sexta-feira, 27 de junho de 2008

Para descontrair...


A doença encarnada

“Primeiro estranha-se, depois entranha-se…” passe a ilustre publicidade a uma cerveja qualquer, a verdade é que sucede comigo esta coisa estranha: uma palavra, uma frase, uma imagem… e lembro-me logo do Benfica! Por exemplo, fala-se em Vale e Azevedo, esse estranho réu, acossado pela justiça depois de deixar a presidência do Benfica… e lembro-me naturalmente do Benfica!
Fala-se em árbitros e ‘apitos’ e eu imagino a inocência do Benfica! Fala-se em certidões e certificados, vejo o congresso do PSD, oiço a Manuela Ferreira Leite, que é do Sporting, e lembro-me outra vez do Benfica! Mas há palavras e associações menos óbvias que imediatamente me fazem lembrar o Benfica: semi-reboques, o pó dos pneus, lavandaria Alcides, rolhas Madaíl, até o Platini e a sua juventude, me fizeram por estes dias pensar no Benfica! Enfim, um horror.
Esta doença, incurável em Portugal, só me dá descanso quando entram em acção os outros doentes encarnados, sábia e profusamente distribuídos pela nossa comunicação social. Seja pela maior gravidade da doença, seja o meu egoísmo entranhado, parece que as maleitas dos outros acabam por aliviar as minhas penas!
Saudações azuis.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

O mundo, o gasóleo e os miudos


Dizia Carl Rogers que "Aos mais novos devem ensinar-se as verdades mais antigas" e dizia Chesterton que "os adultos realizados de hoje fazem aquilo que querem pois quando eram crianças não foram livres de fazer o que lhes apetecia".
Ora aqui está pano para mangas de pensamento (será que isto se diz?) então mas e a tecnologia? O aumento do gasóleo e todas as suas consequências? Os computadores? As "Psp", os mp3 e...?
Estamos nos tempos modernos, porém, talvez todos os tempos se tenham denominado modernos na altura que eram tempo...
E se não era o ruca era a barbie, se não era o action man era o tom sawyer (sim, nós gostávamos, mas vamos analisar: o melhor amigo dele vivia numa árvore, era um sem-abrigo, estavam sempre a faltar à escola... será que "antigamente" é que os desenhos animados eram educativos?).
Muitas coisas mudam, quase tudo, e na educação dos miudos os estímulos estão em constante mutação. Surgem coisas novas todos os dias, tintas para o banho, computadores falantes, livros mirabolantes...
Mas por muito que aumente o gasóleo há valores que vieram para ficar. Valores que sempre foram importantes na educação do ser humano e que continuarão o seu trabalho se nós pais formos capazes de os passar para que os nossos filhos sejam verdadeiros homens e mulheres, realizados e que "fazem aquilo que querem" na idade adulta.
Se uma criança mente e se a mentira não é corrigida como devemos nós esperar que em adolescente não nos dê a volta? Se com 1 ano não é incentivada a arrumar o quarto, como poderemos imaginar que vá ser uma pessoa ordenada? Se faz o que quer, como vai adquirir a virtude da obediência???

segunda-feira, 23 de junho de 2008

O brilho da política

“Falhei, falhámos… há-que dizê-lo” e estas palavras ecoaram na sala de congressos com a grandeza das coisas simples! Angelo Correia ressuscitava a política e eu que olhava distraídamente para o televisor fixei-me no discurso de despedida do velho tribuno social democrata: “Saio de palco… mas não saio da política… continuo no PSD… ‘não viro casacas’… e se nos próximos combates precisarem de mim… chamem-me que eu vou… é disso que eu gosto”!
O congresso emocionado, eu também… a política sem emoção não é política.

Manias

Ter a mania que se manda e comanda é, arrisco-me a dizer quase inato no ser humano, e inevitavelmente "sai furado" muitas vezes...
Pensamos que vai ser ASSIM e depois não é nada ASSIM como pensámos, é aliás tudo ao contrário.
Depois vem a flexibilidade, a capacidade e adaptação ou não à situação, que normalmente nos obriga e bem, a sairmos da nossa comodidade, do nosso cantinho, do nosso aconchego e perceber que o mundo não gira de facto à nossa volta.
Com os filhos isto é notório, arrisco-me novamente (e já me estou a arriscar muito num texto só...) a dizer que é notório desde o primeiro momento, desde aqueles momentos em que pensamos que são totalmente dependentes de nós e que nós é que mandamos de facto neles.
E atenção, porque de facto parece-me que quem deve de facto mandar são os pais!
Mas... e quando não podemos mandar nada???

