domingo, 26 de outubro de 2008

Excerto II


"As excentricidades só impressionam as pessoas normais. As excentricidades não impressionam as pessoas excêntricas.É por isso que as pessoas normais vivem vidas muito mais interessantes do que os excêntricos, que estão sempre a queixar-se de que a vida é uma maçada. É também por isto que os romances recentes morrem num instante, enquanto os velhos contos de fadas duram eternamente.Os heróis dos velhos contos de fadas são miúdos normais; as aventuras que esses miúdos vivem é que são espantosas; e espantam-nos porque eles são miúdos normais.No moderno romance psicológico, porém, o herói é fora do vulgar; o centro não se encontra no centro. Daí que nem as mais terríveis aventuras consigam afectá-lo devidamente, e que o livro seja monótono.Pode-se construir uma história com um herói sobrevivendo entre dragões; uma história com um dragão sobrevivendo entre dragões não é história nenhuma.Os contos de fadas retratam o comportamento que uma pessoa sã de mente terá num mundo de doidos; o sóbrio romance realista da actualidade retrata o comportamento que um lunático terá num mundo sem interesse."

Chesterton, in Ortodoxia

Excerto



"O mundo moderno assenta, todo ele e em absoluto, não tanto na ideia de que os ricos são necessários (que é uma ideia sustentável), mas na ideia de que os ricos são dignos de confiança, coisa que (para um cristão) é insustentável.O leitor terá ouvido com frequência, em discussões sobre os jornais, as empresas, as aristocracias e os partidos políticos, o argumento de que os ricos não podem ser subornados.Mas a realidade é que o rico é subornável; ele até já foi subornado. É por isso que é rico.Ora bem, a razão de ser do cristianismo é justamente a tese segundo a qual um homem que está dependente dos luxos desta vida é um homem corrupto: espiritualmente corrupto, politicamente corrupto, financeiramente corrupto.Há uma coisa que tanto Cristo, como os santos cristãos, afirmaram com uma espécie de selvática monotonia: que ser rico é correr um especial risco de naufrágio moral. É difícil demonstrar que matar os ricos, por serem violadores de uma justiça definível, seja uma atitude anticristã. Aquilo que não é certamente uma atitude anticristã é a rebelião contra os ricos e contra a submissão aos ricos.Mas é absolutamente anticristão confiar nos ricos, considerar os ricos moralmente mais fiáveis do que os pobres. Um cristão consistente poderá dizer: «Respeito aquele género de homem, embora ele aceite subornos.»Mas um cristão não pode dizer, como dizem os modernos a torto e a direito: «Um homem daquele género nunca aceitará subornos.» Porque a ideia de que qualquer género de homem pode aceitar subornos é uma componente do dogma cristão. E, para além de ser uma componente do dogma cristão, é também – por curiosa coincidência – uma componente da mais óbvia história humana.Quando as pessoas afirmam que um homem «com aquela posição» é incorruptível, não há necessidade nenhuma de introduzir o cristianismo na discussão. Lord Francis Bacon era engraxador? O Duque de Malborough era varredor de ruas?Na melhor Utopia, tenho de estar preparado para a queda moral de qualquer homem, de qualquer posição, a qualquer momento, em especial para a minha própria queda, da posição que ocupo neste momento."

G. K. Chesterton, in Ortodoxia

terça-feira, 21 de outubro de 2008

As contradições do tempo

Ao passar os olhos pelas notícias de hoje, deparei-me com estas três e… continuamos impávidos, serenos e embalados pela música e pelas iluminações de Natal das grandes superfícies comerciais mais de dois meses antes do Dia de Natal.

  • India

Mais de 60 mortos e 50 mil refugiados em violência contra cristãos
Os ataques sucedem-se, há dois meses, em especial no Estado de Orissa, onde uma freira foi incitada, por cinco mil mulheres hindus, a casar-se com o seu violador.Casas e igrejas são destruídas, as linhas que delimitam os terrenos privados são retiradas, as terras ocupadas e divididas entre os agressores.
Os poucos cristãos que ficam nas aldeias são obrigados, sob ameaça de morte, a converter-se ao hinduísmo.
Para os que se recusam, há um castigo: são obrigados a profanar bíblias, a agredir cristãos e, nalguns casos, a beber urina de vaca, considerada «purificadora» para alguns hindus.
O padre Ajay Singh, um dos poucos a ter acesso aos campos de refugiados, descreveu que «os cristãos estão a ser tratados como animais».
«Recebem um cobertor por família, não existe qualquer sistema sanitário ou de higiene. Mais trágico é que nem sequer lhes é permitido rezar, estão constantemente a ser observados pelas forças de segurança», contou.
Um casal terá sido intimado a rejeitar a religião cristã, o marido aceitou mas a mulher, grávida de sete meses, recusou e pagou um preço: terá sido esquartejada pelos hindus.
Há relatos de pessoas, incluindo crianças, regadas com gasolina e incendiadas. Lusa / SOL

