segunda-feira, 3 de março de 2008

Porque é que a Páscoa é tão cedo?

A Páscoa é sempre o primeiro Domingo depois da primeira lua cheia depois do equinócio de Primavera (20 de Março). Esta datação da Páscoa baseia-se no calendário lunar que o povo hebreu usava para identificar a Páscoa judaica, razão pela qual a Páscoa é uma festa móvel no calendário romano.
Este ano a Páscoa acontece mais cedo do que qualquer um de nós irá ver alguma vez na sua vida! E só os mais velhos da nossa população viram alguma vez uma Páscoa tão temporã (mais velhos do que 95 anos!).
1) A próxima vez que a Páscoa vai ser tão cedo como este ano (23 de Março) será no ano 2228 (daqui a 220 anos). A última vez que a Páscoa foi assim cedo foi em 1913.
2) Na próxima vez que a Páscoa for um dia mais cedo, 22 de Março, será no ano 2285 (daqui a 277 anos). A última vez que foi em 22 de Março foi em 1818. Por isso, ninguém que esteja vivo hoje, viu ou irá ver uma Páscoa mais cedo do que a deste ano.

sábado, 1 de março de 2008

"A Verdade torna-nos bons"

Os recentes comentários feitos neste blogue a propósito da edição do post do Pe Pedro sobre o entendimento de Alexandre Sokurovc acerca de Portugal e outros comentários que vão surgindo noutros postes, vêm pôr a nu um traço contemporâneo do modo de ser e de estar da personalidade de certas pessoas que, em geral, sabendo pouco substituem a sua ignoratio elenchi (ignorância do assunto) pelo império do argumentário ad hominem (argumento contra o homem).
A este respeito convém dizer o seguinte, que é óbvio, claro e distinto e que se refere ao conteúdo da tolerância e do tolerável:
Há uma extraordinária ausência de clareza quanto ao que se constitui como conteúdo ou matéria de tolerância. A tolerância é devida à pessoa, não, em caso algum, às ideias. Há uma tolerância humana que é imperativa, fundamentada na dignidade humana, mas não há lugar para a tolerância cognitiva. O erro conceptual ou eidético, quando ocorre, não é tolerável. É pura e simplesmente refutável. É imediatamente negado.
Consequentemente, os comentários infelizes, mal educados e absolutamente reprováveis publicados por anónimos exprimem, em primeiro lugar, uma indisfarçável anorexia intelectual que, seguida de orgulho incomensurável, desemboca no insulto fácil, máscara de fraqueza, que se poderá tornar patológica.
Há solução, contudo, para o problema. Passa por um processo de disciplina, melhor, por autodisciplina férrea na gestão do tempo em ordem à edificação do carácter forjado na dinâmica da leitura e da reflexão que lhe está associada.
Quem cultiva o saber frequentemente se depara com as alturas inultrapassáveis das suas limitações. Essa experiência não é desconstrutiva do carácter, mas edificante da personalidade, se entendida como desafio. Mas, por outro lado, vai emergindo em processo, um respeito profundo pela verdade e, consequentemente, pela responsabilidade que conduz à liberdade.
Sendo assim construído o carácter neste espaço titânico para escapar à ignorância, a prudência vai tomando lugar progressível, aí, onde outrora campeava a arrogância e a vaidade.
Cultivar-se também é aprender a amar. Quem se recusa a mergulhar no mar em tormenta do conhecimento, por desamor, aos outros não trará nunca a bonança. Daí a agilidade em que se expande a barbárie.
É que, como diz Bento XVI no texto que devia ter lido durante a visita à Universidade de Roma “La sapienza”, a propósito do sentido do questionar socrático, “… a verdade torna-nos bons e a bondade é verdadeira: tal é o optimismo que vive na fé cristã, porque a esta foi concedida a visão do Logos, da Razão criadora que, na encarnação de Deus, se revelou conjuntamente como o Bem, como a própria Bondade…”.
A Verdade torna-nos bons e a falta dela pessoas tristes.
E terminando por onde comecei: os comentários anónimos, infelizes e mal educados deixam-me triste… porque revelam tristeza.

“Com uma certa razão…”

Vasco Pulido Valente tem vindo a refinar com o tempo, o que significa que os momentos lúcidos são cada vez mais frequentes! Sobre o ‘mal-estar difuso’, que também glosei, escreve ele no jornal ‘Público’:

“ (…) Desde o princípio do século XVIII que Portugal quis ser ‘como a Europa’ e até hoje infelizmente não conseguiu. A cada revolução, a cada guerra civil, a cada regime, o indígena prestável, alfabeto, e ‘modernizante’ supunha que chegara ‘o dia’. E ‘o dia’ invariavelmente não chegava. (…) O português copiava com devoção o que via ‘lá fora’. Mas não saía da sua inferioridade e do seu atraso. No meio desta persistente desgraça, Portugal julgou três vezes que se aproximava da Europa: durante os primeiros tempos da ‘Regeneração’, durante o ‘fontismo’ e durante o ’cavaquismo’. Ao todo, trinta e tal anos de uma ordem política ‘civilizada’ e de um crescimento razoável. Mesmo assim, os fundamentos destes raríssimos milagres não eram sólidos. Nos três casos (embora com um ligeiro atraso), uma crise financeira pôs fim à festa e voltou a velha angústia nacional, a que por aí se convencionou chamar ‘mal-estar difuso’. O ‘mal-estar difuso’ é simplesmente o regresso à realidade. Portugal não tem meios para o Estado-providência e a espécie de vida que os portugueses reclamam. E como não tem, toda a gente se agita e ninguém faz nada com sentido. Esta fase também é conhecida.”

Este é um tema inesgotável mas por mais voltas que a gente dê… desagua sempre no Atlântico, e eu acrescentaria, na Lusitana Antiga Liberdade, única fórmula a meu ver viável (e foi) de garantirmos a existência ou sobrevivência de um país, à partida inviável.

Fonte: Jornal ‘Público’ de 29/02/2008.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Recado

"A tentação dos prudentes é a aceitação da falsa prudência, o consentimento secreto concedido ao pior, o medo que se chama amor da paz."

Jean Guitton

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

A história absolver-me-á

Fidel de Castro. Estudante nos bons colégios da oligarquia de Havana. Formado em direito, advogado determinado dos opositores ao regime do corrupto Fulgêncio Baptista, rapidamente tornado o porta-bandeira da pretendida revolução, fica senhor de Cuba em 1959.

Era um chefe. Quase 5 décadas completas de império, na ilha, dispensam qualquer necessidade de argumentar em favor da sua autoridade.
Desafiou, humilhou, resistiu, aos EUA. Mérito seu, certo. Mas, sandice também do país que se lhe opunha, sempre mais hábil nas coisas da tecnologia e logística do que nas subtilezas do jogo diplomático, na inteligência das relações e na criação de cenários favoráveis ás suas pretensões.
Recebeu incondicional apoio da URSS. Pudera! Ter um aliado ás portas da Florida não era coisa de somenos.

Mas Fidel foi grande sobretudo, na afirmação de uma nova mitologia. Todas as palavras sagradas da revolução (a começar por esta mesma) tinham um valor absoluto, quando propagandeadas nos paises dos outros: progresso, cultura, saúde, e principalmente liberdade...
Pai da revolução adoptou o feroz Che como filho da mesma. Quando as relações azedaram exportou-o. E todo o franchising fotográfico e ornamental anexo.

Mas é sobretudo na literatura, na literatura de suporte, que está o coração do milagre. Gerações de cubanos perseguidos por delitos de opinião. Prisões sumárias, condenações à morte, proibição de liberdade de religiosa, obstinação na ideologia deixando o seu povo à fome, traficando dólares, nesta fase final do regime, no turismo de prostituição. E tolerância máxima para Fidel na comunicação social.

Sim: A comunicação social é o segredo. Obstinada, corajosa, criativa, solidária, quando se trata de travar e expulsar um qualquer general que veio da direita. Compreensiva, boemiamente celebrativa, radicalmente anti-americana, passiva quando chega a hora de enfrentar Fidel.

Daí não podermos deixar de dizer ‘o rei vai nu’. Estranho que ainda ninguém se tenha lembrado de acenar para o que parece ser óbvio: Fidel já morreu. E para fazer a transição sem sobressaltos internacionais a coisa foi escondida. A prova do argumento? Não tardará 3 meses até assistirmos ao seu enterro de estado.
‘A história absolver-me-á’ escreveu um dia Fidel.
Duvido.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Alexandre Sokurov

Primeiro conheci-o através de Pai e Filho, um filme cuja rodagem passou por Lisboa. Mais recentemente, vi também Mãe e Filho, outro filme dedicado por Sokurov ao mesmo ciclo das relações essenciais. Porque é isso que ele tenta e alcança na sua obra. Com particular intensidade e génio, capta em imagens de imensa atenção e beleza o mistério e dignidade das pessoas. Sem a linearidade de personagens, sem a demagogia do sensual, sem a redução do humano ao psicológico, eis que nos é feita a dádiva de um cinema intensamente humano, porque intensamente dramático e invocativo. Da palavra e presença de um Outro.
Finalmente, a razão de ser deste post: um pequeno texto que me chegou ás mãos com as suas opiniões sobre esta pátria. Luminosas.

"É um país espantoso, talvez o mais misterioso da Europa. Em Portugal há uma qualidade que me impressiona muito, a tristeza. Muitos portugueses foram pessoas geniais. Portugal será dos países onde há mais génios que não são conhecidos. São pessoas tristes que vivem para si, uma qualidade de experiência pessoal que os diferencia dos demais. E um carácter nacional inacreditável. Digo isto por intuição e não porque me baseie em algum conhecimento particular. Vocês têm uma grande quantidade de energia escondida. (...) É muito fácil encontrar portugueses numa multidão de europeus, do mesmo modo que numa multidão de asiáticos é muito fácil descobrir onde estão os japoneses. (...) Quanto mais Portugal se juntar ao espaço europeu maior será a tragédia da cultura portuguesa, ela estará cada vez mais próxima de um estado de choque, porque precisa de dar azo aos seus sentimentos para se desenvolver. É muito complexo. As misturas são muito complexas. (...) As formas artísticas populares são muito complexas. Mas elas existem, estão lá. Por exemplo, se os espanhóis (falo de espanhóis porque estão aqui perto) vos impusessem a sua forma de vida, as suas imagens, a sua cultura, seria um caos. Em termos fincanceiros e económicos, a união europeia terá muitas vantagens, mas em termos culturais a ideia inspira-me muita desconfiança e alarme, acho que é uma tragédia".

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

O Douro e os outros dias

Caramba!!! Hoje o dia está tão bonito!
O ar, os cheiros, as cores, uma certa temperatura com que o sol nos acaricia!
Estes dias fazem-nos lembrar outros tantos, igualmente venturosos, em que semelhantes (ou díspares – que importa!), raios, cheiros, ares e cores nos entram pela alma adentro, como amigos que nos visitam…

… Quando os rapazes hoje transportavam às costas os cestos de roupa, no seu trajecto vindimeiro de a irem buscar ladeira acima, veio-me à memória, como tantas vezes vem, uns certos dias do Julho anterior em que nos foi dado o Douro pelas mãos de Deus, do seu servo e amigo Padre Pedro, e de um outro servo que não sabia bem que o era – Miguel Torga:

“Covas do Doiro, 11 de Setembro de 1981 – Diferentes em tudo, até no ofício, um ao serviço de Deus e o outro ao serviço dos homens [não sabias tu que não se pode servir Um sem servir os outros, nem verdadeiramente servir os outros, sem que se sirva o Um!], nunca o julguei capaz de semelhante comunhão. Vinha a seu lado num deslumbramento mudo, docemente embalado no carro, que parecia um pião tonto a rodopiar pelas encostas enjeiradas reflectidas no espelho sinuoso do rio. Mas às tantas não resisti. Num ímpeto de confissão, murmurei:
– Só tenho pena de morrer por causa desta paisagem…
E ele, como num eco:
– Também eu…”


Miguel Torga,
in Diário – XIII volume, Gráfica de Coimbra, 1983.


