Por outra Causa
Com a devida vénia passo a transcrever um belíssimo texto do meu amigo Nuno Pombo, originariamente publicado no Semanário da passada sexta-feira 30 de Março.
Sempre me causou estranheza a atitude dos que aceitam sacrificar a essência de um absoluto anterior e exterior ao Homem (para-humano ou supra-humano, em certo sentido) em nome de uma pretensa auto-suficiência do que é exclusivamente terreno. Pode duvidar-se, é certo, da existência e da magnificência divinas, mas não deve ignorar-se a natureza humana.
Sempre a Instituição Real, entre nós, se afirmou ligada ao catolicismo. Tal não significava que não existissem, num plano estritamente temporal, conflitos sérios entre o Estado português e a Santa Sé. Contudo, a nível espiritual, sempre fomos um Reino fidelíssimo à Igreja de Roma. É por isso que descobrimos, no topo da Coroa real portuguesa, majestosa e triunfal, a Cruz de Cristo.
Ora, os ataques que foram sendo desferidos contra o Trono visavam, em última instância, o Altar. As primeiras vítimas da implantação da república foram, entre nós, não os altos aristocratas de bigodes retorcidos, mas os religiosos, mais ou menos desconhecidos. A mais emblemática medida legislativa do novel regime foi a assanhadíssima Lei da Separação do façanhudo Doutor Afonso Costa, que, como é sabido, dedicava à Igreja Católica um desvelo não menos enternecedor do que aquele que mostra hoje o não menos façanhoso Doutor Vital Moreira.
É por isso estranho que superado que vai sendo o positivismo comtiano continuemos a ruminar acriticamente as verdades que os carbonários e outros cavalheiros de mau porte foram arremessando contra um edifício antiquíssimo, fundador e garante da nossa identidade nacional. Como é evidente, pode haver quem se não reveja nas instituições tradicionais portuguesas, como pode existir quem não leve à paciência o simbolismo real inglês ou escandinavo ou quem abomine a agregação estadual potenciada pela Coroa do Rei dos belgas. Contudo, a modernidade que vivemos, permite-nos já evitar os excessos de uma linguagem que o tempo cristalizou e as falácias de um argumentário que a Lógica condenou.
Nuno Pombo, In Semanário, 30 de Março de 2007