sábado, 21 de junho de 2008

Capacidade de brincar

Brincar é bom, e seria melhor ainda se soubessemos de facto "brincar" mais com a vida.
A Maria anda com a mania de se esconder, esconde-se por trás da nossa cama, mas não se esconde verdadeiramente... uma vez que se baixa, mas deixa a cabeça de fora para ver que a procuramos:) Pergunta o papá, (vendo-a perfeitamente!) "Onde está a maria? Não a vejo..." Ela risse, ri a bom rir e depois aparece, como se estivesse de facto desaparecida. A mãe entra no jogo, faz a mesma jiga joga e ela ri satisfeita. O mano ri-se também, mas olha para nós como se fossemos tontos... Deve pensar "mas eles não a estão a ver??? que pais taralhocos..."
Brincamos ao esconde esconde com os filhos, mas temos pouca capacidade de procurar quem está à vista de facto, pelo facto de ser adulto. Que mania que com os adultos não se brinca, quem disse?
Brincar é bom brincar:) É tão bom brincar!!!

quinta-feira, 19 de junho de 2008

"Por um dia fui irlandês!"

”A Europa do pensamento único não se pode queixar. Tem o que merece. A Irlanda-modelo, sempre referenciada como uma via de desenvolvimento a imitar, virou Irlanda-pesadelo. Neste referendo, os irlandeses disseram "não" à batota. Sim, porque é de sofisticada batota que se trata, depois de tantos e variados expedientes ao longo dos tempos. Aquando do "não" dinamarquês a Maastricht e do "não" da Irlanda a Nice, foi institucionalizada a prática do referendo pós-referendo, de maneira a dar uma nova e generosa oportunidade ao povo de se penitenciar perante o directório europeu. Tudo isto porque os eleitores do "não" (ao contrário dos do "sim"...) nunca estão suficientemente esclarecidos e por isso é necessário "educá-los" com mais referendos. Com a Constituição Europeia chumbada na Holanda e em França, a táctica mudou. Já não eram a pequena Dinamarca ou a Irlanda a bater o pé, mas a grande e soberba França. Por isso, em vez de um novo e punitivo referendo de resultado imprevisível, a solução foi um "novo" tratado, com a garantia de não se voltar a cometer a imprudência de dar voz aos eleitores. Por azar esqueceram-se não dos gauleses, mas dos irlandeses que, coitados, teriam que votar por obrigação constitucional. De início, a "Europa Única" estava descansada perante tão confortável margem das sondagens. Até se dizia, tranquilamente, que não havia plano B para um improvável "não" (em bom rigor, um plano C, pois que o B já se havia esgotado na esperteza de um tratado travestido). Finalmente, os irlandeses, que nunca foram militantemente eurocépticos como os ingleses e já haviam votado seis vezes antes sobre a Europa (cinco vezes "sim" e uma vez "não") tiveram a ousadia de rejeitar o tratado, numa consulta popular que ultrapassou em afluência todos os anteriores actos (cerca de 53%). Não deixa de ser espantosa a reacção dos grandes países e da Comissão. Dizer-se que o tratado não está moribundo é, em primeiro lugar, desrespeitá-lo, pois o que lá está escrito é que ou é assinado por todos ou não avança. Dizer-se que menos de dois milhões de eleitores não podem condicionar a vontade dos europeus é uma falácia, pois os outros povos não foram ouvidos e seria até provável que em alguns países se viesse a chumbar o tratado. Sentenciar-se que nestas consultas se vota mais a pensar na política nacional que na Europa é o argumento habitual para interpretar um "não", que todavia jamais vi referido para interpretar um "sim". Aliás, neste caso irlandês a quase totalidade das forças políticas no governo ou oposição estavam do lado do "sim" e nem se pode falar de um voto de protesto quanto à política interna. Inqualificável foi também a reacção de alguns líderes europeus (a começar pelo hegemónico eixo franco-alemão) ao repreender a Irlanda (recordam-se de algum puxão de orelhas aos franceses por ocasião do seu "não"?). A verdade é esta: o Tratado de Lisboa não exprime, ética e politicamente, um contrato envolvente, transparente e responsabilizador com os cidadãos. O tratado é uma charada quase indecifrável de remissões, excepções, alterações e repristinações que lhe retira um carácter desejavelmente comum e amigável. É um rendilhado técnico que introduziu 356 emendas aos 413 artigos do Tratado da UE e do Tratado sobre o funcionamento da UE, contém 13 Protocolos anexos com valor idêntico ao próprio tratado, mais 65 Declarações de Estados-membros relativas às disposições dos tratados! Uhf! Gostava de saber quantos deputados em Portugal terão lido tão vasta documentação aquando da ratificação parlamentar... Por tudo isto, a Europa do pensamento único não se pode queixar. Tem o que merece. Um voto "sim" numa consulta desta natureza implica uma explicação cristalina, transparente, acessível do que vai mudar. Na ausência de tudo isto, o "não" aparece como legítimo e natural. Com a agravante, na Irlanda, de ser perceptível que o Tratado de Lisboa favorece os Estados mais populosos e retira influência aos países mais pequenos. Um pouco de sensatez e humildade ficaria agora bem à ortodoxia europeia, de maneira a enxergar que afinal o problema europeu não é irlandês. É europeu! E, ironia das ironias, a Irlanda porta-estandarte do projecto de progresso, paz e democracia na Europa é agora quase convidada a uma separação. Tudo por causa do... povo se pronunciar livremente sobre um projecto de tratado que, no preâmbulo, refere a necessidade de "uma União cada vez mais estreita com os povos da Europa em que as decisões sejam tomadas ao nível mais próximo possível dos cidadãos" e no seu artigo nono que "a cidadania da União acresce à cidadania nacional, não a substituindo". Por medo, cobardia, apoplexia tecnocrática, diletantismo ou atestado de inferioridade conferido aos povos, o "gravy train" europeu não gosta definitivamente de dar voz aos cidadãos! Em Portugal, o Governo também mandou às malvas a sua promessa de "referendo popular, amplamente informado e participado"... Por tudo isto, e independentemente da minha posição de princípio pró-europeia, por um dia fui irlandês!”