Muito grata, Pe Pedro, por nos ter dado o Douro como o sente!
E por este sulco de saudade que nos ficou no coração!

domingo, 24 de fevereiro de 2008

O 7º Dia

O teu corpo é o teu corpo e a tua alma é a tua alma e foste parte desta espécie que é o homem. Tiveste um nome que te deram e a junção de todos os teus actos foram recolhidos na bolsa de onde vieram. Agora não tens tempo, nem hoje, nem depois. Não tens parcelas, nem vasos foscos onde dorme o esquecimento. Vives na eternidade. Que é sempre o agora, antes e depois, no ponto onde tudo se junta dentro e fora do tempo. O que és e o que foste são os teus actos e nós somos a memória incompleta desses actos, o que resta de ti quando já não és. Somos a tua sobra, o teu testemunho, o dia que serás. Tu foste. Depois da morte vem a eternidade. Continuas a ser, mas já não és, agora és tudo, desde o teu pai e de tua mãe, desde o acto da Criação, desde o acto da Criação até ao fim dos fins, és o tudo que cabe no acto que é sempre o agora. Tudo está em ti, todos os teus actos dispersos e caóticos, perdidos e fortuitos, sáo um só. Juntos, uma gota de tudo o que és dentro da eternidade. Tu és o tudo de todas as coisas que se juntam. A memória é o pó, a saliva, a terra lambida. É o gesto da dor e do sofrimento de quem ainda não sabe. Resta-me a cinza: sentada no banco verde, ao fim da tarde, quando o tempo ainda era tempo e havia lágrimas, ouvi-te chorar e dizer-te a cor e o derrame. Rezo-te, Cândida, porque te desejo a eternidade.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Espanha

A afirmação da Conferência Episcopal Espanhola ainda não foi suficientemente aplaudida. É um gesto enorme, de coragem e fé. Num tempo onde tudo é igual, provisório e se cultiva a indiferença são precisos gestos deste tipo. De aprofundamento, de distinguir a essência. Entre o não e o sim há uma diferença: de qualidade, de visão, de afirmação. O que disse a Conferência Episcopal é muito simples: não se pode votar PSOE porque a nossa estrada é outra. Não afirmou pressupostos de carácter geral. Foi à base, á altura das coisas. Disse não. O que fez o PSOE não é nosso. E disse-o, como se dizem as outras coisas. É aqui que se ganham as batalhas, que se faz a separação. Existe, hoje, um conjunto de valores que derivam de interesses e não de necessidades reais ( veja-se, por exemplo, os números do aborto e de como as previsões estavam erradas). É que este tipo de cultura é quase imbatível: afirma a rotura, a separação, a suposta causa individual em detrimento da afirmação de necessidades públicas ( afirmar uma política pública de saúde não é uma exigência mais concreta que a suposta ligação legal entre pessoas do mesmo sexo?). Hà um mundo cultural fortíssimo que afirma isto: jornais, televisão, Hollywood (...todos apoiam Obama...), todos aceitam isto quase com deferência. É pena que pouca gente se indigne. Que pouca gente enalteça o gesto da Conferência Episcopal, que pouca gente questione a cultura que hoje é feita, que pouca gente afirme claramente um outro sim.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Tributo

Completam-se hoje quinze anos sobe a morte do meu pai. Deixou saudade e obra também. Luiz de Lancastre e Távora (1937 – 1993) dedicou-se largos anos à investigação histórica, com especial incidência nos campos da Genealogia, Heráldica e Sigilografia. Possuindo um elevado número de trabalhos publicados, duas das suas obras mereceram ser galardoadas, uma delas com um prémio internacional. Fez parte do corpo docente encarregado de ministrar os cursos de Iniciação à Genealogia e Heráldica iniciativa levada a cabo pelo I.P.P.C. através do Instituto Português de Heráldica e com o patrocínio das Universidades Clássica e Nova de Lisboa. Funcionário da Biblioteca da Assembleia da Republica, foi destacado para a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, onde, a par de outras funções, dirigiu as actividades do Projecto Arquivos de Família. Sócio efectivo do Instituto Português de Heráldica, da Associação Portuguesa de Genealogia, da Sociedade de Geografia de Lisboa, e da Associação dos Arqueólogos Portugueses. Galardoado com os prémios General França Borges (A.A.P.) e Salazar y Castro (Academia Internacional de Genealogia e Heráldica, com sede em Madrid).

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Uma cruz antiga

Houve um tempo em que velavas descalça, e os pés bonitos, (era preciso vê-los), sobressaíam no desconjunto da figura, e desse tempo, mais a voz rouca que bradava, ficou o teu retrato de mulher maltratada.
Houve um tempo em que amaste, e choraste, e voltaste a amar, da única maneira possível… ah, pois, os vícios, de mal a pior, não falemos nisso agora.
Houve um tempo em que foste menina e moça, como cantava Bernardim! Pouco sei da tua infância, mas se nunca me falaste nela, é porque não interessava. Ainda assim, deixa-me imaginar os olhos escuros rasgados e os sonhos claros alados de uma rapariga do norte!
Houve um tempo em que te conheci por dever de circunstância, tempo de lamber feridas, tempo de esperança, que foi crescendo até à insuportável ilusão de uma vida renovada!
Nesse tempo, candidamente, ofereceste-me um azulejo com o emblema que me agrada, uma cruz encarnada que pintaste sobre o azul do céu!
Depois, houve um tempo para tudo, para saíres e voltares, e partir outra vez, quase definitivamente, enquanto a tua cruz esmaecia, e é hoje um traço apenas de uma cruz antiga.

(memórias da Cândida)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

O Kosovo e o Escudo anti-mísseis americano

1º A Grande Sérvia conheceu o seu apogeu nos sécs XIII-XIV. Foi a época das famosas igrejas de cinco cúpulas, das gravuras sobre ouro, dos mosaicos, dos ícones e dos frescos. É também dessa época o ciclo das grandes epopeias nacionais servias do Kosovo, então parte integrante da Grande Sérvia. Porém, em 1389, nesse mesmo Kosovo, a nobreza sérvia soçobra face aos Turcos numa trágica batalha . Seguem-se séculos de dominação muçulmana. Os albaneses cedem: 70% da população abraça o Corão (note-se que os 30% restantes ainda foram a tempo de dar ao mundo, no séc XX, a Madre Teresa…). Idem com as gentes do Kosovo. Com outra tenacidade os sérvios resistem. Sobretudo em torno do Patriarcado Sérvio-Ortodoxo. Até que no início do séc (1815-17) retoma a sua independência, mas já então ‘dependente’ da protecção russa.

2º O Kosovo ‘independente’ será o primeiro país de maioria muçulmana na Europa (88% da população). Diz-se que outras 200 regiões por esse mundo fora aspiram a igual secessão. Passando por Taiwan. E também pelo País Basco e a Catalunha. Aliás, na própria Europa, para além de Portugal, raros são os países sem fracturas nacionalistas. Mesmo até na insonsa Escandinávia, como é o caso da Finlândia ou da Dinamarca.

3º Descobre-se aqui também uma total desconsideração da Europa como mapa cultural e religioso. Sobreleva-se a disponibilidade para pagar a factura de apoio a Israel e a tentativa de não excitar a vingança muçulmana. A Europa liberal (leia-se pós -e o mais das vezes anti- cristã) atropela as árduas costuras da sua própria história. Convidam-se os Turcos, Kosovares e amanhã os milhões de muçulmanos que por aqui já campeiam para nos ensinar a ser europeus. Como se houvesse alguma hipótese de perenidade fora da excelência que fomos buscar não à técnica, ao dinheiro ou aos militares (já frutos da civilização europeia e não causa da mesma…) mas a uma ideia de homem como pessoa, com dignidade e responsabilidades face à existência, inextrincáveis do apelo e do dom cristão.

4º Corriam os primeiros tempos da primeira presidência Bush. Ufano da excelência militar da sua pátria, e para a defender de ataques exteriores, o Presidente prometeu o escudo protector anti-mísseis: perfeito, inexpugnável, inultrapassável. Até que caíram as Torres gémeas. Atingidas por aviões que tinham levantado voo dentro do solo americano. Ou seja, dentro do tal escudo anti-mísseis!

5º Quem brinca nos Balcãs costuma aleijar-se. Muito! Lideres agarotados (vide o tosco Bush, ou os que se perfilam para o substituir, mas também o nosso standardizado Sócrates ou esse Zapatero desengraxado mental …) julgam que basta estender um pouco de arame farpado entre fronteiras e acenar com o abono da entrada na UE para aclamar os ânimos dessa gente. Não será assim. As vicissitudes são inúmeras nesses Balcãs de intensíssima história: tensão e violência, coragem, liberdade, desfaçatez, composição e recomposição.
Creio que o que hoje protege a América, e a nós também, é pouco mais do que muita burrice farpada.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

História de algibeira (26)

Debaixo de grande polémica, Carolina Beatriz Ângelo, médica, viúva e "chefe de família", ousou votar nas primeiras eleições republicanas a 28 de Maio de 1912 aproveitando as indefinições existentes no enunciado da Lei.
Na sequência da controvérsia, é aprovada pelo senado em 1913 a Lei Eleitoral da República (nº 3 de 3 de Julho) onde pela primeira vez num texto legislativo se determina expressamente o sexo dos cidadãos eleitores: “são eleitores dos cargos políticos e administrativos todos os cidadãos portugueses do sexo masculino, maiores de 21 anos, ou que completem essa idade até ao termo das operações de recenseamento, que estejam no gozo dos seus direitos civis e políticos, saibam ler e escrever português e residam no território da República Portuguesa".
O direito de voto às mulheres foi concedido (precariamente) pela primeira vez em Portugal, em 1931 sob o patrocínio legislativo do Estado Novo (lei nº 19:694 de 5 de Maio), restringido àquelas com o curso dos Liceus. Em 1934 nas eleições legislativas foram eleitas pela primeira vez mulheres para a assembleia nacional: Domitília Hormizinda Miranda de Carvalho, Maria dos Santos Guardiola e Maria Cândida Pereira.