  • Portugal no topo das desigualdades da OCDE

Portugal é um dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) com maiores desigualdades na distribuição dos rendimentos dos cidadãos, ao lado dos Estados Unidos e apenas atrás da Turquia e México.
No seu relatório “Crescimento e Desigualdades”, hoje divulgado, a OCDE afirma que o fosso entre ricos e pobres aumentou em todos os países membros nos últimos 20 anos, à excepção da Espanha, França e Irlanda, e traduziu-se num aumento da pobreza infantil.
(…)Lusa

  • Cavaco promulga nova lei do divórcio mas alerta para "profunda injustiça" que irá desencadear

O Presidente da República promulgou hoje a nova Lei do Divórcio, deixando, contudo, um alerta para as situações de "profunda injustiça" a que este regime jurídico irá conduzir na prática, sobretudo para os mais vulneráveis.
"O novo regime jurídico do divórcio irá conduzir na prática a situações de profunda injustiça, sobretudo para aqueles que se encontram em posição de maior vulnerabilidade, ou seja, como é mais frequente, as mulheres de mais fracos recursos e os filhos menores", lê-se numa mensagem de Cavaco Silva, publicada no 'site' da Presidência da República.
Por outro lado, refere ainda o comunicado, o diploma, incluindo as alterações introduzidas depois do veto presidencial de 20 de Agosto à primeira versão da lei, "padece de graves deficiências técnico-jurídicas".
Além disso, "recorre a conceitos indeterminados que suscitam fundadas dúvidas interpretativas, dificultando a sua aplicação pelos tribunais e, pior ainda, aprofundando situações de tensão e conflito na sociedade portuguesa".
Lusa

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Mudar de vida

Prometo, não toco em nada, na crise que todos falam, prometo passar ao largo, mas se é global como dizem, se não vem da natureza, terei também que assumir a quota parte de culpa que me cabe neste transe, nesta parcela que habito, onde vivo e onde voto, nas coisas que não preciso e que compro sem poder, muitas vezes a dever, mas o pior é que faço do consumo a minha regra, e aumento sem saber a perversão que hoje existe, sem horizonte ou remédio, desligada da memória, desligados uns dos outros, recurvados no umbigo, perdeu a vida o sentido e moralista não sou.
Para obviar ao que digo vou olhar o firmamento, contar as estrelas do céu, descobrir nas madrugadas o cheiro que a terra tem e agradecer a beleza bem criada por Alguém! Faço parte deste todo, sozinho não sou ninguém. Para conseguir tudo isto eu só vejo uma saída – vamos ter que mudar de vida.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A bolsa ou a vida!

Assim de repente, o mundo reduzido a uma escolha tão simples, nem sei que lhes diga, talvez a bolsa! Talvez a vida!

Não tive escolha, como não tinha bolsa tive que dar a vida! Depois levaram-me ao cimo de um monte e ofereceram-me a resignação. Lembro-me bem, estávamos nesse tempo a celebrar as exéquias do comunismo, o muro tinha caído, e diziam-nos que o mercado era a porta da felicidade. Não acreditei, mas já era tarde, executivos e gestores irromperam pela sala, apresentaram-me os números e fizeram-me sentir o inútil que sou. Estava a mais, e por mais contas que fizessem estava sempre a mais! Reagi, falei na produção, que a empresa era antiga e já tinha passado por outras tormentas… Meu Deus, o que eu fui dizer! Alvejado com nova rajada de números ouvi a temível previsão – a continuarmos assim estamos perdidos.
Saí com a noção patriótica de que se não saísse a empresa não se salvava.
Num último gesto de solidariedade despedi-me da telefonista prestes a ser substituída por um gravador de voz.
O mundo girou entretanto, a engenharia e euforia financeiras instalaram-se, os executivos foram enriquecendo mas a empresa foi empobrecendo.
Hoje está mal, não se recomenda. E, como as demais, espera ansiosamente por uma ‘mãozinha’ do Estado!

domingo, 5 de outubro de 2008

5 de Outubro

" Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,"
Fernando Pessoa

A 5 de Outubro de 1143 é assinado o tratado de Zamora.
Há oitocentos e sessenta e cinco anos nasce esta nação sagrada.
Portugal, não te esqueças da tua história!

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Católicos perseguidos na India

Pelo seu relevo evangélico, publico o texto de um missionário português na India.
Porque para além da bolsa e do futebol existe o mundo... e os mártires cristãos no mundo...