António Bagão Félix
(Ex-ministro das Finanças)

Fonte: Jornal ‘Público’ em 19/06/08

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Irlanda não é porreira!

Tudo leva a crer que o ´não’ vença hoje na Irlanda deixando os tratantes de Lisboa à beira de um ataque de nervos.
Mal vista pelos ‘porreiros/pá’ nesta sua insistência (e obrigação constitucional) em referendar o Tratado, a Irlanda não quer ser empestada pelos abortos, eutanásias e casamentos homossexuais, o que para os burocratas de Bruxelas, para esquerda unida e afins, é considerado um pecado mortal. E já vão avisando que o processo de ratificação ‘para lamentar’ irá prosseguir normalmente nos restantes estados da união, porque para os ‘porreiros’ a democracia tem que ser bem utilizada, ou seja, o povo só deve votar se ganharmos alguma coisa com isso.
Nesta base, a Irlanda está orgulhosamente só!

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Mourinho

A Mourinho falta-lhe tudo: a grandeza, a força de espírito, o cheiro das maçãs depois da chuva. Mourinho não quis responder em Português: a língua da terra escura, do fel e da azia. Negou tudo: os socalcos, as caravelas e o livro do homem cego que escreveu a epopeia. Quando se está fora e se negam as raízes, o vento desfere golpes mortais. Mourinho não tem génio. No desporto as vitórias não equivalem a linhas de poemas depois do sol cair. Ganhar é tudo mas a luta dos homens é mais bela. Aqui não existem histórias de provocação, de tácticas, de empresas de imagem , de marketing. Mourinho tem tudo isso, o resto e a inteligência. Ganhar pode ser a mais bela forma de demência. Mourinho na conferência de imprensa falou em italiano, em inglês, e quando um jornalista lhe faz a pergunta em português, escondeu os dedos e escondeu-os em tubos de mercúrio. A língua constrói a pessoa, é o segredo, a dádiva. Quando se diz o nome, nomeá-lo, - a água, a folha, o lírio - é dizer o que sei de mim na relação com as coisas. Negá-lo é um roubo, um abjecto. Um tempo que ama este homem é um tempo oco, à deriva, sem fundo.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Chartres