Fonte: “A Concessão do Voto às Portuguesas” por Maria Reynolds de Souza, 2006 - Colecção Fio de Ariana editada pela Comissão Para a Igualdade e Para os Direitos das Mulheres.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

O ano de 2008

2008 é agora. Três grandes eleições vão definir o pensamento político dos próximos anos: Espanha, Itália, EUA, por ordem cronológica.Três testes decisivos que vâo marcar o decénio do século. Em Espanha, vai começar a campanha eleitoral. Rajoy não começou bem. Está a ir atrás de Zapatero. Este colocou a questão no aspecto económico e Rajoy foi a reboque. Ficar dependente de Zapatero é um erro profundo. Rajoy, um político que é uma incógnita, tem de determinar o debate e colocá-lo no plano que lhe interessa: a questão das autonomias das regiões, da abertura do diálogo com a ETA, e da moral pública. A este nível verdadeiramente espantosa a atitude da Conferência Episcopal Espanhola a sugerir que os católicos não deveriam votar neste governo, assunto que falarei no próximo artigo. Em Itália, Berlusconi vai ganhar. Berlusconi pode não ser um grande político mas tem três qualidades fundamentais: é vaidoso, muito vaidoso, e para um italiano esta é uma das mais nobres qualidades; sabe fundir a sua história pessoal com a história pública - na semana passada a mãe morreu, ontem, em Milão, na apresentação da coligação "Casa della libertá" exclamou:"A minha mãe agora no Céu deve estar feliz por ter um filho que ama e luta por Itália"; tem um sentido de "italianidade" que mais ninguém tem: o seu partido chama-se "Forza Itàlia", as cores são azuis, fala da ponte que ligará o continente à Sicília da mesma maneira que aos empresários das pequenas e médias empresas, ainda a coroa da Itália rica e industrial. Outro aspecto decisivo: é presidente do Milan, o grande clube das conquistas internacionais, o Benfica da Itália profunda, dos migrantes que sonham o poder da Lombardia. Nos EUA a vitória republicana de McCain será muito difícil. Tem 71 anos e é herdeiro de Bush. Mas o grande equívoco é Obama. É impressionante como a "inteligência de esquerda" americana e europeia está rendida à sua figura. É afro e isso basta. A sua campanha até agora não disse nada. O slogan" Change we can belive in..." não é nada. "We can", o quê? Ninguém sabe.

Aborto, um ano depois...

Os Santos Inocentes

Tenho sete razões – diz Deus - para amar os inocentes assassinados por Herodes.

A primeira é que os amo. E isto basta.
Tal é a hierarquia da minha graça.

A segunda é que gosto deles. E isto basta.
Tal é a hierarquia da minha graça.

A terceira é que me agrada. E isto basta.
Tal é a hierarquia, a ordem e a regra da minha graça.

E agora vou dizer a quarta razão:
É porque as crianças não têm na comissura dos lábios
essa contracção de ingratidão e amargura, essa ferida de envelhecimento,
essa contracção de recordações que vemos em todos os demais lábios.

A quinta é por uma espécie de equivalência.
Porque, por uma espécie de contrapeso, estes inocentes pagaram pelo meu Filho:
Enquanto jaziam sobre o solo dos caminhos, das cidades, das aldeias,
menos tidos em conta que os cordeiros, os cabritos, e os leitões,
o meu filho fugia para o Egipto.
De modo que se deu uma espécie de quid pro quo,
uma espécie de mal entendido,
porque esses inocentes foram confundidos com o meu Filho,
e assassinados por Ele, em vez dele,
não só por causa dele, mas por Ele, crendo que era Ele.

A sexta razão é que eram contemporâneos do meu Filho,
da mesma idade, nascidos ao mesmo tempo,
e todos fazemos o que podemos pelos nossos colegas de curso,
e eles foram do curso, eram da turma de Jesus.

A sétima razão –e porque ei-de calá-la?-
é que também eram parecidos com o meu Filho.
O meu Filho era alguém terno e novo como eles,
E desconhecido como eles.
Não tinha na comissura dos lábios essa dobra de amargura e ingratidão,
nem essa outra dobra de rugas nos sobrolhos,
a dobra das lágrimas e de ter visto muito,
nem tinha nas comissuras da memória a dobra de não poder esquecer.
Ignorava ainda as vicissitudes que o esperavam,
tudo aquilo que mais tarde deixaria um eterno rasto:
a coroa de espinhos e o ceptro de cana
e a terrível agonia do calvário,
e a ainda mais terrível agonia na véspera no Jardim das Oliveiras.

Estas são a sexta e a sétima razão que tenho para amar os inocentes:
que me recordam o meu Filho como era
se não tivesse mudado logo,
recordam-mo quando era belo,
quando nada dessa terrível aventura ainda não tinha acontecido.

Eis aqui porque amo as crianças inocentes:
porque entre todos são elas as melhores testemunhas do meu Filho,
os Meninos-Jesus que não foram grandes nunca.

Charles Péguy

domingo, 10 de fevereiro de 2008

O caminho…

“Bestiais como sempre, carnais, egoístas como sempre,
interessados e obtusos como sempre o tinham sido antes,
e no entanto,
sempre em luta, reafirmando sempre,
retomando sempre o seu caminho na estrada iluminada pela luz;
muitas vezes parando, perdendo tempo, desviando-se, atrasando-se, voltando,
mas nunca seguindo um outro caminho”.

T.S.Eliot, “Coros de «A Rocha»”

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Uma "Grande" Carta

Recebi esta carta ontem via e-mail. É muito "grande", em todos os sentidos.

"Queridos todos

A nossa adorada Marta fez análises na segunda-feira dia 4 e confirmou-se que os valores estão a subir: hemoglobina a 10.8 (fazem transfusão abaixo de 7), 240.000 plaquetas (transfunde-se abaixo de 20.000), 800 neutrófilos... Esta aplasia (período em que os valores batem no fundo do poço) foi passada em casa! Agora, se não houver outro tipo de complicações, a Marta vai para o IPO na segunda dia 11, faz análises para confirmar que está tudo bem e começa a sua quarta quimioterapia.

Estes dias que a Marta passou em casa proporcionaram-me umas abertas a mim, Mãe da Marta - como somos tratadas no IPO. Nessas rápidas saídas, tenho encontrado pessoas que, muito atenciosas e preocupadas, me perguntam como é que eu estou. Eu respondo "Estou óptima!" Olham para mim perplexas, sem saber bem se estou a ser irónica, se estou a leste ou se simplesmente já 'me passei'! Mas a verdade é mesmo esta: estou óptima!

Estou também completamente ciente da gravidade do cancro da Marta. Sei que as leucémias mieloblásticas têm uma percentagem de cura que ronda os 30 por cento, que o facto do cancro se ter desenvolvido antes da Marta ter um ano, agrava a coisa, que os cancros têm a característica de serem imprevisíveis: agora está-se a reagir bem e daqui a meia hora está-se em perigo iminente de vida... Tendo já quatro meses de IPO, com vários internamentos e isolamentos, posso dizer que já vi muito. Já vi crianças moribundas que no dia seguinte entraram na salinha dos brinquedos pelo seu pé e já vi crianças que se diria tinham finalmente 'dado a volta' e que no dia seguinte tinham morrido. E já vi aquelas cujo estado geral se deteriora de tal maneira que vão ficando cada vez mais no seu quarto, cada vez mais ausentes até entrarem em coma cada vez mais profundo e morrerem.

Dou-me conta que mais ainda que o desenrolar do próprio cancro, há um sem fim de complicações que aparecem para alterar os prognósticos e os subsequentes tratamentos. Sei também que o processo está longe de estar concluído: quando acabar esta fase vem um ano da chamada 'manutenção' e depois vem a vigilância constante e regular: não se sabendo o que provoca este cancro não se têm pistas para antecipar uma possível recaída. E se houver recaída, tudo fica bem mais difícil e as hipóteses de cura bem mais remotas. Prognósticos aqui, só mesmo no fim do jogo!

E depois, há os tratamentos que são brutais. E brutais as consequências e os efeitos secundários dos tratamentos. E brutais todas aquelas coisas que se espera não aconteçam mas que já aconteceram noutros casos... E há as biópsias sob anestesia e ficar meio dia sem poder comer nem beber, e há as punções lombares feitas sem anestesia... E é a perspectiva de mais internamentos e de mais isolamentos e da vida posta de lado durante anos... E é o dó daqueles que sofrem sem se queixar, e daqueles que não aguentam mais, e dos pais que não são capazes de lidar com a doença, e das crianças que choram, choram... E é o ambiente que pode ser tão pesado que os próprios médicos dizem: 'há dias que nenhuma palavra é capaz de descrever o que aqui se passa'...

Para não falar no famoso transplante que a ouvir as pessoas é tão simples como tomar uma aspirina. Simples é, na medida em que o transplantado recebe a medula a transplantar através do caterer: parece uma transfusão. Mas aqui acabam as parecenças. Para preparar o doente para o transplante é preciso 'eliminar' por completo a medula do próprio, o que é feito com doses ainda mais 'letais' de quimioterapia e outros processos. E depois é preciso que o transplante agarre, que não seja rejeitado, que não rejeite o seu novo hospedeiro, que o que resta do sistema imunológico do doente não se ponha a combater desenfreadamente este invasor... E os vómitos, e os enjoos, e as feridas no sistema digestivo, e os problemas na pele, e as complicações... são proporcionais. E este isolamento sim é rigorosíssimo e não costuma durar menos de dois a três meses.

No meio disto tudo, a Marta tem tido um percurso surpreendentemente bom.

Porque a quimio tem resultado (há crianças cujos cancros não cedem nem um milímetro a doses sucessivas de quimioterapia), porque de todas as infecções que podia já ter feito - fez poucas, porque de todas as complicações - só fez a dos fungos... Porque odiava 'fazer o penso do cateter' que tem que ser mudado todas as semanas, chorava, gritava, debatia-se e ficava roxa que nem uma beringela (descolam-se os adesivos que agarram à pele e isolam de infecções primárias, limpa-se, desinfecta-se com alcóol e colocam-se novos adesivos) mas já fez dois pensos sem chorar! No hospital de dia toda a gente sabe que de todas as crianças e adolescentes que por lá passaram só havia uma menina que não chorava quando fazia o penso. Agora se calhar vai passar a haver uma segunda.

E esse famoso cateter que tem funcionado sem problemas! Há crianças que com o mesmo tempo de cancro que a Marta já mudaram 4 vezes de cateter, outras que não podem pôr cateter.... E é vê-los serem picados para tirar sangue, para fazer tratamentos. E já nem tem a ver com a perícia das enfermeiras que é muita, tem a ver com a saturação e a dificuldade em gerir esta 'doença prolongada'.

A Marta é um deslumbramento e vive este desafio com uma maturidade e um sentido de humor que fazem pasmar todos: ao pé dela, a gente sente-se bem! Como não tem irmãos compatíveis e tem respondido bem aos tratamentos, os médicos decidiram não agendar para já o transplante na esperança de que a Marta seja dos raríssimos casos de mieloblásticas que se curam sem transplante. Eu acho isto uma benção do céu, não acham?

Perante tanto milagre, tanto mimo de Deus, como não viver em acção de graças?
Como não receber com toda a gratidão os paliativos que Deus nos manda, à Marta e a nós?
Como não louvar a Deus por esta avalanche de orações que amigos e desconhecidos têm feito descer sobre nós?
Nunca achámos que a vida fosse feita sobretudo ou só de coisas boas. Se agradecemos essas, como não agradecer as outras?
Se pedimos a Deus para acabar a vida nos Seus braços divinos, como achar que o nosso caminhar se pode fazer à margem daquilo que é intrinsecamente humano e que inclui dor e sofrimento?
Se sabemos que Deus gosta da Marta e de cada um de nós com um amor indizível e irrepetível, que para ela e cada um tem um projecto de amor perfeito, como não confiar, sem réstia de medo?
Se sabemos que nos entregámos à Providência misericordiosa de Deus, como não viver em absoluta paz?
E se sabemos que a fé é um dom gratuito, como não o receber com toda a humildade?
A felicidade não é a ausência de dor. A morte é a passagem para a verdadeira vida.
Deus criou-nos para sermos felizes: em que é que andamos a perder tempo?
De facto, a única coisa que devemos temer é o mau uso da nossa liberdade porque isso sim afasta-nos da felicidade.
Tudo o mais é a certeza absoluta do carinho e da ternura avassaladora de Deus por cada um de nós. Ser feliz é ter a certeza do amor de Deus por mim. É cantar, como Nossa Senhora, o meu 'Magnificat'.