Índia, 20 de Setembro de 2008.
Ontem, aqui na nossa cidade de Guntur os cristãos de diferentes confissões reuniram-se numa manifestação pública chamada marcha da paz, que era um protesto contra a discriminação e a perseguição.
Os cristãos são martirizados por grupos fanáticos xenófobos hindus. Os números estão sempre em crescimento, porque a actividade não cessa: mais de 50 mortos, milhares de casas queimadas, centenas de veículos, escolas, casas de religiosos paróquias e lugares de culto queimados e vandalizados. Orissa foi o começo, actualmente cinco Estados estão em pé de alarme e pensamos que está a formar-se uma vaga que vai chegar um pouco a toda a parte.
Damos graças a Deus por termos sido poupados até agora, mas a possibilidade de sermos atingidos é bastante alta, se nada mudar o curso dos acontecimentos.
Uma boa notícia foi dada ontem, quando a Presidência declarou o “estado de sítio” e fez passar a segurança para o Governo Central. Uma esperança que o Governo xenófobo dos Estados que protegem os fanáticos se retire. Altas autoridades locais protegem estes fanáticos que se deslocam em camiões durante a noite, chegam às centenas, e por onde passam semeiam o terror e a confusão sem oposição. A polícia recusa-se a intervir e só prendem os cristãos que revoltados manifestam o seu descontentamento.
O objectivo destas perseguições é a criação de estados hindus sob o lema: um só povo, uma religião, uma nação.
As pessoas que abandonaram o hinduísmo têm de se reconverter a custo da própria vida. Os que não aceitam são espancados sem piedade, ou mortos. Milhares de pessoas fogem para as florestas para não serem surpreendidos por estes bandidos que obrigam os cristãos a deixar as localidades e mudar de poiso. “Neste estado não há lugar para vocês”. Milhares de pessoas deixaram tudo e partiram, porque eles não brincam: queimam, violam, destroem e matam. Há um relato de um jovem seminarista que foi enterrado vivo e de irmãs violadas na rua. Cenas da selva instigadas por um fanatismo que cresce…
Segundo um dos chefes do BJP, tudo começou quando o Papa João Paulo II, em visita à Índia, disse que “ a colheita tem que ser abundante”.
Eles interpretaram esta frase como um slogan de proselitismo. Sem distinguir católicos de protestantes ou de seitas evangélicas, tudo o que é cristão é um alvo e o máximo destes sentimentos explodiu em Orissa, quando um pastor protestante australiano foi queimado vivo com os seus dois filhos. A actividade das igrejas cristãs causa inúmeros ciúmes aos hindus. Não suportam a caridade, as escolas, os hospitais e o cuidado dos pobres. O grande mentor dos fanáticos (o Papa dos Hindus) foi assassinado em 23 de Agosto passado pela guerrilha maoista, que reivindicou o acto. Foi a desculpa que faltava para o começo de uma perseguição terrível e bem orquestrada dirigida contra os cristãos.
Ontem, um amigo padre de Goa a trabalhar na fronteira com o nosso Estado, a 100 km daqui, telefonou-me a pedir união de orações, porque os fanáticos anunciaram que iriam atacar a sua igreja durante a noite. Hoje o telefone não responde e não sei o que pode ter acontecido.
Aqui, no nosso Estado de Andhra Pradesh, o partido no poder herdeiro de Gandhi é muito respeitador de todas as religiões e, mesmo nas famílias, há diferenças religiosas sem qualquer tipo de conflitos religiosos. Nós podemos circular livremente e trajar hábito religioso em púbico sem problemas. As Missionárias da Caridade – Irmãs da Madre Teresa, como lhes chamam aqui – são muito apreciadas e os hindus competem para pagar as refeições do hospício para idosos e meninos da rua, que fazem como presente de aniversário. Diga-se de passagem que os hindus não são propensos à violência, praticam a caridade que, para eles, é indispensável para conseguir a vida eterna (mokza) e estima os cristãos.
Portanto, o problema vem dos fanáticos radicais que também são poderosos, porque estiveram no poder até 2003 e saíram porque tudo o que sabiam fazer era construir templos. Continuam a acusar os missionários estrangeiros de fazerem conversões forçadas do hinduísmo a troco de dinheiro.
Ontem, estivemos numa marcha pela paz e hoje a polícia anda à procura de informações sobre nós… na hora em que estou a escrever, eles foram ao nosso Noviciado perguntar por missionários estrangeiros… eles lá sabem para quê.
O nosso relacionamento na cidade é muito cordial e pacífico. Estamos a começar o nosso trabalho pastoral, pois há uma capela que estamos a construir numa zona com trinta famílias católicas. À nossa volta há dois bairros de barracas e estamos a trabalhar com as pessoas, para conseguirem construir as suas casas. Visitamos regularmente e muitas vezes, temos que ir ao hospital ou intervir para conseguir por as crianças na escola. Antes do Natal, vai-nos ser confiada uma pequena paróquia onde os jovens padres indianos poderão fazer pastoral. Portanto, deste lado, tudo boas notícias. O Sagrado Coração tem-nos abençoado pelas vocações e pelo nosso ministério.
Continuem a rezar pela paz e para que cessem as perseguições!
Vivat Cor Iesu!
Um grande abraço,
Pe. Pedro Coutinho, scj

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

CRIANÇA, SABES COMO ME CHAMO


Criança __ sabes como me chamo __
Tens um olhar meigo __ que me atrai __
E que me fala __ de uma entrega pura e simples __
«Quero guiar o teu barquito…» __
Eis o que dizes.

