segunda-feira, 23 de junho de 2008

Manias

Ter a mania que se manda e comanda é, arrisco-me a dizer quase inato no ser humano, e inevitavelmente "sai furado" muitas vezes...
Pensamos que vai ser ASSIM e depois não é nada ASSIM como pensámos, é aliás tudo ao contrário.
Depois vem a flexibilidade, a capacidade e adaptação ou não à situação, que normalmente nos obriga e bem, a sairmos da nossa comodidade, do nosso cantinho, do nosso aconchego e perceber que o mundo não gira de facto à nossa volta.
Com os filhos isto é notório, arrisco-me novamente (e já me estou a arriscar muito num texto só...) a dizer que é notório desde o primeiro momento, desde aqueles momentos em que pensamos que são totalmente dependentes de nós e que nós é que mandamos de facto neles.
E atenção, porque de facto parece-me que quem deve de facto mandar são os pais!
Mas... e quando não podemos mandar nada???

sábado, 21 de junho de 2008

Capacidade de brincar

Brincar é bom, e seria melhor ainda se soubessemos de facto "brincar" mais com a vida.
A Maria anda com a mania de se esconder, esconde-se por trás da nossa cama, mas não se esconde verdadeiramente... uma vez que se baixa, mas deixa a cabeça de fora para ver que a procuramos:) Pergunta o papá, (vendo-a perfeitamente!) "Onde está a maria? Não a vejo..." Ela risse, ri a bom rir e depois aparece, como se estivesse de facto desaparecida. A mãe entra no jogo, faz a mesma jiga joga e ela ri satisfeita. O mano ri-se também, mas olha para nós como se fossemos tontos... Deve pensar "mas eles não a estão a ver??? que pais taralhocos..."
Brincamos ao esconde esconde com os filhos, mas temos pouca capacidade de procurar quem está à vista de facto, pelo facto de ser adulto. Que mania que com os adultos não se brinca, quem disse?
Brincar é bom brincar:) É tão bom brincar!!!

quinta-feira, 19 de junho de 2008

"Por um dia fui irlandês!"

”A Europa do pensamento único não se pode queixar. Tem o que merece. A Irlanda-modelo, sempre referenciada como uma via de desenvolvimento a imitar, virou Irlanda-pesadelo. Neste referendo, os irlandeses disseram "não" à batota. Sim, porque é de sofisticada batota que se trata, depois de tantos e variados expedientes ao longo dos tempos. Aquando do "não" dinamarquês a Maastricht e do "não" da Irlanda a Nice, foi institucionalizada a prática do referendo pós-referendo, de maneira a dar uma nova e generosa oportunidade ao povo de se penitenciar perante o directório europeu. Tudo isto porque os eleitores do "não" (ao contrário dos do "sim"...) nunca estão suficientemente esclarecidos e por isso é necessário "educá-los" com mais referendos. Com a Constituição Europeia chumbada na Holanda e em França, a táctica mudou. Já não eram a pequena Dinamarca ou a Irlanda a bater o pé, mas a grande e soberba França. Por isso, em vez de um novo e punitivo referendo de resultado imprevisível, a solução foi um "novo" tratado, com a garantia de não se voltar a cometer a imprudência de dar voz aos eleitores. Por azar esqueceram-se não dos gauleses, mas dos irlandeses que, coitados, teriam que votar por obrigação constitucional. De início, a "Europa Única" estava descansada perante tão confortável margem das sondagens. Até se dizia, tranquilamente, que não havia plano B para um improvável "não" (em bom rigor, um plano C, pois que o B já se havia esgotado na esperteza de um tratado travestido). Finalmente, os irlandeses, que nunca foram militantemente eurocépticos como os ingleses e já haviam votado seis vezes antes sobre a Europa (cinco vezes "sim" e uma vez "não") tiveram a ousadia de rejeitar o tratado, numa consulta popular que ultrapassou em afluência todos os anteriores actos (cerca de 53%). Não deixa de ser espantosa a reacção dos grandes países e da Comissão. Dizer-se que o tratado não está moribundo é, em primeiro lugar, desrespeitá-lo, pois o que lá está escrito é que ou é assinado por todos ou não avança. Dizer-se que menos de dois milhões de eleitores não podem condicionar a vontade dos europeus é uma falácia, pois os outros povos não foram ouvidos e seria até provável que em alguns países se viesse a chumbar o tratado. Sentenciar-se que nestas consultas se vota mais a pensar na política nacional que na Europa é o argumento habitual para interpretar um "não", que todavia jamais vi referido para interpretar um "sim". Aliás, neste caso irlandês a quase totalidade das forças políticas no governo ou oposição estavam do lado do "sim" e nem se pode falar de um voto de protesto quanto à política interna. Inqualificável foi também a reacção de alguns líderes europeus (a começar pelo hegemónico eixo franco-alemão) ao repreender a Irlanda (recordam-se de algum puxão de orelhas aos franceses por ocasião do seu "não"?). A verdade é esta: o Tratado de Lisboa não exprime, ética e politicamente, um contrato envolvente, transparente e responsabilizador com os cidadãos. O tratado é uma charada quase indecifrável de remissões, excepções, alterações e repristinações que lhe retira um carácter desejavelmente comum e amigável. É um rendilhado técnico que introduziu 356 emendas aos 413 artigos do Tratado da UE e do Tratado sobre o funcionamento da UE, contém 13 Protocolos anexos com valor idêntico ao próprio tratado, mais 65 Declarações de Estados-membros relativas às disposições dos tratados! Uhf! Gostava de saber quantos deputados em Portugal terão lido tão vasta documentação aquando da ratificação parlamentar... Por tudo isto, a Europa do pensamento único não se pode queixar. Tem o que merece. Um voto "sim" numa consulta desta natureza implica uma explicação cristalina, transparente, acessível do que vai mudar. Na ausência de tudo isto, o "não" aparece como legítimo e natural. Com a agravante, na Irlanda, de ser perceptível que o Tratado de Lisboa favorece os Estados mais populosos e retira influência aos países mais pequenos. Um pouco de sensatez e humildade ficaria agora bem à ortodoxia europeia, de maneira a enxergar que afinal o problema europeu não é irlandês. É europeu! E, ironia das ironias, a Irlanda porta-estandarte do projecto de progresso, paz e democracia na Europa é agora quase convidada a uma separação. Tudo por causa do... povo se pronunciar livremente sobre um projecto de tratado que, no preâmbulo, refere a necessidade de "uma União cada vez mais estreita com os povos da Europa em que as decisões sejam tomadas ao nível mais próximo possível dos cidadãos" e no seu artigo nono que "a cidadania da União acresce à cidadania nacional, não a substituindo". Por medo, cobardia, apoplexia tecnocrática, diletantismo ou atestado de inferioridade conferido aos povos, o "gravy train" europeu não gosta definitivamente de dar voz aos cidadãos! Em Portugal, o Governo também mandou às malvas a sua promessa de "referendo popular, amplamente informado e participado"... Por tudo isto, e independentemente da minha posição de princípio pró-europeia, por um dia fui irlandês!”

