quarta-feira, 4 de abril de 2007

Por outra Causa

Com a devida vénia passo a transcrever um belíssimo texto do meu amigo Nuno Pombo, originariamente publicado no Semanário da passada sexta-feira 30 de Março.

Fé na monarquia

Há uns tempos alguém me dizia, do alto do seu incontestado perfil de estudioso, que a querela que opunha monárquicos a republicanos era um capítulo de uma outra batalha, bem mais vasta: a que separava a Fé ou a Religião da Ciência.
Sempre me causou estranheza a atitude dos que aceitam sacrificar a essência de um absoluto anterior e exterior ao Homem (para-humano ou supra-humano, em certo sentido) em nome de uma pretensa auto-suficiência do que é exclusivamente terreno. Pode duvidar-se, é certo, da existência e da magnificência divinas, mas não deve ignorar-se a natureza humana.
Sempre a Instituição Real, entre nós, se afirmou ligada ao catolicismo. Tal não significava que não existissem, num plano estritamente temporal, conflitos sérios entre o Estado português e a Santa Sé. Contudo, a nível espiritual, sempre fomos um Reino fidelíssimo à Igreja de Roma. É por isso que descobrimos, no topo da Coroa real portuguesa, majestosa e triunfal, a Cruz de Cristo.
Ora, os ataques que foram sendo desferidos contra o Trono visavam, em última instância, o Altar. As primeiras vítimas da implantação da república foram, entre nós, não os altos aristocratas de bigodes retorcidos, mas os religiosos, mais ou menos desconhecidos. A mais emblemática medida legislativa do novel regime foi a assanhadíssima Lei da Separação do façanhudo Doutor Afonso Costa, que, como é sabido, dedicava à Igreja Católica um desvelo não menos enternecedor do que aquele que mostra hoje o não menos façanhoso Doutor Vital Moreira.
É por isso estranho que superado que vai sendo o positivismo comtiano continuemos a ruminar acriticamente as verdades que os carbonários e outros cavalheiros de mau porte foram arremessando contra um edifício antiquíssimo, fundador e garante da nossa identidade nacional. Como é evidente, pode haver quem se não reveja nas instituições tradicionais portuguesas, como pode existir quem não leve à paciência o simbolismo real inglês ou escandinavo ou quem abomine a agregação estadual potenciada pela Coroa do Rei dos belgas. Contudo, a modernidade que vivemos, permite-nos já evitar os excessos de uma linguagem que o tempo cristalizou e as falácias de um argumentário que a Lógica condenou.
A Instituição Real permite colocar acima da fraqueza das paixões políticas que tomam conta dos homens que dominam a conjuntura a solidez simbólica de uma representação genuína e pura. Pura porque unificadora, genuína porque umbilical. O Rei, investido de uma legitimidade própria e diferenciada, coloca-se, como árbitro e moderador, acima dos interesses parciais, posto que legítimos, dos actores da vida política, renunciando toda a comunidade às prerrogativas essencialmente régias. E é dessa renúncia que vive a maior riqueza da Monarquia. Não queremos ser o Rei da mesma maneira que aceitamos pacificamente que não somos Deus. E quem não admite que Deus lhe é superior dificilmente aceitará que haja quem respire a liberdade de uma legitimidade que não emane directamente da sua própria auto-suficiência. Há quem se sinta desconfortável por não poder dominar, pela expressão da sua vontade, as manifestações de legitimidades que lhes escapam. Por isso houve quem matasse Cristo. Por isso houve quem matasse o Rei.

Nuno Pombo, In Semanário, 30 de Março de 2007

4 comentários:

Anónimo disse...

Primeiro: Fé só se tem em Deus; Segundo: O tema da monarquia distrai uns que se perdem nas revistas sociais, distrai outros que se perdem em querelas estereis.

Anónimo disse...

Primeiro: O anónimo deveria comentar o conteúdo do excelente texto aqui publicado e não ditar que temas devem ou não ser aqui versados.
Segundo: Reparo que o anónimo tem medo ou quer silenciar alguns temas, no caso, quem defende e explica porque defende o regime monárquico.
Terceiro: o anónimo, pela intervenção em apreço, não consegue ou não quer estabelecer um nexo de causalidade entre os contravalores vigentes e o regime vigente! O que é lamentável.
Quarto e último ponto: por isso, quem anda distraído é o anónimo.
Para não tirar uma conclusão mais desagradável.

nuno pombo disse...

Caro João,

Fico satisfeito por ter este meu texto à disposição dos leitores deste blog.

Quero, para que não restem dúvidas, deixar duas notas: não pretendo sustentar que só os católicos têm de ser monárquicos e os monárquicos têm de ser católicos. Limitei-me a relatar factos conhecidos e a tirar deles as consequências possíveis.

É este o pensamento deste seu amigo católico e monárquico.

Um abraço e parabéns por este espaço.

Nuno Pombo

Anónimo disse...

J'ACCUSE...!

