quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

África

O rosto de um pobre é a voz. Que não tem eco, amplificadores, retorno. Os pobres não falam, não dizem nada, não sabem dizer. Não tem nada a dizer, nada a pedir. Quando se perde a história, a terra, os filhos e o leito, resta um punho de fel cravado. Que se esconde lá por dentro, bolsas de resina, onde as palavras não chegam, pedras de solidão. O Zaire já não existe, o norte da República do Congo é uma terra em disputa, mortos em fila. A Somália é uma miragem, perdida, guerra de clãs, a Eritreia e a Etiópia á espreita.Do Sudão, Darfur, nascem os corredores da doença, descem da Tanzânia à África do Sul. No Burundi, Ruanda, ainda o cheiro fétido da memória inunda o Uganda e os rios. A Costa do Marfim, a "bela" Abdijan, é uma esfinge apodrecida de cacau. O mal não é Mugabe, esse é o mal que os ingleses querem mostrar, mentira de filigrana que só os ricos da televisão podem ver. O mal, todo o mal, são os rolos de raiva à deriva, lodos de miséria, compressão pungente que esmaga o sorriso da mãe e da terra quando a luz se acende. Lembro. A grande dor é a voz. Quando o punho de fel está cravado. Quando a voz é só ferida.

3 comentários:

JSM disse...

"Quando se perde a hist�ria... resta um punho de fel cravado".
Nem mais.

rute disse...

É certo que não é belo o panorama... Mas, o que podemos fazer para melhorar tal situação? Penso que não adianta muito, ser mais uma voz a lamentar...Já andamos cansados de constatar as maldades do mundo.

No nosso "micro" o que podemos fazer para tornar este mesmo panorama melhor? "O cristão é aquele que nunca desiste.".

*Não me leve a mal, mas deveria estar mais atento à pontuação dos seus textos.

Anónimo disse...

Em minha opinião deveria estar mais atento a tudo.
O numero de alienados entre os autores do 'Fora de Estrutura' é simplesmente confrangedor.