António Bagão Félix
(Ex-ministro das Finanças)

Fonte: Jornal ‘Público’ em 19/06/08

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Irlanda não é porreira!

Tudo leva a crer que o ´não’ vença hoje na Irlanda deixando os tratantes de Lisboa à beira de um ataque de nervos.
Mal vista pelos ‘porreiros/pá’ nesta sua insistência (e obrigação constitucional) em referendar o Tratado, a Irlanda não quer ser empestada pelos abortos, eutanásias e casamentos homossexuais, o que para os burocratas de Bruxelas, para esquerda unida e afins, é considerado um pecado mortal. E já vão avisando que o processo de ratificação ‘para lamentar’ irá prosseguir normalmente nos restantes estados da união, porque para os ‘porreiros’ a democracia tem que ser bem utilizada, ou seja, o povo só deve votar se ganharmos alguma coisa com isso.
Nesta base, a Irlanda está orgulhosamente só!

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Mourinho

A Mourinho falta-lhe tudo: a grandeza, a força de espírito, o cheiro das maçãs depois da chuva. Mourinho não quis responder em Português: a língua da terra escura, do fel e da azia. Negou tudo: os socalcos, as caravelas e o livro do homem cego que escreveu a epopeia. Quando se está fora e se negam as raízes, o vento desfere golpes mortais. Mourinho não tem génio. No desporto as vitórias não equivalem a linhas de poemas depois do sol cair. Ganhar é tudo mas a luta dos homens é mais bela. Aqui não existem histórias de provocação, de tácticas, de empresas de imagem , de marketing. Mourinho tem tudo isso, o resto e a inteligência. Ganhar pode ser a mais bela forma de demência. Mourinho na conferência de imprensa falou em italiano, em inglês, e quando um jornalista lhe faz a pergunta em português, escondeu os dedos e escondeu-os em tubos de mercúrio. A língua constrói a pessoa, é o segredo, a dádiva. Quando se diz o nome, nomeá-lo, - a água, a folha, o lírio - é dizer o que sei de mim na relação com as coisas. Negá-lo é um roubo, um abjecto. Um tempo que ama este homem é um tempo oco, à deriva, sem fundo.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Chartres