Como é que eu estou? Estou óptima!"

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

O Imperador

Homenagem ao Pe António Vieira
nos 400 anos do seu nascimento

A fachada erguia-se ancestral e rude.
Sibilavam ventos e sons guturais, lançados das portas.
Escárnios e cantigas negras abafavam a harmonia.
Convidados a entrar, os gonzos pesados gemiam ainda agonias.

Outro espectáculo nos era dado considerar
para lá daquele primeiro abalroamento de ruídos:
salas renascentistas homenageavam os grandes da família.
Aprumados e apurados viam-se os ancestrais maiores,
épicos e líricos desse reino.
E era voz de Príncipe a que elevava sublime o canto da nossa gesta.

Depois, porém, fomos ensurdecidos com a fantasia.
Sucediam-se salas de oiro e de brilhos barrocos,
salões sumptuosos,
e bailes apaixonados de palavras.

Mordomos vários indicavam ao séquito estar, todavia, já próxima a sala do trono.
O rigor arquitectónico era agora limpidíssimo. Preciso.
Notavam-se subtis escadarias em espirais.
Pelas janelas inacianas entrava uma luz suavíssima.
E os ares eram rarefeitos.
Havia fragrâncias que sugeriam raridades exóticas.
Tingidas de sangue as tapeçarias expunham tons vários
denunciando crimes, combates e enredos mil
que o palácio escondia.

Mas chegados, então, junto da majestade
eis que nos abriu os braços em gesto largo de nobreza atlântica
o velho sábio de mãos de filigrana e nervo:
santo incontestável da liberdade da terra e da língua,
prega-dor da doçura de floreados levíssimos,
o nosso mui pobre senhor, António Vieira
búzio do mistério da pátria,
sacerdote do destino católico de nós todos,
destemido navegador da língua,
mártir da paixão por um Portugal de honra e beleza.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Outros Carnavais

Nunca aderi espontaneamente à festa do Carnaval. A chegada das serpentinas, máscaras e bombinhas às montras das tabacarias despertava-me algum interesse, mas esse não superava de imediato um leve sentimento de melancolia provocado pelas recém-finalizadas festas natalícias e pelo reinício da implacável disciplina escolar.
As minhas mais remotas recordações do Carnaval referem-se à casa da Avenida, onde a minha bisavó Valentina imprimia ao evento uma marca particular, fruto da sua passagem pelo Brasil. Por exemplo, lembro-me de um grande boneco que nos aguardava, medonho, à entrada da casa de jantar. Era feito de roupas e enchimento em cima de um cabide de fato e usava o chapéu do meu avô João. Os croquetes feitos com algodão e outras partidas célebres desses Carnavais da Avenida não alcança a minha memória.
O que me desagradava profundamente era que me mascarassem. Mesmo de Cowboy, figura heróica de todo o ano. Detestava que me pintassem com bigodes e patilhas de cortiça chamuscada, ou me espetassem com um chapéu de plástico que me caía continuamente da cabeça a baixo. Além disso ficava com uma intimidante “noção de mim”, era o fim da espontaneidade. O que eu gostava mesmo era dos lustrosos revólveres prateados e umas cargas de fulminantes para correr aos tiros atrás dos meus primos. No recreio da escola, a figura de Cowboy ainda valia o esforço de pôr a bata xadrez entalada para dentro das calças de ganga. Era o que bastava para me sentir um autêntico Cartwright. Mas isto nada tem que ver com o tema desta crónica. Carnaval para mim eram as semanas precedentes ao feriado, em que eu e os meus colegas da escola experimentávamos as mais endiabradas aventuras com bisnagas, bombas e “estalinhos”. Com cinco tostões comprávamos cinco estalinhos ou… uma bomba. Com cinco escudos possuíamos um verdadeiro arsenal. À saída da escola, munidos de uma carteira de fósforos, corríamos o bairro, de caminho para casa a rebentar bombas nos sítios mais insólitos. Nada como uma boa explosão dentro de uma funda sarjeta, ou na escadaria de pedra de um prédio. Até os vidros tremiam, enquanto já a milhas corríamos em fuga. Ainda pelas ruas de Campo d’ Ourique armados com coloridas pistolas espaciais, corríamos endiabrados à volta dos carros estacionados disparando potentes esguichos de água uns aos outros. Até esbarrarmos com uns quaisquer gandulos do Casal Ventoso que, violentos, com uns gritos e uns socos se apoderavam das nossas preciosas armas. Era a lei da rua, a lei do mais forte.
No Carnaval era a festa de anos do meu primo Manuel. Festas inesquecíveis, com muita criançada, em que acabávamos a tarde exaustos, enrolados em quilómetros de serpentinas, às escuras, a ver projectados desenhos animados Silly Symphonies de Walt Disney ou umas curtas-metragens do Charlot em Super 8.
Na entrada da adolescência, no Liceu Pedro Nunes, por altura do PREC, quando qualquer divergência se resolvia democraticamente à pedrada, as partidas carnavalescas atingiam requintes de malvadez. Por pudor escuso-me a relatar algumas arbitrariedades por mim testemunhadas. Mas era comum detonar uma dessas poderosas bombas no “Metromijas”, o WC dos rapazes, umas instalações subterrâneas situadas no meio do pátio. Depois era esperar, após a estrondosa explosão, que as vítimas assomassem ao cimo das escadas, esquálidas e despenteadas…
Chegados ao Entrudo, os excessos e a brincadeira estavam feitos e gastos. Então, sempre me pareceram patéticas as figuras daqueles miúdos mascarados em passeio com os seus babosos pais, com quem me cruzava a andar de bicicleta no Jardim da Estrela. Que tristonhas “espanholas” e “noivas do Minho”, que infelizes aqueles repetidos “Zorros” e “campinos”, de bochechas pintadas e olhos tristes. Com uma matinée no cinema Europa, umas voltas de bicicleta e muita televisão passava-se o meu Carnaval. Mas afinal que bom que eram para mim aqueles cinco dias sem ir à escola!

Fotos: Daqui

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Cem anos de decadência

Faz hoje cem anos que matámos o rei, o dia amanheceu solene e triste, as primeiras notícias confirmam o que esperávamos, o bastonário da ordem dos advogados cumpre os serviços mínimos para que foi eleito – interferir e descredibilizar ainda mais o processo da Casa Pia.
Há cem anos, o processo do Regicídio também se perdeu nos gabinetes da primeira república, a verdade nunca se apurou, e a impunidade venceu.
Faz hoje cem anos que perdemos o fio à meada, não admira portanto que tenhamos perdido o sentido comunitário da honra, da liberdade e da independência.
Acreditamos hoje que o crime do Terreiro do Paço, e as sucessivas (e inevitáveis) revoluções republicanas que lhe seguiram, serão as grandes responsáveis pelo atraso a que estamos votados.
Sabemos hoje, apesar da censura, da propaganda, das várias cumplicidades, que o rei foi um extraordinário estadista, que visava longe, desde logo a reforma do estado, o reforço da centralidade atlântica, a investigação e valorização dos nossos recursos marinhos, que tão bem conhecia, mas sobretudo, a defesa e o desenvolvimento dos territórios africanos que estavam à nossa guarda. Nesse sentido, o Príncipe Luís Filipe, herdeiro do trono, viajou até Àfrica naquela que foi a primeira deslocação de um membro da família real às colónias portuguesas.
Mas também sabemos que o espírito reformador do rei colidia com os interesses instalados, e na política externa, com os interesses das grandes potências, que cobiçavam as nossas colónias. Tudo isso, tudo junto, compôs o cenário do crime. Tudo isso, tudo junto, foi ganho pelo atentado.
Cem anos depois, a reforma do estado continua por fazer, o rotativismo que vivemos é o mesmo, ou pior, a justiça não funciona, e trocámos a centralidade atlântica, base secular da nossa independência, pela periferia de uma união europeia que pode falir a qualquer momento.
Com tudo isto, e tudo junto, cem anos depois, passámos de média nação europeia... para a cauda da Europa!
Por tudo isto, faz todo o sentido, que todos juntos, evoquemos os cem anos da morte do Rei Dom Carlos.
Que esta homenagem seja o primeiro passo para a reconciliação de Portugal com a sua história.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Regicídio - Em abono da verdade

Foi ontem apresentado no Palácio da Independência ao Rossio o Dossier Regicídio – O Processo Desaparecido, um trabalho de dois anos de investigação coordenado por Mendo Castro henriques e com a colaboração de Maria João Medeiros, João Mendes Rosa, Jaime Regalado e Luiz Alberto Moniz Bandeira. O livro com 348 páginas e 400 ilustrações, resulta de dois anos de investigação que tratou cerca de 1.500 documentos, alguns inéditos, 400 artigos e opúsculos, 60 livros, de arquivos públicos e particulares.
Na falta do processo instaurado na época pelo juízo de instrução criminal e convenientemente sumido depois do cinco de Outubro algures no gabinete de Afonso Costa, a obra centra-se na documentação possível dos factos ocorridos na trágica data, obviamente sem que se possam assacar conclusões cabais.
Sobre o assunto, o Juiz Desembargador Rui Rangel a quem coube a apresentação da obra, salientou a fatídica tradição nacional da incapacidade instituição judicial portuguesa evitar a interferência dos poderes políticos. Como exemplo, o orador referiu alem do regicídio de 1908, o assassinato de Humberto Delgado e o caso Camarate.
Uma obra a não perder, em abono da verdade.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

"Qual é o segredo?"



«(…) Isodoro Alonso nasceu em Santa Gadea del Cid, uma aldeia de 500 habitantes perto de Burgos, no seio de uma família muito católica (…)
Aos 18 anos foi como missionário para a América do Sul, de onde só regressou 18 anos depois, para ingressar na Cartuxa. “Nunca tinha visto o mar, até entrar para o barco e passar 20 dias no mar”. Na Bolívia e no Peru foi professor “de tudo”. Foram 18 anos de aventuras inimagináveis, de lutas religiosas contra os convertidos protestantes, de evangelização, de discursos, de discussões públicas para trazer os jovens para a fé… E de repente… o silêncio. (…) “Toda a minha vida tive este pensamento, de entrar para a Cartuxa. Tinha de o realizar”
Mas compreende por que razões já não há vocações. Uma vez, já depois de muitos anos de Cartuxa, Isidoro foi a um encontro internacional de priores Cartuxos em França. Na viagem pararam no Corte Inglês, para almoçar. Foi um assombro. O menu era uma confusão de nomes incompreensíveis. “Eu não sabia o que escolher. ‘Escolham por mim’, disse. ‘Deve ser tudo bom’” Comeram lavagante. “Uma maravilha! Depois as mesas, a decoração, tudo bonito. As casas de banho limpíssimas… Uma maravilha! O carro, um Mercedes, uma maravilha!”
Após uns dias de maravilhamento ininterrupto, o padre compreendeu por que ninguém quer ir para um convento.”Vive melhor hoje um pobre do que vivia um rei há 100 anos. Por isso as pessoas andam distraídas do que é importante, de Deus. Mas, depois, toda essa abundância material leva a um imenso vazio. E solidão. Sinto que as pessoas em Lisboa vivem mais sós do que os monges aqui, na Cartuxa” (…)»

Do livro “O Segredo da Cartuxa”, Pedra da Lua, citando o Frei Isidoro Alonso, Prior da Cartuxa Scala Coeli, Évora.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Sarkozy

