Reconhecimento de um milagre
Naquele Alentejo onde é possível o encontro com a imensa planície, com a possibilidade de ver para além daquilo que se avista, com o silêncio que fala para além do que se pode ouvir, com a beleza imensa que jamais conseguiremos ver em toda a sua plenitude, com a percepção que tudo é muito maior do que alguma vez se possa pensar e com a enorme Liberdade que de tudo isto advém.
Dos exemplos recolhidos lembro Eric Voeglin que afirmava do espaço político ser um lugar de tensão. Mutatis mutandis o mesmo podemos dizer do espaço social, ou melhor, do espaço sócio-religioso. De um lado os que manifestam reservas em relação à vida, do outro os que se esgotam em promovê-la – um milagre é na sua essência uma afirmação da força da vida. É curiosa a relação entre esta realidade que é o milagre e a própria vida. O milagre parece ser uma outra forma de expressão da vida, talvez a sua mais poderosa forma de expressão e, ao mesmo tempo, um sinal de que a Vida esconde potencialidades que ninguém poderá suster.
Por fim, parece que existe uma afinidade profunda entre quem tem casa, quem tem lugar onde habitar e quem tem história, lugar onde o tempo desenha o futuro e a vida. Quem, empobrecido por esta ausência, concebe artificialismos que distorcem a relação com a história e os lugares, assume tendência para manipular, instrumentalizar, dominar, precisamente porque não há enraizamento, nem relação.