A catedral de Chartres é o mais belo dos lugares. De todos os lugares. Onde diante das pedras lavadas pela fé se coloca a essência: os homens, cada criatura e o Criador. Deus e o Homem. Este diante do Pai, à procura do Pai. Tudo é grande, desmesurado, imenso, ampliado. Deus está dentro, no lugar de Deus. Uma catedral, qualquer catedral, é o maior símbolo vivo da unidade do povo crente. Em Chartres existe cada homem em busca de si, à procura, imerso na história de outros homens que são a sua história. As pedras e os vitrais, a luz e a cripta de Chartres não são antigos, nem de hoje. São o lugar sempre actual do sacrifício e do amor, da fé e do saber, da busca e da presença, do testemunho e da glória. É o lugar actual de todos os tempos, da pobreza e do trigo. De homens esculpidos na História de Deus no Homem. A grandeza de Chartres não é o eu, o espelho do eu, a redoma do eu. É o eu projectado no lugar que afirma o que sou e a verdade mais funda que me habita. Em Chartres só existe a verdade: a luz que explode dos vitrais é a luz de Deus. Dentro, recortado pelas linhas da sombra e da claridade, só resta o silêncio, o longo silêncio da vergonha e da compaixão, da mentira e da redenção. Chartres é o Lugar. Todos o procuramos: um traço, um abrigo,um gesto, um beijo, uma palavra , um verbo. Seguramente que a sabedoria e o acolhimento da vida só se realiza quando encontramos um Lugar, peregrinação eterna. É Chartres. Lugar de Deus, do Homem, das lágrimas puras.
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Três notas sobre esta viagem fabulosa:
a) A missa na cripta da Catedral. Um longo corredor escuro ao fundo, pinturas do sec.XIII, o coração esmagado pela beleza da fé.
b) A lição antológica dada pelo Padre Pedro diante da Catedral, sobre a História da Europa e do Cristianismo nos séculos XII / XIII. Ficará gravada na memória para sempre.
c) Do lado direito da Catedral, a uns 4oo metros, encontramos um jardim e, descendo as escadas, no patamar inferior, à beira da estrada, uma pequena homenagem a Peguy, um dos maiores escritores do sèculo XX. Uma frase na parede frontal e o rosto de Peguy colado na pedra. A fronte, saliente, adivinha-lhe a inteligência. As heras quase cobrem a frase e o jardim está algo descuidado. Este tempo esqueceu Peguy, esqueceu a essência.

Um imenso obrigado a todos: a Sara, Catarina, Sofia, a Carla e o Nuno, o Abrantes, o Paulo e o primeiro de todos nós, o Padre Pedro.

terça-feira, 27 de maio de 2008

De sentir e do sentido

Têm sido muitas as páginas dedicadas ao tema ao longo da história humana: o sentido da vida.
A dificuldade em surpreendermos não apenas a natureza, mas também o sentido deste sentido, tem afectado e destruído muitos dos nossos.
É curioso, no entanto, que é frequente verificarmos que a aporia do sentido da vida se reveste de maior dor e sofrimento nos casos em que ocorre uma auto-conversão que, neste caso, funciona como uma redução do que há à estreita esfera do eu. O ensimesmamento que daqui resulta é mais frequente revelar-se com factos de abismo e de perdição do que de auto-revelação.
O segredo do regresso ao coração de si, enquanto movimento consequente de descoberta, é sempre uma demanda, não de si, mas de uma alteridade, o mais Intimo que o meu íntimo, no dizer agostiniano. Assim, a demanda do sentido do existir exige sempre uma relação que é sempre mais exigente, quando assumida radicalmente, do que estaríamos dispostos a conceder-lhe se nos eximíssemos a experienciá-la.
O que se segue diz melhor do que eu o que disse. Foi vivido:

“…Essa é uma certeza que tenho dentro de mim, que não é perturbada pela nova certeza: que querem o nosso extermínio. Também isso eu aceito. Sei-o agora. Não vou incomodar outros com os meus medos, não vou ficar amargurada se outras pessoas não entenderem do que se trata, para nós, judeus. Esta certeza não vai ser corroída ou invalidada pela outra. Trabalho e vivo com a mesma convicção e acho a vida prenhe de sentido, cheia de sentido apesar de tudo, embora já não me atreva a dizer uma coisa dessas em grupo. O viver e o morrer, o sofrimento e a alegria, as bolhas dos meus pés gastos e o jasmim atrás do quintal, as perseguições, as incontáveis violências gratuitas, tudo e tudo em mim é como se fosse uma forte unidade, e eu aceito tudo como uma unidade e começo a entender cada vez melhor, espontaneamente para mim, sem que ainda o consiga explicar a alguém, como é que as coisas são…

