouro, dos mosaicos, dos ícones e dos frescos. É também dessa época o ciclo das grandes epopeias nacionais servias do Kosovo, então parte integrante da Grande Sérvia. Porém, em 1389, nesse mesmo Kosovo, a nobreza sérvia soçobra face aos Turcos numa trágica batalha . Seguem-se séculos de dominação muçulmana. Os albaneses cedem: 70% da população abraça o Corão (note-se que os 30% restantes ainda foram a tempo de dar ao mundo, no séc XX, a Madre Teresa…). Idem com as gentes do Kosovo. Com outra tenacidade os sérvios resistem. Sobretudo em torno do Patriarcado Sérvio-Ortodoxo. Até que no início do séc (1815-17) retoma a sua independência, mas já então ‘dependente’ da protecção russa.

2º O Kosovo ‘independente’ será o primeiro país de maioria muçulmana na Europa (88% da população). Diz-se que outras 200 regiões por esse mundo fora aspiram a igual secessão. Passando por Taiwan. E também pelo País Basco e a Catalunha. Aliás, na própria Europa, para além de Portugal, raros são os países sem fracturas nacionalistas. Mesmo até na insonsa Escandinávia, como é o caso da Finlândia ou da Dinamarca.

3º Descobre-se aqui também uma total desconsideração da Europa como mapa cultural e religioso. Sobreleva-se a disponibilidade para pagar a factura de apoio a Israel e a tentativa de não excitar a vingança muçulmana. A Europa liberal (leia-se pós -e o mais das vezes anti- cristã) atropela as árduas costuras da sua própria história. Convidam-se os Turcos, Kosovares e amanhã os milhões de muçulmanos que por aqui já campeiam para nos ensinar a ser europeus. Como se houvesse alguma hipótese de perenidade fora da excelência que fomos buscar não à técnica, ao dinheiro ou aos militares (já frutos da civilização europeia e não causa da mesma…) mas a uma ideia de homem como pessoa, com dignidade e responsabilidades face à existência, inextrincáveis do apelo e do dom cristão.

4º Corriam os primeiros tempos da primeira presidência Bush. Ufano da excelência militar da sua pátria, e para a defender de ataques exteriores, o Presidente prometeu o escudo protector anti-mísseis: perfeito, inexpugnável, inultrapassável. Até que caíram as Torres gémeas. Atingidas por aviões que tinham levantado voo dentro do solo americano. Ou seja, dentro do tal escudo anti-mísseis!

5º Quem brinca nos Balcãs costuma aleijar-se. Muito! Lideres agarotados (vide o tosco Bush, ou os que se perfilam para o substituir, mas também o nosso standardizado Sócrates ou esse Zapatero desengraxado mental …) julgam que basta estender um pouco de arame farpado entre fronteiras e acenar com o abono da entrada na UE para aclamar os ânimos dessa gente. Não será assim. As vicissitudes são inúmeras nesses Balcãs de intensíssima história: tensão e violência, coragem, liberdade, desfaçatez, composição e recomposição.
Creio que o que hoje protege a América, e a nós também, é pouco mais do que muita burrice farpada.