A catedral de Chartres é o mais belo dos lugares. De todos os lugares. Onde diante das pedras lavadas pela fé se coloca a essência: os homens, cada criatura e o Criador. Deus e o Homem. Este diante do Pai, à procura do Pai. Tudo é grande, desmesurado, imenso, ampliado. Deus está dentro, no lugar de Deus. Uma catedral, qualquer catedral, é o maior símbolo vivo da unidade do povo crente. Em Chartres existe cada homem em busca de si, à procura, imerso na história de outros homens que são a sua história. As pedras e os vitrais, a luz e a cripta de Chartres não são antigos, nem de hoje. São o lugar sempre actual do sacrifício e do amor, da fé e do saber, da busca e da presença, do testemunho e da glória. É o lugar actual de todos os tempos, da pobreza e do trigo. De homens esculpidos na História de Deus no Homem. A grandeza de Chartres não é o eu, o espelho do eu, a redoma do eu. É o eu projectado no lugar que afirma o que sou e a verdade mais funda que me habita. Em Chartres só existe a verdade: a luz que explode dos vitrais é a luz de Deus. Dentro, recortado pelas linhas da sombra e da claridade, só resta o silêncio, o longo silêncio da vergonha e da compaixão, da mentira e da redenção. Chartres é o Lugar. Todos o procuramos: um traço, um abrigo,um gesto, um beijo, uma palavra , um verbo. Seguramente que a sabedoria e o acolhimento da vida só se realiza quando encontramos um Lugar, peregrinação eterna. É Chartres. Lugar de Deus, do Homem, das lágrimas puras.
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Três notas sobre esta viagem fabulosa:
a) A missa na cripta da Catedral. Um longo corredor escuro ao fundo, pinturas do sec.XIII, o coração esmagado pela beleza da fé.
b) A lição antológica dada pelo Padre Pedro diante da Catedral, sobre a História da Europa e do Cristianismo nos séculos XII / XIII. Ficará gravada na memória para sempre.
c) Do lado direito da Catedral, a uns 4oo metros, encontramos um jardim e, descendo as escadas, no patamar inferior, à beira da estrada, uma pequena homenagem a Peguy, um dos maiores escritores do sèculo XX. Uma frase na parede frontal e o rosto de Peguy colado na pedra. A fronte, saliente, adivinha-lhe a inteligência. As heras quase cobrem a frase e o jardim está algo descuidado. Este tempo esqueceu Peguy, esqueceu a essência.

Um imenso obrigado a todos: a Sara, Catarina, Sofia, a Carla e o Nuno, o Abrantes, o Paulo e o primeiro de todos nós, o Padre Pedro.

terça-feira, 27 de maio de 2008

De sentir e do sentido

Têm sido muitas as páginas dedicadas ao tema ao longo da história humana: o sentido da vida.
A dificuldade em surpreendermos não apenas a natureza, mas também o sentido deste sentido, tem afectado e destruído muitos dos nossos.
É curioso, no entanto, que é frequente verificarmos que a aporia do sentido da vida se reveste de maior dor e sofrimento nos casos em que ocorre uma auto-conversão que, neste caso, funciona como uma redução do que há à estreita esfera do eu. O ensimesmamento que daqui resulta é mais frequente revelar-se com factos de abismo e de perdição do que de auto-revelação.
O segredo do regresso ao coração de si, enquanto movimento consequente de descoberta, é sempre uma demanda, não de si, mas de uma alteridade, o mais Intimo que o meu íntimo, no dizer agostiniano. Assim, a demanda do sentido do existir exige sempre uma relação que é sempre mais exigente, quando assumida radicalmente, do que estaríamos dispostos a conceder-lhe se nos eximíssemos a experienciá-la.
O que se segue diz melhor do que eu o que disse. Foi vivido:

“…Essa é uma certeza que tenho dentro de mim, que não é perturbada pela nova certeza: que querem o nosso extermínio. Também isso eu aceito. Sei-o agora. Não vou incomodar outros com os meus medos, não vou ficar amargurada se outras pessoas não entenderem do que se trata, para nós, judeus. Esta certeza não vai ser corroída ou invalidada pela outra. Trabalho e vivo com a mesma convicção e acho a vida prenhe de sentido, cheia de sentido apesar de tudo, embora já não me atreva a dizer uma coisa dessas em grupo. O viver e o morrer, o sofrimento e a alegria, as bolhas dos meus pés gastos e o jasmim atrás do quintal, as perseguições, as incontáveis violências gratuitas, tudo e tudo em mim é como se fosse uma forte unidade, e eu aceito tudo como uma unidade e começo a entender cada vez melhor, espontaneamente para mim, sem que ainda o consiga explicar a alguém, como é que as coisas são…