...E no entanto, Deus, não acho a vida desprovida de significado, quanto a isso não posso fazer nada. E Deus também não nos deve explicações pelas coisas sem sentido que nós próprios fazemos; somos nós quem tem de dar explicações. Já morri mil mortes em mil campos de concentração, sei de tudo e também já não fico apoquentada com novas notícias. De uma ou de outra forma, já sei tudo. E todavia, acho a vida bela e cheia de sentido…”
– Etty Hillesum, Diário, 1941-1943, Teofonias, Assírio & Alvim, págs. 217 e 211, edição com prefácio (luminoso) do Padre Tolentino Mendonça.

Etty Hillesum. Holandesa. Nasceu em Middelburg, na Zelândia, a 15 de Janeiro de 1914. A 30 de Novembro de 1943, a Cruz Vermelha comunicou a sua morte em Auschwitz. Não chegou a viver três meses no campo para onde a levaram a 7 de Setembro.

domingo, 25 de maio de 2008

A coragem do amor

Casaram entre palmas e bençãos, a noiva falou em milagre o noivo concordou e eu senti aquele aperto que se sente quando reparamos que nos falta alguma coisa.
A noiva falou de amor e elevou-o tanto quanto foi possível mas ele estava ali bem próximo acessível era só preciso um pouco de coragem para lhe tocar.
Invejo-lhes a felicidade, aquela que é feita de tristezas e alegrias.

(Casamento da Isabel e do Eduardo)

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Ontem,Hoje...e Amanhã?

« A razão de ser dos governos democráticos e republicanos
é o estabelecimento de toda a liberdade e de toda a
tolerância compatíveis com a ordem: praticamente em terras
da Europa latina, liberdade de cultos e tolerância religiosa
são expressões que equivalem a dizer que o cidadão é livre
de ser tudo quanto quiser, contanto que não seja católico (...)
O partido republicano, entre nós, não se tem contentado
em ser um partido político; tem sido também um partido
filosófico que, baseado no racionalismo positivista, repele
quase unanimemente a solução católica do problema dos
destinos humanos (...). A República, depois de implantada,
deixou de ser um partido para ser a nação: tanto pertence ao
ateu impenitente como ao católico piedoso. Não pedimos à
República o privilégio, mas o direito comum (...).
O futuro da República depende da paz religiosa.»

D. Manuel Clemente, citando Manuel Abúndio da Silva ( 1911 ) , no seu
livro Portugal e os Portugueses recentemente editado pela Assírio &Alvim.
Palavras lúcidas e proféticas, diz D. Manuel... e digo eu!

terça-feira, 13 de maio de 2008

A ex-colónia

Bob Geldof como músico é uma nulidade. Representa o pensamento de esquerda e as suas ilusões etéreas. É um artista rock e como todos os outros não é grande coisa. A América, da música popular, criou o blues e o jazz de New Orleans. O génio do Sul é um imenso tormento. A peso de ouro veio dar uma Conferência a Lisboa. E Geldof disse a verdade sobre Angola. A única verdade. Dizer mal do MPLA e da sua nomenclatura é um ultrage, uma ofensa, uma traição. A ex-colónia é uma barreira, um monstro com a maior taxa de mortalidade infantil do mundo. Só existe uma dor, um erro crasso. Que tenha sido Bob Geldof a dizê-lo e não outro. É aqui que se perde o carácter, a coragem, a solidão imensa com que os homens legitimam o futuro.

sábado, 10 de maio de 2008

Apito Fatal

Não é ainda o apito final, é um começo, um aviso, uma declaração de falência, o futebol luso é uma mentira, sempre foi. Esta verdade incómoda, desatada em zanga de casa de alterne, não é uma especialidade do norte, percorre o país de lés a lés, e seria bom que o sul sorridente, entendesse o que está a acontecer. Seria bom que todos percebessem que precisamos de fazer uma escolha decisiva, no futebol e no resto: ou continuamos a sustentar três fidalgotes na europa, à custa da miséria geral, ou aceitamos a nossa realidade, e em lugar de emagrecer o campeonato pedimos aos fidalgotes que façam eles dieta.
E o regime podia aproveitar para fazer também regime... de propaganda barata.
.
Registo de interesses: sócio e adepto, em regime de exclusividade, do Clube de Futebol "Os Belenenses".

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Directamente da obscura noite...