Ó que espanto tremendo
Como consegues __ com a tua mão de criança,
Com a tua voz de criança __ como consegues
Acalmar as vagas __ bramosas __
E o vento?

Se tiveres medo __ ou estiveres cansado __
Enquanto a tempestade __ estronda,
Não hesites __ se quiseres __ em pousar
A tua cabecita loura __
Sobre o meu peito.

Como tens um sorriso espantosamente meigo
Quando dormes __ ou dormitas __ não sei,
Não tenhas medo __ Com o meu doce canto __
Quero embalar-te __ sou um Mudo muito terno __ sabes?
E tu __ uma criança que não esqueço.


escrito por Santa Teresa do Menino Jesus em Dezembro de 1896 - morreu a 30 de Setembro de 1897 celebrando-se em 1 de Outubro a sua festa litúrgica

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A importância de saber chegar a casa




Mário Cordeiro, pediatra, disse na semana passada numa conferência organizadapelo Departamento de Assuntos Sociais e Culturais da Câmara Municipal deOeiras, que muitas birras e até problemas mais graves poderiam ser evitados seos pais conseguissem largar tudo quando chegam a casa para se dedicareminteiramente aos seus filhos durante dez minutos.'Ao fim do dia os filhos têm tantas saudades dos pais e têm uma expectativatão grande em relação ao momento da sua chegada a casa que bastava chegar,largar a pasta e o telemóvel e ficar exclusivamente disponível para eles,para os saciar. Passados dez minutos eles próprios deixam os pais naturalmentee voltam para as suas brincadeiras.'Estes dez minutos de atenção exclusiva servem para os tranquilizar, para elessentirem que os pais também morrem de saudades deles e que são umaprioridade absoluta na sua vida. Claro que os dez minutos podem ser estendidosou até encurtados conforme as circunstância do momento ou de cada dia. Aideia é que haja um tempo suficiente e de grande qualidade para estar com osfilhos e dedicar-lhes toda a atenção.Por incrível que pareça, esta atitude de largar tudo e desligar o telemóveltem efeitos imediatos e facilmente verificáveis no dia-a-dia.Todos os pais sabem por experiência própria que o cansaço do fim de dia, osnervos e stress acumulados, e ainda a falta de atenção ou disponibilidadepara estar com os filhos, dá origem a uma espiral negativa de sentimentos,impaciências e birras.Por outras palavras, uma criança que espera pelos pais o dia inteiro e, quandoos vê chegar, não os sente disponíveis para ela, acaba fatalmente por chamara sua atenção da pior forma. Por tudo isto e pelo que fica dito no iníciosobre a importância fundamental que os pais-homem têm no desenvolvimento dosseus filhos, é bom não perder de vista os timings e perceber que está nasnossas mãos fazer o tempo correr a nosso favor.


in Boletim de Julho da Acreditar

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Revisão da Lei do Aborto

Assine aqui a Petição para a Revisão da Lei do Aborto, se ainda não o fez.

E visite o blog Portugal pro Vida para outras informações sobre este tema.

domingo, 21 de setembro de 2008

Moral de uma história imoral

Gonçalo Portocarrero de Almada - Público, 20080920

Quer uma relação para toda a vida? Faça um contrato de trabalho, mas não case! A disparatada ideia de um matrimónio indissolúvel esteve em voga nos últimos dois mil anos. Modernamente, achou-se que era muito monótono um casamento para sempre e, por isso, inventou-se o casamento a prazo, ou seja, precário.Ao princípio, a lei entendia dever proteger os interesses dos filhos e do cônjuge contra os quais era pedido o divórcio. Mas como um tal conceito de culpa ou de responsabilidade parecia contrário à moralidade laica, entenderam agora os deputados que o matrimónio deve ser revogável em qualquer caso, mesmo a pedido do cônjuge faltoso. Esta moderna liberdade democrática mais não é, portanto, do que uma nova versão do antigo repúdio.A possibilidade do despedimento do cônjuge, sem necessidade de nenhuma razão, não tem contudo paralelo na legislação laboral, onde se exige que a entidade patronal seja mais respeitosa dos direitos dos seus assalariados. Quer isto dizer, em poucas palavras, que o patrão pode agora mandar bugiar a sua patroa sem necessidade de se justificar e até mesmo depois de a ter sovado, mas já não pode despedir com a mesma liberalidade a sua secretária, pois, para um tal desatino, a lei exige-lhe uma justa causa. A incongruência entre os dois regimes legais é de feição a concluir que o Estado prefere as empresas às famílias; ama mais o lucro do que a moral. Mas também ensina que quem quiser uma duradoira relação pessoal deve optar pelo contrato de trabalho e nunca pelo matrimónio, do mesmo modo como quem pretenda um vínculo contratual facilmente rescindível deve casar-se e nunca enveredar por um contrato laboral. Quer estabelecer uma relação estável, com uma pessoa do outro sexo, contando para o efeito com todas as garantias legais? Pois bem, estabeleça com essa pessoa um contrato de trabalho e fique descansado, porque o Estado vai assegurar o fiel cumprimento desse pacto, ao contrário do que aconteceria se com ela casasse, porque o matrimónio é um vínculo tão precário que nem sequer se necessita nenhuma razão para proceder à sua extinção. Se o problema é, pelo contrário, conseguir uma pessoa que assegure o serviço doméstico, sem perder a possibilidade legal de a despedir se a sua prestação não for satisfatória, mesmo que a lei não contemple esse caso para a rescisão do respectivo contrato laboral, a solução é simples: recorra a uma pessoa do outro sexo e case-se com ela, pois mesmo que não tenha qualquer razão que justifique legalmente o seu despedimento, o Estado garantirá a possibilidade de dela se divorciar quando e como quiser. Quer uma relação para toda a vida? Faça um contrato de trabalho, mas não case! Quer uma relação precária, de que se possa desembaraçar quando quiser e sem necessidade de nenhuma causa justa? Case, pois não há vínculo jurídico mais instável no sistema jurídico português! Moral desta história imoral: empregue a pessoa que escolheu para parceiro de toda a sua vida e case com a sua mulher-a-dias!
Sacerdote, licenciado em Direito e doutorado em Filosofia

