quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Sem nome


Era tão pequeno

que ninguém o via.

Dormia sereno,

enquanto crescia.

Sem falar, pedia

- porque era semente-

ver a luz do dia

como toda a gente.

Não tinha usurpado

a sua morada.

Não tinha pecado.

Não fizera nada.

Foi sacrificado

enquanto dormia.

Esterilizado

com toda a mestria.

Antes que a tivesse

taparam-lhe a boca

-tratado parece,

qual bicho na toca.

Não soltou vagido.

Não teve amanhã.

Não ouviu "-Querido..."

Não disse: "-Mamã..."

Não sentiu um beijo.

Nunca andou ao colo.

Nunca teve o ensejo

de pisar o solo,

pezito descalço,

andar hesitante,

sorrindo no encalço

do abraço distante.


Nunca foi à escola

de sacola ao ombro,

nem olhou as estrelas

com olhos de assombro.

Crianças iguais

à que ele seria,

não brincou com elas

nem soube que havia.

Não roubou maçãs,

não ouviu os grilos,

não apanhou rãs

nos charcos tranquilos.

Nunca teve um cão,

vadio que fosse,

a lamber-lhe a mão,

à espera do doce.


Não soube que há rios

e ventos e espaços.

E invernos e estios.

E mares e sargaços,

e flores e poentes.

E peixes e feras-

as hoje vigentes

e as de antigas eras.


Não soube do mundo

Não viu a magia.


Num breve segundo,

foi neutralizado

com toda a mestria:

Com as alvas batas,

máscaras de entrudo,

técnicas exactas,

mãos de especialistas

negaram-lhe tudo

(o destino inteiro...)


- porque os abortistas

nasceram primeiro.


Renato de Azevedo

4 comentários:

SIdeias disse...

Que bonito!

ana disse...

LINDO!!!
Simplesmente LINDO!

Anónimo disse...

... experimenta no youtube
MASSIVE ATTACK - TEARDROP
na versão 4:45m...
e obrigada por este post

Anónimo disse...

Excelente!