... este datadíssimo desenho animado produzido pela RTP nos obscuros anos 70 e que ditava o recolher obrigatório da miudagem. Suspeito que isto só acontecia com a cumplicidade da polícia de costumes - e dos meus pais que também estavam feitos. Estes Meninos Rabinos que antes de dormir se atreviam a “rezar a Jesus”, hoje, no mínimo seriam rotulados de ignorantes ou marginais... Ecos de uma época cinzenta e triste em que era possível conceber um família com cinco filhos, qui sas fruto dum deficiente planeamento familiar. Uma cambada de infelizes pois então.

Versão adaptada do original no Corta-fitas

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Este é o meu tempo

Tenho uma pequena fotografia minha, de 1968, onde eu, em grande plano e de olhos piscos estou sentado num minúsculo barco de borracha que (lembro-me bem) agilmente remava com as mãos, na praia em Vila Nova de Milfontes. Fazia parte de um conjunto de cinco retratos nossos, os cinco irmãos, e que por muitos anos estiveram expostos na sala da casa dos meus pais. Garanto que estas fotografias, hoje monocromáticas e em tons amarelados, um dia foram de uma coloração bem viva! Explico isto um pouco aflito às minhas incrédulas crianças... Foi obra do tempo, foi por causa da exposição à luz que a imagem foi perdendo qualquer rasto de cor… Como as folhas no Outono, as fotografias antigas perdem a cor. Como acontece com a vida?
Agora lembro-me das conversas que tinha com o meu irmão quando crianças, em que fantasiávamos sobre a infeliz infância e juventude dos nossos pais e avós… como se eles tivessem vivido e crescido num tristonho mundo a preto e branco, sempre de saias compridas e chapéu na cabeça. Comentávamos - na nossa doce ilusão - o privilégio de ter nascido numa idade de tanta sabedoria luz e cor. Esta ilusão provinha da nossa experiência, não só com o cinema mais antigo, mas da visualização dos álbuns fotográficos e antigas reportagens de família em super-8. Estranho mundo, aquele, tão formal e monocromático.
Noutra moldura na minha sala, tenho o meu avô homónimo, orgulhosamente acenando de dentro do biplano dos anos 30, com óculos e capacete à Barão Vermelho. Sem nunca ter possuído cor (será?!) esta imagem hoje, reflecte tanta modernidade quanto aquela minha no rio Mira, tirada no ano da chegada de Armstrong à Lua…
Alarmante é o que se passa com as fotografias digitais tiradas há menos de dois anos e afanosamente impressas em casa, na nossa fantástica HP. As minhas empenhadas provas de contemporaneidade estão assustadoramente a perder a cor. É do papel? Será dos tinteiros? Ou eu não controlo mais o tempo que passa? Aliás desconfio que os nossos miúdos consideram-se os únicos donos deste tempo, dos downloads, do IPod, do Harry Potter, do terrorismo muçulmano e do Hip hop.
Pela manhã, repito uma vez mais, pela milionésima vez os rotineiros preceitos higiénicos. E, ao espelho, passo a lâmina pela espuma branca, num gesto intemporal. E sem querer, reparo que o meu cabelo também está a ficar a "preto e branco"… Quero dizer: mais branco. Como nas fotografias, o original perde todos os dias a cor, sem se dar por isso. Mas o meu olhar sai de dentro do mesmo ser que há quase trinta anos no Liceu Pedro Nunes saltava o muro do Cemitério dos Ingleses para ir buscar uma bola perdida.
E, de pasta na mão, pronto para sair, fresco e “bem cheiroso”, despeço-me do pessoal e uma ponta de vaidade me assalta. O meu barco navega, este é o meu tempo, e o mundo mantém inalterável a sua paleta infinita de cores, mistérios, poesia e paixão. Graças a Deus.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

25 de Abril de 74?

Passados 34 anos a cangalha ideológica é a mesma, o rastreio do pensamento idêntico. Nada muda, os personagens de sempre, os discursos iguais. É esta a tristeza de Abril. Não haver o rasgo, o gesto, a denúncia. Os capitães, os militares, um referente que a história sedimentou. Nada mudou de Abril, os gestos solidificados na argamassa de um tempo que quis ser memória. Mas a memória só existe quando é presente, quando se actualiza, quando a História se diz do que foi. Mas nada disto existe no 25. Só os afectos das histórias apagadas que se querem recordações. A memória não é só recordação. É espirito vivo, interior, de dentro. Onde está o poema, o quadro, o filme, o choro? Onde está a alma e a eternidade para sempre? A memória é recordação quando é vida, quando se passa nas veias e na carne. O 25 de Abril não produziu uma obra de arte, o espanto, o arrebatamento, a grandeza. E esta é uma dor enorme, palha de aço. Quando um facto não produz e não é capaz de produzir um objecto artístico é porque morreu ou nunca existiu. Ou é um souvenir, objecto de plástico, eternamente infantil.