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Fica-lhes mesmo bem!

Enquanto se procede a obras de melhoramento no hemiciclo em S. Bento, os trabalhos desta legislatura prosseguem provisoriamente na belíssima Sala do Senado que para o efeito foi remodelada. Além da ausência do barrete frígio, compraz-me saber que os nossos depreciados deputados da república actuem, mesmo que temporariamente, sob a vigilante figura do rei D. Luís (o popular) imponentemente representado na cabeceira da sala.

Publicado também aqui

Fica-lhes mesmo bem!

Enquanto se procedem a obras de melhoramento do hemiciclo em S. Bento, os trabalhos desta legislatura prosseguem provisoriamente na belíssima Sala do Senado que para o efeito foi remodelada. Além da ausência do barrete frígio, compraz-me que os nossos depreciados deputados da republica actuem, mesmo que temporariamente, sob a vigilante figura do rei D. Carlos, um dos nossos últimos grandes chefes de estado, imponentemente representado na cabeceira da sala.

Publicado também aqui

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Uma grande mulher




Sarah Palin foi mayor de Wasilla e governadora do Alaska. Está casada e tem cinco filhos.

Se tivermos em consideração o discurso habitual sobre as dificuldades que as mulheres sentem em conciliar a carreira profissional e a vida familiar, Sarah Palin pode muito bem ser admirada por todas as mulheres como uma mulher modelo.

Curiosamente, a nomeação de Sarah Palin como candidata à vice-presidência não foi bem recebida pelas feministas. E percebe-se porquê. Nas felizes expressões de Harvey Mansfield, Sarah Palin conduziu a sua vida profissional with the force of a man e a sua vida familiar with the grace of a woman.

Sarah Palin está muito próxima de se tornar vice-Presidente dos Estados Unidos da América sem que para isso tenha abdicado da sua condição natural de mulher. Em vez da liberdade sexual, Sarah Palin escolheu um só homem. Em vez do divórcio, Sarah Palin está casada há cerca de duas décadas. Em vez do aborto, Sarah Palin tem 5 filhos (o mais novo com síndrome de Down).

A vida de Sarah Palin revela que é possível a uma mulher ser igual aos homens sem ela mesma se tornar num homem. Poderia e deveria ser um motivo de contentamento para todas as mulheres. Mas para as feministas não é.


(Ver Harvey Mansfield Was Feminism Necessary? Forbes.com)
Publicada por Nuno Lobo em 1:28 AM

sábado, 13 de setembro de 2008

Pedro Hispano Portugalense


A História da Igreja lembra hoje,
no ano de 1276,
a eleição papal de João XXI.

A revista Acção Médica
(órgão oficial da Associação dos Médicos Católicos),
a respeito deste papa português,
dedicou o seu número
de Novembro de 2007
“Pedro Hispano Portucalense – Papa João XXI
no 8.º Centenário do seu Nascimento.

Para uma melhor aproximação
a esta obra de referência,
sugiro aos interessados,
para além da eventual aquisição
da mesma, uma visita ao site
oficial da Acção Médica:
http://amcpporto.no.sapo.pt/index.html

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Começou a escola...


Segunda feira iniciámos uma nova fase da vida da criançada...escolinha!!! Até fomos comprar mochilas do noddy! Cada um escolheu a sua e como "bons manos" que são acabaram por escolher iguais (para mim foi melhor assim... não vá o mano querer a da mana e vice-versa!)Tinha o cuidado de nos ultimos meses passar com eles com muita frequência à porta da escola, dizia-lhes sempre "aqui é a escolinha, depois vocês também vêm para a escolinha brincar com os meninos!!!" ou qualquer coisa do género. Eles próprios já sabiam que era a escola, mas de fcato não percebiam o que era "a escola" propriamente dita...