...E no entanto, Deus, não acho a vida desprovida de significado, quanto a isso não posso fazer nada. E Deus também não nos deve explicações pelas coisas sem sentido que nós próprios fazemos; somos nós quem tem de dar explicações. Já morri mil mortes em mil campos de concentração, sei de tudo e também já não fico apoquentada com novas notícias. De uma ou de outra forma, já sei tudo. E todavia, acho a vida bela e cheia de sentido…”
– Etty Hillesum, Diário, 1941-1943, Teofonias, Assírio & Alvim, págs. 217 e 211, edição com prefácio (luminoso) do Padre Tolentino Mendonça.

Etty Hillesum. Holandesa. Nasceu em Middelburg, na Zelândia, a 15 de Janeiro de 1914. A 30 de Novembro de 1943, a Cruz Vermelha comunicou a sua morte em Auschwitz. Não chegou a viver três meses no campo para onde a levaram a 7 de Setembro.

domingo, 25 de maio de 2008

A coragem do amor

Casaram entre palmas e bençãos, a noiva falou em milagre o noivo concordou e eu senti aquele aperto que se sente quando reparamos que nos falta alguma coisa.
A noiva falou de amor e elevou-o tanto quanto foi possível mas ele estava ali bem próximo acessível era só preciso um pouco de coragem para lhe tocar.
Invejo-lhes a felicidade, aquela que é feita de tristezas e alegrias.

(Casamento da Isabel e do Eduardo)

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Ontem,Hoje...e Amanhã?

« A razão de ser dos governos democráticos e republicanos
é o estabelecimento de toda a liberdade e de toda a
tolerância compatíveis com a ordem: praticamente em terras
da Europa latina, liberdade de cultos e tolerância religiosa
são expressões que equivalem a dizer que o cidadão é livre
de ser tudo quanto quiser, contanto que não seja católico (...)
O partido republicano, entre nós, não se tem contentado
em ser um partido político; tem sido também um partido
filosófico que, baseado no racionalismo positivista, repele
quase unanimemente a solução católica do problema dos
destinos humanos (...). A República, depois de implantada,
deixou de ser um partido para ser a nação: tanto pertence ao
ateu impenitente como ao católico piedoso. Não pedimos à
República o privilégio, mas o direito comum (...).
O futuro da República depende da paz religiosa.»

D. Manuel Clemente, citando Manuel Abúndio da Silva ( 1911 ) , no seu
livro Portugal e os Portugueses recentemente editado pela Assírio &Alvim.
Palavras lúcidas e proféticas, diz D. Manuel... e digo eu!

terça-feira, 13 de maio de 2008

A ex-colónia

Bob Geldof como músico é uma nulidade. Representa o pensamento de esquerda e as suas ilusões etéreas. É um artista rock e como todos os outros não é grande coisa. A América, da música popular, criou o blues e o jazz de New Orleans. O génio do Sul é um imenso tormento. A peso de ouro veio dar uma Conferência a Lisboa. E Geldof disse a verdade sobre Angola. A única verdade. Dizer mal do MPLA e da sua nomenclatura é um ultrage, uma ofensa, uma traição. A ex-colónia é uma barreira, um monstro com a maior taxa de mortalidade infantil do mundo. Só existe uma dor, um erro crasso. Que tenha sido Bob Geldof a dizê-lo e não outro. É aqui que se perde o carácter, a coragem, a solidão imensa com que os homens legitimam o futuro.

sábado, 10 de maio de 2008

Apito Fatal

Não é ainda o apito final, é um começo, um aviso, uma declaração de falência, o futebol luso é uma mentira, sempre foi. Esta verdade incómoda, desatada em zanga de casa de alterne, não é uma especialidade do norte, percorre o país de lés a lés, e seria bom que o sul sorridente, entendesse o que está a acontecer. Seria bom que todos percebessem que precisamos de fazer uma escolha decisiva, no futebol e no resto: ou continuamos a sustentar três fidalgotes na europa, à custa da miséria geral, ou aceitamos a nossa realidade, e em lugar de emagrecer o campeonato pedimos aos fidalgotes que façam eles dieta.
E o regime podia aproveitar para fazer também regime... de propaganda barata.
.
Registo de interesses: sócio e adepto, em regime de exclusividade, do Clube de Futebol "Os Belenenses".