Dia de São Marcos


(...) Escrevo-te em vinte e quatro de Abril, em vésperas do Senhor São Marcos, um dos quatro que disseram da vida de Jesus e padrinho dos bois e dos boieiros de toda a Cristandade. Amanhã, perto daqui, numa engalanada ermidinha, à hora da missa, por entre os fiéis, um novilho de dois anos entrará pela nave acima até ao altar – mor. “Entra, Marcos!” – lhe gritarão os mordomos da festa, que com varinhas o irão tangendo, que o animal se poluiria se as mãos humanas o tocassem. “Entra, Marcos!” E junto aos degraus do tabernáculo, com as hastes enastradas de fitas e de ervas de cheiro, a rês, em vez de tombar sob o cutelo sagrado, em nome da verdade receberá a bênção da Igreja e nos cornos se lhe cantará o Evangelho do dia. “ Entra, Marcos!” E o engelhado Topsius que habitava dentro de mim acaba de descobrir que essa festa, que o Cristianismo conservou e santificou, tem raízes milenárias, descende da festa do touro que uma civilização pré-árica bronzífera, espalhou por toda a Europa. Mr. Homais rir-se-ia da ingénua solenidade e aproveitar-lhe-ia a origem para atacar a pobreza criadora do Cristianismo e a mentira das Religiões. Eu, como homem que estuda, solidifico com o facto a minha crença vendo nele um sinal claro dessa curva ascensional do homem primitivo para a Perfeição, que é Deus. “ Entra Marcos!” E hoje as ladainhas saem pelos campos – saíam – a rogar ao Céu pelo renovo primaveril, pela messe que se aformoseia, pelos frutos que despontam. Como Portugal estará lindo! – Exclamava na tua carta a tua nostalgia. – Como Portugal está lindo e como ele te manda saudades, meu amigo! Floresce o rosmaninho, a planta que soalha as igrejas em Quinta-Feira de Endoença e que, assistindo à cena do Calvário, perpetuou na sua austeríssima flor o sangue inocente do Cordeiro. (...)
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António Sardinha

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Em nome da esperança

Era previsível, "ninguém é profeta na sua terra", a cruz é o destino conhecido.
Nem esse antiquíssimo resistente, que sobreviveu à Igreja do Czar e à anti-Igreja de Estaline, conseguiria resistir à estreiteza paroquial!
E os outros, escribas maiores ou menores, sabei que os vossos escritos não são apreciados. Monárquicos nunca.
Nada que estremeça a verdade conveniente, servida e albardada naquela curva que a espinha pronuncia e é mais acentuada nos portugueses.
Este é o país do silêncio, da inveja, e do medo.
País desregulado, "sem rei nem roque", que faz justiça ao centurião - "Não se governam, nem se deixam governar"!
Um país que detesta o "Pai", onde Édipo espreita em cada esquina. Neste país habita um povo confuso, que enraíza a sua religiosidade na terra de todos os milagres!
País minguante, infantil, tem na bola o seu recreio, e honra diáriamente o "Portugal dos pequeninos"!
Pátria saldos fim de estação.
Mas é este o meu país, onde me cabe viver, e ninguém dirá - aqui jaz um viajante dos espaços que se enganou no seu tempo. O meu tempo é este, o meu espaço é este, não desistirei. A mensagem há-de passar.
Ergue-te pois companheiro, é hora de lidadores, acorda-me esse povo estremunhado, não vires a cara aos infiéis.
A nossa divisa mantém-se: - "morrer, sim, mas devagar".

quinta-feira, 17 de abril de 2008

REN suspensa

" O Município de Almada e as Juntas de Freguesia da Charneca de Caparica, Caparica e Trafaria apresentaram, no dia 17 de Março, uma Providência Cautelar ao Tribunal Administrativo e Fiscal de Almada contra a REN - Rede Eléctrica Nacional e contra o Ministério da Economia e da Inovação (enquanto Ministério no qual se integra o Director-Geral da Energia e Geologia).
Naquela Providência requere-se a suspensão do licenciamento do projecto "Linha de Muito Alta Tensão" (LMAT) Fernão Ferro - Trafaria, e solicita-se o impedimento de a REN continuar os trabalhos de implantação, construção, ligação à rede eléctrica e todos os demais trabalhos conexos a efectuar na LMAT."
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Este é um assunto que já aqui abordámos e que teve, felizmente, uma evolução positiva, pois não nos esqueçamos que estão em causa questões fundamentais como o "direito á saúde e ao ambiente e qualidade de vida sadios" cabendo agora à REN encontrar alternativas para o actual traçado.
Uma pequena vitória contra a prepotência das super empresas estatais. E só não digo grande vitória porque temo que a morosidade da justiça portuguesa venha a frustrar mais uma vez os direitos dos mais fracos.
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Fonte: Boletim Municipal de Almada/Abril 2008.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Os fins e os princípios