Posto isto, nunca pensei que fosse tão difícil deixar os miúdos na escola... Bolas, a escola é uma coisa normal, todos os meninos vão para a escola, mais cedo ou mais tarde... Faz bem à saude:) aprendem, brincam! Então... porque é que custa tanto lá deixar os piruças? Porque choram tanto e chamam insistentemente "MAMÃ" "MAMÃ" MAMÃAAAAAAAAAAA" Deixam-nos com uma miscelânia de sentimentos e os mais variados (e tontos também!) pensamentos assombram o nosso cerebro "Será que estou a fazer a coisa certa?" "Será que a escola é uma coisa boa" "Não era melhor ficarem em casa?" "Vão chorar todo o dia?" "Será que vão comer?"


Será que...

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Aos que Alto vivem!

Pois, que querem?
Não me dá para escrever…
Assim, com a alma um pouco triste.
Se aqueles a quem amamos não estão bem,
como podemos nós estar bem?
E são tantos, Senhor, os que,
por ora, não parecem estar bem!

É preciso, no entanto,
que estejamos por inteiro,
e permaneçamos assim,
não excluindo um átimo de vida,
para podermos,
pelo tudo e pelo nada,
Louvar a Deus,
que nos anima a prosseguir.

Conheço algumas companheiras
e companheiros de viagem
que têm sido bravos,
nisto de se darem por inteiro
ao que Deus lhes dá,
e que acabam por brilhar para nós
(os que vamos ainda, apenas, a ¾ ou outros avos tais):

‘Para ser grande, sê inteiro:
Nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes.
Assim em cada lago
A lua toda brilha,
Porque alta vive.’ (Ricardo Reis)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Um filho a qualquer preço no mercado da fertilidade

Há falta de informação sobre a eficácia dos tratamentos e das suas repercussões psíquicas
No ano passado nasceram em Espanha sete mil crianças com técnicas de reprodução assistida. Um facto que começou por ser uma prática isolada está a converter-se num recurso frequente. Enquanto a tecnologia continuar a avançar e os casais estiverem dispostos a dar tudo para terem um filho, vale tudo. A falta de informação sobre a eficácia dos tratamentos e das suas repercussões psíquicas, aliada a uma legislação quase sem limites, jogam a favor de um negócio florescente.
Assinado por M. Ángeles Burguera Data: 23 Agosto 2008