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Directamente da obscura noite...

... este datadíssimo desenho animado produzido pela RTP nos obscuros anos 70 e que ditava o recolher obrigatório da miudagem. Suspeito que isto só acontecia com a cumplicidade da polícia de costumes - e dos meus pais que também estavam feitos. Estes Meninos Rabinos que antes de dormir se atreviam a “rezar a Jesus”, hoje, no mínimo seriam rotulados de ignorantes ou marginais... Ecos de uma época cinzenta e triste em que era possível conceber um família com cinco filhos, qui sas fruto dum deficiente planeamento familiar. Uma cambada de infelizes pois então.

Versão adaptada do original no Corta-fitas

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Este é o meu tempo

Tenho uma pequena fotografia minha, de 1968, onde eu, em grande plano e de olhos piscos estou sentado num minúsculo barco de borracha que (lembro-me bem) agilmente remava com as mãos, na praia em Vila Nova de Milfontes. Fazia parte de um conjunto de cinco retratos nossos, os cinco irmãos, e que por muitos anos estiveram expostos na sala da casa dos meus pais. Garanto que estas fotografias, hoje monocromáticas e em tons amarelados, um dia foram de uma coloração bem viva! Explico isto um pouco aflito às minhas incrédulas crianças... Foi obra do tempo, foi por causa da exposição à luz que a imagem foi perdendo qualquer rasto de cor… Como as folhas no Outono, as fotografias antigas perdem a cor. Como acontece com a vida?
Agora lembro-me das conversas que tinha com o meu irmão quando crianças, em que fantasiávamos sobre a infeliz infância e juventude dos nossos pais e avós… como se eles tivessem vivido e crescido num tristonho mundo a preto e branco, sempre de saias compridas e chapéu na cabeça. Comentávamos - na nossa doce ilusão - o privilégio de ter nascido numa idade de tanta sabedoria luz e cor. Esta ilusão provinha da nossa experiência, não só com o cinema mais antigo, mas da visualização dos álbuns fotográficos e antigas reportagens de família em super-8. Estranho mundo, aquele, tão formal e monocromático.
Noutra moldura na minha sala, tenho o meu avô homónimo, orgulhosamente acenando de dentro do biplano dos anos 30, com óculos e capacete à Barão Vermelho. Sem nunca ter possuído cor (será?!) esta imagem hoje, reflecte tanta modernidade quanto aquela minha no rio Mira, tirada no ano da chegada de Armstrong à Lua…
Alarmante é o que se passa com as fotografias digitais tiradas há menos de dois anos e afanosamente impressas em casa, na nossa fantástica HP. As minhas empenhadas provas de contemporaneidade estão assustadoramente a perder a cor. É do papel? Será dos tinteiros? Ou eu não controlo mais o tempo que passa? Aliás desconfio que os nossos miúdos consideram-se os únicos donos deste tempo, dos downloads, do IPod, do Harry Potter, do terrorismo muçulmano e do Hip hop.
Pela manhã, repito uma vez mais, pela milionésima vez os rotineiros preceitos higiénicos. E, ao espelho, passo a lâmina pela espuma branca, num gesto intemporal. E sem querer, reparo que o meu cabelo também está a ficar a "preto e branco"… Quero dizer: mais branco. Como nas fotografias, o original perde todos os dias a cor, sem se dar por isso. Mas o meu olhar sai de dentro do mesmo ser que há quase trinta anos no Liceu Pedro Nunes saltava o muro do Cemitério dos Ingleses para ir buscar uma bola perdida.
E, de pasta na mão, pronto para sair, fresco e “bem cheiroso”, despeço-me do pessoal e uma ponta de vaidade me assalta. O meu barco navega, este é o meu tempo, e o mundo mantém inalterável a sua paleta infinita de cores, mistérios, poesia e paixão. Graças a Deus.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

25 de Abril de 74?