Está a findar uma era, um ciclo histórico, todos os sinais o confirmam, e esse estertor sente-se aqui, na ‘ocidental praia lusitana’, como se sente no mundo inteiro. Talvez que na orla atlântica, por estar mais exposta às correntes oceânicas, esse desmoronar das ideias invencíveis surja com mais intensidade que noutras latitudes. O facto é que era impensável assistir na televisão pública ao anúncio de uma ‘abertura’ (foi a expressão utilizada) entre a Igreja Católica e a Maçonaria, incluindo nessa ‘abertura’ o Grande Oriente Lusitano!
Tal como aconteceu, aquando do recente debate sobre monarquia e república, também estou à vontade para me pronunciar sobre este novo cenário, não preciso de me reciclar ou justificar apressadamente, vantagem de ter adivinhado e proposto esta ‘ultrapassagem’, mas vantagem sobretudo por me rever na tradição da Lusitana Antiga Liberdade, e como tal, nunca ter poupado críticas à Maçonaria e à sua acção traiçoeira e nefasta para Portugal e para os portugueses. Pode dizer-se que é ela a grande responsável pela situação de decadência permanente em que vivemos, nunca abrindo mão da chamada ‘educação pública’ (que manteve no tempo de Salazar!) fórmula ideal para embrutecer gerações e gerações de estudantes com propaganda anti-católica e anti-monárquica. Compreendemos agora melhor o ‘estudante telemóvel’, ateu, ignorante e malcriado, como também compreendemos os ‘professores’ que desfilam e insultam a hierarquia, um esplêndido exemplo para a pequenada! Esta questão do ensino será por certo um dos pontos de clivagem (e a discutir), tal como sugeriu Dom Carlos Azevedo, porta-voz da Conferência Episcopal, que não evitou criticar também a Igreja Católica pelo seu silêncio (e cumplicidade) durante a segunda república.
Portanto, é bom que as coisas fiquem claras, se agora, face à derrocada eminente do regime, chegou o momento da Maçonaria pensar primeiro na Pátria do que nos seus interesses ocultos, pois então que haja abertura.
Assim a hierarquia Católica saiba estar à altura deste compromisso histórico.

terça-feira, 8 de abril de 2008

"Uma imagem de Portugal"


Porque tal como o Pe Tolentino Mendonça, também cá em casa quando vimos a fotografia no Público de Sexta-Feira passada ficámos com a respiração suspensa e com a cabeça e o coração em turbilhão. Porque quer a fotografia, quer o texto dizem muito acerca da Vida e do que se vive em Portugal e também porque, através de um dos técnicos do INEM a quem foi dado ajudar a este nascimento, conheci esta realidade logo no dia em que o bebé viu a luz deste mundo, não resisto a deixar aqui este GRANDE TEXTO a propósito do 8º prémio fotojornalismo Visão/BES com que hoje me cruzei no site da Ecclesia:

«Uma imagem de Portugal

Que Augusto Brázio é um fotógrafo fabuloso já o sabíamos. Diante da difícil prova que é fotografar um rosto ele sai quase sempre vencedor. E eu diria que é porque não o quer capturar. Mesmo próximos, os rostos mostrados por Brázio, mantêm a sua distância e reserva. Olham para nós, mas a partir do que lhes é próprio. Por isso, nunca são planos, nem banais. Porém, mesmo sabendo isso, a fotografia com que ele acaba de ganhar o prémio fotojornalismo de 2008, tirou-me, por momentos, a respiração. Sem perceber como, os olhos já estavam embaciados, e o tempo corria sem que eu tivesse coragem de passar à notícia seguinte.

A legenda da imagem diz: “O INEM presta assistência a uma mulher de 19 anos cujo terceiro filho acaba de nascer em casa. Lisboa, Fevereiro de 2007”. “A mulher de 19 anos” é uma rapariga de um dos bairros pobres da capital, estendida numa maca de ambulância, a cabeça reclinada ao lado direito, presa a uma máscara de oxigénio, enquanto abraça com delicada firmeza o seu recém-nascido. Ela tem uma camisola ou um roupão rosa e o filho está (como o Outro Filho, de que reza a história) “envolto em panos”, de cor azul.