Enquanto nos Estados Unidos já há bastante tempo que se falava de um negócio (cf. Aceprensa 40/07), na Europa começam a ouvir-se mais vozes críticas, trinta anos após o nascimento da primeira bebé-proveta na Grã-Bretanha.
Da pílula ao bebé proveta. Escolhas individuais ou estratégias médicas?: é o título de um estudo apresentado recentemente em Paris e que analisa a dura experiência dos casais submetidos a processos de fecundação in vitro (FIV).
Annie Bachelot, psicossocióloga do Inserm e autora de uma parte desta investigação afirma: "É uma autêntica corrida de obstáculos. A FIV, pelo seu sistema de trabalho, impõe obrigações muito pesadas, tratamentos dolorosos e um alto risco de fracasso; alguns sentem que se está a instrumentalizar o seu corpo: as mulheres porque se convertem numa máquina de produzir ovócitos, e os homens porque se vêem reduzidos a simples dadores. Muitos insurgem-se contra este tipo de medicina, que classificam de veterinária, demasiado estandardizada e anónima".
Mais fracassos que êxitos
As consequências negativas também provêm da falta de informação sobre os índices de fracasso das técnicas. "Depois de cada ciclo de FIV, mais de 25% dos casais abandonam o processo e muito poucos ultrapassam a quarta tentativa". Entre os que continuam, pode dar-se uma espécie de fuga para a frente, às vezes inclusivamente encorajada pelo médico, embora em muitos outros casos também seja refreada. Chegados a este ponto, é habitual orientar os pacientes para a consulta de psiquiatria: porque parece que estão a arriscar mais que o simples desejo de ter um filho", afirma Bachelot.
A realidade francesa, semelhante à espanhola, revela que "há pouca informação sobre a taxa de êxito nas técnicas de fecundação in vitro. As clínicas apresentam percentagens de 20 a 30 por cento", afirma o doutor Guillermo López, director de Ginecologia da Clínica Universitária de Navarra. "Na medicina, uma técnica com um índice de 70% de fracasso não deve ser admitida nem usada. Mas neste sector vale tudo. Como as famílias procuram desesperadamente ter um filho, aceitam tudo o que lhes oferecem: todas as novidades, todos os suplementos que lhes podem dar mais garantias de êxito. E assim, todo o processo técnico se torna mais caro: uma indústria muito rentável e com imensas possibilidades de progresso".
Efeitos psíquicos
Na opinião de Guillermo López, estas técnicas têm repercussões psíquicas nas pessoas que a elas se submetem não só quando não há êxito - com a FIV há muitos abortos espontâneos, que geram sempre grande frustração -, mas até quando existe descendência. "Embora nesta clínica não façamos reprodução assistida por motivos éticos, chegam às nossas consultas bastantes casais com dramas terríveis, tanto pelos fracassos da técnica como pelo facto de saberem - mesmo depois do êxito - que possuem embriões congelados e que, se não quiserem ou não puderem enfrentar uma nova gravidez dentro de cinco anos, têm que decidir o destino a dar-lhes. Outro elemento que também tem influência na dificuldade de ter filhos é a idade dos pais. A média da idade da primeira maternidade entre as mulheres espanholas era de 29,3 anos em 2005 e mais de metade dos primeiros partos (56,1%) correspondia a mães com mais de 30 anos. "Isto é uma brutalidade, porque significa que muitas mulheres têm os filhos depois de fazerem 35 anos ", explica Margarita Delgado, demógrafa do Conselho Superior de Investigações Científicas de Madrid (El País, 24-11-2007).
Depois do boom da contracepção das quatro últimas décadas, segue-se agora o extremo oposto: a reprodução sem sexo e a toda velocidade. A mesma sociedade que atrasa os nascimentos por motivos laborais ou sociais acaba por ver na infertilidade um tipo de limitação e está disposta a pagar a gestação por um alto preço - entre 3 000 e 6 000 euros por ciclo -, desde que se assegurem e se esgotem todas as possibilidades.
A ausência de filhos, mesmo nas mulheres que vivem sós, é vista como uma inferioridade. Impõe-se, portanto, a corrida à gestação, mesmo com a sensação de se estar a converter o próprio corpo num mero instrumento.Em muitos casos falta paciência para esperar a chegada da concepção. E falta também o conhecimento de outras possibilidades. "Em bastantes centros de reprodução assistida oferecem-se técnicas in vitro com prazos breves, seis ou doze meses depois da primeira consulta. A micro cirurgia tubárica, por exemplo, que se usa para a reconstrução de estruturas, tem uma taxa de 70% de êxito na gravidez, muito superior à da FIV. Há muito pouca informação acerca de tudo isto ", comenta o director de Ginecologia da Universidade de Navarra.
E por que não "mães de aluguer"?
Na corrida dos casais à descendência, além das motivações pessoais, há também a influência do marketing das clínicas de fertilidade. Existe um negócio crescente à volta da doação de óvulos, que costuma ser o grande recurso no caso de a mãe ter mais de 40 anos. Apesar de a legislação espanhola não autorizar a venda de óvulos, a compensação à dadora pelos incómodos causados pode chegar a mil euros por processo. Este facto contribui para que em Espanha haja bastante mais doações que noutros países, como em França, onde não é permitido pagar. Além disto, oferecem-se serviços de congelação de espermatozóides e de óvulos.
Também se verifica uma crescente tendência a ampliar o tipo de clientela da fecundação assistida e a admitir técnicas que a princípio se rejeitavam sem qualquer dúvida. Nos começos, a fecundação assistida destinava-se apenas a casais com problemas de fertilidade. Mas rapidamente se estendeu também a mulheres sozinhas, sem nenhum problema reprodutivo, excepto o de não ter parceiro ou de serem lésbicas (é assim em Espanha, embora isto não seja aceite em países vizinhos como França e Itália); na Andaluzia já se anunciou inclusivamente que os serviços de Saúde Pública irão financiar este desejo reprodutivo de mulheres que vivem sozinhas para que nenhuma fique discriminada (ver Aceprensa 69/08).
Um filho a qualquer preço está também a contribuir para dar uma perspectiva favorável a práticas que em princípio eram rejeitadas por se considerarem indignas. Por exemplo, a legislação espanhola não permitia a existência de "mães de aluguer". Mas no início de Julho de 2008, os especialistas europeus reunidos em Barcelona no XXIV Encontro Anual de Medicina Reprodutiva já solicitaram a legalização em Espanha das mães de aluguer. Segundo Anna Veiga, médica do Centro de Medicina Regenerativa de Barcelona, "valeria a pena despenalizar este processo, embora se devesse aplicar de modo pormenorizado", não por motivos estéticos ou utilitários, mas por motivos médicos.
A linha de fronteira é difícil de marcar, tanto aqui como noutras técnicas já generalizadas. Nalguns países recorre-se a barrigas de aluguer quando há células germinais de um casal, mas falta o útero, como consequência de uma extracção cancerosa. Uma vez realizada a fecundação in vitro, o embrião resultante transfere-se para um útero contratado para prosseguir a gestação.O recurso a mães de aluguer já é tolerado na Bélgica e nos Países Baixos, e está autorizado no Reino Unido, Canadá, Grécia e Estados Unidos. É possível encontrar anúncios com ofertas deste tipo na Internet, na área denominada turismo reprodutivo. Com esta prática, acrescenta-se uma condição à busca genérica de descendência: assegurar que a criança tenha os genes dos seus pais.A possível legalização das mães de aluguer, que actualmente se debate no Senado francês, levantou também vozes de alarme. O ginecologista René Frydman, que admite e pratica a fecundação artificial, adverte (Le Monde, 30-06-2008) que se está a valorizar mais o aspecto genético que a paternidade "de intenção", isto é, a que está presente em fórmulas como a adopção, ou inclusivamente na doação de gâmetas.
Os que se opõem à maternidade de aluguer consideram que as mulheres que são pagas para se porem ao serviço de casais inférteis estão a prostituir-se e que os filhos vão ficar prejudicados. "A gravidez não consiste apenas em trazer dentro de si um bebé, é uma experiência fundamental que envolve os dois protagonistas: a futura mãe e o filho em gestação. Ainda estamos nos começos da descoberta da complexidade e riqueza da interacção entre a mãe e o bebé no útero", afirma Frydman, ao mesmo tempo que recorda o esforço psíquico que terá de fazer uma mãe de aluguer para não ficar vinculada pelos laços que se criam entre ambos.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Geografia da Felicidade (I)

