segunda-feira, 4 de junho de 2007

Crónica mal comportada

À conta da latente ou declarada depressão de um exército de inadaptados e excluídos sociais patrocinados pelo inefável regime do sucesso, das aparências e do consumo, vive uma incomensurável trupe de intrépidos profissionais da psiquiatria e psicologia clínica. No topo da pirâmide social, nesta nova classe de obscuros feiticeiros tribais, há-os para todos os gostos e maleitas da telha, da pila e da falta dela. Com a árdua tarefa de justificar o inexplicável, normalizar a excepção, especializados num menu variado de complexos, encontram um manancial inquantificável de freguesia, vítimas do sistema predatorial e materialista do socialismo neo-liberal contemporâneo. Um regime promotor do mais forte, do mais hábil, do chico mais esperto, da degradação da estrutura familiar e da legalíssima ausência de valores. Todos bons rapazes desde que bons contribuintes.
Com mais ou menos resultados, com mais ou menos psicanálise, com mais ou menos químicos e drogas legais, com mais ou menos internamentos, suicídios e demais efeitos adversos, esta nova fidalguia do regime pulula nos mais inúteis institutos e organismos estatais. São os novos inquisidores da nação, moralistas e carniceiros das almas, caridosos oráculos pós-modernos, que se dedicam esmeradamente a debitar as regras da nova moralidade nos órgãos oficiais de comunicação. Encontramo-los a verberar vulgaridades e redundantes lugares comuns sempre politicamente correctos na mais selecta revista feminina ou encarte de entretenimento dominical, ao lado da rubrica de astrologia, num qualquer jornal, rádio ou televisão. Sempre em benemérita promoção das mais radicais e estimáveis minorias. Estes novos e populares cientistas da existência, emitem despudoradamente um discurso sempre redundante e vazio, que não é mais do que a imperativa fórmula de segurar as suas mais suculentas franjas do mercado. Afinal somos todos “porreiros” desde que paguemos a conta da consulta, seja privada ou através da previdência social. Jamais mordas a mão que te dá de comer...
Tragicamente vi passar pelas mãos destes “feiticeiros da psique”, gente boa que nunca mais foi gente, gradualmente enterrada em químicos e relativismos alienantes, psicoterapias e demais placebos. Ironicamente tive a sorte de constatar o seu sucesso na intervenção terapêutica em gente que sempre me parecera saudável. E como tal resistiram úteis cidadãos. Apesar de tudo.

Esta minha crónica foi inspirada por este benevolente texto do João Gonçalves sobre os Sampaios da nossa vida.

6 comentários:

joana disse...

bem dito, Joaõ!

Joana Quintela

Anónimo disse...

No seguimento dos dois textos e como licenciado em Psicologia na área de Orientação Escolar e Profissional (apesar de não praticante), gostaria de exercer o meu pseudo-direito de resposta.



Concordo, na globalidade, com os vossos comentários, mas como é vulgar, talvez pequem por generalizarem. De facto, nem todos os psicólogos, entre os quais me incluo, partilham destas explicações reducionistas do politicamente correcto, muitas delas importadas de sociedades como a estado-unidense e a canadiana, onde uma palmada pública bem aplicada a uma criança que fez uma asneira é passível de acusação, crime de abuso e inspecção pelos serviços sociais da estabilidade do lar. Como é óbvio, não me compete tecer comentários sobre médicos que metem a foice em seara alheia, vulgo psiquiatras.



Infelizmente, apenas as vozes destes arautos da filosofia dos “coitadinhos” têm eco nos órgãos de comunicação social. Se bem que explicar a uma criança as normas sociais seja saudável e desejável, há que atender à sua idade e nível de maturidade para que a mensagem possa ser assimilada. O castigo físico ou psicológico é muitas vezes eficaz como reforço negativo para o mau comportamento, ao passo que uma “palestra”, se bem que seja uma atitude bonita e louvável, muitas vezes cai em saco roto.



Creio que a chamada educação tradicional nunca me fez mal, nem a ninguém da minha geração, nem às minhas filhas, nem aos filhos daqueles que conheço que a praticam. Pelo contrário, ajudou desde cedo a que as crianças interiorizassem valores fundamentais e mormente princípios de boa educação, em vez do “verniz” que é tão comum nos dias que correm.



Termino salientando que existe uma minoria de colegas que partilha as minhas convicções e, como em tudo, há que saber separar o trigo do joio quando se procura ajuda psicológica. Afinal, em Portugal estão licenciados em Psicologia para cima de dez mil indivíduos e há que dar emprego a toda essa gente, em particular nesta moda crescente que é o apoio à vítima e da qual seria interessante obter indicadores da eficácia desta actividade subsídio-dependente.



João Paulo Carvalho

Anónimo disse...

Aditamento ou post script:



Vi hoje excepcionalmente o fim do jornal nocturno da SIC, com uma conversa entre o psicólogo publicitado pelo caso Casa Pia e alguém que o entrevistava sobre excertos de entrevistas com crianças acerca de chuchas e bonecos.



Confesso que não dei grande atenção, pois tinha uma conversa em curso com a família, mas do pouco que vi fiquei apavorado.



O colega parece que nunca ouviu falar dos estudos de Spitz, nem das relações materno-infantis no primeiro ano de vida do infante; se tivesse um colarinho branco, diria que era um “gato fedorento” numa versão de seminarista caricata desta nova educação sem eira nem beira. Aparentemente, isto repete-se todas as segundas, para deleite de todos os mentecaptos, incapazes de perceber que a Humanidade cria crianças há pelo menos 5 mil anos, mais ou menos da mesma forma e com aparente sucesso.