Quem já contemplou uma “Madona con il Bambino”, de Rafael, Boticelli ou de qualquer um dos grandes mestres já viu tudo o que aqui tem diante dos olhos. O mesmo grito impávido, um inenarrável desamparo, o mesmo abraço fragilíssimo e poderoso àquele que gerou. E a certeza de que nenhuma história é mais humana e mais sagrada do que esta. Mas, nem por isso, perante esta fotografia nos deixa de sobrevir uma vontade de chorar.

Portugal é um país estranho. As estatísticas dizem que o número de pobres não deixa de crescer, e o desnível económico entre os grupos sociais é um dos mais altos entre os países da Comunidade. As notícias sobre compensações e reformas milionárias chocam-nos cada vez mais remotamente. A euforia de um liberalismo arcaico, travestido de modernidade, aparece como receituário. E a inconsciência social ganha espaço como se fosse uma fatalidade. A imagem de Augusto Brázio vale por milhares de palavras.


José Tolentino Mendonça»

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Um dia e outro

A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) divulgou na Sexta Feira passada que recebeu quase cinco mil queixas relativas a maus tratos a idosos em 2005, dez vezes mais do que em 2000, em que o número não chegou às 500 queixas. Um número que, segundo aquela associação, continua a aumentar.
Em declarações que ouvi na telefonia, Joana Marques Vidal, procuradora geral adjunta e Presidente da APAV, referiu que os idosos são agredidos com atitudes humilhantes e vítimas de grande pressão psicológica.
Afirmou ainda que é frequente aparecerem casos em que as pessoas mais idosas são alvo de frases como «não tens capacidade para isto», «és um velho, não prestas para nada» e «se não te portas bem, vais ver o que te acontece».
As frases dirigidas contra os idosos que são conhecimento da APAV chegam mesmo a desejar a morte dos mais idosos, ameaças que Joana Marques Vidal diz serem «constantes e repetidas dia-a-dia».
Comentando esta terrível realidade, Fernando Nobre, presidente da AMI, aludia à seguinte lenda, que me parece elucidativa do quanto real é a velhice, quer nós queiramos, quer não:
«Em tempos havia uma terra onde os filhos costumavam levar os pais velhos, que já não podiam trabalhar, para o cimo de um monte, para eles ali, sozinhos, terminarem os seus dias.
Certo filho, em determinado dia, assim fez com o seu velho pai, levando-o até ao cimo do monte.
Foram caminhando, até que chegaram ao local.
Antes de deixar o pai, o filho entregou-lhe uma manta para ele se cobrir.
O pai rasgou a manta ao meio e deu uma metade ao filho. Este, intrigado, perguntou: “para quê, meu pai?” – e o pai respondeu: “para te cobrires quando chegar a vez do teu filho te trazer a ti. É que ele pode nem sequer te deixar uma manta”
.
O filho reconsiderou e mudou de ideias, levando o seu pai consigo de regresso a casa».
Começamos a envelhecer no momento em que nascemos e a todos – às famílias, ao Estado, através do apoio efectivo àqueles que cuidam dos seus idosos, nomeadamente na implementação de uma rede de cuidados continuados, às entidades patronais, conferindo direitos aos trabalhadores que têm idosos a cargo, às instituições sociais, …- cabe cuidar dos mais velhos.
Também não deixa de ser elucidativo que estes dados tivessem sido revelados um dia antes da data em que se encerraram em Setúbal as comemorações dos 120 anos do nascimento do Padre Américo, que dedicou a sua vida àqueles a quem todos abandonaram ou foram até pela natureza abandonados. O quanto actual é a sua obra. Lembro não só as Casas do Gaiato, mas também o Calvário, destinado a doentes incuráveis que ninguém quer. Nesta instituição conheci em tempos um rapaz de cerca de 20 anos, deficiente profundo, que após cada ingestão de alimentos, ainda que muito pequena, como que “ruminava”, porque tinha vivido grande parte da sua vida num estábulo, juntamente com as vacas.
Curiosa a ocorrência que num dia diz da violência que o mundo pode fazer a si próprio e, no outro, lembra quem desdiz a desesperança. E são muitos os que insistem em desesperar. Vasco Pulido Valente escreve na sua coluna de opinião de Sábado passado, a propósito do calibre dos conteúdos televisivos, fazendo eco deste clima nihilista, que “na ausência consoladora de uma outra vida, a miséria desta atrai o Ocidente”.
Alguns dos que por aqui passarem serão com certeza testemunhos, no seu quotidiano, desta esperança que conhecemos e que caritativamente é levada aos outros. Bem hajam por alumiarem com a vossa vida as vidas alheias.