A semana passada deparei-me com um programa na SIC Notícias que dava conta da transformação do Convento das Bernardas, em Tavira, num empreendimento residencial de luxo.

O Convento das Bernardas, actualmente em ruínas, foi o único da Ordem de Cister na região Sul. Foi mandado construir, em 1509, por D. Manuel I, como acção de graças pelo insucesso que teve, no "Algarve de além mar, em África", um cerco mouro, à cidade de Arzila. Posteriormente, o edifício terá sido cedido a D. Fernando Coutinho que, em 1530, o concluiu e o entregou às Monjas de Cister, que durante três séculos ali viveram uma vida de oração e de trabalho.

Impressiona que também tenha sido de Tavira, após quase 14 anos de permanência no Algarve, que saiu no dia 10 de Julho último a Irmã Miriam Godinho, regressando à Abadia em França de onde veio com o propósito de fundação da Ordem de Cister em Portugal, o que não foi avante.

Impressiona que aquele que foi o convento de uma Ordem caracterizada pela austeridade, austeridade essa que bem vi nas vezes que estive com a Irmã Miriam em Faro e em Tavira, seja agora, exactamente na mesma altura em que a única Monja Cisterciense de nacionalidade portuguesa regressa a França, transformado num condomínio de luxo, em que o preço médio de construção ronda os 3200 euros por m2, indo os apartamentos T0, com áreas entre os 79,5 metros quadrados e os 99 metros quadrados, ser comercializados por valores entre os 200 e os 300 mil euros.

Não obstante a importância da recuperação do edifício, tudo isto diz bem acerca do valor que os espaços sagrados têm para o pensamento contemporâneo. De norte a sul do país assiste-se a uma transformação/recuperação (degradação) dos lugares outrora consagrados ao culto, à oração, à penitência e à contemplação em modernas (?) unidades cativas do desenvolvimento turístico.
Com aparato desconcertante descartam-se experiências de felicidade verdadeira por hodiernas concepções mais esclarecidas do dever ser de felicidade, bem mais próximas de exacerbado movimento de excitação dos sentidos do que de um sereno apelo ao desenvolvimento de experiências comprometedoras de racionalidade.

O valor comercial das celas de acordo com as tipologias disponíveis seleccionam os candidatos a uma inefável experiência de posse associada a um carrossel de outras benesses que estas coisas sempre trazem, mas há aqui uma ilusão que ofusca a mente dos futuros beneficiários destes lugares: são herdeiros da herança nietzschiana da morte de Deus – por isso adulteram o uso do espaço sagrado – e, porventura, ignoram-no e, por outro lado, admitem ter alcançado um absoluto que os inebria/aliena do sentido da realidade.

No meio deste turbilhão de eventos e de estridente alarido vimos partir, parece que sem retorno, a Irmã Miriam. É difícil não estranharmos e não nos interrogarmos perante este aparente recuo do Céu face à mundaneidade.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Cheira a mar

Não se trata de não fazer nada
Trata-se de mudar,
mudar de ares, mudar de cheiros
brincar e o mar cheirar...

Não se trata de fazer o que se quer
já lá vai o tempo que nada se fazia
é-se feliz sem saber...
a fazer o que ninguém faria...

É o sorriso dos miúdos
as gargalhadas o seu saltar
que fazem a gente grande
sem medos feliz ficar

E ficamos mesmo assim
contemplando a brincadeira
cada conquista cada salto
que enche uma vida inteira

E aqueles momentos há
em que apetece o silêncio
em que apetece a solidão
(no meio da confusão)
e nesses instantes percebo
que não sou eu a escolher
e que isto me descentra
daquilo que é o meu querer.