Passados 34 anos a cangalha ideológica é a mesma, o rastreio do pensamento idêntico. Nada muda, os personagens de sempre, os discursos iguais. É esta a tristeza de Abril. Não haver o rasgo, o gesto, a denúncia. Os capitães, os militares, um referente que a história sedimentou. Nada mudou de Abril, os gestos solidificados na argamassa de um tempo que quis ser memória. Mas a memória só existe quando é presente, quando se actualiza, quando a História se diz do que foi. Mas nada disto existe no 25. Só os afectos das histórias apagadas que se querem recordações. A memória não é só recordação. É espirito vivo, interior, de dentro. Onde está o poema, o quadro, o filme, o choro? Onde está a alma e a eternidade para sempre? A memória é recordação quando é vida, quando se passa nas veias e na carne. O 25 de Abril não produziu uma obra de arte, o espanto, o arrebatamento, a grandeza. E esta é uma dor enorme, palha de aço. Quando um facto não produz e não é capaz de produzir um objecto artístico é porque morreu ou nunca existiu. Ou é um souvenir, objecto de plástico, eternamente infantil.

Dia de São Marcos


(...) Escrevo-te em vinte e quatro de Abril, em vésperas do Senhor São Marcos, um dos quatro que disseram da vida de Jesus e padrinho dos bois e dos boieiros de toda a Cristandade. Amanhã, perto daqui, numa engalanada ermidinha, à hora da missa, por entre os fiéis, um novilho de dois anos entrará pela nave acima até ao altar – mor. “Entra, Marcos!” – lhe gritarão os mordomos da festa, que com varinhas o irão tangendo, que o animal se poluiria se as mãos humanas o tocassem. “Entra, Marcos!” E junto aos degraus do tabernáculo, com as hastes enastradas de fitas e de ervas de cheiro, a rês, em vez de tombar sob o cutelo sagrado, em nome da verdade receberá a bênção da Igreja e nos cornos se lhe cantará o Evangelho do dia. “ Entra, Marcos!” E o engelhado Topsius que habitava dentro de mim acaba de descobrir que essa festa, que o Cristianismo conservou e santificou, tem raízes milenárias, descende da festa do touro que uma civilização pré-árica bronzífera, espalhou por toda a Europa. Mr. Homais rir-se-ia da ingénua solenidade e aproveitar-lhe-ia a origem para atacar a pobreza criadora do Cristianismo e a mentira das Religiões. Eu, como homem que estuda, solidifico com o facto a minha crença vendo nele um sinal claro dessa curva ascensional do homem primitivo para a Perfeição, que é Deus. “ Entra Marcos!” E hoje as ladainhas saem pelos campos – saíam – a rogar ao Céu pelo renovo primaveril, pela messe que se aformoseia, pelos frutos que despontam. Como Portugal estará lindo! – Exclamava na tua carta a tua nostalgia. – Como Portugal está lindo e como ele te manda saudades, meu amigo! Floresce o rosmaninho, a planta que soalha as igrejas em Quinta-Feira de Endoença e que, assistindo à cena do Calvário, perpetuou na sua austeríssima flor o sangue inocente do Cordeiro. (...)
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António Sardinha

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Em nome da esperança

Era previsível, "ninguém é profeta na sua terra", a cruz é o destino conhecido.
Nem esse antiquíssimo resistente, que sobreviveu à Igreja do Czar e à anti-Igreja de Estaline, conseguiria resistir à estreiteza paroquial!
E os outros, escribas maiores ou menores, sabei que os vossos escritos não são apreciados. Monárquicos nunca.
Nada que estremeça a verdade conveniente, servida e albardada naquela curva que a espinha pronuncia e é mais acentuada nos portugueses.
Este é o país do silêncio, da inveja, e do medo.
País desregulado, "sem rei nem roque", que faz justiça ao centurião - "Não se governam, nem se deixam governar"!
Um país que detesta o "Pai", onde Édipo espreita em cada esquina. Neste país habita um povo confuso, que enraíza a sua religiosidade na terra de todos os milagres!
País minguante, infantil, tem na bola o seu recreio, e honra diáriamente o "Portugal dos pequeninos"!
Pátria saldos fim de estação.
Mas é este o meu país, onde me cabe viver, e ninguém dirá - aqui jaz um viajante dos espaços que se enganou no seu tempo. O meu tempo é este, o meu espaço é este, não desistirei. A mensagem há-de passar.
Ergue-te pois companheiro, é hora de lidadores, acorda-me esse povo estremunhado, não vires a cara aos infiéis.
A nossa divisa mantém-se: - "morrer, sim, mas devagar".