ó Manuel (MAC), será este blog apenas mais uma ramificação?

uma busca rápida por ligações a este blog dá o resultado: http://www.technorati.com/search/foradeestrutura.blogspot.com .

do Insurgente:

Contra-Reforma
04 de Abril de 2007 às 1:36 am por André Azevedo Alves

É nas alturas de crise que mais importa planear o futuro. A reunião de vários agentes da reacção que teve lugar esta Segunda-feira em Lisboa foi por isso especialmente proveitosa. Num prolongado almoço no restaurante da Ordem dos Engenheiros estiveram representados O Insurgente, o 31 da Armada, o Corta-Fitas, o Portugal dos Pequeninos, o Incontinentes Verbais, O Cachimbo de Magritte, o Mar Salgado, o Tomar Partido e o recém criado Fora de Estrutura. A unir os vários temas debatidos estiveram sólidas motivações e objectivos Contra-Reformistas. Porque, para lá do(s) imediatismo(s) e da espuma dos dias, importa que à direita se comece a plantar tendo em vista colheitas em horizontes mais largos…

in http://www.oinsurgente.org/2007/04/04/contra-reforma/


do Corta-fitas:

Encontro de desalinhados

Por iniciativa do Rui Castro, e aproveitando uma estada em Lisboa do Insurgente André Azevedo Alves, reuniu-se no restaurante da Ordem dos Engenheiros uma pequena cimeira de blógueres desalinhados: além dos supracitados estavam presentes Pedro Picoito, João Gonçalves, Jorge Ferreira, Manuel Arriaga e Cunha, Vasco Lobo Xavier, Pedro Geada e este vosso humilde escriba. Relembrámos a causa do NÃO. Abordaram-se outros NÃOS emergentes… e também urgentes. Porque não se desiste de Portugal.
Quando se junta um bom repasto, o bom humor, e as boas causas, dá-se o tempo por bem empregue.

Etiquetas: Blogues

João Távora Terça-feira, Abril 03, 2007 | 7 Cortes

in http://corta-fitas.blogspot.com/2007_04_01_archive.html#9055683966972667691


do Portugal dos pequeninos:

3.4.07
A CONTRA-REFORMA

Hoje ao almoço, na Ordem dos Engenheiros, nós tivemos entrada apesar de nenhum ser engenheiro ou aparentado, uma nova figura político-académica que substitui o velho licenciado. Começou a "contra-reforma" entre lombinhos de robalo e vinho tinto de Palmela. Os conspiradores, para além deste escriba, eram praticamente todos perigosos "agentes" da "reacção". O Jorge Ferreira, o Rui Castro, o João Távora, o Pedro Picoito, o Vasco Lobo Xavier e o André Azevedo Alves, este de passagem pascal pelo país dos ilusionistas. Os dois outros convivas estão de dispensados da "contra-reforma". A luta continua não é, afinal, monopólio "rouge".

Foto: Cortesia "Heróis do Mar"/"Brava Dança", provavelmente ainda em exibição, à meia-noite, nos cinemas Lusomundo.

Etiquetas: direita, oposição

posted by João Gonçalves at 3.4.07

in http://portugaldospequeninos.blogspot.com/2007/04/contra-reforma.html

dos Incontinentes verbais:

Terça-feira, Abril 03, 2007
CONTRA-REFORMA
Hoje ao almoço sentaram-se à mesma mesa representantes aqui da casa, do 31 da armada, do portugal dos pequeninos, do cachimbo de magritte, do corta-fitas, do insurgente, do tomar partido e do mar salgado. Os temas foram diversos e o local escolhido foi o restaurante da Ordem dos Engenheiros (vá-se lá saber porquê). Tenham medo com o que aí vem... muito medo.

Rui Castro em 4/03/2007 04:09:00 PM

in http://incontinentesverbais.blogspot.com/2007/04/contra-reforma.html

do Tomar partido:

Terça-feira, Abril 03, 2007
(797) ALMOÇO SUSPEITO
Foi na Ordem dos Engenheiros, o que já de si, nos tempos que correm, não é isento de conotações, apesar de à mesa estarem sentadas pessoas oriundas de várias Universidades. Mas o que querem, come-se bem e nestas idades já é permitido o comodismo de uma boa mesa, ainda que se corra o risco de poder ser mal interpretado. Para alguns, os comensais seriam todos perigosos extremistas, radicais, cripto e proto fascistas. Até neo-salazaristas (parece que a moda veio para ficar) havia. Já se vê que só pode ter corrido bem. Muita gente de orelhas a arder. Muita coisa em preparação. Que os situacionistas se cuidem. A luta continua.

Etiquetas: Blogues

publicado por Jorge Ferreira @ 4/03/2007 10:35:00 AM

in http://tomarpartido2.blogspot.com/2007/04/797-almoo-suspeito.html

e etc., e etc., e etc., e etc.: isto já cansa Manuel!,
cf. http://o-caminho.blogspot.com/2006/07/ressuscitei.html (para meditar).

e antes que me façam a pergunta "Acaso tendes a pretensão de saber melhor que Deus quem irá para o Céu?", Não, não tenho.


fernando