Obviamente é necessário um discurso simples e claro. Mas será que a SIC tem de rivalizar com a RTP na produção verborreica de Vitorino ou da opinião laranja de Rebelo de Sousa com “bitaites” (perdoem a expressão) pretensamente educativos?



Tragam o Sampaio para uma mesa redonda de inutilidades, se faz favor. Terá, pelo menos, o mérito de mostrar a relação ou desequilíbrio de poder entre psicólogos e psiquiatras. Melhor ainda: convidem o meu excelentíssimo colega desde o Liceu Camões, o Professor Telmo Baptista para emitir opiniões. Não partilhamos a mesma orientação, mas pelo menos sabe o que diz e sabe dizê-lo bem.



João Paulo Carvalho

Anónimo disse...

Li e reli a "sua cronica mal compotada " e continuo preplexa!D. leonor criou as Misericórdias. Hoje as Misericórdias são insuficientes para tantas novas formas de Miséria- como diz um exército de excluidos e inadaptados socias.Mas não é só a cupula de psiquiatras/ psicologos que vivem à custa destas pessoas.Quantas pessoas , espalhadas em associações,comissões,ongs,abrigos. que como sabe são fortemente senão exclusivamente suportados por dinheiros publicos vivem à custa desta pobreza,em Portugal?Parece-me que rotular todos os psiquiatras de obscuros feiticeiros tribais é muito primário,Só por por não se gostar do Sampaio. No entanto a realidade mostra-nos que qualquer método usado não é eficaz! Se o fosse seria a grande solução da humanidade.Provavelmente todos usarão um pouco de tudo para minorar o sofrimento... Também responsabilizar qualquer regime é contraditório. Repare que um regime promotor do mais forte ou mais hábil seguiria as leis da natureza e deixaria morrer os mais fracos.Sustentá-los sai caro!As drogas começam em força em Portugal nos anos 70.Todos temos casos na familia ou amigos`´E um problema que atinge todas as classes.Se, com algum esforço pode culpar o regime, pelo desamparo em relação ás familias economica e socialmente mais frageis, como explica a influência desse mesmo regime nas familias esclarecidas? Onde estavam ,quando os filhos desatinaram?Qualquer regime pode influenciar as classes mais desfavorecidas. Mas nunca as das classes cultas, de valores firmes. Mas a droga e por acréscimo a sida, mais do que qualquer regime destruiram familias e valores. A sociedade balança.Apesar do pouco que se sabe sobre a influência de certas substâncias no cérebro , parece ser já uma verdade a verificação de alterações biológicas- mesmo com os vulgares charros, entramos no domínio das doenças semelhantes às senilidades precoces... Serão necessários, pelo menos, nos graus mais avançados médicos, ou não?Nos seculos passados a praga foi a sífilis.Também atribuí ao regime da altura a sua propagação?E, apesar das costumadas polémicas, foram os químicos que trouxeram a cura.Viu passar pelas mãos dos feiticeiros da psique gente boa,que nunca mais foi gente.Mas sejamos honestos:também viu passar por outros lados gente boa que nunca mais também foi gente,ou não?
A grande dificuldade de solucionar o problema exigiria mais uma vez de todos a humildade para se ajudarem e colaborarem.Mas por cá isso é impossivel!

João Távora disse...

Naturalmente as generalizações são perigosas, e por isso peço desculpa por alguma inevitável injustiça revelada – deixei-me embalar com as palavras. Concordo que há muitos e bem intencionados profissionais da saúde mental e sexual a trabalhar empenhada e generosamente pela recuperação e bem-estar dos mais variados e desesperados casos humanos. Nesta crónica, além de querer afirmar a minha falta de crença nestas novíssimas ciências, referia-me principalmente aos gurus oficiais do regime tipo Vaz, Sampaios, Dias, Sás e demais narcisos bem-pensantes que aturamos regularmente nos media.

Anónimo disse...

É também em relação a esses que a crónica é injusta. O Daniel Sampaio, o Eduardo Sá e o Júlio Machado Vaz são competentíssimos.

Já o Pedro Strecht me parece que deixa muito a desejar...

Lembro que os médicos psiquiatras e os psicólogos clínicos, pelo menos alguns, são formados nas melhores escolas do país e que as respectivas áreas estão bem alicerçadas, até cientificamente, internacionalmente (gosto da escola de Michigan, por ex.). A sua utilidade é indiscutível. Uns serão muito bons, outro maus, como acontece em qualquer área profissional.

O mesmo, não é?, já não posso dizer, não é?, dos psicanalistas, não é?, é! Nada da psicanálise tem qualquer base científica. O Freud era um literato, um erudito, muito culto, sim senhor, mas escrevia o que lhe vinha à cabeça, sem quaisquer preocupações de rigor ou seriedade metodologicamente científica. Sabe-se, aliás, que foi directamente culpado de muitas infelicidades alheias...

Parece-me, no entanto, que demasiados psiquiatras têm a tendência de pôr os doentes a dormir e esperar que os problemas se resolvam por si com o passar do tempo. Defendo uma abordagem interdisciplinar. Aconselho as pessoas a consultarem sempre um psicólogo clínico e um bom neurologista - de preferência a um psiquiatra, mas isso é a minha opinião pessoal - em simultâneo e com troca de informação entre ambos, sempre que possível.

Mas isto é só a minha humilde opinião, claro está!

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