Na sexta-feira passada, ao serão, alguns de nós, que escrevemos neste blogue, juntámo-nos para partilharmos algumas leituras de que gostamos muito. Lemos um texto lindíssimo da Raissa Maritain, da sua conversão ao cristianismo. Com uma escrita límpida, serena, com uma tal evidência que supera qualquer perspectiva céptica da existência. É um texto de uma iluminação absoluta, quase inalcansável nas suas premissas, só tangível numa atitude de acolhimento e de aceitação perante a vida. Mergulhámos em Péguy, " O pórtico do Mistério da segunda virtude", um dos textos mais assombrosos que os meus olhos alguma vez tocaram. Um livro para amar, chorar, o sabor do "gosto do pão". E no fim da sessão, noite dentro, a grande surpresa, um texto de Sarkozy. Um texto imenso, magnético, um relâmpago, flecha de cristal "mais un homme qui croit, c´est un homme qui espère". Foi pronunciado em Roma, penso que no final do ano passado, em S. João Latrão" Les racines de la France sont essentiell chrétiennes. Et la France a apporté au rayonnement du christianisme une contribution exceptionnelle". São afirmações surpreendentes em catadupa " le fait spirituel, c´est la tendance naturelle de tous les hommes à rechercher une transcendance" que não são pertença do espaço público político dominante. Este texto é um desafio, uma interrogação, uma folha de aço a brilhar. É uma urgência lê-lo, uma urgência meditá-lo. É uma estrela que caíu como no filme de Capra. Que rasgou a noite e gerou a inquietude.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

História de algibeira (25)

Na imagem acima, o Benz da Casa Real, de 1907. Este automóvel foi utilizado pelo Rei D. Carlos e conduzido pelo motorista Luís Francisco, o "Ponta da Unha". O célebre Benz ainda serviu o Rei D. Manuel II. Depois da proclamação da República, com o Presidente Manuel de Arriaga "ainda subia envolto em densa fumarada a Calçada da Ajuda com força e potência do seu motor mas já sem o brilho e o aparato dos bons velhos tempos".

In Apontamentos Memoriais de João Pinto de Carvalho.

Notas e imagem daqui

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Rui Ramos, hoje no Público

Obrigado aos “sábios” de Roma

«Há dias que quase toda a gente os anda a condenar. Parece-me que chegou a altura de lhes agradecer. Falo dos “sábios” que a semana passada, guiados por um velho estalinista e apoiados pela polícia de choque da “antiglobalização”, dissuadiram o Papa de visitar a Universidade La Sapienza de Roma. No fim, deram-nos a todos um pretexto para rever matéria sobre teoria e história da tolerância. Não era esse o objectivo? Foi esse o efeito. E permitam-me que também aproveite a boleia. Quem sabe? Talvez os “sábios” tenham aprendido alguma coisa e não nos proporcionem tão cedo outra oportunidade.

Parece que há gente, na Europa, a quem as religiões voltaram a meter medo. Depois do 11 de Setembro, a religião tomou o lugar que o nacionalismo tinha no tempo da guerra da Jugoslávia. [...] Enganaram-se de século? É por hábito? Ou dá-lhes mais jeito mostrar contra o Papa a coragem que lhes falta perante os jihadistas? Pois: morrer pelas ideias, mas de morte lenta. Sim, na Europa, até ao século XIX, as igrejas de Estado resistiram ao pluralismo e à sua expressão. Mas a intolerância e a perseguição que milhões de europeus sofreram nos últimos duzentos anos não se ficaram a dever às religiões tradicionais, mas às modernas ideologias laicas. Os deuses dos que não acreditam em Deus foram sempre os mais sedentos. Em nome do Ente Supremo, da ciência ou do racismo pagão, republicanos jacobinos, marxistas-leninistas e fascistas “moralizaram”, proibiram e abasteceram largamente cemitérios e valas comuns. Os que prezam a liberdade de “errar” (e não apenas a de pensar “correctamente”) têm uma dívida para com quem criticou os velhos dogmas, como Voltaire, mas também para com quem resistiu aos novos, como João Paulo II. Neste mundo, a liberdade de pensamento não tem pais exclusivos. O fundamentalismo laicista trata toda a convicção religiosa como o vestígio absurdo de uma idade arcaica, intolerável fora do espaço privado. Mas a fé não é fácil, não é uma opção primitiva nem simplesmente um preconceito. Ou antes: pode ser tudo isso, mas pode também corresponder à mais forte exigência intelectual e à disponibilidade para enfrentar profundamente as mais difíceis de todas as dúvidas. Exactamente, aliás, como o ateísmo: há quem o viva como um dogma beato, muito contente consigo próprio, ou quem o tenha adoptado como a forma mais conveniente de não pensar. Muitos são hoje ateus pelas mesmas razões por que teriam sido beatos no século XVII. E se mandam calar Bento XVI é porque, há quatro séculos, teriam mandado calar Galileu.

[...] Numa cultura intoxicada pela hubris da ciência e das ideologias modernas, certas religiões conservaram, melhor do que outros sistemas, a consciência e o escrúpulo dos limites. O mesmo se poderia dizer da questão da verdade, que a ciência pós-moderna negou, sem se importar de reduzir o debate intelectual ao choque animalesco de subjectividades.

Não, não é preciso fé para perceber que das religiões reveladas (e doutras tradições de iniciação espiritual) depende largamente a infra-estrutura de convicções e sentimentos que sustenta a nossa vida. O seu silenciamento no espaço público não seria um ganho, mas uma perda. No dia em que não pudermos ouvir Bento XVI, seremos mais obscurantistas e menos livres. Obrigado aos “sábios” de Roma por nos terem dado ocasião para lembrar isto.»

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

O povo

Ontem foi Madrid, hoje foi Roma. Eles estão ali no lugar onde sempre estiveram. Antes foram os pais, os avós, a família, a terra e a história. Não é gente nova, não inventam nada, têm apenas o dom de estar no lugar da pertença e da sabedoria. E reconhecer que a atitude perante a existência, do âmago da vida, é participar no coração dos actos que são os nossos. Existem coisas que são nossas, que são de nós: a terra onde nascemos, os pais que amamos, a família onde crescemos, os filhos que vimos nascer, as orações que aprendemos, o mar onde mergulhámos, a memória onde atámos o nosso ser. Estas coisas são nossas, de nós todos, de toda a gente. São o sinal daquilo que fazemos, os elementos dos quais somos parte. Quando os vemos em Madrid ou na praça de S. Pedro sabemos que o nosso lugar é ali. Que fazemos parte desta família, que a nossa casa é esta. Que este é o nosso sangue, que o sangue dos nossos filhos escorre nessas veias. Que ali se constrói o mundo pelo qual trabalhamos e queremos ter. A grande luta do nosso tempo é estar ali. Do lugar dos que procuram, da busca. O mais difícil não é o caminho, o caminhar para a frente, é o caminhar de frente. Com a face desvelada e o coração dócil. Lembro-me de uma canção que ouvia aos meus filhos quando eram pequeninos: " Come sei bella Italia cosí senza giorni di pioggia".

As abelhas castelhanas

O apicultor estava desolado, as suas abelhas estão a desaparecer, morrem de fome e cansaço, vítimas de um poderoso enxame espanhol, cujas obreiras invadem diáriamente a fronteira, comem o pólen lusitano e dizimam as nossas compatriotas! Verdade que a abelha nacional não estava preparada para tal concorrência e quando lhe falaram de europa não percebeu que isso soava ao toque da antiga trombeta castelhana! E assim, distraída, pensando apenas no mel dos subsídios, esquecendo que de Espanha... ‘nem bom vento nem bom casamento’, a pobre abelhinha lá vai definhando à espera de um Condestável, que tarda!
Mas se as colmeias portuguesas estão em crise, mais a sul, a situação é diferente. Em pleno Alentejo, as terras abandonadas pelas ocupações de Abril e pelas experiências colectivas soviéticas, estão agora recobertas de extensos e viçosos olivais, propriedade castelhana, que prometem produzir o melhor azeite espanhol da europa!
E nós… ‘vamos cantando e rindo, levados, levados, sim...’

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Memórias urbanas

Sempre que necessito deslocar-me dentro de Lisboa, o meu transporte favorito, se por lá passar, é sem dúvida o Metro. Mas quando tal não é possível, o Táxi é uma solução bem eficiente, em certos casos até económica, se considerarmos os preços do estacionamento. Se com alguma sorte o motorista não for excessivamente intrusivo, esta alternativa torna-se até quase perfeita. Mais, quando algures na cidade procuro um Táxi, e se puder escolher, garanto-vos que escolho um Táxi "verde e preto", que é a cor verdadeira dos táxis. Assim como quando eu era pequeno considerava que o português era "a" língua “verdadeira” e aquelas incompreensíveis verborreias dos filmes de TV umas exóticas e deficientes tentativas de comunicação, os táxis beges são para mim uma espécie de degeneração estrangeirada dos “verdadeiros” táxis. É que, no meu tempo de criança, um Táxi era simplesmente um Mercedes 180 "verde e preto", de bancos corridos em cabedal e com uma fascinante manete de mudanças saída do volante cor de marfim. Quanto muito nessa altura cheguei a admitir a modernice dos “Datsuns”, umas revolucionárias banheiras com rodas que apareceram nos anos 70… mas sempre na condição alegre e tradicional do “verde e preto”.
Depois, nos anos 90, umas luminárias cá do burgo (nunca entendi bem a verdadeira história) decidiram que se pintassem todos os táxis de "cor-de-burro-quando-foge”. Hoje, é com uma confortável satisfação que vejo crescer o número de táxis “verdadeiros” na minha cidade. Coisas minhas, coisas cá deste intrépido e incurável conservador.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Ficção ou talvez não!

As agências internacionais noticiam com espanto que Portugal está a viver um novo ‘prec’, um novíssimo ‘gonçalvismo’! Com efeito, tudo leva a crer que a banca está a ser outra vez nacionalizada, mas desta vez com uma pequena diferença em relação aos longínquos acontecimentos de Março de 1975 – hoje são os próprios banqueiros e os grandes accionistas que querem ser nacionalizados! Pelo contrário, os pequenos accionistas, as pequenas poupanças, o povo… unido à volta de um quixotesco defensor da iniciativa privada, tenta desesperadamente evitar a consumação do acto… mas em vão!
Há quem se interrogue sobre o estranho comportamento dos empreendedores lusitanos, que afinal não querem ser livres, nem empreender, mas tão só engordar ao colo do Estado!
E como os bons exemplos frutificam, não existe jovem português que não repita: quando for grande quero ser empresário… no Estado!
Toca o hino: “Heróis do mar…”!

sábado, 12 de janeiro de 2008

A quem possa interessar eis aqui o programa do Centenário do Regicídio. De resto, esta e muito mais informação pode ser consultada em http://www.regicidio.org/. Uma nação sem memória é uma nação condenada.


31 Janeiro 2008 - 21:30
Auditório Cardeal Medeiros, Biblioteca João Paulo II - Universidade Católica Portuguesa-Lisboa, Conferência "Dom Carlos I, Um Rei Constitucional", Orador principal - Rui Ramos.
31 Janeiro 2008:
Após a conferência no mesmo local - Concerto pelo Grupo de Música de Camara da Banda do Exército.
1 Fevereiro 2008 - 17:00 horas:
Concentração no Terreiro do Paço, junto à placa evocativa do Regicídio.
1 Fevereiro 2008 - 19:00:
Basílica de São Vicente de Fora, em Lisboa, Requiem Soleníssimo "In Memoriam" do Centenário do Regicídio presididas por Sua Eminência O Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa. Deposição de coroas de flores e homenagem solene aos túmulos de Sua Majestade O Rei Dom Carlos I e de Sua Alteza Real O Príncipe Herdeiro, Dom Luís Filipe.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

ASSIM NÃO!!

Como se tudo o que se vem passando nos últimos tempos em Portugal não fosse já demasiado mau, só numa semana, por sinal a primeira completa após o início do novo ano, temos que enfrentar tudo isto por parte daqueles que estão à frente do destino do país:
1- pagamento extraordinário das pensões:
primeiro em prestações (no caso das pensões inferiores a 611,12 euros seria na ordem dos 68 cêntimos por mês…).
Depois, já não é em prestações, mas o Governo diz que mantém sobre a matéria a mesma posição;
2- Tratado de Lisboa:
ratificado no Parlamento e não em referendo, mas o Primeiro Ministro diz que não há quebra de qualquer compromisso anteriormente assumido, porque este é o Tratado de Lisboa e não o Tratado Constitucional;
3- venda do espaço do antigo Convento de Brancanes e no qual anteriormente funcionou o Estabelecimento Prisional Regional de Setúbal, a numa empresa da qual será, pelo menos, advogado António Lamego, antigo sócio do Ministro da Justiça Alberto Costa na sociedade de advogados que o mesmo integrou. Tal empresa nem sequer estaria constituída aquando da compra (porque não teriam recorrido à Empresa na Hora?).
A venda, segundo o Público de hoje, terá sido efectuada por 3,4 milhões de euros, menos 892 mil euros do que o Ministério da Justiça pagou pelo imóvel em 1998, mas o Ministério da Justiça esclareceu que nada tem a ver com o negócio (???);
4- decisão preliminar de que novo aeroporto será em Alcochete e não na Ota, mas o Primeiro Ministro diz não há qualquer contradição com o que anteriormente foi declarado pelo Ministro Mário Lino, porque agora há um novo estudo do LNEC (e tal estudo nem sequer foi realizado por pressão da sociedade civil ???).
E se o estudo de impacto ambiental for desfavorável a esta decisão preliminar?
E porque não Portela + 1?
Para onde vamos?
Tudo isto interfere directamente com a nossa vida e não nos pode deixar indiferentes, embora me preocupe a apatia generalizada que parece reinar.
Numa coisa estou de acordo com o Primeiro Ministro: “O país precisa de andar para a frente”- Só que Assim Não!

Este senhor ainda é nosso ministro?



Parece que sim. No governo ninguém deve ter ouvido esta anedota.

Péguy

A bomba rebentou. Mudou as formas, a memória, roubou a ignorância e o medo. Em 1912, Péguy roubou a carne, a alma e a esperança e a infãncia e a cruz. " O pórtico do Mistério da Segunda virtude" rebentou tudo por dentro, as mãos e o coração, estilhaços de glória. Ninguém escreve como Péguy. " As crianças quando choram são mais felizes do que nós quando rimos / E quando estão doentes são mais infelizes que tudo neste mundo / E mais comovedoras / porque nós sentimos e eles sentem bem que é já / uma diminuição da sua infãncia. / É o primeiro sinal do seu envelhecimento. / A caminho da morte. / Temporal." Este livro é o princípio, o começo das palavras e dos filhos. " Tudo o que começa tem uma virtude que não mais se encontrará / (...) / Uma nascença que nunca mais se irá encontrar / o primeiro dia é o mais bonito / o primeiro dia é talvez o único dia bonito / e o baptismo é o sacramento do primeiro dia / e o baptismo é tudo o que há de belo e grande". A escola no momento de dizer a verdade tem medo, a escola mente, está a mentir. O nosso tempo, o tempo moderno, do ser que somos hoje, não é a metafísica lodosa da Tabacaria, dos chocolates rimados de melancolia, nem a viagem centrífuga de Bloom na Dublin de Joyce. Isto são migalhas. Rolos de pregas amargas. A modernidade começou antes, "há no que começa uma fonte, uma raça que não volta atrás", os filhos crispados de Zaratustra sabem disso , mas escondem a relíquia amarga. A linguagem eliptíca, repetitiva, as palavras soltas á beira do abismo, a gramática feita esgar, o sangue, a carne e a alma do verbo estão aqui, inteiras, redondas, acabadas. Se a modernidade actualiza o nosso ser, o nosso corpo, se as palavras afirmam a memória, nunca a linguagem se fundiu tanto " que vem a ser ter este corpo; ter esta ligação com o corpo / ter essa ligação com a terra, com esta terra, ser esta terra, o limo e a poeira, a cinza e a lama da terra". Nunca na literatura deste tempo o corpo de Jesus foi tão fundo, foi tanto do ser, uma evidência. Péguy é o escritor que não esquece o lodo da terra, os filhos, o Pai, o naco de pão e a esperança. " O Pórtico do Mistério da Segunda Virtude" é um dos mais belos livros que habita o coração. A maior descoberta depois da colheita.

Pazes (provisórias) com VPV

O Governo socialista de José Luis Zapatero resolveu suprimir o ensino religioso, facilitar o divórcio e permitir o casamento de homossexuais. O objectivo é o "reequilíbrio" da Espanha, que, segundo parece, trinta anos de democracia deixaram excessivamente católica e "franquista". Dentro do seu papel e do seu direito, o arcebispo de Madrid e o arcebispo de Valência convocaram uma pequena manifestação de protesto (160.000 pessoas) contra a cultura do laicismo" e contra leis que alegadamente contrariam o "matrimónio indissolúvel" e a "transmissão da vida". O Governo de Zapatero acusou logo aIgreja de se intrometer na campanha eleitoral (a 9 de Março há eleições), de fazer um comício como um vulgar partido (no caso, o PP) e de "ignorar" e não respeitar" os princípios da liberdade. Em Espanha, e na "Europa" inteira, ninguém se lembraria de criticar ou de inibir manifestações contra o ensino religioso, pela facilitação do divórcioou pelo casamento de homossexuais. Como ninguém se lembra de criticar ou de inibir manifestações por formas de autonomia nacional que roçam, ou até entram, pelo separatismo. E obviamente ninguém pede que se ponha fim a uma certa propaganda islâmica ou, se preferirem, de ensino corânico, que prega a perversidade essencial do Ocidente e tenta promover a sua expeditiva eliminação. Tudo isto a "Europa" acha legítimo; e sobre tudo estende a sua simpatia. Em contrapartida, cai o céu se qualquer católico, padre ou Papa, se atrever a afirmar activamente o que pensa. A "Infame" deve estar calada ou, pelo menos, ser discreta. O fanatismo, o da Espanha (de Zapatero) e o da "Europa", não é novo; e o fanatismo anticatólico também não. É só estranho que este se funde na "diversidade" e o aceitem em nome da "tolerância". Uma "diversidade" imposta e limitada pela força do Estado, que não levanta a mais leve dúvida ou o mais leve incómodo. E uma "tolerância" reservada ou recusada pela ortodoxia oficial, que se tornou o argumento supremo da intolerância. O mundo moderno e a opinião que o sustenta autorizam o que autorizam e proíbem, muito democraticamente, o resto. As democracias, como se sabe, produzem com facilidade aberrações destas. Quem não gosta que se arranje ou se afaste. O Papa Ratzinger previu para a Igreja uma era de quase clandestinidade. Provavelmente, não se enganou.

Vasco Pulido Valente
05.01.2008
Notas
1º Outras fontes falam em mais de um milhão de manifestantes... O Sapateiro não se incomodaria tanto com tão poucos;
2º "Infame" é um epíteto lançado por Voltaire à Mãe da Europa.

A Ética da Responsabilidade

do nosso Primeiro Ministro:

Sobre o Tratado

"É essencial"
- Out 2004

"Desta vez tem de haver" - Dez 2004

"Vai haver" - Fev 2005

"O Governo defende que a aprovação do Tratado deva ser precedidade de referendo popular" - Mar 2005

"Mantenho" (Mantém o objectivo de referendar o Tratado qualquer seja o resultado deste processo institucional?) - Dez 2006

Jan 2008 - "O Tratado de Lisboa será ratificado na Assembleia da República."

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

História de algibeira (24)

O Instituto de Socorros a Náufragos foi fundado e presidido por Sua Majestade a Rainha Dona Amélia por Carta de Lei de 21 de Abril de 1892. Ficou célebre a intervenção da Rainha num emocionante e bem sucedido salvamento de um pescador na praia do peixe em Cascais.


Foto daqui

domingo, 6 de janeiro de 2008

Dia de Reis

Confesso que estava com alguma dificuldade em reiniciar a escrita no novo ano, porém, o significado deste dia, e um bom incentivo vindo de fora, resolveram o problema. Não resisto a publicar o incentivo, que rezava assim: “ Caro amigo monárquico, urge que hoje, dia de Reis, compareça no Presépio que é cada Eucaristia, a prestar as honrarias ao Rei, inclinando-se em Amor sobre Aquele que por nós Se inclinou”.
Belíssima mensagem, difícil de resistir, e que sobreleva todas aquelas questões que fazem a agenda política de 2008. Seja a ‘pro-actividade laicista’, na robótica expressão de Menezes, para significar a nova vaga anti-clerical Socretina, seja a viagem napoleónica de Sarkozy ao Egipto (ou será viagem nupcial de Marco António e Cleópatra!), sejam os partidos familiares e democráticos muito em voga (leia-se: a corte republicana e os seus inevitáveis cesarismos), seja ainda o furor com que nos comprazemos a verificar a eficácia das leis, num país onde não se cumprem, onde a justiça não funciona, e quando resolve funcionar, nunca se esquece dos vários pesos e medidas!
Como vêem, não valeu a pena desviarmo-nos da mensagem inicial, portanto, com bolo-rei ou sem ele, com os bagos de romã ou sem eles, é dia de celebrar o Rei dos reis, com os presentes disponíveis, símbolos da Realeza Maior, bálsamos do corpo e da alma.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Pouco convincente…

É da minha vista ou a entrada em 2008 foi pouco convincente! Pareceu-me notar um certo desconforto, alguma artificialidade nos sorrisos, até o champagne estava mais mortiço!... Claro que o fogo de vista esteve em grande! Também não foi por acaso que os ‘tarecos da moda’ se lembraram de fazer, no canal público, uma espécie de reveillón de há vinte anos atrás! É certo que pouparam nos cachets mas a ideia base é a mesma – não existe muita esperança no novo ano, e o revivalismo é como o algodão, não engana, quer dizer que já demos a volta ao conta quilómetros… e nada! Isto não anda para a frente!
Mas já agora aprofundemos um pouco o assunto, até podemos continuar com os ‘gatos’, rapazinhos inteligentes e que estão bem para o público que os aplaude freneticamente. Pela amostra junta arriscamos fazer uma radiografia social daqueles anos oitenta, do chamado cavaquismo, época em que os ‘revolucionários de modo vário’ já se tinham encaixado na função pública, para descobrir enfim as alegrias do capitalismo… de estado. Os descendentes, cresceram na deseducação do gastar sem produzir nem poupar, e como acontece sempre que isso acontece, a desregra é a regra, o consumo de álcool e drogas explodiu, explodiu a 24 de Julho, e explodiram as docas… sem navios! Os tais descendentes estudavam pouco, saíam a desoras, às horas a que os otários se levantavam para ir trabalhar! Mas o primeiro-ministro fazia maravilhas com os fundos europeus que todos os dias desembarcavam, aos milhões, no orçamento de estado! Havia para todos, ou quase todos, e por isso era empochar e gastar! Os gostos musicais da pequenada foram servidos e revistos no Pavilhão Atlântico… desfilaram ‘já fumega’, ‘trabalhadores do comércio’, ‘rádio Macau’… a firmeza e a força de ânimo eram as notas dominantes… por exemplo… ‘já não sei se hei-de fugir… ou morder o anzol… não existe nada de novo debaixo do sol’…
Esta geração tem agora perto de quarenta anos e muitos deles, os que escaparam ao deserto das dependências, são os actuais dirigentes do país.
Sem mais subscrevo-me atenciosamente, desejando a todos um Bom Ano.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Moda y personalidad

“La distinción es aquello que situá a la persona humana por encima de la vulgariad y dentro del señorío”. Ricardo Yepes Hasta hace unos años la periodista Leticia Ortiz era una presentadora más, que cumplía cada tarde su labor de dar las noticias, en una de las cadenas de la TV española. Ahora, esta elegante y sencilla mujer de 33 años, será la futura Reina de España ya que se ha casado con el Príncipe Felipe y han sido padres de una niña. Ante esta elección, muchas personas se formularán preguntas tales como: ¿Qué vio el Príncipe en ella, para tomar tan importante decisión?, ¿sería su belleza?, ¿su profesionalismo?, ¿o tal vez el aplomo y sinceridad en la mirada?, ¿qué hizo que un Príncipe viera en esta profesional, hasta cierto punto, una mujer común y corriente, a una princesa?Yo pienso, respondiendo un poco a estas preguntas, que la primera impresión contó. Y es que, en cuestión de impresiones, no existen segundas oportunidades. Ella misma dice que “la imagen es lo primero que se ve de nosotros y, por lo tanto, hay que cuidarla”. Todo esto implica seguir la moda, cuidar el cabello, tener buen gusto en el vestir. Es muy importante cuidar el aspecto personal y respetar con ello nuestras opiniones. Siguiendo con la periodista que se hizo famosa al convertirse en princesa, para ella “la personalidad se transmite a través de lo agradable de la mirada, del tono de voz, del aplomo al expresarse”. Ambos factores que menciona, según mi parecer, definen a una mujer, a una persona. Por que mientras la moda es ese accesorio con el que se saca máximo provecho a las formas del cuerpo, la personalidad revela la interioridad del alma; la moda da a conocer un estatus y estilo de vida; la personalidad, la madurez que se ha logrado y lo característico del yo. La moda viste a la personalidad, a lo que hay en el fondo. Si ese fondo es rico en valores, en vida interior, en pensamiento constructivo, el ropaje servirá para embellecer lo que hay dentro, lo que no puede verse, sino sólo en las actitudes y en lo denso de la mirada. Sheila Morataya

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

A pusilanimidade e o maior drama da humanidade

Referindo-se a uma expressão do general Franco em resposta ao que um dos seus médicos lhe dizia acerca da grande confusão que poderia ocorrer em Portugal, onde poderia vir a correr muito sangue: “Não acredito nisso, os portugueses são muito cobardes”, diz Miguel Alvim, num artigo publicado ontem no jornal Público, que o que é certo é que o mesmo nunca nos testou e conclui que: “O verdadeiro exercício da liberdade faz-se na escola da responsabilidade, ou seja, da escolha e acção bem ordenadas, que só podem ser uma. Daí a dificuldade em não se ser pusilânime”.
Isto é escrito a propósito da maioria que em Portugal e Espanha preferiu um dia ser pusilânime – do latim pusillanime, de alma pequenina – e cobarde não se opôs à prática do aborto em determinadas condições.
Logo na página a seguir do mesmo jornal surge um outro texto escrito por Rui Tavares, intitulado “O maior drama da humanidade”, em que o seu autor escreve que o facto de D. José Policarpo – não deixa de ser desde logo significativo que o autor se refira ao Cardeal Patriarca como “José Policarpo” - na homilia do Dia de Natal designar o ateísmo como o maior drama da humanidade, só poderá ser entendido se o mesmo estiver a falar apenas para os fiéis e que «…esse é um dos problemas de falar para dentro e, em particular da “viragem europeia” que Bento XVI impôs ao Vaticano. Para poder combater a irreligiosidade na Europa, a prioridade passou a ser a doutrina, em detrimento dos problemas que realmente causam sofrimento à humanidade em todos os continentes».
Continua o mesmo autor, dando mostras claras da sua ignoratio elenchi (ignorância do assunto), que estas preocupações da Igreja não passam senão de discussões acerca do sexo dos anjos, isto é, questões de mera retórica: “…se os europeus virem a Igreja mais preocupada com jogos de linguagem do que com o sofrimento real, acabará por agravar ambos os problemas”.
Assim, está bem de ver, a Igreja “não vai lá” porque “a estratégia está errada”.
Apetece-me dizer: ainda bem que temos o Rui Tavares.
O drama desta gente é que ignora que faça o que se fizer, se for feito sem Deus e sem ser para Deus, mesmo que humanamente se considere um êxito, é sempre mal feito. Cria a ilusão que o homem pode fazer bem sem Deus e outra ainda pior: que aquilo que se faz é indiferente ao destino de cada um.
Fazer bem é escapar à pusilanimidade; é deixar que aconteça em nós o Fiat de outrora, assumindo conscientemente que a nossa grandeza consiste em compreender que “Deus é Aquilo maior que o qual nada se pode pensar”.
Deixar que o Maior conduza a minha vida é fazer Bem!


terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Natal

"Nalgumas representações natalícias da Baixa Idade Média e princípios da Idade Moderna, o curral aparece como um palácio arruinado. Ainda se pode reconhecer a grandeza de outrora, mas agora foi à ruína, as paredes caíram: tornou-se, isso mesmo, um curral. Embora não tendo qualquer base histórica, esta interpretação, no seu aspecto metafórico, exprime contudo algo da verdade que se encerra no mistério do Natal. O trono de David, para o qual estava prometida uma duração eterna, encontra-se vazio. Outros dominam sobre a Terra Santa. José, o descendente de David, é um simples artesão; na realidade, o palácio tornou-se uma cabana. O próprio David começara por ser pastor. Quando Samuel o procurou para a unção, parecia impossível e absurdo que semelhante jovem-pastor pudesse tornar-se o portador da promessa de Israel. No curral de Belém, lá precisamente onde se verificara o ponto de partida, recomeça a realeza davídica de maneira nova: naquele Menino envolvido em panos e recostado numa manjedoura. O novo trono, donde este David atrairá a Si o mundo, é a Cruz. O novo trono – a Cruz – é o termo correlativo ao novo início no curral. Mas é assim mesmo que se constrói o verdadeiro palácio davídico, a verdadeira realeza. Este novo palácio é muito diverso do modo como os homens imaginam um palácio e o poder real: é a comunidade daqueles que se deixam atrair pelo amor de Cristo e, com Ele, se tornam um só corpo, uma humanidade nova. O poder que provém da Cruz, o poder da bondade que se dá: tal é a verdadeira realeza. O curral torna-se palácio: é precisamente a partir deste início que Jesus edifica a grande comunidade nova, cuja palavra-chave os Anjos cantam na hora do seu nascimento: «Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens que Ele ama», ou seja, homens que depõem a sua vontade na d’Ele, tornando-se assim homens de Deus, homens novos, mundo novo."

Bento XVI,
Ontem, na Missa do Galo

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Soneto Esquecido

O sino clama, sua voz vibrante se entrega aos ventos.
E o vento a leva longe, bem longe, para as distâncias.
O sino tange, sua voz de pranto cai sobre as ruas
Como esta neve, que os céus derramam.

O sino grita, pedindo alma, almas depressa!
E as almas dormem dentro das casas
Dentro dos corpos dos homens que andam
Nas ruas longas, nas grandes ruas, nestes desertos.

O sino chama, que o Deus menino
Está a nascer. E não há pastores nas cercanias.
Nem há sequer, para aquecê-lo dos grandes frios
Os bichos mansos de antigamente.

E os sinos chamam pelos Reis Magos,
Talvez perdidos nest’hora escura
E o sino chora. Ninguém o ouve. E todos dormem.

Não há mais almas, sinos parai!

Augusto Frederico Schmidt

sábado, 22 de dezembro de 2007

Memórias do Natal

Um misto de ingénuo espanto e ansiedade define a comoção com que eu na minha infância vivia a festa de Natal. Tudo começava na véspera, noite dentro, quando nós os cinco manos, lá íamos com os nossos pais, todos ao monte no velho carocha bege, bem agasalhados e aperaltados, para a missa do Galo. Ainda pequeno, era um sentimento muito especial o de entrar acordado no mistério da noite profunda e estrelada. Lisboa lá estava deserta e fria, mas calorosamente engalanada para a festa. Excepcionalmente para as solenidades natalícias íamos à Igreja de S. Pedro de Alcântara ou Santos o Velho. A ocasião era toda ela especial: a Igreja, quente e iluminada a preceito, tinha um cheiro especial, os cânticos também eram especiais, e o grande presépio ao fundo dominava o panorama. Num autêntico estado de graça eu sentia-me também especial, assim como Jesus que nascia...
Intimamente eu ansiava pelo fim da missa, pelos presentes e a ceia, na Avenida da Liberdade em casa dos avós, noite adentro com os tios e a primalhada toda. Era essa a primeira etapa do glorioso dia que então começava.
Além das coloridas iluminações de rua, o Natal era então também mundanamente anunciado por alguns sinais “televisivos”, que avisavam a chegada das festas. Eram os anúncios de brinquedos, chocolates e perfumes, o inevitável Natal dos Hospitais, e os magalas que logo a seguir ao telejornal mandavam saudades à família, em diferido das colónias.
Mas no Natal são os presentes que tocam profundamente as sedentas criancinhas. Lembro-me daquele Mercedes Dinky Toys, que especialmente para mim, o meu pai pintou de preto e verde para satisfazer o meu capricho de ter um Táxi “como os verdadeiros”. Houve um pequeno “transístor” (rádio a pilhas) revestido de cabedal castanho, oferecido pelo meu padrinho, o avô João, onde eu ouvi as minhas primeiras canções, o “Quando o telefone toca” e os “Parodiantes de Lisboa”. E num qualquer Natal mais próspero lembro-me de ter recebido uma enorme caixa de Mecano, um jogo de construção que fez as minhas delicias durante meses…
E depois havia o chocolate quente na Avenida, cheia de primos, sonhos e outros fritos. E havia o acordar tarde e estremunhado já em Campo d' Ourique, para com os meus irmãos acorrermos estonteados ao nosso sapatinho junto ao presépio... onde milagrosamente já constava o Menino Jesus devidamente deitado na sua manjedoura.
E ao final do dia, com uma réstia de preciosa energia, íamos ainda jantar aos meus avós paternos na Travessa do Patrocínio... para um derradeiro banho de festa, de tios e de outros tantos primos...
O dia seguinte era uma ressaca feliz. Depois, restavam ainda uns dias de férias para empenhadamente brincar com os meus irmãos e com tantos e brinquedos novos. E para numa ida à matinée, a ver um filme de Walt Disney, estrear umas meias de lã, ou uma camisola nova tricotada pela minha mãe. E por esses dias, com a minha curiosidade endiabrada, ia desventrando meticulosamente alguns dos mais fascinantes e plásticos presentes, de corda ou a pilhas, até serem depositados ao monte no grande caixote. Inúteis e abandonados.
Finalmente, depois da passagem de ano, o suspiro moribundo das festas, a vida retomava a normalidade, a rotina. Até a escola implacável, ensonada e fria recomeçar.
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Publicado há um ano no Corta-fitas

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Spe Salvi

Pendurados os preconceitos, engavetadas as leituras de positivismo esquálido que são o paradigma de tudo o que se diz, não tenhamos medo de o afirmar: Spe Salvi é um dos textos mais portentosos que foi escrito sobre o homem contemporâneo. Poucas vezes de uma forma tão profunda se penetrou assim no homem e nas suas categorias fundadoras. Nesta Encíclica, a liberdade e a razão, a fé e a esperança, Deus e a eternidade, ganham uma densidade e uma dignidade que as transportam para um outro plano. Bento XVI eleva a liberdade a um plano insuperável "na liberdade humana não há possibilidade de adição, porque a liberdade é sempre nova e se deve sempre de novo tomar decisões", e é por esta liberdade que o homem tem necessidade de Deus "o ser humano tem necessidade de Deus; de contrário, fica privado de Deus". E a acção, que é a esperança, não é um referente ou um esboço. A esperança é um conteúdo, uma "substância" que liga o passado ao futuro, ao "ainda-não". O valor da vida está assente numa das mais belas frases: "toda a acção séria e recta do ser humano é esperança em acto" e a "Fé é a substância da esperança". Tudo, neste texto, é avassalador, imenso, grande e desmedido. A forma como Bento XVI enfrenta o coração do ateísmo é admirável: não é só a questão da "fé racional" de Kant mas, principalmente o problema de eternidade "... continuar a viver eternamente - sem fim - parece mais uma condenação que um dom" tão cara a um certo tipo de pensamento contemporâneo, Jorge Luís Borges, por exemplo. De uma gratidão imensa a forma como se refere à história de Bakhita ou ao amor do Cardeal Nguyen Van Thuan. Tudo é demasiado grande, demasiado belo, esplendoroso, demasiado iluminoso. Spe Salvi é carne viva, não é gramática de um texto, é a relação de um homem com outros homens, onde está Deus. Spe Salvi é um monumento, uma mudança, outra coisa que não isto. Diante dele só as lágrimas a rolarem, de joelhos, a noite dobrada em dois, o estar - com a solidão, à procura. Deus existe e o homem também. Não há mais nada a dizer. Neste Natal só o silêncio. O grande silêncio. O silêncio de Spe Salvi.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Assim Se Governa

Por estes dias, um membro do governo de Zapatero tentou safar-se aos males de uma inflação que já vai em 6% nos produtos básicos, como a alimentação, e deu a solução às donas de casa: neste Natal, consumam coelho em vez do tradicional perú. “É uma carne sã, ligeira, muito apetecível e barata.”

Nem mais! Deixem-se de frescuras e tradições, que o coelhinho até é bem bom.

Se esta brilhante solução para a crise chega aos ouvidos do nosso governo (que não fica nada atrás em "brilhantismo"), coitado do Zacarias cá de casa, que ainda vai parar à travessa na Noite de Natal!

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

A nossa babilónia

A barcaça marroquina abalroou a muralha do oeste “civilizado” com 23 desgraçados párias a bordo. Enquanto isso o bem nutrido e alucinado "consumidor", entretido nos centros comerciais, contrafeito, mal desvia o olhar das montras iluminadas de mil cores.

Construímos a nossa Babilónia e criámos uma grosseira ilusão de realização e auto-suficiência. No fundo, no fundo, todos reconhecemos a grande mentira com que nos sustentamos, mas recusamos indolentemente a corrigir o curso da nossa história, (a individual, que é a verdadeira) alterar um dedo a nossa cómoda perspectiva, desacomodarmo-nos um pouco que seja da nossa existência entretida e conformada.
De resto, ao ver a chocante fotografia de capa do Diário de Notícias de hoje, com um calafrio realizei como Jesus Cristo do Natal que estamos prestes a celebrar, encontra-se definitivamente “escondido” no emigrante repudiado. E como jamais O encontraremos com o barulho da encenação feérica dum qualquer agitado shopping suburbano.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Kosovo

Há um pensamento único, cego e canceroso, que destrói tudo. Em Portugal, da esquerda à direita, todos dizem que a Presidência foi um sucesso. Isto é uma mentira, um enorme embuste. A Presidência Portuguesa não fez nada, não teve visão, não desbravou um centímetro do que será o futuro. Querem exemplos? Aí vão três. Na Cimeira EU/Rússia Sócrates recebeu Putin como um democrata, não tocou na liberdade de imprensa, nos partidos políticos, nesse pedregulho incomensurável que é a vergonha da Tchechénia. Nem um dedo, um esgar, uma frincha. A Cimeira EU/África teve um grande valor simbólico. Mas não teve rasgo político, resultados palpáveis serão uma miragem. A espada esteve sempre embainhada, guardada no bolso dos conceitos gerais. E estavam ali ao lado Eduardo dos Santos, Kadhafi, Mugabe...só Merkel se lembrou. Sòcrates foi um bom serviçal, mas confundir isso com destreza política é um supremo equívoco. Mas a mentira sublime consumou-se ontem. O Tratado Reformador da União tal como está feito é obra exclusiva de Merkel, Delors do século novo. Sócrates nunca tocou nas feridas, no sal do futuro. O futuro da Europa é hoje, é o Kosovo. Em Janeiro o governo Kosovar vai proclamar a independência, as conversações com os sérvios fracassaram, a Europa vai rasgar-se. Que fez Sòcrates? Os grandes não são os certinhos, os convencionais, são os que espetam o dedo na terra porque amam as coisas e se fermentam no que está para vir. É depravante e lodoso todo este unanimismo.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Ir à bica e a boa vida

Não gosto desta moda da máquina de café Nespresso... dá uma bica a saber a conservantes, aqueles “preparados” têm uns aromas mais próprios de rebuçados. Vão por mim, sou eu que o digo porque já provei algumas "drageias" daquelas. O assunto já foi motivo de acesa discussão com amigos e em família. As opiniões divergem, mas aquilo definitivamente não me apetece. Além de sair cara cada pastilha, quando tomo café em casa, gosto daquele de saco, e se tiver visitas até o faço “de balão”. Cada coisa no seu sítio!
Além disso não me tirem o passeio para o café, na esplanada ou lá dentro, no Paredão ou na Garrett, com o jornal ou um bom livro, sozinho ou em boa companhia. Ir ao café é um ritual imprescindível para o meu equilíbrio, mesmo que seja “à pressa” e ao balcão. É uma boa maneira de começar o dia, comentar com o Sr. Camilo as últimas “da bola” ou do bairro. Nisto de máquinas (caras!) já me basta a Bimbi nova lá em casa, por quem (!) eu morro de ciúmes. Aquela treta de mil euros, que só faz um litro e meio de sopa de cada vez, agora domina a culinária doméstica. Agora é que ninguém mais quer saber dos meus prosaicos petiscos calóricos, gordurosos e tradicionais. É ver a criançada fazer lasanhas e outras habilidades com molho branco e tomatada, todas contentes com a mãe babada a ver.
Depois do "cinema em casa" querem-nos vender a bela da "bica em casa". Já soube de uma companhia de teatro que vai ao domicílio, e com a Internet também já podemos trabalhar e pagar os impostos a partir de casa. Enfim, com um montão de euros e boa tecnologia podemos sobreviver emparedados. Mas eu gosto mesmo de sair para ver a paisagem, o povo, e respirar outros ares.
E agora acabo, com a vossa licença, que vou lá abaixo tomar a “bica” e ver como param as modas.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Ensinar versus Educar ?


“(…) Não é possível educar sem ao mesmo tempo ensinar: uma educação sem ensino é vazia e degenera com grande facilidade numa retórica emocional e moral. Mas podemos facilmente ensinar sem educar e podemos continuar a aprender até ao fim dos nossos dias sem que, por essa razão, nos tornemos mais educados. Tudo isto são detalhes que devem ser deixados à atenção dos especialistas e pedagogos.
O que nos diz respeito a todos e, consequentemente, não pode ser confiado à pedagogia enquanto ciência especializada, é a relação entre adultos e crianças em geral ou, em termos ainda mais gerais e exactos, a nossa relação com o facto da natalidade: o facto de que todos chegamos ao mundo pelo nascimento e que é pelo nascimento que este mundo constantemente se renova. A educação é assim o ponto em que se decide se se ama suficientemente o mundo para assumir responsabilidade por ele e, mais ainda, para o salvar da ruína que seria inevitável sem a renovação, sem a chegada dos novos e dos jovens. A educação é também o lugar em que se decide se se amam suficientemente as nossas crianças para não as expulsar do nosso mundo deixando-as entregues a si próprias, para não lhes retirar a possibilidade de realizar qualquer coisa de novo, qualquer coisa que não tínhamos previsto, para, ao invés, antecipadamente as preparar para a tarefa de renovação de um mundo comum”
Hannah Arendt, A Crise na Educação, in Quatro Textos Excêntricos, Relógio D’Água, págs 52 e 53.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

"Tanti auguri..."

"É papel do cristão ser ao mesmo tempo estrangeiro e presente ao seu tempo.
Estrangeiro às suas ilusões e presente a todos os males que derivam dessas ilusões."
Gustave Thibon

Tempo de Advento

Quanto ao Natal que se aproxima tão rapidamente, lamento profundamente que a mensagem subjacente ao nascimento do nosso Senhor, do Rei dos reis, Deus feito homem, tão equivocamente tenha vingado em dois mil anos de catequização.
É urgente proclamar que o Salvador afinal nasce gloriosamente pobre e indefeso numa manjedoura, numa nação ocupada e reprimida... Que a mais fantástica e bela história do mundo indica-nos inequivocamente um caminho de libertação e de felicidade, justamente na entrega, e não na conquista. No dar e não no receber. E que a redenção se alcança em tudo ao contrário do que ensurdecedoramente nos “vendem” por todo os recantos desta civilização decadente. E que é ao libertarmo-nos do nosso sôfrego e deprimente umbigo que podemos alguma vez realizarmo-nos como homens livres. E que o nosso coração frio e egoísta é a imagem das albergarias de Belém quando se fecharam a Maria e José em vésperas do Grande Acontecimento. E que se vivermos o Natal de Jesus, nem que seja por um dia, seremos indubitavelmente melhores pessoas e mais felizes.
Assim Deus me ajude a viver este Natal.

sábado, 8 de dezembro de 2007



"Ó noite tu não tinhas tido necessidade de ir pedir licença a Pilatos.
É por isso que eu te amo e te saúdo.
E entre todas eu te glorifico e entre todas tu me glorificas
e tu me dás honra e glória;
porque tu consegues algumas vezes aquilo que há de mais difícil no mundo,
a desistência do Homem
o abandono do Homem entre as minhas mãos.
Conheço bem o Homem. Fui eu que o fiz.
Ainda se lhe pode pedir muito.
(…) com a minha graça, eu sei apanhá-lo a jeito. Pode-se-lhe pedir muito coração, muita caridade, muito sacrifício.
(…) mas o que não se lhe pode pedir, é um pouco de esperança.
Um pouco de entrega, um pouco de abandono nas minhas mãos.
Um pouco de desistência. Está sempre tenso.
Ora tu, minha filha noite, consegues algumas vezes, obténs algumas vezes isso
do Homem rebelde.
Que consinta, esse tal senhor, que se renda um pouco a mim.
Que distenda um pouco os seus pobres membros cansados num leito de repouso.
Que distenda um pouco sobre um leito de repouso o seu coração dorido.
Que a sua cabeça sobretudo deixe de andar.
E ele julga que é do trabalho, que a cabeça lhe anda assim”.

(Pórtico do Mistério da Segunda Virtude, Charles Péguy)

A vós suspiramos gemendo e chorando neste vale de lágrimas.
Advogada nossa, Mãe imaculada, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei!